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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Monteiro Lobato: Velha Praga

Livros encontrados sobre lobato monteiro urupes obras completas de ...
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O artigo “Velha Praga” com que o tal fazendeiro “veiu pela imprensa”, era o seguinte:

                    Andam todos em nossa terra por tal forma estonteados com as proezas infernais dos belacíssimos “vons” alemães, que não sobram olhos para enxergar males caseiros.
                    Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá fora o fogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta nossas matas, com furor não menos germânico.
                    Em agosto, por força do excessivo prolongamento do inverno, “von Fogo” lambeu montes e vales, sem um momento de tréguas, durante o mês inteiro.
                    Vieram em começos de setembro chuvinhas de apagar poeira e, breve, novo “verão de sol” se estirou por outubro a dentro, dando azo a que se torrasse tudo quanto escapara à sanha de agosto.
                    A serra da Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa, e é hoje um cinzeiro imenso, entremeado aqui e acolá, de manchas de verdura as restingas úmidas, as grotas frias, as nesgas salvas a tempo pela cautela dos aceiros. Tudo mais é crepe negro.
                    À hora em que escrevemos, fins de outubro, chove. Mas que chuva caínha! Que miséria d’água! Enquanto caem do céu pingos homeopáticos, medidos a conta-gotas, o fogo, amortecido mas não dominado, amoita-se insidioso nas piúcas1, a fumegar imperceptivelmente, pronto para rebentar em chamas mal se limpe o céu e o sol lhe dê a mão.
                    Preocupa à nossa gente civilizada o conhecer em quanto fica na Europa por dia, em francos e cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos de uma assombrosa queima destas. As velhas camadas de humus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralisado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para pior do clima com a agravação crescente das secas; os vedos e aramados perdidos; o gado morto ou depreciado pela falta de pastos; as cento e uma particularidades que dizem respeito a esta ou aquela zona e, dentro delas, a esta ou aquela “situação” agrícola.
                    Isto, bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar ninguém soma...
                    É peculiar de agosto, e típica, esta desastrosa queima de matas; nunca, porém, assumiu tamanha violência, nem alcançou tal extensão, como neste tortíssimo 1914 que, benza-o Deus, parece aparentado de perto com o célebre ano 1000 de macabra memória. Tudo nele culmina, vai logo às do cabo, sem conta nem medida. As queimas não fugiram à regra.
                    Razão sobeja para, desta feita, encararmos a sério o problema. Do contrário a Mantiqueira será em pouco tempo toda um sapezeiro sem fim, erisipelado de samambaias esses dois términos à uberdade das terras montanhosas.
                    Qual a causa da renitente calamidade?
                    É mister um rodeio para chegar lá.
                    A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro como o “Argas” o é aos galinheiros ou o “Sarcoptes mutans” à perna das aves domésticas. Poderíamos, analogicamente, classificá-lo entre as variedades do “Porrigo decalvans”, o parasita do couro cabeludo produtor da “pelada”, pois que onde ele assiste2 se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, nua e descalvada. Em quatro anos, a mais ubertosa região se despe dos jequitibás magníficos e das perobeiras milenárias seu orgulho e grandeza, para, em achincalhe crescente, cair em capoeira, passar desta à humildade da vassourinha e, descendo sempre, encruar definitivamente na desdita do sapezeiro sua tortura e vergonha.
                    Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a picapau3 e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.
                    É de vê-lo surgir a um sítio novo para nele armar a sua arapuca de “agregado; nômade por força de vago atavismos, não se liga à terra, como o campônio europeu “agrega-se”, tal qual o “sarcopte”, pelo tempo necessário à completa sucção da seiva convizinha; feito o que, salta para diante com a mesma bagagem com que ali chegou.
                    Vem de um sapezeiro para criar outro. Coexistem em íntima simbiose: sapé e caboclo são vidas associadas. Este inventou aquele e lhe dilata os domínios; em troca o sapé lhe cobre a choça e lhe fornece fachos para queimar a colméia das pobres abelhas.
                    Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” fêmea, esta com um filhote no útero, outro ao peito, outro de sete anos à ourela da saia este já de pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento Brinquinho, a foice, a enxada, a picapau, o pilãozinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinhas pévas e um galo índio. Com estes simples ingredientes, o fazedor de sapezeiros perpetua a espécie e a obra de esterilização iniciada com os remotíssimos avós.
                    Acampam.
                    Em três dias uma choça, que por eufemismo chamam casa, brota da terra como um urupê. Tiram tudo do lugar, os esteios, os caibros, as ripas, os barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes e a palha do teto. Tão íntima é a comunhão dessas palhoças com a terra local, que dariam idéia de coisa nascida do chão por obra espontânea da natureza se a natureza fosse capaz de criar coisas tão feias.
                    Barreada a casa, pendurado o santo, está lavrada a sentença de morte daquela paragem.
                    Começam as requisições. Com a picapau o caboclo limpa a floresta das aves incautas. Pólvora e chumbo adquire-os vendendo palmitos no povoado vizinho. É este um traço curioso da vida do caboclo e explica o seu largo dispêndio de pólvora; quando o palmito escasseia, raream os tiros, só a caça grande merecendo sua carga de chumbo; se o palmital se extingue, exultam as pacas: está encerrada a estação venatória.
                    Depois ataca a floresta. Roça e derruba, não perdoando ao mais belo pau. Árvores diante de cuja majestosa beleza Ruskin choraria de comoção, ele as derriba, impassível, para extrair um mel-de-pau escondido num oco.
                    Pronto o roçado, e chegado o tempo da queima, entra em funções o isqueiro. Mas aqui o “sarcopte” se faz raposa. Como não ignora que a lei impõe aos roçados um aceiro de dimensões suficientes à circunscrição do fogo, urde traças para iludir a lei, cocando destarte a insigne preguiça e a velha malignidade.

