sábado, 29 de fevereiro de 2020

Johann Wolfgang von Goethe: O rei dos elfos

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[traduzido por Lindolfo Gomes]

Quem corre a cavalo, tão tarde da noite,
Em meio das trevas, do vento ao açoite?
É um pai que o filhinho conduz em seus braços;
Resguarda-o do frio, do afeto nos laços.

Meu pobre filhinho, por que tal pavor?
E tapas os olhos, por que meu amor?
Não vedes, meu pai, dos Elfos o rei?
É ele, e não me enganei.
É sim, bem lhe vejo eu o manto e a coroa...
Meu filho, é uma nuvem, talvez a garoa...

Mas diz-lhe uma voz em timbre de amigo:
Vem, caro menino, vem cá, vem comigo,
E juntos faremos mui lindos brinquedos
       Risonhos e ledos.
Nas ribas eu tenho milhares de flores,
       De todas as cores,
       Iguais às dos prados.
Possui minha mãe mil vestidos dourados...

Meu pai, meu paizinho, que vozes são estas?
       Ouvis as promessas
Que o rei dos Elfos faz baixinho em segredo?...
Oh, fica tranqüilo, não tenhas tu medo;
É o vento, que sopra em meio à folhagem...

Oh, linda criança, serei o teu pajem
Queres vir comigo? Pois vem. Minhas filhas
Aflitas te esperam, verás maravilhas!
E todas em ronda, ao luar dançarão,
E te hão de embalar e te adormecerão.
       Cantando... dançando...

Meu pai, que! não vedes, embaixo na sombra,
Do rei que me chama as filhas na alfombra?...
Meu filho, não penses em reis feiticeiros:
As sombras que vês, são os velhos salgueiros...

Eu te amo, e a tua beleza me encanta;
Se aos rogos não cedes, a força suplanta,
Fazer-te ceder, isto a mim não me custa...
Meu pai, ó meu pai, ei-lo já que me assusta
O rei feiticeiro me faz tanto mal!...

O pai estremece e ao filho, a afagá-lo
Os flancos aperta, nervoso, ao cavalo
E vai, entre os braços, levando a criança
Que geme. Depressa a herdade ele alcança
E inquieto sem forças, enfim bate à porta,
Estava a criança, em seus braços  já morta.

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Johann Goethe

Erlkönig

Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater mit seinem Kind;
Er hat den Knaben wohl in dem Arm,
Er fasst ihn sicher, er hält ihn warm.

“Mein Sohn, was birgst du so bang dein Gesicht?”
“Siehst Vater, du den Erlkönig nicht?
Den Erlenkönig mit Kron' und Schweif?”
“Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif.”

"Du liebes Kind, komm, geh mit mir!
Gar schöne Spiele spiel ich mit dir;
Manch bunte Blumen sind an dem Strand,
Meine Mutter hat manch gülden Gewand."

“Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,
Was Erlenkönig mir leise verspricht!?”
“Sei ruhig, bleibe ruhig, mein Kind;
In dürren Blättern säuselt der Wind.”

"Willst, feiner Knabe, du mit mir gehn?
Meine Töchter sollen dich warten schön;
Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn
Und wiegen und tanzen und singen dich ein."

“Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht dort
Erlkönigs Töchter am düstern Ort?”
“Mein Sohn, mein Sohn, ich seh’ es genau,
Es scheinen die alten Weiden so grau.”

"Ich liebe dich, mich reizt deine schöne Gestalt;
Und bist du nicht willig, so brauch ich Gewalt."
“Mein Vater, mein Vater, jetzt fasst er mich an!
Erlkönig hat mir ein Leids getan!”

Dem Vater grauset's, er reitet geschwind,
Er hält in den Armen das ächzende Kind,
Erreicht den Hof mit Mühe und Not;
In seinen Armen das Kind war tot.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; bibliografia: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben. Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Hilda Hilst: Eu amo Aquele que caminha antes do meu passo. . . .

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XXIII

Eu amo Aquele que caminha
Antes do meu passo.
É Deus e resiste.

Eu amo a minha morada
A Terra triste.
É sofrida e finita
E sobrevive.

