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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Gilka Machado: Embora de teus lábios afastada . . . [soneto]

 
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Embora de teus lábios afastada
(Que importa?  Tua boca está vazia...)
beijo esses beijos com que fui beijada,
beijo teus beijos, numa nova orgia.

Inda conservo a carne deliciada
pela tua carícia que mordia,
que me enflorava a pele, pois, em cada
beijo dos teus uma saudade abria.

Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:
guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,
numa volúpia imorredoura e louca.

Em teus momentos de lubricidade,
beijarás outros lábios, com saudade
dos beijos que roubei de tua boca.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de uma família de artistas, também trazia a arte nas veias, foi poetisa do simbolismo, feminista e sufragista; desde criança fazia versos, “com seus 13 para 14 anos ela venceu um concurso promovido pelo jornal A Imprensa, tendo conquistado não apenas o primeiro, mas também o segundo e o terceiro lugar com seus poemas (poemas quais foram assinados com seu nome e com pseudônimo)”; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); a respeito da poetisa, o crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos comenta que “foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma.”; Gilka Machado foi pioneira no uso do erótico na poesia feminina brasileira, e, como feminista e sufragista, fez parte do grupo de mulheres que, ao lado de Bertha Lutz, criaram o Partido Republicano Feminino no ano de 1910 e no qual lutavam prioritariamente “pelo direito da mulher em votar”; recebeu premiações por sua obra: Revista O Malho (1933) e Academia Brasileira de Letras Prêmio Machado de Assis (1979).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Gilka Machado: Ironia do mar

Resultado de imagem para Inspirados Sonetos de autores brasileiros e portugueses
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Soa um grito de dor... e o detono de uma onda,
Sinistramente vai repercutindo pelos
Longes do ar... De onde veio a voz o ouvido sonda
E, em vão, busco escutar do náufrago os apelos.

E o truculento Mar sinistramente estronda,
Ruge, regouga, rola, espuma em rodopelos...
Talvez porque nesta hora algum tesouro esconda,
Cada vez mais feroz se arrepia de zelos.

Para a presa reter, muralhas de esmeralda
Ergue e num riso atroz de realizado gozo,
Veste-a de rendas mil, de flores a engrinalda.

Move a cabeça informe, as longas cãs balança,
E, alçando a larga mão, num gesto vitorioso,
Mostra cinicamente um cadáver de criança.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Seleção e Organização de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Gilka da Costa Melo Machado (1893  1980), carioca, vinda de numa família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais Partidos  (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); a respeito da poeta, o crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos comenta que “foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma.”; Gilka Machado foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Gilka Machado: Amei o amor, ansiei o amor, sonhei-o . . . [soneto]

Bandeira, Manoel. (org) - Obras-primas Da Lírica Brasileira - R ...
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Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o
uma vez, outra vez (sonhos insanos)!...
e desespero haja maior não creio
que o da esperança dos primeiros anos.

Guardo nas mãos, nos lábios guardo em meio
do meu silêncio, aquém de olhos profanos,
carícias virgens, para quem não veio
e não virá saber dos meus arcanos.

Desilusão tristíssima, de cada
momento, infausta e imerecida sorte
de ansiar o Amor e nunca ser amada!

Meu beijo intenso e meu abraço forte,
com que pesar penetrareis o Nada,
levando tanta vida para a Morte...

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de numa família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

domingo, 25 de outubro de 2015

Gilka Machado: Ser Mulher . . .

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Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
 
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
 
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

1915  Cristais Partidos

GILKA MACHADO

Nota da edição:
A CONDIÇÃO SOCIAL DA MULHER – A aspiração de liberdade da mulher choca-se com os “preceitos sociais”, que não permitem que ela desenvolva vôo existencial próprio. Esse é um dos poemas reivindicatórios que servem de paradigma para a literatura feminina brasileira.
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Cadernos Poesia Brasileira 5 — Parnasianismo/Simbolismo, Prefácio de Benjamin Abdala Junior, 1997, Instituto Cultural Itaú, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro RJ, vinda de numa família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Gilka Machado: Na plena solidão . . . [soneto]

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Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.

Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua...

 sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...

E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!



Nota do Organizador:
Dizia Medeiros e Albuquerque que em Gilka Machado  “o que predomina é essa nota de sensualidade clamada e proclamada de verso em verso”.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro  RJ, vinda de uma família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e Alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

domingo, 18 de março de 2012

Gilka Machado: Íntimos

 
A Cândida Muniz Barreto da Costa
Minha avozinha, minha avozinha,
hoje quão longe de mim tu estás!
Que linda Mágoa se me avizinha
e me recorda os primaverais
dias vividos na infância minha,
dias que nunca voltarão mais.

E, dessa estância de meu Passado,
só tu perduras por sobre as ruínas,
e erguendo o vulto eterno e amado
toda a povoas, toda a iluminas.
Ah! como é doce ao meu ser magoado
essa lembrança que lhe propinas!

É que na fase da minha infância,
me foste sempre qual protetor
anjo que, sobre o meu mal, minha ânsia,
asas abria de nívea cor;
e inda hoje, ausente, posta a distância,
lanças-me o pálio do teu amor.

Mesmo da infância pelos caminhos
tive os acúleos dos dissabores,
transpus misérias, transpus maninhos
desertos negros e aterradores,
que tu, cuidosa, com teus carinhos,
alcatifavas de olentes flores.

Sempre do gozo para a ansiedade
aos lábios tive da dor o fel,
pois desde a minha mais tenra idade,
foi-me o destino triste e revel;
e só na tua doce bondade
achei na vida um pouco de mel.

Os meus momentos mais enfadonhos
por ti me foram sempre alegrados;
os desenganos tredos, medonhos,
de mim buscavas ter afastados,
acalentando meus pobres sonhos
a rede de ouro dos teus cuidados.

E, recordando aquelas antigas
noites, passadas no nosso lar,
em que vencida pelas fadigas,
ia ao teu colo me aconchegar,
escuto aquelas velhas cantigas
que tu cantavas a me embalar.

Hoje, que o ser trago envelhecido
pela tortura, pelo cansaço,
e em vão abrigo busco ao vencido
corpo, que sinto morrente e lasso,
punge-me a dor de não ter morrido
no fofo leito do teu regaço.
Cristais  partidos (1915)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Pré-Modernismo, Seleção e Prefácio de Alexei Bueno, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Gilka Machado (1893    1980), nascida no Rio de Janeiro  RJ, vinda de uma família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de alma (1917), Mulher nua (1922),  Meu glorioso pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e alma (1938), O meu rosto (1947), Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987).