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sábado, 11 de abril de 2026

Luis de Góngora: Enquanto, a competir com teu cabelo, . . . [soneto]

 
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[traduzido por Delson Tarlé]

Enquanto, a competir com teu cabelo,
o ouro brunido ao Sol reluz em vão
e, pálido de inveja, quedo ao chão,
perde-se a contemplar-se o lírio belo,

e o rubro de teus lábios deixa em zelo
mais olhos do que o cravo temporão,
e o colo altivo traz um ar loução
como o cristal luzente aspira tê-lo;

goza lábios, cabelo, colo albente,
antes que tudo, em tua idade alada
ouro, lírio, cristal, cravo rubente

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora

Mientras por competir con tu cabello, . . .

13 — 1582

      Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano,
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

      mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano,
y mientras triunfa con desdén Lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

      goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fué en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

      no sólo en plata o víola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol e cordobês, estudou no Colegio de la Compañía de Jesús de Córdoba, foi poeta do período barroco, dramaturgo e padre; foi/é considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca, matriculou-se em Cânones, ordenou-se sacerdote; sabia latim, lia italiano e português; desde 1580, o ambiente literário da época já reconhecia Gôngora, mencionava-o e citava parte dos textos gongorianos, reproduzindo soneto em obra de outro literato; em 1603, em Valladolid, Gôngora teve “incansável carreira como poeta da nobreza e da realeza”, em 1605, já em Córdoba, seus poemas compuseram a antologia Flores de Poetas Ilustres; andejou por Madrid, Alcalá, Álava, Pontevedra, Granada, sempre expondo seus poemas e criando outros; em 1617, já poeta renomado, ordenou-se padre, tinha 56 anos de idade, assumiu o cargo de Capelão Real em Madrid e também foi cônego da Catedral de Córdoba; consta de sua biografia que, em vida, o poeta não publicou nenhum livro, suas poesias circularam em manuscritos; antologias publicadas no século XX foram baseadas no “manuscrito Chacón ([3 tomos], 1625-1628)”, feito/compilado por dom Antonio Chacón [y Ponce de Léon], amigo de Góngora; obra poética (“94 romances, 121 ‘letrillas’ e outras composições de ‘arte menor’, 167 sonetos, 33 composições de ‘arte maior’ e 3 poemas longos): Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (longo poema “de estilo elevado”, 1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais: Las finezas de Isabela e El doctor Carlino; quase sempre o poeta passou por dificuldades e “angústias” financeiras, particularmente na velhice quando, doente, se viu “incapaz até mesmo de segurar a pena”; no ambiente literário, conviveu e rivalizou com os também poetas e dramaturgos Francisco de Quevedo (1580 1645) e Lope de Vega (1562 — 1635).

sábado, 7 de maio de 2016

D. Francisco de Quevedo: A morte

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[traduzido por Delson Tarlé]

Por entre minhas mãos como resvalas,
minha idade, enganosa, fugidia!
Que mudos passos tens, ó Morte fria,
pois com pé silencioso tudo igualas!

Irada, o muro de ilusões escalas
a que, risonho, o jovem se confia;
já pressentes, minha alma, o último dia:
se asas não tens, não poderá alçá-las.

É duro ser mortal, certo do fim!
Já não posso viver meu amanhã
sem a sombra da Morte sobre mim!

Cada instante que vivo neste afã,
é nova execução, que mostra, assim,
quanto é mísera a Vida, quanto é vã!


¡Cómo de entre mis manos te resbalas!

    ¡Cómo de entre mis manos te resbalas!
¡Oh, cómo te deslizas, edad mía!
¡Qué mudos pasos traes, oh, muerte fría,
pues con callado pie todo lo igualas!

    Feroz, de tierra el débil muro escalas,
en quien lozana juventud se fía;
mas ya mi corazón del postrer día
atiende el vuelo, sin mirar las alas.

    ¡Oh, condición mortal! ¡Oh, dura suerte!
¡Que no puedo querer vivir mañana
sin la pensión de procurar mi muerte!

    Cualquier instante de la vida humana
es nueva ejecución, con que me advierte
cuán frágil es, cuán mísera, cuán vana.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; D. Francisco Gómez de Quevedo Villegas y Santibáñez Cevallos (1580 1645), espanhol madrilenho, de família fidalga e com pais trabalhando na corte, ele também ali vivendo e convivendo, foi poeta, escritor e político; estudou Teologia, freqüentou a Universidade de Alcalá de Henares e aprofundou seus conhecimentos em filosofia, línguas clássicas, árabe, hebreu, francês e italiano; sua obra: Política de Dios, gobierno de Cristo y tirania de Satanás (escrita em 1617 e impressa em 1635), Vida de Santo Tomás de Villanueva (1620), Os Sonhos (manuscritos compostos entre 1606 e 1623, impressos em 1627), Mundo caduco y desvarios de la edad (escrita em 1621 e editada em 1852), Cuento de cuentos (1626), La cuna y la sepultura (1635), La hora de todos y la Fortuna com seso (1936), El Parnaso Español (1648), Las cuatro pestes del mundo y las cuatro fantasmas de la vida (1651) e outras obras políticas, ascéticas, filosóficas, satírico-morais, críticas literárias e poesias.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Manuel Machado: Alfa e Ômega

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[Traduzido por Delson Tarlé]

A vida inteira cabe num soneto
começado com verso distraído
e que imita, no espaço de um gemido,
a infância, tão fugaz como um quarteto.

A juventude chega com secreto
ar de vida, que passa inadvertido,
que vai também, já foi, sonho vivido,
antes de entrar no próximo terceto.

Já maduros, pelo ontem suspiramos
e, curtindo a incerteza do amanhã,
este breve terceto malgastamos.

E, quando no terceto último entramos,
é para ver, com experiência vã,
que se acaba o soneto ... e que nos vamos.

Manuel Machado
Manuel Machado
Alfa & Ômega

Cabe la vida entera en un soneto
empezado con lánguido descuido,
y, apenas iniciado, ha transcurrido
la infancia, imagen del primer cuarteto.

Llega la juventud con el secreto
de la vida, que pasa inadvertido,
y que se va también, que ya se ha ido,
antes de entrar en el primer terceto.

Maduros, a mirar a ayer tornamos
añorantes y, ansiosos, a mañana,
y así el primer terceto malgastamos.

Y cuando en el terceto último entramos,
es para ver con experiencia vana
que se acaba el soneto… Y que nos vamos.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Machado Ruiz (1874  1947), espanhol madrilenho, foi escritor, dramaturgo, poeta e tradutor; trabalhara como arquivista e bibliotecário e cursou Filosofia e Letras; sua obra: em poesia, Alma (1901), Caprichos (1902), Los cantares (1905), El mal poema (1909), Apolo (1911), Ars moriendi (1921), Cadencias de cadencias. Nuevas dedicatórias (1943), Horario (1947), entre outros títulos; para teatro, em colaboração com seu irmão Antonio Machado, Desdichas de la fortuna o Julianillo Valcárcel (1926), Juan de Mañara (1927), Las adelfas (1928), La Lola se va a los puertos (1929), La prima Fernanda (1931), La duquesa de Benameji (1932), El hombre que murió en la guerra (1935), El hombre que murió en Madri (drama, 1941); traduziu Celebrations galantes, de Paul Verlaine.