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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Auta de Souza: Natal

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É meia noite... O sino alvissareiro
Lá da Igrejinha branca pendurado,
Como num sonho místico e fagueiro,
Vem relembrar o tempo do passado.

Ó velho sino, ó bronze abençoado,
Na alegria e na mágoa companheiro,
Tu me recordas o sorrir primeiro
De menino Jesus Imaculado.

E enquanto escuto a tua voz dolente
Meu ser que geme dolorosamente
Da desventura aos gélidos açoites...

Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!
Sino, que lembras uma noite santa,
Noite bendita em meio às outras noites!

[revista A Mensageira, de 30 de Junho de 1898,
Ano I, nº 18, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa, tuberculose.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Auta Henriqueta de Souza (1876 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda geração romântica byroniana e com influência simbolista; na infância, criada pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas francesas, época em que aprendeu francês, Inglês, Literatura inclusive literatura religiosa , Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose, teve quer interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos, no qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte passou a escreveu para a República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do Rio de Janeiro e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal, tendo sido publicada também  n’A Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Delminda Silveira: Verde mar da Esperança, em tuas ondas . . . [soneto]


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Verde mar da Esperança, em tuas ondas
leva o nosso batel dos meus amores;
quero que no teu seio as minhas dores
como um amigo piedoso escondas.

Ó céu! docel azul que te arredondas
sobre este abismo cheio d'esplendores,
mostra-me o íris de risonhas cores
neste Infinito que constante sondas!

Ai! se eu pudesse, nestas águas puras,
perlas que a dor me dá ir desfiando
do meu colar d'infindas amarguras...

Feliz iria só de amor cuidando,
por entre flores e gentis verduras,
meu coração sereno navegando!

Santa Catarina, 1-12-[18]99
[Sul-Americano, 21/04/1901]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Delminda Silveira de Souza (1854 1932), ou Brasília Silva, seu pseudônimo mais conhecido, catarinense de Desterro, atual Florianópolis, educou-se com aulas particulares, aprendeu francês, latim e noções de literatura com o professor, escritor e poeta Wenceslau Bueno de Gouveia [1844 1919], foi professora, escritora e poeta; desde jovem, Delminda dedicou-se ao magistério no Colégio Coração de Jesus, da então Desterro, onde lecionou francês e português, mesmo sem ter cursado escola secundária; na mesma época deu início à publicação de seus poemas em jornais e periódicos catarinenses, passando também a colaborar em revistas culturais de âmbito nacional, por exemplo n’A Mensageira — revista literária dedicada à mulher brasileira; pertenceu à Academia Catarinense de Letras, primeira mulher representante daquela instituição; suas obras: Lises e Martírios (poemas, 1908), Cancioneiro (coleção de hinos e poemas, 1914), Passos dolorosos (poesia sacra, “via sacra em versos”, 1931), Indeléveis Versos (oito poemas inéditos escritos em 1908, e outros, publicação póstuma, 1989), Delminda Silveira — obra completa (2009); a poetisa empresta seu nome a instituições e logradouros públicos: Escola de Educação Básica Delminda Silveira, Mondaí SC, Rua Delminda Silveira, Bairro Trindade, Florianópolis SC, Biblioteca do Colégio Sagrado Coração de Jesus, também em Floripa.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Áurea Pires: Primeira esperança


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Quando és tu, branca flor que resplandeces
Na sombria mansão do meu destino?
Serás ainda uma quimera, um desses
Falsos encantos de um fulgor divino?!

Fala!... Piedade para o pequenino
Ser que te implora em fervorosas preces
Se és um sonho, o teu brilho diamantino
Esconde e foge, porque me enlouqueces!

Porém tu brilhas ainda mais!... Ligeira
Eu me aproximo... e como uma criança
Vendo alguma teteia feiticeira,

Estendo a mão, que trêmula te alcança!...
Não és um sonho, não!... És a primeira
E talvez minha última esperança!

