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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Elizabeth Lorenzotti: "Tinhorão, o Legendário" — Prefácio

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          Ele sempre nadou contra a corrente. Escreveu que a Bossa Nova é uma variante americana do samba, tão brasileira como um carro montado no Brasil. Que João Gilberto inventou um jeito de cantar para adaptar a música brasileira ao estilo americano. Garantiu que, num disco de 1929, o violão de Sinhô, soando em dupla com o do paulista Pedroso de Camargo, já antecipava a batida da Bossa Nova*.
          Personagem singular da história do jornalismo brasileiro, trata-se do único que, a partir de seus artigos em jornais, começou a construir uma outra carreira, a de historiador da cultura urbana. Hoje, seus artigos reunidos em livros são respeitável fonte de estudos e pesquisas, assim como toda sua obra de historiador.
          Alma de pesquisador que se revelou quando o poeta e criador de jornais Reynaldo Jardim encomendou, em 1961, no Jornal do Brasil: “Tinhorão, faça uma série sobre música popular brasileira”. Mas não havia livro, nem pesquisa, quase nada sobre isso. “Então se vira, vai entrevistar o pessoal”, aconselhou Jardim. Um e outro não tinham idéia de que naquele momento  por acaso, sorte, oportunidade, conjunção astral? estava dado o primeiro passo para uma carreira ímpar no jornalismo.
          Ímpar porque José Ramos foi contratado pelo Diário Carioca (DC) e por todos os outros jornais e revistas em que veio a trabalhar Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Cruzeiro, O Jornal, Última Hora, revista Veja, entre outros para a função de redator, ou copidesque, termo recém-adaptado do jornalismo norte-americano nos anos 1950. Mas que entrou para o vocabulário jornalístico não como a mesa em forma de ferradura onde trabalhavam os redatores norte-americanos, e sim como a designação do próprio redator.
          Ele sempre se refere à “humilde função de copidesque”, na qual o jornalista não assina matérias, não escreve o texto de sua autoria, apenas torna mais legível o que o outro escreveu, e muitas vezes faz milagres.
          Nesta função o jovem José Ramos começou em 1952 no pequeno e famoso Diário Carioca, onde Pompeu de Souza e Danton Jobim introduziram o uso do lead e o primeiro, enxuto e corretíssimo, manual de redação. Uma revolução na imprensa brasileira.
          Lá ele ganhou o apelido de Tinhorão, que se tornou um sobrenome-adjetivo, pois eis que se trata de uma planta tóxica. E por ter se destacado como exímio fazedor de textos-legendas, recebeu um epíteto apropriadíssimo: “Tinhorão, o legendário”.
          Poderia ter ficado como copidesque a vida toda. Mas não o irrequieto Tinhorão, que fazia suas pesquisas e escrevia desde sempre nos suplementos de cultura de tantos veículos de informação. E que nos anos 1970, já em São Paulo, para onde viera fazer parte da primeira turma da revista Veja, lançada em 1968, foi chamado para fazer crítica de música popular brasileira no Caderno B do Jornal do Brasil.
          Aí se cristalizou a fama de chato, que já havia se formado em fins da década de 1950, começo da de 1960, com suas críticas à Bossa Nova e seu nacionalismo. A colaboração na coluna foi extinta em 1981, segundo o informaram, um corte por medida de economia. A par da vida jornalística, que tanto exige dedicação intelectual e física, Tinhorão já escrevia livros desde 1966.
          Em 1980, insatisfeito com a profissão e com sua vida pessoal, largou literalmente tudo e tornou-se um quase ermitão, um militante solitário da cultura, vivendo literalmente dentro da pesquisa: sua quitinete de 31 metros quadrados entupida de livros, discos, partituras, documentos raros e de incrível valor. Mas era feliz, fazendo o que queria, embora vivendo com estreita margem financeira.
          E suas pesquisas, então, continuavam causando polêmica: ele demonstrou que o samba nasceu na Cidade Nova, no coração do Rio, e não no Recôncavo baiano. Que a modinha nasceu no Brasil como dança, e só depois virou canção em Portugal. Descobriu que Lereno, o poeta e músico fluminense Domingos Caldas Barbosa, introduziu a modinha e o lundu na Corte portuguesa na década de 1770, inaugurando a criação da música popular urbana como seria entendida no futuro. Em 2009 sua produção chegava a 28 livros, editados entre Brasil e Portugal.
          Embora sem contar com o reconhecimento formal da Academia (“esse pessoal come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”, costuma observar), suas pesquisas até hoje não foram refutadas e ele mesmo diz: quem quiser que conte outra história, o que ainda não aconteceu. Suas opiniões, sim, sempre originaram grandes e raivosas polêmicas, hoje em menor intensidade e paixão, amenizadas pelo tempo e por tantas transformações das coisas deste mundo. Mas não do pensamento de Tinhorão, fiel ao seu método histórico, o materialismo dialético, ferramenta de explicação dos fenômenos que trouxe definitiva luz às suas interrogações, ainda jovem.
          Quem houve falar dele, assim de orelhada, do seu nacionalismo e de suas contendas, pensa tratar-se de um ser mal-humorado, ranheta, tosco. Uma imagem oposta ao jovem Tinhorão que completou 82 anos em 7 de fevereiro de 2010. Ágil, vital, elétrico, engraçado, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, um tipo muito culto e erudito, apreciador da boa música e não só da popular.
          Esforçado, estudioso desde criança, o filho de um imigrante português que, menino, foi mandado sozinho para o Brasil, não conheceu facilidades na vida e batalhou para abrir seu caminho.
          Não era de noitadas depois de sair da Redação. Sempre teve muitas atividades, foi frequentador assíduo de sebos no centro do Rio e ávido recortador de jornais. Nunca recebeu patrocínio oficial, à exceção de uma parca bolsa de estudos no seu curso de mestrado em História Social, na Universidade de São Paulo.
          Empreendedor de sua própria obra, portanto, é alguém a quem o país só tem a agradecer, mesmo discordando dele algumas vezes.


