quinta-feira, 10 de junho de 2010

Genésio dos Santos: O poeta-menor e o poeta-maior

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
____________________
O poeta-menor
s o n h a v a
ser poeta-maior.
No desfile-do-dia-da-independência
se apresentou com um estandarte
defensor do homem
como homem.

O poeta-maior
considerou
              por
                    algum
                              tempo
o poeta-menor
e o aplaudiu pelo seu altruísmo.

O poeta-menor,
que era um poeta-suicida,
antes que viesse 
o dia-de-outra-independência
tragicomicamente
morreu.

(Explico: cômico,
porque, no asfalto,
depois de despencar-se
por vinte e três andares
seu rosto,
d e s - f i g u r a d o,
parecia desafiar
algum outro rosto
vivo,
       morto,
                 morto-vivo
que o contemplava
e o outro rosto
vivo,
       morto,
                morto-vivo
não entendeu o seu desafio;
trágico,
porque era poeta.)

O poeta-maior
chorou
e se angustiou
                    por
                         algum
                                 tempo
quando
          o jornal
                     o rádio
                               a revista
                                           a televisão
                                                          o vizinho
noticiaram
a morte do poeta-menor.

O poeta-menor
c o n t i n u o u
no anonimato e,
com o passar dos anos,
virou estória.

O poeta-maior,
que tinha um olho-clínico,
depois-do-dia-de-outra-independência,
escreveu um livro
cujo personagem central
era o poeta menor
e que virou best-seller.
Ganhou o prêmio Nobel de Literatura,
vendeu os direitos de filmagens
à Warner Bros. Communications,
virou capa do New York Times,
montou peça no Municipal
com os atores mais badalados,
aos setenta anos publicou sua autobiografia
e virou história.

____________________
Número Um, 1978, Edição do Autor, São Paulo  SP; Genésio dos Santos é poeta e cronista.

Genésio dos Santos: Dai-me um só momento

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
____________________
Eu quero um só momento
dai-mo
mas não desses momentos cheios de vida
que eu quero um momento livre
sem "ismos" nem "cracias"

desses momentos sempre se encontram por aí
no trabalho na escola
ou mesmo nas horas livres

eu quero um momento
sem misérias nem riquezas
sem suicídios nem heroísmos
sem dores nem alegrias
sem prantos nem sorrisos

eu quero um momento vazio
e que eu possa preenchê-lo
com o que vai em minh'alma
um momento só para pensar

dai-mo
e eu vô-lo devolverei cheio de mim
para fazerdes com ele o que bem entenderdes
e quando quiserdes.

____________________
Número Um1978, Edição do Autor,  São Paulo — SPGenésio dos Santos é poeta e cronista.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Luiz Carlos Jardim: "Poema-orelha"

sorri
o bisturi
sanhudo
arranca tudo
tudo o que pensa
menos a doença
____________________
Luiz Carlos Jardim, bancário aposentado, pescador e também poeta de quadrinhas cometeu esta criatividade no final da década de setenta do século e milênio passados, enquanto aguardava uma cirurgia a que seria submetido; o título 'Poema-orelha' foi acrescentado ao texto por este atrevido aprendiz de blogueiro e também poeta, quando da edição do seu cartaz-poético, Cinco Poeminhas (1981); o poemeto de Luiz Carlos Jardim ajudou a compor a edição, como uma espécie de 'orelha' do cartaz.

sábado, 5 de junho de 2010

Rousseau: Os devaneios do caminhante solitário

TERCEIRA CAMINHADA

Envelheço aprendendo sempre.

Sólon com freqüência repetia esse verso em sua velhice(*). Ele tem um sentido que eu também poderia aplicar à minha; porém, há vinte anos a experiência me fez adquirir um conhecimento bastante triste: a ignorância ainda é preferível. A adversidade sem dúvida é uma grande mestra, mas cobra caro por suas lições, e em geral o proveito que temos não vale o preço que custaram. Além disso, antes que tenhamos obtido todos esses haveres com lições tão tardias, a oportunidade de usá-los passa. A juventude é o momento de estudar a sabedoria; a velhice é o momento de praticá-la. A experiência sempre instrui, reconheço-o; contudo, é proveitosa apenas para o que temos à nossa frente. No momento de morrer, haverá tempo de aprender como deveríamos ter vivido?

Oh, de que me servem luzes, tão tardia e tão dolorosamente adquiridas, sobre o meu destino e sobre as paixões dos outros, das quais este é obra? Aprendi a melhor conhecer os homens apenas para melhor sentir a miséria em que me mergulharam, sem que esse conhecimento, ao me revelar todas as sua armadilhas, tenha me feito evitar alguma. Por que não permaneci para sempre nesta débil mas doce confiança que me tornou durante tantos anos a presa e o joguete de meus ruidosos amigos, sem que tivesse, envolvido em todas as suas tramas, nem a mínima suspeita! Era enganado e vítima, é verdade, mas me acreditava amado por eles, e meu coração gozava da amizade que me inspiravam, atribuindo-lhes o mesmo por mim. Essas doces ilusões foram destruídas. A triste verdade, que o tempo e a razão desvelaram ao me fazerem sentir minha desgraça, me fez ver que não havia remédio e que me restava apenas a resignação. Assim, todas as experiências da minha idade, em meu estado, não tem para mim utilidade no presente e proveito no futuro.

Entramos em cena no nascimento, dela saímos na morte. De que serve aprender a melhor conduzir seu carro quando se está no fim da corrida? Só resta pensar como sair dela. O estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer, e é justamente o que menos se faz na minha idade; se pensa em tudo, menos nisso. Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade  que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, vêem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudessem levar na morte.

Pensei tudo isso quando era tempo de pensá-lo, e se não soube tirar melhor partido de minhas reflexões não foi por deixar de fazê-las a tempo e não tê-las digerido bem. Atirado, desde a infância, no turbilhão da sociedade, aprendi em boa hora através da experiência que não fora feito para nela viver e que nela nunca chegaria ao estado  de que meu coração sentia necessidade. Cessando, portanto, de buscar entre os homens a felicidade que sentia ali não poder encontrar, minha ardente imaginação saltava por sobre a extensão de minha vida, recém-começada, como por um terreno que me fosse estranho, para repousar em um estado tranqüilo em que pudesse me fixar.
...

(*) Citado por Plutarco em Vida de Sólon (Nota da Tradutora)
____________________
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Les Réveriers du Promeneur Solitaire, tradução de Júlia de Rosa Simões, L&PM Editores, 2008, Porto Alegre - RS; nascido em 28 de junho de 1712, começou a redigir Os devaneios do caminhante solitário, sua última obra, no outono ou inverno de 1776; dividiu-a em Caminhadas, sendo que a última, a Décima, restou inconclusa, pois o pensador a iniciara apenas dois meses antes de sua morte ocorrida em 02 de julho de 1778. Nesta postagem transcreveu-se tão somente um trecho (os quatro primeiros parágrafos!) da Terceira Caminhada.