19 — 6 — [18]99.
[revista A Mensageira, de 15 de Dezembro de 1899,
Ano II, nº 35, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Ibrantina Cardona*: Íntimo


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Olha-me bem, e vê se pode agora
Em disfarce esconder-se o meu afeto;
Julga se é dado ao coração que adora
Mudar-me um só instante o terno aspecto...

Ah! Esse amor, revela o indiscreto
O meu olhar... Esforce-me eu embora
Para tê-lo no íntimo secreto,
Bem sei que já ninguém de todo o ignora!

E contudo... Se os olhos deram ensejo
A desvenda de um crime, se foi pouca
A força de ocultar o meu desejo,

Para que não me crescem por ti louca,
Precisava que a forma do teu beijo
Não deixasses impressa em minha boca...

[revista A Mensageira, de 15 de Dezembro de 1897,
Ano I, nº 5, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Áurea Pires: Sonho?


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Não sei se sonho foi! Só sei que eu via
N’um vasto mar minh’alma transformada
E que alegre a Esperança reclinada
N’um dourado batel dele fugia!

Era verde a roupagem que envolvia
Suas formas de celestina fada.
Verde também a cabeleira ondeada,
Que esparsa ao vento sobre o mar caia!

E ele o barco ligeiro acompanhando,
Em profundos soluços prorrompeu,
Ao ver que a Virgem o ia abandonando.

E mais depressa o barco então correu...
E Ela ao triste nem um olhar lançando,
Saltou na praia e... desapareceu!

1891
[revista A Mensageira, de 15 de Outubro de 1899,
Ano II, nº 33, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Presciliana Duarte de Almeida: Contemplação


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(À excelsa poetisa Adelina A. Lopes Vieira)

Eu costumava, quando pequenina,
Levantar-me ao romper da madrugada
Para fitar a deusa matutina,
A luz fulgente e doce da alvorada!

E tinha um culto imenso pela aurora.
Parecia-me até votar-lhe afeto:
E entre os quadros de luz que esta alma adora
Àquele era o meu quadro predileto.

Depois vieram sonhos cor de rosa
Prolongar a sorrir meu leve sono...
Não mais fitei a luz miraculosa,
Longo tempo deixada em abandono...

Mas os sonhos, fatais e enganadores,
Levando pét’las de ilusões quebradas,
Fugiram, como doidos beijaflores,
Roubando o mel às rosas perfumadas!

Acordei uma noite pensativa,
Não tinha sonhos que me detivessem,
Quis ver a aurora cândida e festiva,
E as nuvens todas que o fulgor lhe tecem:

A passarada alegre pipilava,
Festejando o raiar de um belo dia,
Em cada flor um riso eu soletrava,
Um beijo em cada estrela que sumia!

As gotas cristalinas da orvalhada,
Sobre a corola trêmula das rosas,
Fulgiam, como lágrimas choradas
Por comoções alegres, venturosas!

Olhei o orvalho, a flor, a estrela, a aurora,
O mar e tudo o que de belo existe,
Mas vi que para quem sucumbe e chora
A beleza maior é sempre triste!

Outubro — 1880
[revista A Mensageira, de 15 de Janeiro de 1900,
Ano II, nº 36, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular ... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou resenhas e poemas com o pseudônimo Perpétua do Vale.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Júlia Cortines: O Deserto


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A Presciliana Duarte de Almeida

O sol queima; o ar sufoca; a infinita celagem
Do céu resplende sobre o infinito deserto;
E do vasto horizonte, ao derredor aberto,
Sopra, como de um forno, uma ardente bafagem.

Nada à flor do areal, quer à distância ou perto;
E, através da nudez da vazia paisagem,
Nem sequer a ilusória e efêmera miragem
Deixa, ao longe, entrever o seu perfil incerto...

Nem o leve ruflar de uma asa; nem um grito,
Fazendo estremecer o deserto que dorme,
Como uma flecha, vara a mudez do infinito...

Implacável, o sol, quente e fulvo, dardeja
Uma luz que, abrasando a solidão enorme,
No ar, na areia e no céu treme, brilha e flameja...