* Nota da biógrafa Elizabeth Lorenzotti: Samba, maldito costume, de Sinhô, gravado por Henrique Chaves, pela Columbia, em setembro de 1929 em São Paulo. Acervo Tinhorão, Instituto Moreira Salles.
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Elizabeth Lorenzotti: Tinhorão, O Legendário [biografia], 2009, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Elizabeth de Souza Lorenzotti, mineira de Poços de Caldas, graduada em Jornalismo pela USP Universidade de São Paulo, com mestrado em Ciências da Comunicação e doutorado em Literatura Brasileira, também pela USP, é jornalista, escritora, professora, pesquisadora, biógrafa e poetisa; suas obras: Que falta ele faz! — Suplemento Literário [do jornal O Estado de São Paulo] (2007, Imprensa Oficial, São Paulo SP), Tinhorão, o Legendário (2010, Imprensa Oficial, São Paulo SP), As Dez Mil Coisas, poesia (2011, Biblos Editora, São Paulo  SP), Jornalismo Século XXI: o modelo #mídiaNINJA (e-book, editora e-galáxia, 2014), além de publicações em jornais e revistas; atuações no jornalismo: redatora da Rádio Tupi — Diários e Emissoras Associados, repórter da Folha da Manhã, editora da Editora Abril, redatora d’O Estado de São Paulo, assessora de imprensa de Atena Editora e Comunicação, editora-chefe do Jornal da USP — USP-SP, diretora de redação da Revista do IDEC, repórter da Revista Bienart, etc.; foi professora de jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo e na PUC São Paulo; Beth Lorenzotti também trabalhou na imprensa sindical: iniciou e impulsionou a Folha Bancária diária jornal do Sindicato dos Bancários de São Paulo, no início dos anos 1980; pilota o blog vivababel.blogspot.com/.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Elizabeth Lorenzotti: Criado-mudo

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O rosário de jade sobre a Teogonia
O livro de Leonardo
Meu caderno de sonhos
Cristais de gengibre
A caixinha de Alhambra
A pedra cor-de-rosa
O hexágono da China
Potinhos de pedra-sabão de Minas
A obra em negro
Os escritos de Blake:


Tudo existe porque tem um nome

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Elizabeth de Souza Lorenzotti, jornalista, escritora e poetisa, após ter vivido e residido na capital paulista, retornou recentemente a sua terrinha de origem, Poços de Caldas MG; de lá, continua exercendo suas atividades profissionais; é doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Ciências da Comunicação e graduação em Jornalismo, também pela USP; escreveu Suplemento Literário Que falta ele faz! (2007, Imprensa Oficial, São Paulo SP), Tinhorão, o Legendário (2010, Imprensa Oficial, São Paulo SP), As Dez Mil Coisas, poesia (2011, Biblos Editora, São Paulo SP), além de publicações em jornais e revistas; pilota um blogue, o Viva Babel