Mostrando postagens com marcador Carlos Nejar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Nejar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Vitorino Nemésio: A égua velha

 
____________________
Pobre égua velha, minha vida,
Quem te dá água e feno?
Aos teus cascos de mãe de tanto andar,
Que azeite doce?
A mosca é mais que abelhas
Na sarna da samarra ainda quente do trilho,
E o poldro do teu sonho ao longe,
Tão bonito, o teu filho!

Pobre égua velha, já de manta e tonta ao cabo,
Entre uma corda e um cardo
Cuida que é milho um tojo!
Por barriga sem erva, no espínhaço sem fardo,
Vai um saco de rojo.

Égua baldia, os mais cavalos novos,
Cruzando-te no pasto, é coice bravo!
Pela estrela da testa te mataram
Os ciganos sem dó que te compraram
E de égua criadeira te tingiram:
Cria era a morte, tudo o mais fingiram.

No ermo de relinchos ainda um passo
Te arredonda a garupa retardada;
Mas quem, pobre égua velha e sem comida?
O poço aonde e a água desejada?

Sinal de terra mexida
Era da égua enterrada.

29-08-1962
(O cavalo encantado — 1963)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966), Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).

sexta-feira, 6 de março de 2026

David Mourão-Ferreira: Casa

 
____________________
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.


(Lira de Bolso — 1969)
____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; David de Jesus Mourão-Ferreira (1927 1996), português lisboeta, licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, foi professor universitário, dramaturgo, jornalista, poeta, romancista, crítico literário e ensaísta; o poeta foi um dos fundadores das folhas de poesia revista Távola Redonda, redator da revista Graal, diretor da Colóquio/Letras e do periódico A Capital, e diretor-adjunto do jornal O Dia, colaborou no Diário Popular e na revista Seara Nova; foi autor e ator teatral,  manteve programas radiofônicos e televisivos, escreveu textos para fados de Amália Rodrigues; suas obras: em poesia: Tempestade de Verão (1954), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de Amar (reunião das obras anteriores, 1967), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal (1971), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As Lições do Fogo (1976), Os Ramos e os Remos (1985), Música de Cama (antologia erótica com um livro inédito, 1994) ..., em prosa: Gaivotas em Terra (novelas, 1959), Os Amantes (contos, 1968), As Quatro Estações (1980), Um Amor Feliz (romance, 1986), Vinte poetas contemporâneos (ensaios, 1960), Motim Literário (ensaio, 1962), Hospital das Letras (ensaio, 1966), Discurso Direto (ensaio, 1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (ensaios, 1969), Sobre Viventes (ensaio, 1876), Presença da ‘Presença’ (ensaios, 1977), para teatro: Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965); obteve premiações por suas obras.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Alexandre O'Neill: A noite ordinária

 
____________________
Que bela noite ordinária que eu passei!

Foi isso há tempos
num quarto defendido pelas pulgas
e vigiado por um vento carteirista
que morava (disseste)
mesmo ali ao pé.

O problema da luz foi o primeiro
(que resolvemos apagando-a)
depois o das torneiras

depois o do marinheiro
que queria entrar nos nossos problemas
depois o teu
o teu problema já na cama
 na cama com mais paciência que encontrei!

Depois
falaste com as torneiras
e eu gritei

Gritei por calculado amor
por brilhantina
por miséria
gritei até pela vitória
(supremo humor!)
dos que se batem contra a Cara-Alegre
gritei p'ra não parar de gritar
gritei «Chapultepec!» e «Oaxaca!»
(nomes por excelência afrodisíacos)
gritei até descobrir
o sítio em que te «escondias»
e então deixei-te gritar...

Quando a noite resignada
abria a última pálpebra
gritei ainda: «Mas é isto o espelho!»

E o dia levantou-se como um cão
(imagem acessível à família...)
da bela noite ordinária
que passei...

1949

(No Reino da Dinamarca — 1958)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

domingo, 25 de janeiro de 2026

José Régio: Cancão cruel

 
____________________
(O Amor e a Morte)

Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostrava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava,
Eu sonhei que te esfolhava
Pétala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.

