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[traduzido por Heloisa Jahn]
Tu também me cais muito bem,
Malgrado o jeitão meio rude
Não o deu uma mulher severa:
Mas de uma virago assumida.
É, tu me serves, muito embora
Com voz de homem gargarejes
Engrolações de beberrona,
Já que não paras de beber!
Mas mulher! Ah, juro por Deus!
De deixar a gente bem louco,
De fazer de tudo uma festa
A botar o sangue fervendo.
Teu corpo espeta o pano preto
— e se vê bem que não é truque —
Com um farto par de peitos duros,
Flexíveis, um tesão, só vendo!
E molda um ventre que se alonga
Até as coxas: dois pitéus.
Alguém lembrou molho, tempero,
Pra certo peixe em certa ceia?
As meias brancas — parabéns
Por usares roupas discretas —
Nos deixam algo exorbitados:
Como balançam essas pernas!
Há no teu semblante moreno
Vestígios de graves fadigas:
Qualquer um vê que na labuta
Preferes os mais equipados.
E esse olhar astucioso
Que se umedece e umidifica,
Onde a ralé toda pulula
Inocente mas destemida,
Teu jeito todo — desde os pés,
Que se inclinam pra todo abraço,
O rosto rebocado, as mechas
Tingidas, que vemos de perto —
Recarrega as pilhas usadas
E a juventude do pedaço,
À qual logo nos integramos,
Com estertores de fantoches,
Um bando de pobres coitados
Afanosos ao teu redor
Cheirando a carne como sopa,
Pronta a gemer sob os teus pés!
Sem vacilar, tu nos destroças,
Mas, paciente com nossos restos,
Aproveitas palavras, gestos,
Em receitas imaginosas.
Depois, embora sejas má,
Tens conosco tanta indulgência!
Tu, danada de ruim com a corja,
Dás um jeito e a coisa marcha!
Tu nos abocanhas (ou dizes)
Não por prazer, sua vampira,
Mas pra gente ficar por dentro
Ao menos de certas gracinhas.
Nós cumprimos nossas tarefas
Porque no fundo nos violas
Pronta a gozar das nossas fuças
Com um amante mais novinho.
Filles II
Et toi, tu me chausses aussi,
Malgré ta manière un peu rude
Qui n’est pas celle d’une prude
Mais d’un virago réussi.
Qui, tu me bottes, quoique tu
Gargarises dans ta voix d’homme
Toutes les gammes de rogomme,
Buveuse à coude rabattu!
Mais femme! sacré nom de Dieu!
À nous faire perdre la tête,
Nous foutre tout le reste en fête
Et, nom de Dieu, le sang en feu.
Ton corps dresse, sous le reps
noir,
Sans qu’assurément tu nous triches,
Une paire de nénais riches
Souples, durs, excitants, faut voir!
Et moule un ventre jusqu’au bas
Entre deux friands haut-de-cuisse,
Qui parle de sauce et d’épice
Pour quel poisson de quel repas?
Tes bas blancs — et je t’applaudis
De n’arlequiner point des formes —
Nous font ouvrir des yeux énormes
Sur des mollets que rebondis!
Ton visage de brune où les
Traces de robustes fatigues
Marquent clairement que tu briques
Surtout le choc des mieux râblés,
Ton regard ficelle et gobeur
Qui sait se mouiller puis qui
mouille,
Où toute la godaille grouille
Sans reproche, ô non! mais sans
peur,
Toute ta figure — des pieds
Cambrés vers toutes les étreintes
Aux traits crépis, aux mèches
teintes,
Par nos longs baisers épiés —
Ravigote les roquentins,
Et les ci-devant jeunes hommes
Que voilà bientôt que nous sommes,
Nous électrise en vieux pantins,
Fait de nous de vrais bacheliers,
Empressés autour de ta croupe,
Humant la chair comme une soupe,
Prêts à râler sous tes souliers!
Tu nous mets bientôt à quia,
Mais, patiente avec nos restes,
Les accommodes, mots et gestes,
En ragoûts où de tout y a.
Et puis, quoique mauvaise au fond,
Tu nous as de ces indulgences!
Toi, si teigne entre les engeances,
Tu fais tant que les choses vont.
Tu nous gobes (ou nous le dis)
Non de te satisfaire, ô goule!
Mais de nous tenir à la coule
D’au moins les trucs les plus
gentils.
Ces devoirs nous les déchargeons,
Parce qu’au fond tu nous violes,
Quitte à te ficher de nos fioles
Avec de plus jeunes cochons.
[Femmes — 1890]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, edição bilíngue, Apresentação,
Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985,
Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 — 1896), francês
nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris,
trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado
inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura
francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos
poetas de sua época e de seu convívio — Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry,
... —, grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções
poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles
ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto
Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele
novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens
(1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances
Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement
(1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq
(1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893),
Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté,
participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental
amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado
e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo,
vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.