Eu amo o Homem-luz
Que há em mim.
É poeira e paixão
E acredita.

Amo-te, meu ódio-amor
Animal-Vida.
És caça e perseguidor
E recriaste a Poesia
Na minha Casa.

(Cantares de perda e predileção — 1983)

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hilda hilst — da poesia, 2018, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Paul Éluard: De um e de dois, de todos

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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido

E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila

Pois onde começa um corpo ganho eu forma e consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida.

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Paul Éluard

D’un et de deux, de tous

Je suis le spectateur et l'acteur et l'auteur
Je suis la femme et son mari et leur enfant,
Et le premier amour et le dernier amour,
El la passant furtif et l’amour confondu.

Et de nouveu la femme et son lit et sa robe,
Et ses bras partagés et le travail de l’homme,
Et son plaisir en flèche et la houle femelle.
Simple et double, ma chair n’est jamais en exil.

Car, où commence un corps, je prends forme et conscience.
Et, même quand un corps se défait dans la mort,
Son infamie honore et mon coeur et la vie.

(Corps memorable — 1948)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, Organização e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, edição bilíngue, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, francês de Saint-Denis, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; ainda com 16 anos de idade, ao contrair tuberculose, teve que interromper seus estudos; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; bibliografia: Premiers poèmes (1913), De Devoir (1916), Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’Amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La Dame de Carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’Amour la Poésie (1930), À toute épreuve (1930), La Vie immédiate (1932), La Rose publique (1934), Facile (1935), L’Évidence Poétique Habitude de la Poésie (1937), Cours naturel (1938), La victoire de Guernica (1938), Le Livre ouvert (1941), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1944), Le lit la table (1944), Poésie ininterrompue (1946), Ode à Staline (1950), Le Phénix (1951), Picasso (dessins, 1952) e outros títulos; o poeta lutou tanto na primeira quanto na segunda grande guerra mundial; filiou-se ao partido comunista francês, mas, sendo excluído depois, nunca deixou de apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée’ (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Lêdo Ivo: Quarta Lição

tesco aqui: 2016
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No jardim zoológico
Ivo num domingo
viu um dromedário.

Na segunda-feira
viu passar um trem
cheio de operários.

Ivo viu o ministro
plenipotenciário
coçar a urticária.

Ouviu o usurário
falar, apoplético,
da lei monetária

e a légua dormida
do latifundiário
crescer no notário.

Diante do sol sujo
Ivo viu o peixe
cativo no aquário.

E viu num enterro
a sucata do homem
na urna funerária.

Fora das igrejas
Ivo viu o Cristo
no alto do Calvário.

E viu o terror
das palavras presas
nos dicionários.

Ivo viu na rua
o gari achar
no lixo o salário.

Viu o salafrário
consultar o horóscopo
sob o Sagitário.

Na central elétrica
andando entre pilhas
Ivo leu de novo

a lição poética
de sua cartilha:
viu a energia

que ilumina o mundo
somar-se em partilha
nas subsidiárias.

e ser luz do povo.

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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S.A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

P. B. Shelley: Hino de Pã

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

                    I

Das florestas e montanhas
     Nós chegamos, nós chegamos; e das ilhas
Que o rio cinta,
     Onde emudece a onda de voz alta,
         Ouvindo a minha doce frauta.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

                    II

E estava o líquido Peneu correndo
     E Tempo inteiro escuro se entendia
Sombra do Pélion, vencendo
     A luz do dia que morria,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Os Faunos e os Silvanos e os Silenos
     E as Ninfas das florestas e das ondas
Na relva úmida dos rios, bem na orla,
     E à beira das cavernas orvalhadas
E os que os serviram e os acompanhavam
Silenciavam de amor como tu, Apolo, agora,
         De ciúme de minha doce frauta.

                    III

Eu cantei das estrelas que dançavam,
     Eu cantei da dedálea Terra,
E do Céu  e dos gigantes em guerra,
     E do Amor, e da Morte, e Nascimento,
         — E então mudei o som de minha frauta
Cantando como ao pé do Mênalo correndo
     Persegui uma moça e agarrei só um caniço.
Deuses e homens, assim somos iludidos!
     Isso perturba nosso peito e então sangramos:
Tudo chorou; vós ambos choraríeis, penso,
Se a inveja  ou a idade  vosso sangue não o pôs gelado,
         Com a tristeza de minha doce frauta.

