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sábado, 19 de setembro de 2020

Brinque nº 2 — [maio] 1983 — edição especial em preto e branco

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Brinque Nº 2  [Maio] 1983 — Publicação do Depto. Cultural do Sindicato dos Bancários de São Paulo; tal devezenquandário, desenvolvido pelo coletivo do Cultural do Seeb-SP deve ter tido mais de uma vintena de edições, ou quase...; é o que deduz este aprendiz de blogueiro, pois há em seus arquivos, além de outros diversos números, o Brinque nº 18, de outubro de 1985; este blogueiro entende que o sindicato tenha tudo isso em seus arquivos (Cedoc), quiçá digitalizados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: Carta Aberta para Satélio (De um S-3 na berlinda)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 15  Junho e Julho de 1981)

          Satélio, tô com o BIP nº 78 nas mãos. E tô preocupado com o que deve vir por aí, pois na página quatro tem uma matéria que diz que "ser comissionado é uma boa opção".
          De cara, e meio no deboche, os ómis  que cuidam dos recursos humanos do banco começam se lamentando "que a legislação trabalhista atual (que é uma josta!) e as instruções internas do BB (a CIC Funci) não prevêem a obrigatoriedade de o funcionário aceitar a designação para o exercício de cargo comissionado".
          Tamanha ousadia a de nossos patrões! Se marcá bobeira é bem capaz deles querê anulá aquele artigo da CLT que diz que a jornada de trabalho de bancário é de seis horas por dia e nem um minuto a mais. A CIC Funci, por outro lado, é facinho deles alterá e eles já vêm alterando dia após dia.
          Mas, Satélio, esse assunto do BIP nº 78 não tá bem explicado pelos ómis. Acontece que os tais "incentivos" às comissões para os funcionários-ônus vêm condicionados a transferências para as longínquas cidades do norte-nordeste, como Ipu no Ceará ou Piracuruca no Piauí. É o que o BIP vem colocando toda quinzena na página três. A Direção Geral é uma madrasta de boa, ocê não acha?
          Ipuenses e piracuruquenses, a vocês eu me dirijo neste momento, e que fique claro que eu não tenho nada contra vocês. Muito pelo contrário... Fiquem sabendo que eu também sou do nortão, da terra dos raimundos e dos severinos. Só que eu vim pra cidade grande já faz tempo e acabei viciando. Tudo o que não presta vicia. Já tô até gostando dos viadutos; dos prédios e praças pintados de verde, que é pra disfarçá o cinzento da poluição; do barulhão do ronco dos carros que passam de lá pra cá e de cá pra lá. Já tô até me acostumando com o cheiro do Tamanduateí e do Tietê.
          Eu vim pra São Paulo numa época em que o nordeste tava ficando vazio. Era aquele mundão de gente que embarcava nos paus-de-arara, abismado que ficava com as notícias da cidade grande. E vinham pra trabalhá em tudo quanto é serviço, que ninguém tinha instrução alguma. De lá nós viemos só com o diploma do mobral. Foi aqui, e com muito custo, que terminamos o madureza do ginásio e do colégio. Se ocês pensam que foi fácil de chutá aquelas cruizinhas estão enganados. Num foi, mas nós passamos. E quem não passou hoje tá trabalhando na construção civil ou pegou o caminho da Dutra e foi pro Rio trabalhá no metrô. Uns pouquinhos fizeram faculdade e hoje são advogados. Não sei se estão bem, não... Eu fiz teste no Banco, passei e tô aqui até hoje defendendo os meus trocados. Já faz quase vinte anos. O emprego até que não tá ruim. Se não fosse esse absurdo do BIP...
          Satélio, agora é com você... Então ocê acha que eu, hoje que estou bastante sossegado, vou me afundá praqueles mundão  e morrê por lá? Uns vinte anos no meio de mandacaru, bode magro e jegue já foi muito pro meu gosto. Lá, vira-e-mexe os prefeitos andam decretando estado de calamidade pública. Quando não é porque tá com o chão esturricado de seco é porque choveu demais e enlameou tudo. Nunca tem medida. Quem ainda não foi que experimente. Eu não, que não tô bestando. Além do mais ocê acha que eu vô deixá de assisti de pertinho o meu curingão com o dotô de bola? Nem matando...
          Satélio, ipuenses e piracuruquenses, depois de quase vinte anos de Banco, eu quero é que sobre tempo pra mim descansá, pra mim assisti futebol e filme de pornografia. E pra que ocês não pensem que eu sou um machista e um alienadão, que num liga pra tal transformação da sociedade, aqui vai uma diquinha subversiva procêis: Se eu fosse Básico, eu arrumava um jeito de lutá e derrubá esse quadro de carreira que congela o salário de meio mundo. E a tal da isonomia salarial, cumé que fica?
          Sem mais, aqui deposito minhas
          Onerosas saudações.

