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segunda-feira, 6 de novembro de 2023

João de Nictheroy: Café Paris*

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I
Que deseja? Um café? Vira à direita...
Traga-me um copo d’água... rapidez.
E, depressa, na mesa do freguês
Água e café o caixeirinho deita.

E o senhor?... Uma média... Ao longe espreita
O movimento todo de uma vez
O gerente, que alegre se deleita
Ouvindo os versos do Brasil dos Reis.

Nos restaurantes também a freguesia
Come contente em meio da poesia,
Pois o menu em versos é descrito!

Que deseja?... Uma sopa... Só?... A lista
Para escolher um bife futurista,
Mas é depressa, diz o zinho aflito.

II
À mesa do Café, sentado, rindo
No meio de uma roda literária,
René recita uns seios de mulata,
E a roda toda fica besta, ouvindo.

Depois o Gomes Filho os seios mata,
Com outra poesia o lago azul, dormindo
Muito ao longe... depois, Leitão sorrindo,
Descreve a doce vida de um pirata.

Depois Tangerini calmamente,
De improviso recita alegremente
Uma poesia linda como o amor!

A roda fica besta novamente,
Gonzaga então levanta sorridente
E murmura um soneto de valor.

III
Apollo amarra a cara após levanta,
Tosse e suspira e fala altivamente
Um troço, e a roda até se espanta
Julgando Apollo ter perdido a mente.

Olavo Barros suavemente canta
Um soneto de amor, e a roda sente
A sensação desta brutal garganta,
Que Olavo Barros canta suavemente.

E a caixeirada passa atenta, olhando
Para quem abre a boca recitando,
Com tanta inspiração, uma poesia.

Depois... fecha o Café e a Roda sai
E a procissão na rua lenta vai
Para voltar de novo noutro dia!...

(Revista Royal — julho de 1924)

*Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que no capítulo Roda do Café Paris, de Passeio das Letras na Taba de Araribóia, o autor Wanderlino Teixeira Leite Netto registra o seguinte:
     [ . . . ]
     “Como o reduto líteroboêmio fechava por volta da meia-noite, os integrantes da Roda seguiam de bonde para São Francisco e iam terminar a noitada nas mesas do bar do restaurante Lido, que só bem mais tarde encerrava o expediente. Verdadeiro cenáculo ambulante! Lamentavelmente, muito da produção literária desse grupo de boêmios perdeu-se, já que seus integrantes tinham por hábito escrever em papel de embrulhar pão ou no verso do papel prateado de maços de cigarro. A maioria abandonava seus escritos nas mesas do Café Paris ou do Lido, a mercê de uma vassoura iletrada.
     [ . . . ]
     Numa entrevista ao jornal Letras Fluminenses, em setembro de 1952, Kleber de Sá Carvalho assim se pronunciou, relativamente ao movimento:
     A formação da Roda do Café Paris assinalou um período de profunda revolução intelectual nos meios sociais e literários da capital do estado [à época, Niterói era a capital do Rio]. O grupo buscava um lugar ao Sol. Reagia e produzia assaltando salões, invadindo redações, forçando o seu público, impondo o valor de cada um. Metidos no fundo do Café Paris, ali traçavam planos, criavam, escreviam livros, poesias, artigos, páginas de crítica, fundavam jornais e revistas. Ali quebravam literatos de vidro, destruíam culturas suspeitas, fustigavam os conhecimentos de almanaque. Qualquer festa de que participassem constituía acontecimento de significação especial e ponto de atração da sociedade.’ [...]
     Segundo Kleber de Sá Carvalho, muitos livros surgiram nesta época, entre os quais, Oração aos seios, de René Descartes de Medeiros, A costela que me falta, de Mazzini Rubano, Orações profundas, de Roberto Mesquita, Quod seripsi seripsi, de Angelo Eliseu, Vida apertada, de Lili Leitão, Uma porção de mentiras, de José Mayrink de Souza Motta, Ciclo do Sol nascente, de Luís Gomes Filho, Lugares comuns, de Brasil dos Reis, Luzernas e Outono de folhas mortas, ambos de Benjamim Costa.
     Para Kleber de Sá Carvalho, 1922 foi o ano em que a Roda se formou. Já Lourenço Araújo afirmava que, quando começou a frequentar o Café Paris, em 1913, o cenáculo ambulante já existia, fundado em 1898, conforme declarou em entrevista publicada na página literária Artes Fluminenses, de Luís Antônio Pimentel (jornal A Tribuna, 22/23 de agosto de 1976).
     Dos poetas da Roda, Lili Leitão, por sua irreverência, terá sido o mais notório. A fim de amealhar dinheiro para cair na esbórnia, produzia, às vésperas dos festejos carnavalescos, O Almofadinha, formato tablóide, limitado a quatro páginas. Além dos anúncios, em prosa e verso, o jornaleco trazia poesias humorísticas e um sem número de anedotas.
     [ . . . ]
     O tríplice soneto “Café Paris”, publicado na revista Royal em julho de 1924, assinado sob o pseudônimo de João de Nictheroy, possivelmente uma obra conjunta, como era costume ocorrer entre os integrantes da Roda, retrata o ambiente do reduto literoboêmio e faz referência a alguns de seus frequentadores.
     [ . . . ]
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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói — RJ; João de Nictheroy consta como autor deste três sonetos; é possivelmente uma realização conjunta [mais de um autor], conforme relato de Wanderlino Teixeira Leite Netto, escritor deste Passeio das Letras na Taba de Araribóia. [*ver segmento em negrito na nota acima]