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P. B. Shelley

Hymn of Pan

                    I

From the forests and highlands
     We come, we come;
From the river-girt islands,
     Where loud waves are dumb
         Listening to my sweet pipings.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

                    II

Liquid Peneus was flowing,
     And all dark Tempe lay
In Pelion's shadow, outgrowing
     The light of the dying day;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

The Sileni, and Sylvans, and Fauns,
     And the Nymphs of the woods and the waves,
To the edge of the moist river-lawns,
     And the brink of the dewy caves,
And all that did then attend and follow,
Were silent with love, as you now, Apollo,
         With envy of my sweet pipings.

                    III

I sang of the dancing stars,
     I sang of the daedal Earth,
And of Heaven  and the giant wars,
     And Love, and Death, and Birth,
          And then I changed my pipings,
Singing how down the vale of Maenalus
     I pursued a maiden and clasped a reed.
Gods and men, we are all deluded thus!
     It breaks in our bosom and then we bleed:
All wept, as I think both ye now would,
If envy or age had not frozen your blood,
         At the sorrow of my sweet pipings.
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P. B. Shelley: Ode ao Vento Oeste e outros poemas — Organização e Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2009, 2ª edição, Editora Hedra, São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; bibliografia: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Mallarmé: As Flores

Resultado de imagem para Os Anos do Exílio do Jovem mallarmé Joaquim Brasil Fontes
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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Das avalanches de ouro do velho azul, no dia
Primeiro e da neve sempiterna dos astros
Separaste outrora os grandes cálices para
A terra ainda jovem e virgem dos desastres,

O ruivo gladíolo, com os cisnes de colo fino,
E o divino loureiro das almas exiladas,
Rubro como o puro artelho do serafim
Que o pudor de auroras esmagadas enrubesce,

O jacinto, o mirto de adorável brilho
E, semelhante à carne da mulher, a rosa
Cruel, Herodíade em flor do jardim claro,
Que um sangue indomável e radiante asperge!

E fizeste a brancura soluçante dos lírios
Que girando nos mares de suspiros que ela aflora
Pelo incenso azul de horizontes descorados
Sonhadoramente sobe à luz que plange!

Hosana nos cistros e nos incensórios,
Nossa senhora, hosana do jardim de nossos limbos!
E que termine o eco pelas celestes tardes,
Êxtase dos olhares, cintilação dos nimbos!

Ó Mãe, que criaste em teu seio justo e forte
Cálices ondulando o futuro frasco,
Grandes flores com a balsâmica Morte
Para o poeta lasso que a vida estiola.

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Mallarmé

Les Fleurs

Des avalanches d’or du vieil azur, au jour
Premier et de la neige éternelle des astres
Jadis tu détachas les grands calices pour
La terre jeune encore et vierge de désastres,

Le glaïeul fauve, avec les cygnes au col fin,
Et ce divin laurier des âmes exilées
Vermeil comme le pur orteil du séraphin
Que rougi la pudeur des aurores foulées,

L’hyacinthe, le myrte à l’adorable éclair
Et, pareille à la chair de la femme, la rose
Cruelle, Hérodiade en fleur du jardin clair,
Celle qu’un sang farouche et radieux arrose!

Et tu fis la blancheur sanglotante des lys
Qui roulant sur des mers de soupirs qu’elle effleure
A travers l’encens bleu des horizons pâlis
Monte rêveusement vers la lune qui pleure!

Hosannah sur le cistre et dans les encensoirs,
Notre Dame, hosannah du jardin de nos limbes!
Et finisse l’écho par les célestes soirs,
Extase des regards, scintillement des nimbes!

Ô Mère qui créas en ton sein juste et fort,
Calices balançant la future fiole,
De grandes fleurs avec la balsamique Mort
Pour le poète las que la vie étiole.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, 2007, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.