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[traduzido por José Lino Grünewald]
(Canto
primeiro — estrofe 2)
Leitor,
talvez seja o ódio que você queira que eu invoque no início desta obra! Quem lhe
diz que você não torcerá o nariz, banhado em inúmeras voluptuosidades, tal como
queira, com suas narinas orgulhosas, grandes e estreitas, revirando o ventre,
como um tubarão, no ar belo e, negro, como se você compreendesse a importância
deste ato e a importância não menor de seu legítimo apetite, lentamente e
majestosamente, as emanações vermelhas? Eu lhe asseguro, elas irão alegrar os dois buracos informes
de teu museu hediondo, ó monstro, se todavia você antes se dedicasse a respirar
três mil vezes seguidas a maldita consciência do Eterno! Tuas narinas que ficarão
desmesuradamente dilatadas de satisfação inefável, de êxtase imóvel, não vão
pedir qualquer coisa de melhor ao espaço, de ter vindo embalsamado tal como perfumes
e incensos; pois elas estarão saciadas de uma felicidade total, como os anjos
que moram na paz e magnificência de céus aprazíveis.
(Les Chants de Maldoror:
Chant premier — strophe 2)
Lecteur, c'est peut-être la haine que tu veux que
j'invoque dans le commencement de cet ouvrage! Qui te ditque tu n'en renifleras
pas, baigné dans d'innombrables voluptés, tant que tu voudras, avec tes narines
orgueilleuses, larges et maigres, en te renversant de ventre, pareil à un
requin, dans l'air beau et noir, comme si tu comprenais l'importance de cet
acte et l'importance non moindre de ton appétit légitime, lentement et
majestueusement, les rouges émanations? Je t'assure, elles réjouiront les deux
trous informes de ton museau hideux, ô monstre, si toutefois tu t'appliques
auparavant à respirer trois mille fois de suite la conscience maudite
del'Éternel! Tes narines, qui seront démesurément dilatées de contentement
ineffable, d'extase immobile, ne demanderont pas quelque chose de meilleur à
l'espace, devenu embaumé comme de parfums et d'encens; car, elles seront
rassasiées d'un bonheur complet, comme les anges qui habitent dans la
magnificence et la paix des agréables cieux.
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Poetas Franceses
do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino
Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Conde de Lautréamont
(1846 — 1870), pseudônimo literário de Isidore Lucien Ducasse, uruguaio de Montevidéu,
educado por jesuítas, aos quatorze anos embarcou para a França e ali se tornou aluno
interno do Liceu Imperial de Tarbes e, depois, do de Pau, estudou letras e ciências
[Retórica e Filosofia] e foi poeta; suas obras: Les Chants de Maldoror (Os Cantos
de Maldoror [I, II, III, IV, V e VI], 1869) e Poésies (em dois fascículos, textos
em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton (1896 — 1966), escritor
tido como pai e fundador do Movimento Surrealista, considerava Lautréaumont, de
certa forma, como um dos precursores do surrealismo; ainda em criança, Isidore Ducasse era tido como “de inteligência precoce, mas de saúde delicada” e que “rapidamente
se destacou pelo seu humor bastante selvagem”; morreu jovem, a 24 de novembro de
1870; é o que se encontrou de sua biografia.
