(O Espelho SP — Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A — Agcen-SP — Ano II — n° 11 — Fevereiro de 1981)
Faltavam mais de dois anos para o sinistro 1984. Era um dia frio e ensolarado do mês de agosto e os relógios estavam prestes a bater treze horas. B.B. Chimite, o queixo fincado no peito, numa tentativa de fugir ao vento impiedoso e sem estampar nenhum prazer no rosto, esgueirou-se rápido pelas enormes portas do Edifício São João; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero. O saguão cheirava à poluição e no capacho um tanto gasto via-se o emblema da empresa.
Algumas colunas pareciam sustentar o teto; numa delas, um cartaz colorido, grande demais, mostrava uma cara descomunal de feições rústicas mas atraentes. Era a foto do Grande Irmão, o fundador Número Um da empresa. Mais à frente, noutra coluna, outro cartaz um pouco menor mas também colorido fazia a propaganda e convocava os funcionários e sócios da firma a adquirirem o carnê CBF, nova invenção dos governadores de Prazilândia. Chimite encaminhou-se diretamente para a escada em forma de caracol.
Inútil esperar o elevador. Dos três existentes, há tempos que somente um funcionava; os outros estavam sempre à espera de conserto. E isso provocava extensas filas, principalmente àquela hora. À boca pequena comentava-se que a empresa estava implantando a nova política de contenção de custos operacionais imposta pelo Grande Irmão que, por sua vez, tinha íntimas ligações com os governadores da "Cidade dos Prazeres". B.B. Chimite foi galgando os degraus.
Um, dois, três andares... Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Parecia segui-lo por toda parte. O Grande Irmão zela por ti, dizia uma legenda logo abaixo. Mais alguns andares e ele alcançou a sua seção.
Dirigiu-se à chapeira, bateu o seu cartão e, cumprimentando os encarregados com um gesto de cabeça acompanhado de um pequeno grunhido, caminhou decidido até sua bancada onde o esperava na troca do turno outro funcionário com o que sobrara da cota da manhã: algumas relações de computador, fichas e mais fichas e alguns carimbos. Era a tarefa a ser cumprida naquele dia. Lá fora, através do vidro fumê, o mundo parecia mais cinzento ainda.
Saindo à janela, se percebia a Patrulha da Polícia transitando entre o povo, sempre à espreita, sempre à procura de algum contra-revolucionário que se denunciasse por suas atitudes. E apesar da vigilância e das constantes detenções para averiguações de atividades suspeitas, jamais se conseguia exterminar os rebeldes. Eles brotavam da terra e também pareciam estar em toda parte. Todo humano era suspeito em potencial até prova em contrário. Dentro da empresa, a vigilância era exercida pela Patrulha da Inspetoria, que podia aparecer a qualquer momento, em qualquer seção e fazer perguntas a qualquer funcionário ou sócio. Mas Chimite não ligava muito para a Patrulha da Polícia nem para a Patrulha da Inspetoria.
Terrível mesmo era a Patrulha do Pensamento que vasculhava a todo instante não as ações mas as idéias dos homens. Nas paredes da seção, nos corredores, nos banheiros, nas residências, nos bares, nos postes das ruas mal iluminadas, enfim em toda parte, lá estavam os olhos mágicos da temida patrulha perscrutando a mente de cada indivíduo, sempre em contato direto com o Ministério da Liberdade. Era preciso estar atento, pois ninguém sabia quando os olhos mágicos estavam ligados. E tanto serviam de visor e escuta como para transmitir ordens e instruções de novas invenções adotadas pelo Grande Irmão e pelos governadores. Serviam também para projetar, em telas previamente dispostas nos edifícios e nas ruas, filmes e slides que contavam as vitórias de Prazilândia contra os ataques dos inimigos metalúrgicos e de outros inimigos. B.B.Chimite, sentado em sua banqueta, entregava-se à monotonia do serviço.
Ao mesmo tempo em que se ocupava com a conferência das fichas que pareciam não ter mais fim ouvia as novas estatísticas transmitidas pelo olho mágico bem à sua frente. Diziam respeito aos índices de reajuste salarial, negociados pelo Grande Irmão com os seus funcionários, a entrar em vigor a partir do mês de setembro. Justificavam os índices pela baixa margem de lucro da firma no ano anterior, como também pela política de contenção de despesas impostas recentemente pelos governadores de Prazilândia. A expressão facial de B.B.Chimite não denuncia o que se passa em sua mente naquele momento.
Mas, sem se dar conta do risco que corria, ele viu-se de repente rabiscando repetidas vezes numa folha de anotações em cima da bancada: Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!
(...continua no próximo número)
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.