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quinta-feira, 18 de abril de 2024

Luiz Leitão: A cagada*


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“Certa vez para dar uma cagada,
ou por outra, passar um telegrama,
embarafustei por uma reservada
de um Café que eu nem sei como se chama.

Entro e, ao cagar, sorte danada:
num dos papéis sujos de merda e lama
vejo o retrato da mulher amada,
por quem meu peito o coração se inflama.

Nisto, interrompo minha caganeira,
pego o retrato dela e boto na algibeira,
satisfeito, sorrindo e suspirando.

Que porco!  hão de dizer  mas eu protesto.
Porque assim procedendo, no meu gesto,
Provei que gosto dela até cagando.”

[Comida brava]


* Nota da edição: Poema gentilmente recitado de memória por Gentil da Costa Lima.
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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Luiz Leitão: Treze

 
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O treze é um caso sério, meus senhores!
É o grande peso1 da população:
O maior malfeitor dos malfeitores,
A urucubaca2 da numeração.

Para mais aumentar os seus horrores,
Pragueja esta infernal superstição:
Da mesa, a que houver treze comedores,
O mais pesado3 vai para o caixão...

Morre... De fato, foi o que se deu
Numa ceia supimpa, colossal,
Em que champanha à beça4 se bebeu.

Éramos treze ao todo, a conta feia;
Doze, porém, rasparam-se, e, afinal,
O pesado fui eu morri5 na ceia...


Notas da edição de Vida apertada (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
  1. peso: ver pesado. [nota 3 abaixo];
  2. urucubaca: má sorte no que se faz ou intenta; ziquizira. Etim.: vocábulo expressivo, cuja base é urubu, ave de agouro que pressente os cadáveres; José Pedro Machado relata que Bueno afirma ser o vocábulo da época da gripe espanhola (1918), quando era muito utilizado. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  3. pesado: infeliz ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953); sem sorte: ([Novo dicionário da gíria brasileira, Manuel] Viotti, 1957);
  4. à beça: em grande quantidade, a valer, em grande intensidade. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  5. morri: morrer: despender dinheiro para fazer um pagamento, quitar uma dívida etc. ([dicionário] Houaiss, 2001).
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Luiz Leitão: Amor e medo

 
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Arranjei, certa vez, uma conquista
Ao telefone, numa enguiçadela1
Uma Ivone, que amei, de voz singela,
Por obra e graça da telefonista.

Mas, sabendo, depois, que essa donzela,
Que me fez quase um vate futurista,
Era noiva de um tal Lulu Batista,
Respeitado no morro da Favela...

Nunca mais quis saber da dita-cuja:
Desprezei, para sempre, a D. Ivone,
Com medo de acabar numa água-suja2.

Inda hoje me arrependo, e me arrepio:
Por causa desse amor ao telefone,
A minha vida esteve por um fio3...


Notas da edição de Vida apertada (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
  1. enguiçadela: má sorte, problema. ([dicionário] Houaiss, 2001);
  2. água-suja: escândalo. ([Novo dicionário da gíria brasileira, Manuel] Viotti, 1957);
  3. por um fio: por um triz; por uma fração de segundos; por pouco. ([dicionário] Houaiss, 2001). O autor faz um trocadilho com o fio telefônico.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sábado, 27 de março de 2021

Luiz Leitão: Minhas dívidas

 
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Devo a vida a meus pais; ao professor,
O meu preparo, que não vale nada;
Devo à loja, à pensão, devo ao doutor...
Tenho a vida de dívida crivada.

Devo tudo: almofadas, cobertor,
Quarto, mobília, luz, roupa lavada...
Até meu terno, velho, já sem cor,
Estou devendo a um gringo * camarada.

Devo, não nego: estou devendo à beça!
Aos próprios santos, de quem não desdenho,
A cada um deles, devo uma promessa.

E apesar de viver endividado,
Para aumentar as dívidas que tenho
Eu vivo sempre a conversar fiado **...


Notas da edição de Vida apertada: (Glossário, estabelecido por Luiz Antonio Barros):
* gringo: estrangeiro louro ou ruivo; o argentino, o uruguaio. Judeu que vende a prestações. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953)
** conversar fiado: ser dado a conversa fiada, ou seja, propósito de quem não tem interesse de cumprir o que promete, não tenciona cumprir o que promete, conversa sem interesse nem resultado. [idem, ibidem]
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário estabelecido por Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Luiz Leitão: Ao público *

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Publicando estes versos incolores,
Que ao respeitável público ofereço,
Peço um sorriso apenas, dos leitores,
Já que boas risadas não mereço.

Fi-los por ter o espírito travesso,
Para, espalhando-os pelos compradores,
Minorar as torturas, que padeço,
Da vil perseguição dos meus credores.

Fi-los sem pretensões e sem vaidades,
Para abrandar um pouco a prontidão **,
A mais horrível das enfermidades.

São versos de uma musa atrapalhada,
De quem procura ver se fica são ***,
De quem vive, afinal, VIDA APERTADA...


Notas:
* o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa faz constar que este  Ao público é o primeiro dos poemas constantes em Vida apertada e serve também como dedicatória aos leitores, além da apresentação da obra pelo próprio autor, Luiz Leitão ou Lili Leitão, como era conhecido;
** da edição de Vida apertada, do Glossário, de Luiz Antonio Barros: prontidão: condição de pronto, isto é, sem dinheiro. ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes, 1953);
*** em mais um atrevimento, este aprendiz de blogueiro supõe/entende que o poeta-humorista registra ver se fica são, neste segundo terceto do soneto, para trocadilhar com versificação.
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Vida apertada, Sonetos humorísticos — Luiz Leitão, 2ª edição, Edição crítica, Organização e Notas de Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Glossário de Luiz Antonio Barros, 2009, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, também de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.