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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Dante Alighieri: Inferno, VII, 73 — 96


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[traduzido por Eugenio Mauro]

[ . . . ]

Ele, cujo saber tudo transcende,
fez os céus e lhes deu quem os conduz:
se em toda parte cada parte esplende

é que igualmente lhes reparte a luz;
do mesmo modo pra pompa mundana
designou uma ministra e deu-lhe jus

de ir permutando a riqueza profana
de um pra outro sangue, e de gente em gente,
livre do alcance da cobiça humana.

Logo, uma gente impera, e languescente
fica a outra então conforme o arbítrio dela,
que é oculto como na relva a serpente.

É vão vosso querer controvertê-la:
em seu reino prevê, julga e procede
ela só, como, noutro, outro deus zela.

Sua contínua permutação não cede;
necessidade o giro lhe apressura,
assim sempre aparece quem sucede.

Ela é posta em odiosa conjuntura
mesmo por quem mais deveria louvá-la
com vã calúnia e infundada censura;

mas, beata, não ouve a vossa fala;
co’as outras primas criaturas, leda
gira sua roda, e sua ventura embala.

[ . . . ]

(A Divina comédia, São Paulo, Editora 34, 1998.)

Dante Alighieri

Inferno, VII, 73 — 96

[ . . . ]

Colui lo cui saver tutto transcende,
fece li cieli e diè lor chi conduce
sí, ch’ogne parte ad ogne parte splende,

distribuendo igualmente la luce.
Similemente a li splendor mondani
ordinò general ministra e duce

che permutasse a tempo li ben vani
di gente in gente e d’uno in altro sangue,
oltre la difension d’i senni umani;

per ch’una gente impera e l’altra langue,
seguendo lo giudicio di costei,
che è occulto come in erba l’angue.

Vostro saver non ha contasto a lei:
questa provede, giudica, e persegue
suo regno come il loro li altri dèi.

Le sue permutazion non hanno triegue;
necessità la fa esser veloce;
sí spesso vien chi vicenda consegue.

Quest’è colei ch’è tanto posta in croce
pur da color che le dovrien dar lode,
dandole biasmo a torto e mala voce;

ma ella s’è beata e ciò non ode:
con l’altre prime creature lieta
volve sua spera e beata si gode.

[ . . . ]

(La Divina Commedia, Milão, Ulrico Hoepli, 1987.)
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos quais pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida, Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença e para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.