sexta-feira, 31 de março de 2017

Geir Campos: Resíduo

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Tanta cal, tanta cinza, tanto incenso
e o vôo impraticável e o pesado
projeto de cruzar o rio a nado
e o caminhar feito um esforço imenso.

Raro sujeito mostra-se propenso
a alar as rédeas do seu próprio fado:
objeto, o mais geral aceita alheado
toda a cal, toda a cinza, todo o incenso.

Contra a revolta, a paina da rotina:
há aquele gesto ou grito que termina
trocando uma bandeira por um lenço,

e então seguir é ir carregando a estrada
nos ombros  e com ela carregada
vai a cal, vai a cinza, vai o incenso.

Metanáutica  1970

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Antologia Poética — Geir Campos, Organização de Israel Pedrosa, 2003, Léo Christiano Editorial Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Geir Nuffer Campos (1924 1999), nascido em São José do Calçado ES, formado em Direção Teatral (FEFIERJMEC, Rio de Janeiro), mestre e doutor em Comunicação Social (UFRJ), foi piloto da marinha mercante, professor universitário, poeta, jornalista, radialista, tradutor e ativista cultural; deixou-nos extensa obra e de grande valor; escreveu e publicou Rosa dos Rumos (poesia, 1950), Arquipélago (poesia, 1952), Coroa de Sonetos (1953), Da Profissão do Poeta (1956), Canto Claro e poemas anteriores (1957), Operário do Canto (1959), O Gato Ladrão (teatro infantil, 1959), O Sonho de Calabar (teatro, 1959), A Verdadeira História da Cigarra e da Formiga (teatro infantil, 1960), Carta aos Livreiros do Brasil (ensaio, 1960), Cantigas de acordar mulher (1964), Rúben Dário, Poeta Participante (ensaio, 1967), Édipo-Rei, de Sófocles (teatro, 1967), Metanáutica (poesia, 1970), Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro, 1972), Diz que sim & Diz que não, de Brecht (teatro, 1977), Canto de Peixe e Outros Cantos (1977), O Vestíbulo (conto, 1979), Tradução e Ruído na Comunicação Teatral (ensaio, 1981), Conto & Vírgula (1982), Pequeno Dicionário de Arte Poética (dicionário, 1960 e diversas outras edições), O que é Tradução (1986), etc etc etc, além de participação em muitas antologias poético-literárias; traduziu textos de Rilke, Kafka, Daniel Defoe, Brecht, Walt Whitman e outros autores; foi co-fundador, junto com o poeta Thiago de Mello, das Edições Hipocampo, em 1951, que revolucionaram as artes gráficas no Brasil.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Álvaro Alves de Faria: O trem

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O trem avança destruindo
cancelas palavras abraços
corpos lábios e poemas.
O trem avança distante
ausente completo incômodo
com passageiros inertes
em poltronas velhas como a idade
dos retratos.
O trem corta trilhos
pedras horas estações
cidades homens o gesto
a minúscula paisagem do nada
que interfere como um tiro
e intercepta a bala
a arma o furo na pele.
O trem é penetrante
e entra na fotografia
como um criminoso que invade a casa.
O trem é devasso
e arranca a placa
que indica o fim da linha.

Gesto Nulo, 1998

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Álvaro Alves de Faria, nascido em 1942, paulista e paulistano, formado em Sociologia Política com mestrado em Comunicação social, é jornalista, escritor e poeta que transitou e transita por diversos gêneros literários: poesia, novela, romance, crônica, ensaio e peça teatral; no jornalismo, a dedicação tem sido na área cultural, especialmente na crítica literária, cuja divulgação se deu e se dá em jornais, revistas, rádio e televisão; escreveu e publicou O Sermão do Viaduto (poesia, 1965), O tribunal (novela, 1971), 4 Cantos de Pavor e alguns poemas desesperados (poesia, 1973), O defunto — uma história brasileira (novela, 1976), Em legítima defesa (poesia, 1978), Motivos alheios (poesia, 1983), Gesto Nulo, Ócios do Ofício (poesia, 1998), A palavra áspera (poesia, 2002) e outros tantos títulos em verso e prosa; recebeu premiações por sua obra; tem publicado livros em Portugal; tem poemas traduzidos para os idiomas inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, servo-croata e japonês.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Eduardo de Oliveira: Panfleto irreverente

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para João Paulo

Não me chamem de simples panfletário
pelo discurso cáustico que prego
na hora em que me apresento solidário
à causa do homem bom, a que me entrego!