[Poemas de Deus e do Diabo — 1925]
(Filho do Homem — 1961)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 1969), português de Vila do Conde, fez seus primeiros estudos no liceu da cidade natal, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, poeta, professor, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, memorialista, epistológrafo, historiador de literatura, editor e diretor de revista; ainda jovem, publicou seus primeiros poemas nos jornais vilacondenses A República e O Democrático; em sua trajetória literária colaborou com seus textos nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e nas coimbrãs Bisâncio e Tríptico, além de em outros periódicos “nacionais, ultramarinos, regionais e locais”, revista luso-brasileira Atlântico entre os quais; foi co-fundador da revista Presença, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca; lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e no Liceu de Portalegre, no qual veio a se aposentar; suas obras: em poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), ... em prosa: Jogo da Cabra Cega (romance, 1934), O Príncipe com Orelhas de Burro (romance, 1942), A Velha Casa I — Uma gota de sangue (romance, 1945), depois vieram A Velha Casa II, III, IV e V, de 1947 a 1966, Histórias de Mulheres (novelas, 1946), Há Mais Mundos (contos, 1962), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), ... para teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem Maria (1947), El-Rei Sebastião (1949), ... e outros textos, parte deles em edição póstuma, tais como epistolografias e memória; José Régio, além deste seu pseudônimo incorporado em sua biografia, também fez uso dos alterônimos literários João Bensaúde, Pedro Serra e Lelito.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

José Régio: Epitáfio para um poeta

____________________
(Os Epitáfios)

As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

(Filho do Homem — 1961)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 1969), português de Vila do Conde, fez seus primeiros estudos no liceu da cidade natal, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, poeta, professor, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, memorialista, epistológrafo, historiador de literatura, editor e diretor de revista; ainda jovem, publicou seus primeiros poemas nos jornais vilacondenses A República e O Democrático; em sua trajetória literária colaborou com seus textos nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e nas coimbrãs Bisâncio e Tríptico, além de em outros periódicos “nacionais, ultramarinos, regionais e locais”, revista luso-brasileira Atlântico entre os quais; foi co-fundador da revista Presença, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca; lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e no Liceu de Portalegre, no qual veio a se aposentar; suas obras: em poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), ... em prosa: Jogo da Cabra Cega (romance, 1934), O Príncipe com Orelhas de Burro (romance, 1942), A Velha Casa I — Uma gota de sangue (romance, 1945), depois vieram A Velha Casa II, III, IV e V, de 1947 a 1966, Histórias de Mulheres (novelas, 1946), Há Mais Mundos (contos, 1962), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), ... para teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem Maria (1947), El-Rei Sebastião (1949), ... e outros textos, parte deles em edição póstuma, tais como epistolografias e memória; José Régio, além deste seu pseudônimo incorporado em sua biografia, também fez uso dos alterônimos literários João Bensaúde, Pedro Serra e Lelito.

domingo, 2 de novembro de 2025

Casimiro de Brito: As coisas & Sombras

 
____________________
As coisas

As coisas não significam
elas confortam
são mansas ao tato
à brancura do sangue
as coisas mais secas e ríspidas
um livro uma pedra um relógio
são terra vermelha
abrem seus músculos exaustos
ao calor da vida
moldam-se
ao sangue de outras coisas
igualmente vivas
nuas
familiares

— o —

Sombras

Passam
corpos
colados ao silêncio

Sabeis acaso distinguir
um homem
da sua sombra?