[revista A Mensageira, de 15 de outubro de 1897,
Ano I, nº 1, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

sábado, 8 de junho de 2024

Áurea Pires: Martírio incrível

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Foges! Bem vejo! E que amargura a minha
Vendo apagar-se neste olhar querido
A centelha do amor indefinido,
Que de tua alma límpida provinha!

Eu também fujo!... E sinto que definha
Dia a dia meu ser triste e abatido
E também no teu rosto emagrecido
Prolongado martírio se adivinha!

Oh! Que suplício!... Que horrorosa mágoa...
Chorando foges-me... e eu também te fujo!...
E de longe, vagando pelos montes,

Então volvo-te os olhos rasos d’água,
Como os olhos saudosos do marujo,
Que se afasta dos pátrios horizontes!

4 — 7 — 1899.
[revista A Mensageira, de 31 de agosto de 1899,
Ano II, nº 31, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Delminda Silveira: O primeiro Sorriso

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No alvo berço mimoso
feito de vimes trançados,
sobre os folhos rendilhados
do travesseiro sedoso,

o pequenito dormia
qual entre as plumas do ninho
dorme o tenro passarinho
ao findar de um belo dia.

Ao lado a mãe cuidadosa
o brando sono espreitando,
como a rola carinhosa
ao pé do ninho pousando,

fitava o meigo semblante
do anjo seu adorado
qual fita o lírio no prado
a linda estrela brilhante.

E o pequenito dormia
tão ledo... talvez sonhasse,
talvez su'alma vagasse
naquele céu que entrevia.

Leve, leve a mãe cuidosa
na pura fronte infantil
pousando a boca amorosa
estampa um beijo sutil.

Os sonhos voam, fugindo,
foge á terra o Paraiso;
desperta o anjo sorrindo...
era o primeiro sorriso!

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Delminda Silveira de Souza (1854 1932), ou Brasília Silva, seu pseudônimo mais conhecido, catarinense de Desterro, atual Florianópolis, educou-se com aulas particulares, aprendeu francês, latim e noções de literatura com o professor, escritor e poeta Wenceslau Bueno de Gouveia [1844 1919], foi professora, escritora e poeta; desde jovem, Delminda dedicou-se ao magistério no Colégio Coração de Jesus, da então Desterro, onde lecionou francês e português, mesmo sem ter cursado escola secundária; na mesma época deu início à publicação de seus poemas em jornais e periódicos catarinenses, passando também a colaborar em revistas culturais de âmbito nacional, por exemplo n’A Mensageira — revista literária dedicada à mulher brasileira; pertenceu à Academia Catarinense de Letras, primeira mulher representante daquela instituição; suas obras: Lises e Martírios (poemas, 1908), Cancioneiro (coleção de hinos e poemas, 1914), Passos dolorosos (poesia sacra, “via sacra em versos”, 1931), Indeléveis Versos (oito poemas inéditos escritos em 1908, e outros, publicação póstuma, 1989), Delminda Silveira — obra completa (2009); a poetisa empresta seu nome a instituições e logradouros públicos: Escola de Educação Básica Delminda Silveira, Mondaí SC, Rua Delminda Silveira, Bairro Trindade, Florianópolis SC, Biblioteca do Colégio Sagrado Coração de Jesus, também em Floripa.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Luiz Pistarini: Uma relíquia


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A Coelho Neto

Achei-te, enfim, mimosa luva, agora
Rota, sutil, tão feia e tão judiada!
Quanta vez, no entretanto, em ti calçada,
Não apertei a sua mão outr’ora!

Essa, por quem, talvez há um ano, usada
Foste, e que foi tua gentil senhora,
Velha te achando, é natural que fora
Te houvesse, um dia posto, oh maltratada.

Luva! Entretanto eu quero-te comigo!
Doce relíquia, no mais casto abrigo
Que, em casa houver, hei de guardar-te, visto

Que tu me trazes a lembrança amena
D’aquela mão tão branca e tão pequena,
Que ela deu-me, no Altar, junto de Cristo!