Ao explorador, ao truculento nego
qualquer direito sobre o operário,
por quem sempre me bato e não sossego,
pois, eu sei quanto sangra em seu Calvário.

Diga-me, sim, que eu sou um combativo,
em meio à multidão de entes humanos,
para quem socialismo é o lenitivo

que  mais cedo ou mais tarde ainda há de vir
para acabar com todos os tiranos
que se antepõem às glórias do porvir.

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Carrossel de Sonetos — Eduardo de Oliveira, Prefácio de Fernandes Neto e Apresentações de Eunice Aparecida de Jesus Prudente e Alípio Rocha Marcelino, 1994, Editora Pannartz São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); escreveu e publicou Além do (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1965), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958  1968 (1970), Túnica de Ébano  sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio — cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

terça-feira, 28 de março de 2017

Cruz e Sousa: Sentimento esquisito

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Ó céu estéril dos desesperados,
Forma impassível de cristal sidéreo,
Dos cemitérios velho cemitério
Onde dormem os astros delicados.

Pátria d'estrelas dos abandonados,
Casulo azul do anseio vago, aéreo,
Formidável muralha de mistério
Que deixa os corações desconsolados.

Céu imóvel milênios e milênios,
Tu que iluminas a visão dos Gênios
E ergues das almas o sagrado acorde.

Céu estéril, absurdo, céu imoto,
Faz dormir no teu seio o Sonho ignoto,
Esta serpente que alucina e morde...

Últimos sonetos  1905

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Cruz e Sousa — Últimos Sonetos, Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e Notas por Adriano da Gama Kury, 5a. edição revista, 2013, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 27 de março de 2017

Eduardo Alves da Costa: Salamargo

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Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo,
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é o fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unhas e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.
Salamargo existir sem poesia.

Salamargo, 1982

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, fluminense de Niterói RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema ‘No caminho, com Maiakovski’ foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, sendo estampado em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas Já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

domingo, 26 de março de 2017

Rubens Rodrigues Torres Filho: Medonho

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Por onde um poema medonho
encontra o avesso e diz nada,
lá onde o lívido sonho
mantém a paz disparada,

enquanto cala, solícito,
o rugir da madrugada
tramada por mil pavores
de uma negra e negra fada,

por tudo que cai levíssimo
para o alto, machucado,
e dói sem pedir licença
cerzido de lado a lado,
o poema só quer ser feio
e não dar nenhum recado.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sábado, 25 de março de 2017

Menotti Del Picchia: Soneto! Mal de ti falem perversos . . .

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Soneto! Mal de ti falem perversos
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta dentro de ti a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.

Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça
de um povo que viveu fazendo versos.

Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu

a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., LR Editores Ltda, São Paulo  SP; Paulo Menotti Del Picchia (1892 1988), paulista de Itapira, poeta,  jornalista, romancista, contista, ensaísta, teatrólogo e historiador, empenhou-se em polêmicas na defesa da Semana De Arte Moderna, embora com uma poesia com poucos sinais de vanguardismo; em período tardio lança O Deus sem rosto (1968) onde estão contidos os mais modernistas de seus poemas; estreou na literatura com Poemas do Vício e da Virtude (1913), depois escreveu Juca Mulato (1917), Chuva de Pedra (1924), República dos Estados Unidos do Brasil (1928), Jesus (1933), Noturno (1970), entre tantos outros títulos; trabalhou nos jornais A Tribuna (de Santos), A Gazeta, Correio Paulistano, Diário de São Paulo e Diário da Noite; fundou a revista Papel e Tinta (com Oswald de Andrade) e o jornal Anhanguera (órgão informativo do movimento Bandeira, criado junto com Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho).

quinta-feira, 23 de março de 2017

Cruz e Sousa: Dilema

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Ao Cons. Luís Álvares dos Santos

                    Vai-se acentuando,
senhores da justiça  heróis da humanidade,
o verbo tricolor da confraternidade...
                    E quando, em breve, quando

                    Raiar o grande dia
dos largos arrebóis  batendo o preconceito...
O dia da razão, da luz e do direito
                     solene trilogia 

                    Quando a escravatura
surgir da negra treva  em ondas singulares
                    de luz serena e pura;

                    Quando um poder novo
Nas almas derramar os místicos luares,
                    então seremos povo!

