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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Batista Cepelos*: O fundador de S. Paulo

 
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Rumoreja a cidade, em febril movimento.
Ondeia como um rio a imensa populaça;
E, maculando o olhar azul do firmamento,
Erguem-se as chaminés, golfejando fumaça.

Estende-se o comércio, em soberbo incremento;
Circula como um sangue a riqueza na praça;
E, numa rapidez superior à do vento.
Os prelos dão à luz e o trem de ferro passa...

E, enquanto o poviléu rola de rua em rua,
Onde o luxo se ostenta e a vida tumultua,
Eu mergulho no sonho e na contemplação.

E, na sua modéstia e na sua roupeta.
De repente me surge a figura de Anchieta,
Melancolicamente apoiada a um bordão...

(Os Bandeirantes, 1906)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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Antologia Brasileira — Seleta em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugenio Werneck, 30ª edição, atualizada, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Afonso Celso: Alegrias

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Muita vez à janela desta casa,
Que um velho triste, solitário habita.
De avezinhas um par, asa com asa,
Faz, a trinar, idílica visita.

Quanta graça, que encanto se extravasa
Do par sobre a janela, onde saltita!
Mas... um toque... um rumor... ou que lhe apraza
E para além o par se precipita.

Oh! alegrias minhas, semelhantes
Sois  àquelas fugazes visitantes,
Frágeis, aladas, tímidas, sutis...

De alentos enfeitais meu desalento:
Quero reter-vos, faço um movimento,
Desamparais-me, rápidas fugis!...
 fevereiro de 1905,
 Da Renascença

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Antologia Brasileira Seleta em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugenio Werneck, 30ª edição, atualizada, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro RJ; Afonso Celso de Assis Figueiredo Junior (1860 1938), mineiro de Ouro Preto, foi político do Império, professor, jornalista, historiador e poeta; formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e, com o advento da República, acompanhou o pai Visconde de Ouro Preto no exílio, afastando-se da vida política; no retorno ao país, dedicou-se ao magistério e ao jornalismo; no magistério, exerceu a cátedra de Economia Política na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, e, no jornalismo, por mais de 30 anos divulgou seus artigos no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã; escreveu e publicou Prelúdios (poesias, 1876), Devaneios (1877), Um ponto de interrogação (1879), Poenatos (1880), Rimas de outrora (1891), Vultos e Fatos (1892), O Imperador no Exílio (1893), Trovas de Espanha (1898), Aventuras de Manuel João (1899), Porque me ufano do meu país (1900), Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905), etc.

terça-feira, 17 de junho de 2014

B. Lopes: Cromo

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Na alcova sombria e quente,
Pobre demais, se não erro,
Repousa um moço doente,
Sobre uma cama de ferro;

Pede-lhe baixo, inclinada,
Sua mulher  que adormeça,
Em cuja perna curvada
Ele reclina a cabeça...

Vem uma loura figura,
Com a colher da "tintura".
Que ele recusa num  ai!

Mas o solícito anjinho,
Diz-lhe com riso e carinho:
 "Bebe, que é doce, papai".
Cromos

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Antologia Brasileira — Coletânea em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugênio Werneck, Trigésima Edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; B. Lopes, ou Bernardino da Costa Lopes, (1859 1916), nascido no Arraial de Boa Esperança em Rio Bonito RJ, foi poeta e jornalista e escreveu Cromos (1881, 2ª ed. 1896), Pizzicatos (Rio, 1886), Dona Carmen  poema (1894), Brazões (1895), Sinhá Flor (Rio, 1899), Val de Lírios (1900), Helenos (Rio, 1901), Patrício (1904), Plumário (Rio, 1905), Fantasias — versos alegres; etc.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Olavo Bilac: A um Poeta

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Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve. No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, teima, lima, sofre, sua.

Mas que na forma se desfaça o emprego
Do esforço. E a trama viva se construa
De tal modo que a imagem fique nua,
Rica, mas sóbria como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre, e natural o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício.

Porque a beleza, gêmea da Verdade
A arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

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Antologia Brasileira — Coletânea em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por Eugênio Werneck, Trigésima Edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.