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É meia noite... O sino alvissareiro
Lá da Igrejinha branca pendurado,
Como num sonho místico e fagueiro,
Vem relembrar o tempo do passado.
Ó velho sino, ó bronze abençoado,
Na alegria e na mágoa companheiro,
Tu me recordas o sorrir primeiro
De menino Jesus Imaculado.
E enquanto escuto a tua voz dolente
Meu ser que geme dolorosamente
Da desventura aos gélidos açoites...
Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!
Sino, que lembras uma noite santa,
Noite bendita em meio às outras noites!
[revista A Mensageira, de 30
de Junho de 1898,
Ano I, nº 18, São Paulo — SP]
* Nota do blogue Verso e
Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de
blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de
idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze
anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado
acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose
e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva
Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus
irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo
veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores
de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa,
tuberculose.
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A Mensageira — Revista Literária
dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900),
Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika
Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Auta Henriqueta
de Souza (1876 — 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda
geração romântica — byroniana — e com influência simbolista; na infância, criada
pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos
onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas
francesas, época em que aprendeu francês, Inglês, Literatura — inclusive literatura
religiosa —, Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo,
Lamartine, Chateaubriand e Fénelon; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose,
teve quer interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação
intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis
anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos,
no qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários
autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte passou
a escreveu para a República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível
para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do
Rio de Janeiro e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal,
tendo sido publicada também n’A
Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na
Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de
manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e
com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e
acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de
Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das
Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também
os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das
mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da
Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira.