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Rumoreja a cidade, em febril
movimento.
Ondeia como um rio a imensa
populaça;
E, maculando o olhar azul do
firmamento,
Erguem-se as chaminés, golfejando
fumaça.
Estende-se o comércio, em soberbo
incremento;
Circula como um sangue a riqueza na
praça;
E, numa rapidez superior à do
vento.
Os prelos dão à luz e o trem de
ferro passa...
E, enquanto o poviléu rola de rua
em rua,
Onde o luxo se ostenta e a vida
tumultua,
Eu mergulho no sonho e na
contemplação.
E, na sua modéstia e na sua
roupeta.
De repente me surge a figura de
Anchieta,
Melancolicamente apoiada a um
bordão...
(Os Bandeirantes, 1906)
* Nota do
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco,
organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista
Cepelos:
“De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.”
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Antologia
Brasileira — Seleta em Prosa e Verso de Escritores Nacionais, por
Eugenio Werneck, 30ª edição, atualizada, 1959, Livraria Francisco Alves,
Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos
(1872 — 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela
Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta,
romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896),
O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por
Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos
(prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria
Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como
o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema
‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul
Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou
em Apiaí — SP, Itapetininga — SP e Cantagalo — RJ.


