quarta-feira, 30 de junho de 2021

Lêdo Ivo: Soneto escrito em novembro

 

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É a última recompensa:
estou sozinho no mundo.
Vejo, na noite completa,
a estrela da indiferença.

Já não posso escutar
as vozes que me rodeiam.
Comecei a ouvir o silêncio
que desce do céu mudo.

Nada aconteceu de real
quando eu vivia no dia claro.
Tudo era imaginário.

Recebo o fulgor de uma estrela.
Só agora a realidade
aquiesce em visitar-me.

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Lêdo Ivo: Crepúsculo Civil — Poesia, 1990, Editora Record, São Paulo — SP; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Edwin Markham: O homem com a enxada

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

(Escrito depois de ver o quadro mundialmente famoso de Millet)

Deus fez o homem à Sua semelhança;
Ele o criou à Sua própria imagem.
Gen. 1, 27.

Curvado ao peso dos séculos, ele se apóia
Sobre a enxada, fitando, absorvido, a terra.
O vazio das idades se estampa em seu rosto,
Aos ombros sustém o fardo do mundo.
Quem nele sufocou a veemência e a cólera
E máquina o tornou, impassível e sem fé,
Bronco e apalermado, irmão gêmeo de bois?
Quem nas juntas moveu esta informe maxila?
Que mão afeiçoou esta fronte fugidia?
Que fôlego extinguiu o clarão desta mente?

É esta a criatura engendrada por Deus
Para domínio ter sobre as águas e as terras
E no encalço de estrelas audaz aventurar-se?
Para devassar os céus e suas forças captar?
Para sentir, num rapto, a própria Eternidade?
É este o sonho d’Aquele que do nada tirou
Os sóis, e órbitas lhes fixou no prístino céu?
Do patamar do inferno ao derradeiro vórtice
Nenhuma visão há mais terrível do que esta,
Mais fremente de invectivas contra a cobiça humana,
Mais cheia de sinais e presságios para a alma,
Mais plena de ameaças para o mundo inteiro.

Que de abismo se rasgam entre este homem e os anjos!
Que vale a este cativo a forcejar no eito
A glória de Platão ou o frêmito das Plêiades?
A altura estonteante dos píncaros da poesia,
O rasgo da aurora, o rubor das rosas?
Por este vulto grave as eras sofredoras
Espreitam, e a labutar curvado sobre o chão
Ele se erige em símbolo da tragédia dos tempos.
Por esses lábios irados a humanidade traída,
O homem espoliado, ultrajado, deserdado,
Clama, a plena voz, aos Juízes do Mundo
Num protesto que é também profética mensagem.

Ó monarcas, senhores e potentados da terra,
A obra de vossas mãos que a Deus ofereceis
É este ser monstruoso de alma enrijecida?
Quando ireis devolver o garbo a este corpo;
Tocá-lo novamente de imortalidade;
Restituir-lhe a luz e seus olhos alçar;
Nele reanimar a música e o sonho;
Reabilitá-lo das tradicionais infâmias,
Dos pérfidos agravos, das fatais desgraças?

Ó monarcas, senhores e potentados da terra,
Como o futuro se avirá com este homem?
Como responderá às suas tremendas perguntas
Quando o ciclone da revolta lavrar por toda parte?
Que estará reservado aos tronos e às coroas,
Àqueles que o reduziram a condição tão vil,
No momento em que este demônio taciturno,
Rompendo a mudez dos séculos, replicar ao mundo!

Edwin Markham

The Man with the Hoe*

(Written after seeing Millet’s world-famous painting)

God made man in His own image:
in the image of God made He him.
Gen. 1, 27.

Bowed by the weight of centuries he leans
Upon his hoe and gazes on the ground,
The emptiness of ages in his face,
And on his back the burden of the world.
Who made him dead to rapture and despair,
A thing that grieves not and that never hopes,
Stolid and stunned, a brother to the ox?
Who loosened and let down this brutal jaw?
Whose was the hand that slanted back this brow?
Whose breath blew out the light within this brain?

Is this the Thing the Lord God made and gave
To have dominion over sea and land;
To trace the stars and search the heavens for power;
To feel the passion of Eternity?
Is this the dream He dreamed who shaped the suns
And marked their ways upon the ancient deep?
Down all the caverns of Hell to their last gulf
There is no shape more terrible than this
More tongued with censure of the world’s blind greed
More filled with signs and portents for the soul
More packt with danger to the universe.

What gulfs between him and the seraphim!
Slave of the wheel of labor, what to him
Are Plato and the swing of Pleiades?
What the long reaches of the peaks of song,
The rift of dawn, the reddening of the rose?
Through this dread shape the suffering ages look;
Time’s tragedy is in that aching stoop;
Through this dread shape humanity betrayed,
Plundered, profaned and disinherited,
Cries protest to the Judges of the World,
A protest that is also prophecy.

O masters, lords and rulers in all lands,
is this the handiwork you give to God,
This monstrous thing distorted and soul-quenched?
How will you ever straighten up this shape;
Touch it again with immortality;
Give back the upward looking and the light;
Rebuild in it the music and the dream;
Make right the immemorial infamies,
Perfidious wrongs, immedicable woes?

O masters, lords and rulers in all lands,
How will the Future reckon with this man?
How answer his brute question in that hour
When whirlwinds of rebellion shake all shores?
How will it be with kingdoms and with kings
With those who shaped him to the thing he is
When this dumb terror shall reply rise to the world
After the silence of the centuries?