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Casimiro Cavaco Correia de Brito (1938 2024), português de Loulé, distrito de Faro, Algarve, fez seus estudos iniciais na região onde nasceu, ali também completou o Curso Geral do Comércio, na Escola Industrial e Comercial de Faro, tempos depois frequentou, em Londres, o Westfield College, foi poeta, romancista, contista, ensaísta e tradutor; criou a página literária Prisma de Cristal do jornal A Voz de Loulé, na qual recebeu colaborações de literatos da época, dirigiu a coleção de poesia A Palavra, também com publicações de literatos poetas, fundou e dirigiu, em coparticipação, os Cadernos do Meio-Dia, aí revelando poetas do movimento literário Poesia 61, do qual também foi participante; após ter passado um período em Londres Inglaterra e na Alemanha, estabeleceu-se em Lisboa e desempenhou funções no setor financeiro, como gerente de instituição bancária; Casimiro de Brito é considerado, no seu tempo, um intenso ativista literário e divulgador da poesia nacional portuguesa e estrangeira; o poeta foi nomeado consultor para a Europa da World Haiku Association, sediada em Tóquio, e teve outras representações em instituições literárias; suas obras: em poesia: Poemas da solidão imperfeita (1957), Sete poemas rebeldes e carta a Pablo Picasso (1958), Telegramas (1959), Canto Adolescente (movimento literário Poesia 61, 1961), Poemas orientais (Hai-kais japoneses, 1963), Jardins de Guerra (1966), Musa do Amor (1970), Corpo Sitiado (1976) ..., em prosa: Um certo país ao Sul (contos, 1975), Imitação do Prazer (romance, 1977), Prática da Escrita (ensaio, 1977), Nós, Outros (romance, em parceria com Teresa Salema, 1979), Pátria Sensível (romance, 1983), Contos da Morte Eufórica (1984), Vagabundagem na Poética de António Ramos Rosa (ensaio, 2001) e outros títulos em verso e prosa; traduziu poesias de vários idiomas, particularmente os hai-kais japoneses, e também teve suas obras traduzidas para inúmeras línguas, entre as quais a italiana, francesa, japonesa, alemã, polaca, grega, chinesa, russa, árabe ...; além da extensa obra publicada, participou ainda de mais de uma centena de antologias e coletâneas poéticas em vários países; recebeu premiações por suas obras.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

David Mourão-Ferreira: Ilha

 
____________________
Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias


(Matura Idade 1973)
____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; David de Jesus Mourão-Ferreira (1927 1996), português lisboeta, licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, foi professor universitário, dramaturgo, jornalista, poeta, romancista, crítico literário e ensaísta; o poeta foi um dos fundadores das folhas de poesia revista Távola Redonda, redator da revista Graal, diretor da Colóquio/Letras e do periódico A Capital, e diretor-adjunto do jornal O Dia, colaborou no Diário Popular e na revista Seara Nova; foi autor e ator teatral,  manteve programas radiofônicos e televisivos, escreveu textos para fados de Amália Rodrigues; suas obras: em poesia: Tempestade de Verão (1954), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de Amar (reunião das obras anteriores, 1967), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal (1971), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As Lições do Fogo (1976), Os Ramos e os Remos (1985), Música de Cama (antologia erótica com um livro inédito, 1994) ..., em prosa: Gaivotas em Terra (novelas, 1959), Os Amantes (contos, 1968), As Quatro Estações (1980), Um Amor Feliz (romance, 1986), Vinte poetas contemporâneos (ensaios, 1960), Motim Literário (ensaio, 1962), Hospital das Letras (ensaio, 1966), Discurso Direto (ensaio, 1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (ensaios, 1969), Sobre Viventes (ensaio, 1876), Presença da ‘Presença’ (ensaios, 1977), para teatro: Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965); obteve premiações por suas obras.

domingo, 28 de setembro de 2025

Fiama Hasse Pais Brandão: A terra sobretudo

 
____________________
Quem como nós na curva de céus vários pressentiu
(em céus de boca e ares)
que os elementos, de si, nunca se encontram diz:

a água não amaina; o fogo nas queimadas,
nas lajes do lar
não nos sacia; o ar não cria
a vibração das folhas  esta é a nudez;

na terra sobretudo sente-se: as suas casas, as traves
que as sustêm, desfalecem.
Quem as habita parado, quem como nós vivo
diz: a fome é hostil,
o homem movimenta-se impaciente,
o seu desejo ocupa a sua vida.

