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quarta-feira, 16 de abril de 2025

Paul Verlaine: Putas II


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Tu também me cais muito bem,
Malgrado o jeitão meio rude
Não o deu uma mulher severa:
Mas de uma virago assumida.

É, tu me serves, muito embora
Com voz de homem gargarejes
Engrolações de beberrona,
Já que não paras de beber!

Mas mulher! Ah, juro por Deus!
De deixar a gente bem louco,
De fazer de tudo uma festa
A botar o sangue fervendo.

Teu corpo espeta o pano preto
e se vê bem que não é truque
Com um farto par de peitos duros,
Flexíveis, um tesão, só vendo!

E molda um ventre que se alonga
Até as coxas: dois pitéus.
Alguém lembrou molho, tempero,
Pra certo peixe em certa ceia?

As meias brancas parabéns
Por usares roupas discretas
Nos deixam algo exorbitados:
Como balançam essas pernas!

Há no teu semblante moreno
Vestígios de graves fadigas:
Qualquer um vê que na labuta
Preferes os mais equipados.

E esse olhar astucioso
Que se umedece e umidifica,
Onde a ralé toda pulula
Inocente mas destemida,

Teu jeito todo desde os pés,
Que se inclinam pra todo abraço,
O rosto rebocado, as mechas
Tingidas, que vemos de perto

Recarrega as pilhas usadas
E a juventude do pedaço,
À qual logo nos integramos,
Com estertores de fantoches,

Um bando de pobres coitados
Afanosos ao teu redor
Cheirando a carne como sopa,
Pronta a gemer sob os teus pés!

Sem vacilar, tu nos destroças,
Mas, paciente com nossos restos,
Aproveitas palavras, gestos,
Em receitas imaginosas.

Depois, embora sejas má,
Tens conosco tanta indulgência!
Tu, danada de ruim com a corja,
Dás um jeito e a coisa marcha!

Tu nos abocanhas (ou dizes)
Não por prazer, sua vampira,
Mas pra gente ficar por dentro
Ao menos de certas gracinhas.

Nós cumprimos nossas tarefas
Porque no fundo nos violas
Pronta a gozar das nossas fuças
Com um amante mais novinho.

Paul Verlaine

Filles II

Et toi, tu me chausses aussi,
Malgré ta manière un peu rude
Qui n’est pas celle d’une prude
Mais d’un virago réussi.

Qui, tu me bottes, quoique tu
Gargarises dans ta voix d’homme
Toutes les gammes de rogomme,
Buveuse à coude rabattu!

Mais femme! sacré nom de Dieu!
À nous faire perdre la tête,
Nous foutre tout le reste en fête
Et, nom de Dieu, le sang en feu.

Ton corps dresse, sous le reps noir,
Sans qu’assurément tu nous triches,
Une paire de nénais riches
Souples, durs, excitants, faut voir!

Et moule un ventre jusqu’au bas
Entre deux friands haut-de-cuisse,
Qui parle de sauce et d’épice
Pour quel poisson de quel repas?

Tes bas blancs et je t’applaudis
De n’arlequiner point des formes
Nous font ouvrir des yeux énormes
Sur des mollets que rebondis!

Ton visage de brune où les
Traces de robustes fatigues
Marquent clairement que tu briques
Surtout le choc des mieux râblés,

Ton regard ficelle et gobeur
Qui sait se mouiller puis qui mouille,
Où toute la godaille grouille
Sans reproche, ô non! mais sans peur,

Toute ta figure des pieds
Cambrés vers toutes les étreintes
Aux traits crépis, aux mèches teintes,
Par nos longs baisers épiés

Ravigote les roquentins,
Et les ci-devant jeunes hommes
Que voilà bientôt que nous sommes,
Nous électrise en vieux pantins,

Fait de nous de vrais bacheliers,
Empressés autour de ta croupe,
Humant la chair comme une soupe,
Prêts à râler sous tes souliers!

Tu nous mets bientôt à quia,
Mais, patiente avec nos restes,
Les accommodes, mots et gestes,
En ragoûts où de tout y a.

Et puis, quoique mauvaise au fond,
Tu nous as de ces indulgences!
Toi, si teigne entre les engeances,
Tu fais tant que les choses vont.

Tu nous gobes (ou nous le dis)
Non de te satisfaire, ô goule!
Mais de nous tenir à la coule
D’au moins les trucs les plus gentils.

Ces devoirs nous les déchargeons,
Parce qu’au fond tu nous violes,
Quitte à te ficher de nos fioles
Avec de plus jeunes cochons.