(De Luto — 1898)
[A Mensageira — 15 de maio de 1899 — Ano II. Nº 28]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Luis Pistarini ou Luiz Pistarini (1877 1918), fluminense de Resende, em sua juventude residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi jornalista e poeta; começou a escrever aos onze anos, muito embora tenha cursado apenas quatro anos da escola primária; colaborou com revistas literárias da época, trabalhou em jornais de Resende, Barra Mansa e do Rio de Janeiro, então capital federal; dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo, foi redator da revista O Malho, editor do jornal A Lira e trabalhou na Câmara Municipal de Resende; o poeta também assinou textos com o pseudônimo Lívio Peralta; suas obras: Bandolim (1899), De Luto (1898), Sombrinhas, Postais (1907) e Agonias e Ressurreição (publicação póstuma, com prefácio do poeta Luís Murat); foi autor do Hino de Resende, sua cidade natal; é patrono da cadeira nº 27 da Academia Fluminense de Letras, sediada em Niterói, à época capital do estado; é tido que levou uma vida “atormentado por enfermidades”.

sábado, 18 de maio de 2024

Presciliana Duarte de Almeida: Parenthesis

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Porque tão longa e desastrada ausência
Entre dois seres que a saudade encanta,
Amizade que todo o mal quebranta
E que tem de constância a presciência?

Do destino porque tenta inclemência?
Amargura porque na vida tanta?
Aos que se nutrem de afeição tão santa
Deveria sorrir sempre a existência.

E o nosso coração assim fazia,
Em linguagem amarga e verberada,
A queixa dessa ausência agra e sombria!

Hoje sorriem nossas almas juntas...
Mas amanhã, de novo separadas,
Hão de fazer ao céu iguais perguntas.

(A Mensageira, 31 de julho de 1898, Ano I. nº 20)

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Presciliana Duarte de Almeida (1867 1944), mineira de Pouso Alegre, foi jornalista, professora, escritora, poetisa, co-fundadora (juntamente com o filólogo Sílvio Tibiriçá de Almeida, seu marido e também poeta) e diretora da revista A Mensageira, publicação esta que promoveu intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal, França, Argentina e outros países; Presciliana atuou no meio cultural paulista no fim do século XIX e início do XX; ainda em sua juventude, na Pouso Alegre natal, foi co-autora de Colibri, revista literária manuscrita com produções da época, cuja tiragem era de apenas 12 exemplares, mas que durou quatro longos anos, sendo distribuída mensalmente nos meios literários e, em corrente fraterna, passou por diversas mãos e chegou a vários pontos do país; já casada e em São Paulo, passou a colaborar com os periódicos Almanaque Brasileiro Garnier, A Estação, Rua do Ouvidor, A Semana, Diário Popular... e, depois, empenhada no movimento pedagógico renovador que se iniciava no país, colaborou na revista Educação (fundada em 1902, na qual figuravam os mais destacados intelectuais da época) e Alvorada; a poeta, mulher do século XX e figura feminina de destaque do movimento cultural literário e educacional paulista, influenciou diretamente toda a história da literatura infantil antes de Monteiro Lobato; escreveu e publicou Rumorejos (poesias, em parceria com Maria Clara da Cunha Santos, 1890), Sombras (1906), Páginas Infantis (1908), O Livro das Aves: crestomatia em prosa e verso (1914), adotado em várias escolas paulistas, Vetiver (poesias de vários tempos, 1938) e, em edição póstuma, Antologia Poética (reunião de poemas, 1976); foi membro-fundadora e primeira ocupante feminina de cadeira da Academia Paulista de Letras; Presciliana Duarte também assinou textos e resenhas com o pseudônimo Perpétua do Valle.

domingo, 12 de maio de 2024

Delminda Silveira: Ao romper da lua


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Como vens tão formosa, ó lua bela,
serena, pela azul imensidade,
qual ave branca na lagoa mansa;
assim, acompanhada de uma estrela.
Ó lua, me recordas a saudade
seguida da esperança.