[O Livro Derradeiro/Cambiantes] *


Nota deste Verso e Conversa: Relata-nos Andrade Muricy que O Livro Derradeiro, editado em 1945, é composto de poemas até então inéditos, manuscritos, e/ou tão somente publicados em periódicos da época vivida pelo Poeta Negro; neste Cruz e Sousa, Obra Completa publicou-se, pela primeira vez, toda a produção em verso e prosa do poeta, incluídos os manuscritos, poemas autógrafos, dispersos, inéditos, encontrados em poder de sua esposa, Gavita Rosa Gonçalves, e/ou nas mãos de poetas amigos, e/ou publicados e encontrados em jornais e revistas de então; Cambiantes trata-se de uma obra cruzsousiana com edição prometida para 1886 por um editor gaúcho e que só ficou na promessa. 
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Cruz e Sousa, Obra Completa  Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade Muricy, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro  RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara  Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

quarta-feira, 22 de março de 2017

Paul Verlaine: Arte poética

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

a Charles Morice

Música acima de qualquer cousa,
E prefere o Ímpar, menos vulgar,
Que é bem mais vago e solúvel no ar,
Que nada pesa e que em nada pousa.

É bom também que saibas medir
Teus termos, não sem certo descuido:
Nada melhor do que o poema fluido
Que ao Indeciso o Preciso unir.

É um lindo olhar entre rendas raras,
É a luz que treme ao sol vertical,
É, por um céu de calma outonal,
A mescla azul das estrelas claras!

Nós só queremos o meio-tom,
Nada de Cor, somente a Nuança!
Oh! a Nuança é que faz a aliança
Do sonho ao sonho e do som ao som!

Evita sempre a Ponta daninha,
O cruel Espírito e o Riso alvar,
Que apenas fazem o Azul chorar,
E esse alho, enfim, de baixa cozinha!

Toma a eloquência e esgana-a! Farás
Bem em agir energicamente,
Tornando a Rima um tanto obediente.
Quem sabe lá do que ela é capaz?

Oh! quem diria os males da Rima?
Que criança surda, ou negro imbecil
Terá forjado essa joia vil
Que soa falsa e vã sob a lima?

Música, sempre e cada vez mais!
Seja o teu verso a cousa evolada
Que vem a nós de uma alma exilada
Em outros céus para outros ideais.

Seja o teu verso a boa aventura
Esparsa ao áspero ar da manhã,
Que vai cheirando a giesta e hortelã...
E tudo mais é literatura.

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Paul Verlaine

Art poétique

a Charles Morice

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l'Impair
Plus vague et plus soluble dans l'air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n'ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise:
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l'Indécis au Précis se joint.

C'est des beaux yeux derrière des voiles,
C'est le grand jour tremblant de midi,
C'est, par un ciel d'automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles!

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la Nuance!
Oh ! la Nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor!

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L'Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l'Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine!

Prends l'éloquence et tords-lui son cou!
Tu feras bien, en train d'énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l'on n'y veille, elle ira jusqu'où?

Oh! qui dira les torts de la Rime?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d'un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime?

De la musique encore et toujours!
Que ton vers soit la chose envolée
Qu'on sent qui fuit d'une âme en allée
Vers d'autres cieux à d'autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Éparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym...
Et tout le reste est littérature.

Jadis et Naguère 1884
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A voz dos botequins e outros poemas Verlaine, Tradução de Guilherme de Almeida e Introdução de Marcelo Tápia, 2009, Editora Hedra Ltda., São Paulo SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.