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domingo, 25 de julho de 2021

Garção: Ode à Virtude

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Ligado com aspérrimas algemas
        Ao rígido penedo;
Com um agudo cravo de diamante
        O peito traspassado;
Convulso o rosto, e tinto em negro sangue,
        Que brota da ferida,
As sonoras pancadas do martelo,
Com que bate Vulcano
Nas cavernas do Cáucaso retumbam:
        Porém constante e forte
Não geme Prometeu; antes acusa
        A Júpiter de ingrato:
Inocente se julga; à força ímpia
         Não cede do tirano.
Assim, assim, a mísera pobreza,
        A contrária fortuna
Deve imóvel sofrer uma alma grande,
        Ó Sousa esclarecido!
Varra o credor soberbo a pobre casa
        Co desabrido alcaide;
Dorme no duro chão tão descansado,
        Como no leito brando,
O intrépido varão, que do destino
        Prova os fatais revezes.
Coa dourada carroça o mole eunuco
        O pise ou atropele,
Não lhe inveja a riqueza. Que outrem lavre.
Nas ribeiras do Tejo
Cos malhados bezerros longa terra,
        Não lhe acorda a cobiça.
Vente embora do Sul; caindo, açoite
        Ao negro mar que brada,
O pluvial Arcturo; a vara creste
        Do podado bacelo
Espessa chuva de árida saraiva;
        Nada lhe abala o peito.
Enroscada no braço macilento
        A venenosa serpe
Chegue ao seio cruel a triste inveja;
        E a pérfida mentira
Cos titubantes beiços o crimine,
        Rirá no cadafalso.
Só dos delitos pode o vil remorso
        Mudar-lhe a cor serena
Do tranquilo semblante: a mão potente
        De quem o fez só teme.
Os homens não receia, que a virtude
        O coração lhe anima;
E a consciência sã, a fé intacta,
        Os austeros costumes.
Não fantásticas honras isto ensinam.
        Assim douram a morte
Os Uticenses, Régulos, os Mários,
        Apesar do sepulcro.
Sobre as asas do tempo assim passaram
        As letárgicas ondas
Do rio sonolento. Assim c'roado
        De gangéticas palmas,
O destemido Castro n'alta serra,
        Que templo foi de Cíntia,
Retirado vivia; a mão invicta,
        Terror e glória d'Ásia,
Os silvestres arbustos cultivava,
        Subjugando a vaidade.
"Passe à gineta o tímido guerreiro,
        Que com as armas limpas
Da batalha fugiu espavorido;
        Porque do sangue antigo
A árvore apresenta. Ainda que honrado,
O desvalido mostre
As roxas cicatrizes das feridas
        Que sofreu pela pátria,"
Dizia o grande Castro. O lisonjeiro
        Estudando o segredo
De agradecer desprezos, não se afaste
        Da sala do ministro.
Ali dourando o sol os altos montes
        Na madrugada veja;
Ali o deixe a lua, que vermelha
        No horizonte metida,
Estende os frouxos raios pelas ondas;
        Se com pública fraude
Ao miserável órfão a capela
        Subnegar-lhe pretende.
Aspire à beca o julgador iníquo,
Que aos olhos da justiça
Roubou a santa venda, que equilibra
        Nas vendidas balanças
Os dourados delitos. Sofra, e busque
        A vergonhosa cena
Da súbita catástrofe o privado,
        Que o rosto não conhece
Da clara fama, da imortal memória,
        Da honra, e da virtude.
Mas qual Marpézia rocha, um peito forte
        Não roga, não se abate.

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Pedro António Correia Garção (1724 1772), português de Lisboa, também conhecido pelo pseudônimo de Coridon Erimateu, foi poeta e um dos fundadores e presidente da Arcádia Lusitana; escreveu poesias, epístolas, comédias, dissertações e orações em defesa dos novos princípios da língua e da poesia portuguesa, além de duas peças em verso, Teatro Novo e Assembléia ou Partida; foi funcionário do Estado português e trabalhou na Gazeta de Lisboa; por ter-se incompatibilizado com o Marquês de Pombal, foi preso em 1775 e veio a morrer na prisão; suas obras foram publicadas postumamente: Obras Poéticas (1778), Obras Poéticas de P. A. Correia Garção (1888), Obras Completas (1957).