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Zé Gamela: Confissão de poeta*


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Escrevo há cinquenta anos
Poesia popular,
Poesia de cordel,
Em modesto versejar,
Sem riqueza de linguagem,
Levando ao povo a mensagem,
Sem pretensão de brilhar.
Escrevo há cinquenta anos
Inspirado no repente.
E usando minha poesia
Vivo na linha de frente,
Contra o sistema impudico
Que torna o homem mais rico
E o pobre mais decadente.
Escrevo há cinquenta anos,
A combater a opressão,
Pondo na minha poesia
Anseios da multidão.
Muito embora perseguido,
Jamais me dei por vencido,
Pois não temo a reação.
A minha poesia é simples,
Mas contém sinceridade.
Falta-lhe o vocabulário
Que se aprende em faculdade.
Com ela canto a beleza
E exalto toda a grandeza
De nossa brasilidade.
É o canto de nossa gente,
A raiz nacionalista,
Que vibra com nosso povo
Na marcha socialista,
Denunciando a opressão
Dos agentes da traição
Em sua voragem entreguista.
Poesia nacional,
Sem interferência estrangeira.
É o canto do camponês
Que exalta a mulher rendeira.
É a poesia da alpercata,
Que sem proferir bravata
Se torna bem brasileira.
É a mensagem inspirada
Nos anseios populares,
Que combate e não aceita
Os nefastos lupanares,
É a poeira das estradas,
É o deslizar das jangadas
Nas ondas dos verdes mares.
Literatura do povo,
Refletindo a grande lida
De um sertão abandonado,
Com sua gente sofrida
Que luta por liberdade,
Fraternidade, igualdade,
Indispensáveis na vida.
Não é poesia de salão
Do mundo intelectual.
É a poesia do repente
Espontâneo e natural.
É mensagem brasileira
De nossa gente guerreira
Com ardor nacional.
Poesia do bumba-meu-boi,
Poesia do pastoril,
Poesia das vaquejadas,
Que com arrojo viril,
Sem a riqueza verbal,
Tem por sublime ideal
Valorizar o Brasil.

* [Zé Gamela traçou este cordel autobiográfico por ocasião do seu cinquentenário como cordelista, conforme Wanderlino Teixeira Leite Netto, no tópico Literatura de cordel deste Passeio das Letras...]

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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói — RJ; de pseudônimo Zé Gamela, ou Divaldo Gomes Ribeiro (1914 2002), baiano de Lençóis, aos 13 anos começou a labutar, “foi quase tudo: garimpeiro, cangaceiro, aprendiz de marinheiro, sargento, carregador de malas, administrador de empresas, jornalista, gerente de hotel, autor, contrarregra”, além de, também desde cedo, ter-se dedicado às artes circenses, ao teatro e à literatura de cordel; assim, Zé Gamela ampliou seus ofícios: foi ator, diretor de teatro e cordelista autor de mais de duas centenas de cordéis; depois de mambembear pelo país afora, chegou em Niterói em 1956, fundou o TET Teatro Experimental do Trabalhador, em parceria com Dety Ribeiro, sua esposa e atriz-vedete, criou e construiu ele próprio oito circos-teatro o Circo Orion, também chamado Pavilhão do Zé Gamela, tendo sido um deles , escreveu e apresentou dezenas de peças, entre as quais as do gênero-revista Rumo ao Ingá, Garotas do Bambolê, O Negócio é Fofoca, Cartões Turísticos de Niterói; com seu circo-teatro itinerante, Zé Gamela e suas apresentações fizeram périplo por diversas cidades, vilas e pequenos povoados; o ator e autor também trabalhou nos circos Garcia, Tihany, Teatro-Show...; Zé Gamela foi preso várias vezes, por suas convicções políticas: mostrava sua indignação contra os opressores e dava voz aos anseios populares através de seus cordéis.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Benjamim Costa: Café Paris


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Café Paris*, à noite. A rede antiga
ali sentava-se a beber cachaça...
Amigo Bento! Como o tempo passa,
mas deixa sempre uma lembrança amiga.

Era o Isaac Cerquinho... que barriga!
E que talento de orador sem jaça!
O Olavo, bonachão, que em rimas traça
Da “Dama loura” a imagem que o fustiga.