(Este) Rosto — 1979

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalhou como bibliotecária-arquivista do Centro de Estudos Linguísticos daquela instituição, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; tornou-se conhecida e reconhecida no ambiente das letras através da revista/movimento Poesia 61, com a publicação de Morfismos; em 1964, deu início às atividades no teatro e na dramaturgia, através de estágio no Teatro Experimental do Porto; colaborou nas revistas literárias Seara Nova, Cadernos do Meio-Dia, Brotéria, Vértice, Plano, Colóquio-Letras, Hífen, Relâmpago e A Phaia; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), O Aquário (narrativa, 1959), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), O Testamento (teatro, 1962), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), (Este) rosto (1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; premiações: Prêmio Revelação de Teatro (1961, pela peça Os Chapéus de Chuva), Prêmio Adolfo Casais Monteiro (1957, por Em cada pedra um vôo imóvel, obra de estréia), Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1996) e Prêmio Literário do P.E.N. Clube Português (2001, por Cenas Vivas).

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Fernando Assis Pacheco: Rua da Rosa, Lisboa: O Pombo

 
____________________
Se o galo gala o pombo pomba? este pombava
ao sol das três da tarde lisboeta num passeio da Rua da Rosa senhor
de si não digo nem arrogante mas com alguns direitos v. g. do apetite
pombava enquanto carros subiam em segunda aí está cauteloso
o peito inflado as penas do rabo num leque amorável sendo
nele tudo isto «a procura de Deus derramado na urbe» a vinte
e dois anos e meio do fim do mundo
ó futurólogos que me não largais

preciso para o voyeur: pombava e dançava e nos intervalos
da célere dança pombava ainda apesar de tudo obsequioso
com a fêmea não fosse ela sôbolos pneus que rodam
rua acima ficar-se como a amiga de Ignacio Morel (in Ramón J.
Sender)
igual a mim quando pombo ia pombando este pois que se trata
de a buscar sempre mesmo repetida
de uma geração a outra aquilo que é soberbo o amor a novidade

[Memórias do Contencioso — 1976]

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (1937 1995), português coimbrão, formado e licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor, jornalista, crítico literário e tradutor; no cumprimento do serviço militar iniciado em 1961, logo seguiu para Angola, à época colônia portuguesa, e ali exerceu funções como expedicionário, “experiência que viria a marcar sua obra, sobretudo a poética”; na juventude foi ator do TEUC Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e do CILAC Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, e redator da revista Vértice; sempre atuou no jornalismo, única profissão exercida: foi repórter no Diário de Lisboa, na República, no Jornal das Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo e no Se7e, neste também foi diretor-adjunto; ainda trabalhou como redator e chefe de redação n’O Jornal, para o qual escreveu críticas literárias durante dez anos, e colaborou na RTP — Rádio e Televisão de Portugal; suas obras: Cuidar dos Vivos (1963), Câu Kiên: um resumo (1972), Viagens na minha guerra (1972), Memórias do Contencioso (1976), Catalabanza, Quilolo e Volta (‘republicação de Câu Kiên’ [com outro nome], 1976), Siquer este refúgio (1976), Memórias do Contencioso e Outros Poemas (1981), A Musa Irregular (antologia poética, 1991), todos de poesia, Walt (romance-novela, 1978), Paixões e Trabalhos de Benito Prada (romance, 1993) e outros títulos, incluso alguns póstumos; traduziu para o português obras de Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Ievgueni Ievtuchenko; o poeta, no dia 30 de novembro de 1995, ‘amante de livros e da vida, morreu [subitamente, de ataque cardíaco] aos 58 anos, à porta da “Livraria Buchholz [Lisboa]”, com um saco de livros na mão, acabados de comprar.’.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Antônio Botto: Querer-te mal, porquê? — Foste quem eras: . . . [soneto]

 
____________________
Querer-te mal, porquê? Foste quem eras:
Um corpo gentilíssimo, perfeito,
Que se amoldava ao meu e a qualquer jeito
No pântano de todas as quimeras!

Que culpa tinhas tu se ainda esperas
O lugar prometido aqui no peito
E sais de minha vida e do meu leito
Com a simplicidade que trouxeras?

A culpa tenho-a eu que fui um triste
A desejar no alto do meu sonho
Beijar a perfeição que não existe.

Fui esta coisa inútil, complicada,
Não me encontrando aonde me suponho
E encontrando-me aonde não há nada.

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro à escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Pessoa; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Vitorino Nemésio: Outro testamento

 
____________________
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer...
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me só horizonte para o mar.

Poesia 1935-1940 (1961)

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966), Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).