Agora teu palor não me entristece
como outras vezes que no céu te vi,
e dor cruel não me deixou sorrir-te;
como estás longe, entanto! Ai, se pudesse
a minh'alma voar até junto a ti,
como essa estrela n'amplidão seguir-te!...

Do Céu sereno pelo azul infindo,
errante iria est'alma tão saudosa
olhando o mundo, ao teu clarão, d'altura;
e, quem sabe?... n'algum recanto lindo,
como em Oásis fonte preciosa,
não acharia eu minha ventura?...

Ai! segue n'amplidão, formosa lua,
minh'alma te acompanha num suspiro;
és sempre a mesma aqui ou noutro céu;
vamos pois: que esta luz mágica, tua,
me mostre além o plácido retiro
onde a minha ventura se escondeu!

[Lises e Martírios — 1908]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Delminda Silveira de Souza (1854 1932), ou Brasília Silva, seu pseudônimo mais conhecido, catarinense de Desterro, atual Florianópolis, educou-se com aulas particulares, aprendeu francês, latim e noções de literatura com o professor, escritor e poeta Wenceslau Bueno de Gouveia [1844 1919], foi professora, escritora e poeta; desde jovem, Delminda dedicou-se ao magistério no Colégio Coração de Jesus, da então Desterro, onde lecionou francês e português, mesmo sem ter cursado escola secundária; na mesma época deu início à publicação de seus poemas em jornais e periódicos catarinenses, passando também a colaborar em revistas culturais de âmbito nacional, por exemplo n’A Mensageira — revista literária dedicada à mulher brasileira; pertenceu à Academia Catarinense de Letras, primeira mulher representante daquela instituição; suas obras: Lises e Martírios (poemas, 1908), Cancioneiro (coleção de hinos e poemas, 1914), Passos dolorosos (poesia sacra, “via sacra em versos”, 1931), Indeléveis Versos (oito poemas inéditos escritos em 1908, e outros, publicação póstuma, 1989), Delminda Silveira — obra completa (2009); a poetisa empresta seu nome a instituições e logradouros públicos: Escola de Educação Básica Delminda Silveira, Mondaí SC, Rua Delminda Silveira, Bairro Trindade, Florianópolis SC, Biblioteca do Colégio Sagrado Coração de Jesus, também em Floripa.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Adelina Amélia Lopes Vieira: Anoitece . . .


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(No álbum de Maria Clara da Cunha Santos)

Véu de tristeza a terra e os céus invade;
de espaço a espaço, ave agourenta pia;
o orvalho chora, e, em lenta suavidade,
badala o sino ao longe  Ave Maria.

Ave Maria, essa hora em que à saudade
de luz, se junta o horror à treva fria,
tão cheia de mistérios e ansiedade,
tão represada de melancolia!

Cheguei também da vida a essa hora triste,
Crepúsculo, em que o sol já não existe,
em que a luz da ilusão desaparece.

Horas ardentes em que o sol fulgura!
horas de amor! de glória! de ventura!
Dia! porque me foges? Anoitece...

A Mensageira, de 15 de Maio de 1898,
Ano I, nº 15, São Paulo — SP

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Adelina Amélia Lopes Vieira (1850 1923), portuguesa de Lisboa, desde seu primeiro ano de idade vivendo no Rio de Janeiro, educada no Colégio das Irmãs de Caridade, bairro do Botafogo, formada na Escola Normal do Rio de Janeiro, foi professora, jornalista, poeta, contista e teatróloga; colaborou em jornais e revistas brasileiras, entre as quais Gazeta de Campinas, Correio Paulistano, A Semana, O Tempo, Jornal do Commercio, Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro e A Mensageira; suas obras: Margaritas (poesias, 1878), Pombal (1880), Contos Infantis (em co-autoria com Júlia Lopes de Almeida, 1886), Destinos (contos, 1900), A virgem de Murilo, As duas dores e Expiação (dramas, todos sem data); traduziu a comédia teatral A Terrina (de Ernesto Hervelly, 1909); no periódico A Semana, foi responsável pela coluna Palestras Femininas, mais tarde esta coluna passou a também ser publicada n’A Mensageira.