Depois vinha o Lili trocadilhista,
O Mazzini, o Mesquita, o Afrânio, em cada
da glória o brilho a refletir na vista...

E os boêmios, de almas quase que infantis,
vão debandando na alta madrugada...
E dorme em sombras o Café Paris.

[soneto escrito em 30.12.1953; publicado em
O Fluminense, 1º de dezembro de 1963,
página literária Prosa e Verso]

*Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que no capítulo Roda do Café Paris, de Passeio das Letras na Taba de Araribóia, o autor Wanderlino Teixeira Leite Netto registra o seguinte:
     [ . . . ]
     “Como o reduto líteroboêmio fechava por volta da meia-noite, os integrantes da Roda seguiam de bonde para São Francisco e iam terminar a noitada nas mesas do bar do restaurante Lido, que só bem mais tarde encerrava o expediente. Verdadeiro cenáculo ambulante! Lamentavelmente, muito da produção literária desse grupo de boêmios perdeu-se, já que seus integrantes tinham por hábito escrever em papel de embrulhar pão ou no verso do papel prateado de maços de cigarro. A maioria abandonava seus escritos nas mesas do Café Paris ou do Lido, a mercê de uma vassoura iletrada.
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     Numa entrevista ao jornal Letras Fluminenses, em setembro de 1952, Kleber de Sá Carvalho assim se pronunciou, relativamente ao movimento:
     ‘A formação da Roda do Café Paris assinalou um período de profunda revolução intelectual nos meios sociais e literários da capital do estado [à época, Niterói era a capital do Rio]. O grupo buscava um lugar ao Sol. Reagia e produzia assaltando salões, invadindo redações, forçando o seu público, impondo o valor de cada um. Metidos no fundo do Café Paris, ali traçavam planos, criavam, escreviam livros, poesias, artigos, páginas de crítica, fundavam jornais e revistas. Ali quebravam literatos de vidro, destruíam culturas suspeitas, fustigavam os conhecimentos de almanaque. Qualquer festa de que participassem constituía acontecimento de significação especial e ponto de atração da sociedade.’ [...]
     Segundo Kleber de Sá Carvalho, muitos livros surgiram nesta época, entre os quais, Oração aos seios, de René Descartes de Medeiros, A costela que me falta, de Mazzini Rubano, Orações profundas, de Roberto Mesquita, Quod seripsi seripsi, de Angelo Eliseu, Vida apertada, de Lili Leitão, Uma porção de mentiras, de José Mayrink de Souza Motta, Ciclo do Sol nascente, de Luís Gomes Filho, Lugares comuns, de Brasil dos Reis, Luzernas e Outono de folhas mortas, ambos de Benjamim Costa.
     Para Kleber de Sá Carvalho, 1922 foi o ano em que a Roda se formou. Já Lourenço Araújo afirmava que, quando começou a frequentar o Café Paris, em 1913, o cenáculo ambulante já existia, fundado em 1898, conforme declarou em entrevista publicada na página literária Artes Fluminenses, de Luís Antônio Pimentel (jornal A Tribuna, 22/23 de agosto de 1976).
     Dos poetas da Roda, Lili Leitão, por sua irreverência, terá sido o mais notório. A fim de amealhar dinheiro para cair na esbórnia, produzia, às vésperas dos festejos carnavalescos, O Almofadinha, formato tablóide, limitado a quatro páginas. Além dos anúncios, em prosa e verso, o jornaleco trazia poesias humorísticas e um sem número de anedotas.”
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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século XX Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói FAN, Niterói RJ; Benjamim Bittencourt Costa (1894 1954), ou Benjamim Costa ou ainda Benjamim da Costa, fluminense e niteroiense, matriculado no Colégio Militar, curso que abandonou no 3º ano para se dedicar por inteiro à carreira das letras, foi poeta, escritor, autor de peças teatrais e litero-boêmio, tendo sido um dos assíduos frequentadores da Roda do Café Paris, de Niterói, espaço aonde poetas, estudantes, jornalistas e outros artífices e apreciadores daquele movimento artístico-literário se concentravam nas tardes e entravam pela noite, arriscavam apresentar e declamar seus versos e outros textos, ali os criando e recriando, ocasião em que recebiam aplausos, vaias, troças, críticas e também eram divulgados em jornais e revistas das duas primeiras décadas do século XX, e até se transformavam em livros; obras do poeta Benjamim: em 1913 publicou as suas Primeiras Canções, depois vieram, também em poesias, Lantejoulas (1914), Luzernas (1922), Estatuetas (1924), Outono de Folhas Mortas (1925), Cacarecos poemetos para crianças (1933), O Poema das Fogueiras e Meu Jordão (ambos em 1936), Canções da Terra Virgem (1948), Sonho e Miragem (1949) e Céu Tropical (1953); Benjamim Costa também produziu peças para teatro, teve várias delas encenadas e algumas radiofonizadas, como Amor de Condenado; inédito, deixou o Teatrinho dos meus bonecos.