____________________
Embora de teus lábios afastada
(Que importa? — Tua boca está
vazia...)
beijo esses beijos com que fui
beijada,
beijo teus beijos, numa nova orgia.
Inda
conservo a carne deliciada
pela tua
carícia que mordia,
que me
enflorava a pele, pois, em cada
beijo dos
teus uma saudade abria.
Teus
beijos absorvi-os, esgotei-os:
guardo-os
nas mãos, nos lábios e nos seios,
numa
volúpia imorredoura e louca.
Em teus
momentos de lubricidade,
beijarás
outros lábios, com saudade
dos
beijos que roubei de tua boca.
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco
de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987,
Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Gilka da Costa Melo Machado (1893
— 1980), nascida no Rio de Janeiro — RJ, vinda de uma família de artistas, também
trazia a arte nas veias, foi poetisa do simbolismo, feminista e sufragista; desde
criança fazia versos, “com seus 13 para 14 anos ela venceu
um concurso promovido pelo jornal A Imprensa, tendo conquistado não apenas o primeiro,
mas também o segundo e o terceiro lugar com seus poemas (poemas quais foram assinados
com seu nome e com pseudônimo)”; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915),
A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu
Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu
Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); a respeito da poetisa,
o crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos comenta que “foi a maior figura
feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros
capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma.”; Gilka Machado foi pioneira no uso
do erótico na poesia feminina brasileira, e, como feminista e sufragista, fez parte
do grupo de mulheres que, ao lado de Bertha Lutz, criaram o Partido Republicano
Feminino no ano de 1910 e no qual lutavam prioritariamente “pelo direito da mulher
em votar”; recebeu premiações por sua obra: Revista O Malho (1933) e Academia Brasileira
de Letras — Prêmio Machado de Assis (1979).

.jpg)