[Femmes — 1890]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, edição bilíngue, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Paul Verlaine: Costas


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[traduzido por Heloisa Jahn]

À noite vi duas mulheres das mais finas.
A cena era num baile, as coisas que se sonha!
Uma das duas magra, loura, um olho azul,
Um negro, e o olhar desiludido que nos fixa.

A outra morena, olhar matreiro enganador
Seis alegremente oferecidos, dignos
De algum semideus! As duas mulheres tinham,
Ocultos pelo farfalhar de seus vestidos,

Torsos belíssimos, doidos de excitação
Aos quais, se falassem, mais nada faltaria:
Retaguarda régia nas lutas do prazer.

E essas Senhoras da mais alta sociedade
Tentavam empenhar o elã de meu desejo,
Sem poder compreender a minha indiferença.

Paul Verlaine

Lombes

Deux femmes des mieux m'ont apparu cette nuit.
Mon rêve était au bal, je vous demande un peu!
L'une d'entre elles maigre assez, blonde, un œil bleu,
Un noir et ce regard mécréant qui poursuit.

L'autre, brune au regard sournois qui flatte et nuit,
Seins joyeux d'être vus, dignes d'un demi-dieu!
Et toutes deux avaient, pour rappeler le jeu
De la main chaude, sous la traîne qui bruit,

Des bas de dos très beaux et d'une gaîté folle
Auxquels il ne manquait vraiment que la parole,
Royale arrière-garde aux combats du plaisir.

Et ces Dames scrutez l'armorial de France
S'efforçaient d'entamer l'orgueil de mon désir,
Et n'en revenaient pas de mon indifférence.

[Parallèlement — 1889]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Paul Verlaine: Moral abreviada


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha ocupada com quê?
Amor o sabe expondo aos deuses a epopeia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da Beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!

Paul Verlaine

Morale en raccourci

Une tête de blonde et de grâce pâmée,
Sous un cou roucouleur de beaux tétons bandants,
Et leur médaillon sombre à la mamme enflammée,
Ce buste assis sur des coussins bas, cependant
Qu’entre deux jambes, très vibrantes, très en l’air,
Une femme à genoux vers quels soins occupée 
Amour le sait ne montre aux dieux que l’épopée
Candide de son cul splendide, miroir clair
De la Beauté qui veut s’y voir afin d’y croire.
Cul féminin, vainqueur serein du cul viril,
Fût-il éphébéen, fût-il puéril.
Cul féminin, cul sur tous culs, los, culte et gloire!

[Femmes — 1890]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Paul Verlaine: A estudante

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[traduzido por Heloisa Jahn]

Vou-te ensinar, minha querida
Coisas que pouco te importavam
Antes de agora, que palpita
Teu corpo lindo nos meus braços

De deus. Tão branca e delicada,
Lembras a neve, a açucena;
Teu seio, de veias hortênsia
Se alça em dois arcos perfeitos;

E tua boca, rosa rara,
Chama meus beijos orgulhosos;
Mas sob a dobra de tua roupa
Ri um outro beijo, inda mais caro...

Hás de ir, de estudante tola
 tenho certeza e te garanto ,
Rapidamente a bacharel
Na arte de amar os bons momentos.

Paul Verlaine

L’écolière

Je t’apprendrai, chère petite,
Ce qu’il te fallait savoir peu
Jusqu’à ce présent où palpite
Ton beau corps dans mes bras de dieu.

Ta chair, si délicate, est blanche,
Telle la neige et tel le lys,
Ton sein aux veines de pervenche
Se dresse en deux arcs accomplis;

Quant à ta bouche, rose exquise,
Elle appelle mon baiser fier;
Mais sous le pli de la chemise,
Rit un baiser encor plus cher...

Tu passeras, d’humble écolière,
J’en suis sûr et je t’en réponds,
Bien vite au rang de bachelière
Dans l’art d’aimer les instants bons.
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Paul Verlaine: Poema saturnino


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Foi gozado, o diabo acho que amou.
O dia quente me deixou tonto.
Essa cantora era um disparate:
Que coisas ela desembuchou!

Era um piano, muita fumaça,
Havia lâmpadas de petróleo,
Eu acho estava meio alterado ,
O que dizia eu ouvia trocado!

Eu acho tinha os sentidos tortos,
E os humores atrapalhados.
Ah, melodias dos cabarés
Que se confundem na mente incerta!

Pelas biroscas e casaredos
Perambulei enchendo a cara.
Três rapazinhos com olhos tríbades
Só me encaravam, fazendo troça.

Fui depois vaiado pelos tais
Manifestamente, na estação;
Corri com eles tão vorazmente
Que nessa quase engulo o cigarro.

Volto para casa. Uma voz cochicha,
Um passo me segue. Quem seria?
E me roçaram. Noite pirada!
E pronto: nasce a manhã esquisita.