                                              Um S-3 na berlinda.

PS: Como adido ninguém me manda, né!?

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Satélio, P. da Silva e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: 1981 (II)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 12  Março de 1981)

(...continuação do número anterior)
          Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!... B.B. Chimite foi rabiscando no papel de anotações, até ver preenchida a última linha. O olho mágico, por sua vez, continuava vomitando informações e mais informações.
          Falava sobre as frequentes invasões de tribos cearasianas que saqueavam vilas de regiões fronteiriças no território prazilandense. E, informando ser iminente a declaração de guerra à Cearásia, convocava todos os cidadãos ativos a se alistarem nas fileiras das Legiões do Povo, que já estavam entrando em regime de prontidão. Informava também que cearasianos muito bem treinados andavam se transferindo clandestinamente para Prazilândia e que tais incursões tinham o evidente propósito de arregimentar forças a se sublevarem contra o Grande Irmão. Por isso, a voz do olho mágico argumentava que a Patrulha do Pensamento encontrava rebeldes em todos os lugares e a qualquer hora do dia e da noite. E foi num lampejo que Chimite percebeu que já podia se considerar como um rebelde.
          Aquelas frases repetidas incansavelmente na folha de anotações eram a certeza de sua rebelião. Elas o denunciavam perante a Patrulha e perante si mesmo. E já não havia a possibilidade de qualquer negativa. O mal, raciocinou, já estava feito. Mais dia menos dia, mais hora menos hora, a Patrulha do Pensamento o interceptaria e aí seria o fim ou o começo de tudo. No entanto Chimite se sentia aliviado.
          Sabia que a Cearásia, já há alguns anos, vinha perdendo todas suas safras devido à seca que assolava aquela região. E, acossados pelo desespero da fome e da sede, os cearasianos invadiam os celeiros nas fronteiras de Prazilândia. Esta notícia Chimite só soubera por acaso. Ouvira em cochichos de encarregados de seu andar que militavam nas Legiões do Povo e que tinham acesso a essas informações. Do olho mágico ele só ouvia o que qualquer prazilandense mal informado já estava sabendo: que rebeldes cearasianos estavam invadindo e saqueando vilas de Prazilândia e que, consequentemente, a guerra entre cearasianos e prazilandenses ia ser decretada pelo Grande Irmão.
          Com mais um pouco de reflexão, Chimite percebeu que antes mesmo de ter rabiscado aquelas frases no papel já poderia ser classificado como rebelde ante a Patrulha do Pensamento. Muito antes até do dia em que casualmente ouvira os cochichos dos militantes das Legiões. Lembrava-se, embora de uma forma um tanto difusa, da última vez em que estivera com seus pais.
          Chimite devia ter seus sete anos quando muito. Recordava de uma confusão nas ruas, dois corpos sendo arrastados à força e uma voz seca que dizia, a alguém seu acompanhante, algo parecido como ser necessário instruir à criança que seus pais haviam morrido honrosamente lutando nas Legiões quando em combate contra forças inimigas. Mas ele não se lembrava bem do rosto da voz que falava aquilo nem a quais inimigos a voz se referia.
          Também não dava para afirmar se aquela criança do passado era ele próprio. Às vezes recordava-se de outras passagens, também difusas, e ouvia vozes que julgava serem de seus pais. Eram marcadas pelo ódio às Legiões do Povo e ao antecessor do Grande Irmão. Era isso o que conseguia captar do seu passado, mas era o suficiente. Chimite começou a sentir que já não acreditava cegamente no Grande Irmão. Só então ele percebeu o passo que havia dado.
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: 1981 (I)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 11  Fevereiro de 1981) 