                              Cisma o caboclo à porta da cabana4.

                    Cisma, de fato, não devaneios líricos, mas jeitos de transgredir as posturas com a responsabilidade a salvo. E consegue-o. Arranja sempre um álibi demonstrativo de que não esteve lá no dia do fogo.
                    Onze horas.
                    O sol quase a pino queima como chama. Um “sarcopte” anda por ali, ressabiado. Minutos após crepita a labareda inicial, medrosa, numa touça mais seca; oscila incerta; ondeia ao vento; mas logo encorpa, cresce, avulta, tumultua infrene e, senhora do campo, estruge fragorosa com infernal violência, devorando as tranqueiras, estorricando as mais altas frondes, despejando para o céu golfões de fumo estrelejado de faíscas.
                    É o fogo-de-mato!
                    E como não o detém nenhum aceiro, esse fogo invade a floresta e caminha por ela a dentro, ora frouxo, nas capetingas5 ralas, ora maciço, aos estouros, nas moitas de taquaruçu; caminha sem tréguas, moroso e tíbio quando a noite fecha, insolente se o sol o ajuda.
                    E vai galgando montes em arrancadas furiosas, ou descendo encostas a passo lento e traiçoeiro até que o detenha a barragem natural dum rio, estrada ou grota noruega6.
                    Barrado, inflete para os flancos, ladeia o obstáculo, deixa-o para trás, esgueira-se para os lados e lá continua o abrasamento implacável. Amordaçado por uma chuva repentina, alapa-se nas piúcas, quieto e invisível, para no dia seguinte, ao esquentar do sol, prosseguir na faina carbonizante.
                    Quem foi o incendiário? Donde partiu o fogo?
                    Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urumbeva qualquer, de barba rala, amoitado num litro7 de terra litigiosa.
                    E agora? Que fazer? Processá-lo?
                    Não há recurso legal contra ele. A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é “tocá-lo”.
                    Curioso este preceito: “ao caboclo, toca-se”.
                    Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala. E tão afeito anda ele a isso, que é comum ouvi-lo dizer: “Se eu fizer tal coisa o senhor não me toca?”
                    Justiça sumária que não pune, entretanto, dado o nomadismo do paciente.
                    Enquanto a mata arde, o caboclo regala-se.
                     Êta fogo bonito!
                    No vazio de sua vida semi-selvagem, em que os incidentes são um jacú abatido, uma paca fisgada n’água ou o filho novimensal, a queimada é o grande espetáculo do ano, supremo regalo dos olhos e dos ouvidos.
                    Entrado setembro, começo das “águas”, o caboclo planta na terra em cinzas um bocado de milho, feijão e arroz; mas o valor da sua produção é nenhum diante dos males que para preparar uma quarta de chão ele semeou.
                    O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cinquenta alqueires de terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano. Calcula as sementeiras pelo máximo da sua resistência às privações. Nem mais, nem menos. “Dando para passar fome”, sem virem a morrer disso, ele, a mulher e o cachorro está tudo muito bem; assim fez o pai, o avô; assim fará a prole empanzinada que naquele momento brinca nua no terreiro.
                    Quando se exaure a terra, o agregado muda de sítio. No lugar fica a tapera e o sapezeiro. Um ano que passe e só este atestará a sua estada ali; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frágeis materiais da choça e, como nem sequer uma laranjeira ele plantou, nada mais lembra a passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico Marimbondo, do Jéca Tatú ou outros sons ignaros, de dolorosa memória para a natureza circunvizinha.

As cartas de Lobato

Notas da edição:
1Tocos semi-carbonizados;
2Reside; está estabelecido;
3Espingarda de carregar pela boca;
4Verso de Ricardo Gonçalves;
5Capins de mato dentro, sempre ralos, magrelas;
6Grota fria onde não bate o sol;
7A terra se mede pela quantidade de milho que nela pode ser plantada; daí, um alqueire, uma quarta, um litro de terra.
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Urupês — Monteiro Lobato, 20ª edição, 1976, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, caricaturista, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional e sócio da Editora Brasiliense; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (contos, 1918), Cidades Mortas (contos, 1920), Negrinha (contos, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood; seus livros e personagens infantis receberam adaptações para televisão; Monteiro Lobato foi o pioneiro na impressão de livros em editora nacional, no caso, a sua própria obra e própria editora antes dele, os autores mandavam imprimir suas obras em editoras européias.

domingo, 20 de agosto de 2017

Monteiro Lobato: Prefácio a "Rosário de Capiá" de Nhô Bento [trechos]

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          Foi em casa de Cicero Marques. Certa noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento  e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro  e eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável, com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”

          Mas a minha surpresa foi grande. O homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis, os melhores poemas caipiras que ainda ouvi  ricos de imagens novas, de modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso  o orgulho dum empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não contenta.

          . . . Foi uma das mais belas noites de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas, desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a alma do povo e imortalizam-se de verdade  como o grande Catulo.
     
          Discutiu-se depois a publicação dos poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.

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          Este nosso país é um assombro. Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca  e sabem quantos jécas há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação! Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite  coisas imisturáveis.

          Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato  o caboclo, o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento nos encantou.

          Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.

          Mas como o jéca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca  e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!

          Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no território brasileiro.

          . . . A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel  e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo? Redundância, bobagem perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem.

          O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have  e tanto o jéca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.

          Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jéca  e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.

          Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”; e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente, podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio  o abençoado jéca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.

          Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.

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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.