sábado, 7 de março de 2015

Garção: Ode — O Suicídio

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Rompa-se embora do estelante assento
         A máquina lustrosa;
Conspire-se em meu dano a terra toda,
         E a fortuna perversa;
Mil duras portas de pesado ferro
         Sobre mim se aferrolhem;
E agrilhoado ao carro do triunfo
         Me leve algum tirano:
A negra fome, a sórdida penúria
         Vão-me escoltando os passos:
Sobre deserta inabitada praia
         Me ponha a tirania;
Agudos dentes de raivosas feras
         Contra mim se aparelhem:
Risonho, alegre, intrépido, constante
         Me há de ver o universo.
Enquanto em mil pedaços se despenhe,
         E me afogue em ruínas,
Lá sai, lá corre de ignorado mundo
         Um espectro medonho
Mas agradável à romana gente
         E ao Bretano inflexíbil;
Dos heróis divindade: eis o Suicídio,
         O refúgio dos sábios.
Sanguinoso punhal na mão sustenta,
         O escudo da desgraça
Com que se opõe à tirania infame,
         À inveja e à soberba.
Sobre montões de desmembrados corpos,
         Sobre abatidas águias,
Em tristes restos de estandartes rotos
         Entre extintos soldados,
Que em vão a pátria libertar procuram
         Das mãos da tirania,
Lá vejo estar com intrépido semblante
         O magnânimo Bruto,
Que nos sanguíneos campos de Filips
         Fica vencido e roto;
Mas que um triunfo mais altivo e nobre
         Já de si mesmo alcança,
Com que as correntes ríspidas suplanta
         Do ditador soberbo.
Por que Roma não sirva, a César mata;
         Com o mesmo duro ferro,
Por que a César não sirva, expira Bruto.
         Eis como a liberdade
Do tirano e da morte. Bruto alcança
         Nos campos de Filips.
E o gênio tutelar da infeliz pátria,
         Em Útica expirante,
Por que ao duro Pompeu não sirva, morre,
         As faixas despedaça,
Que as f'ridas tampam do sagrado peito:
         Nunca é Catão mais forte!
No quente banho Sêneca expirando
         Vence o pérfido Nero.
Doce refúgio de fatal desgraça,
         Eu te abraço contente;
Tu és meu escudo impenetrável
         Contra empenadas setas,
Que a indigência e a penúria em vão disparam.
         Todos podem a vida
Tirar ao homem na mesquinha terra;
         Ninguém lhe tira a morte.
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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Pedro António Correia Garção (1724  1772), português de Lisboa, também conhecido pelo pseudônimo de Coridon Erimateu, foi poeta e um dos fundadores e presidente da Arcádia Lusitana; escreveu poesias, epístolas, comédias, dissertações e orações em defesa dos novos princípios da língua e da poesia portuguesa; foi funcionário do Estado português e trabalhou na Gazeta de Lisboa; por ter-se incompatibilizado com o Marquês de Pombal, foi preso em 1775 e veio a morrer na prisão; suas obras foram publicadas postumamente: Obras Poéticas (1778), Obras Poéticas de P. A. Correia Garção (1888), Obras Completas (1957).         

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Pedro António Correia Garção: Quem de meus versos a lição procura . . . [soneto]

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Quem de meus versos a lição procura,
Os farpões nunca viu de Amor insano,
Nem sabe quanto custa um vil engano
Traçado pela mão da formosura.

Se o peito não tiver de rocha dura,
Fuja de ouvir contar tamanho dano,
Que a desabrida voz do desengano
O mais firme semblante desfigura.

Olhe, que há de chorar, vendo patente
Em tão funesta e lagrimosa cena
O cadafalso infame e sanguinoso.

Verá levado à morte um inocente;
E condenado à vergonhosa pena
O mais fiel amor, mais generoso.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Pedro António Correia Garção (1724  1772), português de Lisboa, também conhecido pelo pseudônimo de Coridon Erimateu, foi poeta e um dos fundadores e presidente da Arcádia Lusitana; escreveu poesias, epístolas, comédias, dissertações e orações em defesa dos novos princípios da língua e da poesia portuguesa; foi funcionário do Estado português e trabalhou na Gazeta de Lisboa; por ter-se incompatibilizado com o Marquês de Pombal, foi preso em 1775 e veio a morrer na prisão; suas obras foram publicadas postumamente: Obras Poéticas (1778), Obras Poéticas de P. A. Correia Garção (1888), Obras Completas (1957).