Paul Verlaine

Poéme saturnien

Ce fut bizarre et Satan dut rire.
Ce jour d'été m'avait tout soûlé.
Quelle chanteuse impossible à dire
Et tout ce qu'elle a débagoulé!

Ce piano dans trop de fumée
Sous des suspensions à pétrole!
Je crois, j'avais la bile enflammée,
J'entendais de travers ma parole.

Je crois, mes sens étaient à l'envers,
Ma bile avait des bouillons fantasques.
Ô les refrains de cafés-concerts,
Faussés par le plus plâtré des masques!

Dans des troquets comme en ces bourgades,
J'avais rôdé, suçant peu de glace.
Trois galopins aux yeux de tribades
Dévisageaient sans fin ma grimace.

Je fus hué manifestement
Par ces voyous, non loin de la gare,
Et les engueulai si goulûment
Que j'en faillis gober mon cigare.

Je rentre: une voix à mon oreille,
Un pas fantôme. Aucun ou personne?
On m'a frôlé.  La nuit sans pareille!
Ah! l'heure d'un réveil drôle sonne.

[Parallèlement — 1889]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Paul Verlaine: No baile


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Sonho com coxas de mulher
E lá no alto, céu e teto,
Os cus e sexos dessas damas,
Maravilhosos, vêm e vão

Sob suas saias coloridas
Num ritmo amável e sacana;
Aqueles cus têm cada fenda,
Cada pelego essas bucetas!

Meias brancas nas pernas firmes,
Encantadoras, excitantes,
E mais em cima, oferecida,
Ali pendente, uma armadilha;

Umas botinas bem macias
Moldam pés do tamanho exato,
Passam dançando na cadência
Em passos vivos, algo lassos.

Mesclado aos perfumes de pele
Passa e gira alegre e mole,
O odor de um suor especial
Que ao mesmo tempo é bom e não,

Cheiro de cu, de porra e mijo,
De sexo, virilha e de pé
Que nos deixa a cabeça zonza
(A dos judeus não tem boné).

Vejam que bem situado estou
Neste baile sensacional:
Estou deitado, mas meu corpo
Parece ser apropriado

À ecolução das dançarinas,
Que quando passam sobre mim,
Capricham no seu rodopio
Somente para me provocar.

E isso, coisa extraordinária,
Por um milagre inexplicável,
Sem me machucar, ao contrário!
A sensação é bem gostosa.

São uns quinhentos mil pezinhos
Me roçando e fazendo cócegas
Nas minhas pernas e culhões,
No ventre, no pau e na glande!

A música se cala e as danças
Cessam. Logo em seguida os glúteos
Vão recompor os seus encantos.
Meu Deus! Um deles se assentou

Justamente sobre meu rosto!
Minha língua entre os dois buracos
Divinos, vai de porta em porta
Em busca dos petiscos raros.

Todas as bundas, uma a uma,
Vão me trazendo, generosas,
Cada qual com o estilo próprio,
Esse banquete divinal!

Então desperto, me belisco;
Sou eu, de pulso disparado...
Que os pariu, pena que era sonho!
Que os pariu, puta merda e fim!

Paul Verlaine

Au bal

Un rêve de cuisses de femmes
Ayant pour ciel et pour plafond
Les culs et les cons de ces dames
Très beaux, qui viennent et qui vont.

Dans un ballon de jupes gaies
Sur des airs gentils et cochons;
Et les culs vous ont de ces raies,
Et les cons vous ont des manchons!

Des bas blancs sur quels mollets fermes
Si rieurs et si bandatifs
Avec, en haut, sans fins, ni termes,
Ce train d’appâts en pendentifs,

Et des bottines bien cambrées
Moulant des pieds grands juste assez
Mènent des danses mesurées
En pas vifs, comme un peu lassés.

Une sueur particulière.
Sentant à la fois bon et pas,
Foutre et mouille, et trouduculière,
Et haut de cuisse, et bas de bas,

Flotte et vire, joyeuse et molle,
Mêlée à des parfums de peau
A nous rendre la tête folle
Que les youtres ont sans chapeau.

Notez combien bonne ma place
Se trouve dans ce bal charmant:
Je suis par terre, et ma surface
Semble propice apparemment

Aux appétissantes danseuses
Qui veulent bien, on dirait pour
Telles intentions farceuses,
Tournoyer sur moi, quand mon tour,

Ce, par un extraordinaire
Privilège en elles ou moi,
Sans me faire mal, au contraire!
Car l’aimable, le doux émoi

Que ces cinq cent mille chatouilles
De petons vous caracolant
A même les jambes, les couilles,
Le ventre, la queue et le gland!

