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[traduzido por Eugenio Mauro]
[ . . . ]
Ele, cujo saber tudo
transcende,
fez os céus e lhes deu quem os
conduz:
se em toda parte cada parte
esplende
é que igualmente lhes reparte
a luz;
do mesmo modo pra pompa
mundana
designou uma ministra e
deu-lhe jus
de ir permutando a riqueza
profana
de um pra outro sangue, e de
gente em gente,
livre do alcance da cobiça
humana.
Logo, uma gente impera, e
languescente
fica a outra então conforme o
arbítrio dela,
que é oculto como na relva a
serpente.
É vão vosso querer controvertê-la:
em seu reino prevê, julga e
procede
ela só, como, noutro, outro
deus zela.
Sua contínua permutação não
cede;
necessidade o giro lhe
apressura,
assim sempre aparece quem
sucede.
Ela é posta em odiosa
conjuntura —
mesmo por quem mais deveria
louvá-la —
com vã calúnia e infundada
censura;
mas, beata, não ouve a vossa
fala;
co’as outras primas criaturas,
leda
gira sua roda, e sua ventura
embala.
[ . . . ]
(A Divina comédia, São Paulo,
Editora 34, 1998.)
Inferno,
VII, 73 — 96
[ . . . ]
Colui lo cui saver tutto
transcende,
fece li cieli e diè lor chi
conduce
sí, ch’ogne parte ad ogne
parte splende,
distribuendo igualmente la
luce.
Similemente a li splendor
mondani
ordinò general ministra e duce
che permutasse a tempo li ben
vani
di gente in gente e d’uno in
altro sangue,
oltre la difension d’i senni
umani;
per ch’una gente impera e
l’altra langue,
seguendo lo giudicio di
costei,
che è occulto come in erba
l’angue.
Vostro saver non ha contasto a
lei:
questa provede, giudica, e
persegue
suo regno come il loro li
altri dèi.
Le sue permutazion non hanno
triegue;
necessità la fa esser veloce;
sí spesso vien chi vicenda
consegue.
Quest’è colei ch’è tanto posta
in croce
pur da color che le dovrien
dar lode,
dandole biasmo a torto e mala
voce;
ma ella s’è beata e ciò non
ode:
con l’altre prime creature
lieta
volve sua spera e beata si
gode.
[ . . . ]
(La Divina Commedia, Milão,
Ulrico Hoepli, 1987.)
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas]
Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Dante Alighieri
(1265 — 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana,
atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria
e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras:
La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz — provavelmente
Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros
temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio
(prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos
quais pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado
em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia]
ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso,
obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do
poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito
da vida de Dante — educação, família e opiniões — são apenas suposições; desde 1302
e até o final de sua vida, Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas]
fora da então República de Florença e para onde não podia retornar, sob pena de ser
levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações
de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa
e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.