          Faltavam mais de dois anos para o sinistro 1984. Era um dia frio e ensolarado do mês de agosto  e os relógios estavam prestes a bater treze horas. B.B. Chimite, o queixo fincado no peito, numa tentativa de fugir ao vento impiedoso e sem estampar nenhum prazer no rosto, esgueirou-se rápido pelas enormes portas do Edifício São João; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero. O saguão cheirava à poluição e no capacho um tanto gasto via-se o emblema da empresa.
          Algumas colunas pareciam sustentar o teto; numa delas, um cartaz colorido, grande demais, mostrava uma cara descomunal de feições rústicas mas atraentes. Era a foto do Grande Irmão, o fundador Número Um da empresa. Mais à frente, noutra coluna, outro cartaz um pouco menor mas também colorido fazia a propaganda e convocava os funcionários e sócios da firma a adquirirem o carnê CBF, nova invenção dos governadores de Prazilândia. Chimite encaminhou-se diretamente para a escada em forma de caracol.
          Inútil esperar o elevador. Dos três existentes, há tempos que somente um funcionava; os outros estavam sempre à espera de conserto. E isso provocava extensas filas, principalmente àquela hora. À boca pequena comentava-se que a empresa estava implantando a nova política de contenção de custos operacionais imposta pelo Grande Irmão que, por sua vez, tinha íntimas ligações com os governadores da "Cidade dos Prazeres". B.B. Chimite foi galgando os degraus.
          Um, dois, três andares... Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Parecia segui-lo por toda parte. O Grande Irmão zela por ti, dizia uma legenda logo abaixo. Mais alguns andares e ele alcançou a sua seção.
          Dirigiu-se à chapeira, bateu o seu cartão e, cumprimentando os encarregados com um gesto de cabeça acompanhado de um pequeno grunhido, caminhou decidido até sua bancada  onde o esperava na troca do turno outro funcionário com o que sobrara da cota da manhã: algumas relações de computador, fichas e mais fichas e alguns carimbos. Era a tarefa a ser cumprida naquele dia. Lá fora, através do vidro fumê, o mundo parecia mais cinzento ainda.
          Saindo à janela, se percebia a Patrulha da Polícia transitando entre o povo, sempre à espreita, sempre à procura de algum contra-revolucionário que se denunciasse por suas atitudes. E apesar da vigilância e das constantes detenções para averiguações de atividades suspeitas, jamais se conseguia exterminar os rebeldes. Eles brotavam da terra e também pareciam estar em toda parte. Todo humano era suspeito em potencial até prova em contrário. Dentro da empresa, a vigilância era exercida pela Patrulha da Inspetoria, que podia aparecer a qualquer momento, em qualquer seção e fazer perguntas a qualquer funcionário ou sócio. Mas Chimite não ligava muito para a Patrulha da Polícia nem para a Patrulha da Inspetoria.
          Terrível mesmo era a Patrulha do Pensamento que vasculhava a todo instante não as ações mas as idéias dos homens. Nas paredes da seção, nos corredores, nos banheiros, nas residências, nos bares, nos postes das ruas mal iluminadas, enfim em toda parte, lá estavam os olhos mágicos da temida patrulha perscrutando a mente de cada indivíduo, sempre em contato direto com o Ministério da Liberdade. Era preciso estar atento, pois ninguém sabia quando os olhos mágicos estavam ligados. E tanto serviam de visor e escuta como para transmitir ordens e instruções de novas invenções adotadas pelo Grande Irmão e pelos governadores. Serviam também para projetar, em telas previamente dispostas nos edifícios e nas ruas, filmes e slides que contavam as vitórias de Prazilândia contra os ataques dos inimigos metalúrgicos e de outros inimigos. B.B.Chimite, sentado em sua banqueta, entregava-se à monotonia do serviço.
          Ao mesmo tempo em que se ocupava com a conferência das fichas que pareciam não ter mais fim ouvia as novas estatísticas transmitidas pelo olho mágico bem à sua frente. Diziam  respeito aos índices de reajuste salarial, negociados pelo Grande Irmão com os seus funcionários, a entrar em vigor a partir do mês de setembro. Justificavam os índices pela baixa margem de lucro da firma no ano anterior, como também pela política de contenção de despesas impostas recentemente pelos governadores de Prazilândia. A expressão facial de B.B.Chimite não denuncia o que se passa em sua mente naquele momento.
          Mas, sem se dar conta do risco que corria, ele viu-se de repente rabiscando repetidas vezes numa folha de anotações em cima da bancada: Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!
(...continua no próximo número)
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Nunsei da Silva: zen

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(Março/1993  Na Moita é um jornaleco ativo porque propositivo)

o japonês
fala inglês

ou fala português?
fala economês

ou nenhum dos três?
quem sabe, talvez,

perca a timidez
e uma vez por mês

na embriaguez
fale japonês.
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Nunsei da Silva e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria deste poemeto.