Les chants se taisent et les danses
Cessent. Aussitôt les fessiers
De mettre au pas leurs charmes denses,
Ô ciel! l’un d’entre eux, tu t’assieds

Juste sur ma face, de sorte
Que ma langue entre les deux trous
Divins, vague de porte en porte
Au pourchas de riches ragoûts.

Tous les derrières à la file
S’en viennent généreusement
M’apporter, chacun en son style,
Ce vrai banquet d’un vrai gourmand.

Je me réveille, je me touche;
C’est bien moi, le pouls au galop…
Le nom de Dieu de fausse couche!
Le nom de Dieu de vrai salop!

Femmes — 1890
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

domingo, 11 de junho de 2023

Paul Verlaine: Putas I


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Prostituta bondosa e simples,
Eu te prefiro às vagabundas

Que atravancam as calçadas
Com as caudas, onde limpo os pés.

Dondocas burras e afetadas
Só se interessam por vestidos,

Compras, corridas de cavalo,
Flagelos que infestam Paris!

Tu não: és amigo do peito
Que com a noite é promovido

E que até mesmo entre os lençóis
Conserva um jeito masculino,

Minha amante sem cerimônia,
Através da mulher volúvel

Que tens de ser às vezes para
Seduzir-me, vejo a amiga.

É, tu tens umas maneiras
Tão falazmente varonis

Que a sensação é de pecado
(Perdoado, pois bem escondido),

Só que tens um traseiro branco,
Braços roliços, ancas largas,

E substituis o que te falta
Por tantas graças ortodoxas.

É um amigo, de tão boa,
Sempre disposta e decidida

Quando alguém precisa uma força
Mesmo dando teu dinheirinho,

Mesmo dobrando a faina ingrata,
Mesmo empenhando teus lençóis!

Também tiveste tuas desgraças,
Teu choro vale bem o nosso,

E o teu choro, unido ao nosso
Tem seu tesão, tem seu encanto.

E dessa piedade com que
Nos brindas, sobe uma virtude.

És um irmão que é uma dama,
E, no momento, minha mulher...

Durmamos até o sol raiar
Gatinha, enrolados, rom rom!

Vem pra cá, do jeito que gosto,
Barriga contra tua coluna,

Joelhos dobrados contra os teus,
Entre os meus, teus pés de criança.

Sob a camisa, ajeita o rabo
Sem tirar minhas mãos, que pus

Em teu matinho, pra esquentar.
Assim! Que bom, bem encaixados.

É uma trégua, não o armistício.
Dormindo? Sim. Sem pesadelos.

E eu, num arrepio bom, cochilo,
Com o nariz entre teus cachinhos.

Paul Verlaine

Filles I

Bonne simple fille des rues
Combien te préféré-je aux grues

Qui nous encombrent le trottoir
De leur traîne, mon décrottoir,

Poseuses et bêtes poupées
Rien que de chiffons occupées

Ou de courses et de paris
Fléaux déchaînés sur Paris!

Toi, tu m’es un vrai camarade
Qui la nuit monterait en grade.

Et même dans les draps câlins
Garderait des airs masculins,

Amante à la bonne franquette,
L’amie à travers la coquete

Qu’il te faut bien être un petit
Pour agacer mon appétit.

Oui, tu possèdes des manières
Si farceusement garçonnières

Qu’on croit presque faire un péché
(Pardonné puisqu’il est caché),

Sinon que t’as les fesses blanches,
De frais bras ronds et d’amples hanches

Et remplaces ce que n’as pas
Par tant d’orthodoxes appas.

T’es un copain tant t’es bonne âme.
Tant t’es toujours tout feu, tout flamme

S’il s’agit d’obliger les gens
Fût-ce avec tes pauvres argents

Jusqu’à doubler ta rude ouvrage,
Jusqu’à mettre du linge en gage!

Comme nous t’as eu des malheurs
Et tes larmes valent nos pleurs,

Et tes pleurs mêlés à nos larmes
Ont leurs salaces et leurs charmes.

Et de cette pitié que tu
Nous portes sort une vertu.

T’es un frère qu’est une dame
Et qu’est pour le moment ma femme…

Bon! Puis dormons jusqu’à potron-
Minette, en boule et ron, ron, ron!

Serre-toi que je m’acoquine
Le ventre au bas de ton échine,

Mes genoux emboîtant les tiens,
Tes pieds de gosse entre les miens.

Roule ton cul sous ta chemise,
Mais laisse ma main que j’ai mise

Au chaud sous ton gentil tapis.
Là! Nous voilà cois, bien tapis.

Ce n’est pas la paix, c’est la trêve.
Tu dors? Oui. Pas de mauvais rêve.

Et je somnole en gais frissons,
Le nez pâmé sur tes frissons.

[Femmes — 1890]
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.