L'homme à la houe, de Jean-François Millet

* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que consta da biografia de Edwin Markham que o poema “The Man with the Hoe”, elaborado em 1899, foi inspirado na pintura “L’homme à la houe”, de Jean-François Millet, e cuja interpretação era um protesto socialista denunciando a situação do homem do campo.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Edwin Markham (1852 1940), nascido Charles Edward Anson Markham, estadunidense de Oregon City, Oregon, iniciou seus estudos em Vacaville, California, e continuou no Christian College em Santa Rosa, também na Califórnia, onde se formou no Curso Clássico, foi professor e poeta; até chegar a idade de adulto, estudou em escolas rudimentares do sertão e exerceu várias profissões: foi lavrador, tratador de animais e agregado em rancho de gado; aos dezoito anos decidiu-se pelo magistério e, formado, lecionou em El Dorado County; obras: The Man with the Hoe and Other Poems (1899), Lincoln and Other Poems (1901), The Shoes of Happiness and Other Poems (1913), Children in Bondage (prosa, 1914), Gates of Paradise (poesias, 1920), Eigty Poems at Eigty (1932) ...

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Góngora: Da brevidade enganosa da vida

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Menos solicitou rápida seta
destinado sinal, que morde aguda;
agonal carro pela arena muda
não coroou com mais silêncio meta,

que pressurosa corre, que secreta,
a seu fim nossa idade. A quem o esmiúda,
fera que seja de razão desnuda,
cada Sol repetido é um cometa.

Se Cartago o confessa, tu o ignoras?
Perigo corres, Lício, se porfias
em seguir sombras e abraçar enganos.

Não te perdoarão a ti as horas;
as que limando estão os dias,
os dias que roendo estão os anos.

Góngora

De la brevedad engañosa de la vida

159 1623

        Menos solicitó veloz saeta
destinada señal, que mordió aguda;
agonal carro por la arena muda
no coronó con más silencio meta,

        que presurosa corre, que secreta,
a su fin nuestra edad. A quien lo duda,
fiera que sea de razón desnuda,
cada Sol repetido es un cometa.

        ¿Confiésalo Cartago, y tú lo ignoras?
Peligro corres, Licio, si porfías
en seguir sombras y abrazar engaños.

        Mal te perdonarán a ti las horas;
las horas que limando están los días,
los días que royendo están los años.

* Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: [verso] 8: Cada dia que nasce agoura tantos males como um cometa, D. A. [Dámaso Alonso]
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

domingo, 27 de junho de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Manga

 
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Ela está sobre a mesa
nua
e fechada em si
como uma urna.
O elegante perfil convoca outras formas
para torná-la única:
pera, pêssego, abricô o coração, afinal,
de onde irrigam a candura
e o aceno para afagá-la com as duas mãos.

De modo que a boca quase treme
(hesitante entre beijá-la e mordê-la)
quando dela se achega
sem saber se se entrega ao domínio do cheiro
ou à volúpia de lambê-la
mesmo antes de (com unhas)
fender-lhe a pele vermelho-verde.

Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes
deixando que neles se enrosquem os cabelos
que a fruta
(aflita)
não pode conter diante do torvelinho dos sentidos
do cataclismo que o desejo encena
no afã de conhecer-lhe o rosto!

Sôfrego, salivo abocanhando a polpa
(este manancial de sucos que me lambuza,
espirra, goteja e baba)
que chupo exaurindo a fonte dos deleites
dessa mulher que
por fim consentiu
(pudica e fogosa)
de a mim se entregar.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

sábado, 26 de junho de 2021

Carl Sandburg: Expresso

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Viajo num expresso de lugares reservados, um dos trens mais
luxuosos do país.
Quinze vagões, todos de aço, a conduzir um milhar de pessoas, disparam através da campina embrenhando-se na névoa azulada e no
ar escuro.
(Todos estes vagões um dia não serão mais do que sucata e metal enferrujado, e todos estes passageiros, que agora riem nos carros-
restaurantes e nos carros-dormitórios, nada mais do que cinza.)
No fumoir pergunto a um sujeito aonde vai, e ele me responde: "A
Omaha."

Carl Sandburg

Limited

I am riding on a limited express, one of the crack trains of the nation.
Hurtling across the prairie into blue haze and dark air go fifteen all-
stell coaches holding a thousand people.
(All the coaches shall be scrap and rust and all the men and women
laughing in the diners and sleepers shall pass to ashes.)
I ask a man in the smoker where he is going and he answers:
"Omaha."
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Carl August Sandburg (1878 1967), estadunidense de Galesburg, Illinois, fez os primeiros estudos à “trouxe-mouxe” [de forma desordenada e sem conclusão], foi jornalista, poeta, historiador, novelista e folclorista; de família pobre, começou a trabalhar aos treze anos num vagão de leite e, nos seis anos seguintes, foi porteiro de barbearia, trocador de cenários num teatro barato, motorista de caminhão em olaria, aprendiz de torneiro, lavador de pratos em hotéis, ajudante de ceifeiro em trigais; tais experiências decerto o habilitaram mais do que qualquer educação livresca feita em dois períodos intervalados no Lombard College, de Galesburg, sem conclusão; teve seus primeiros poemas divulgados em 1904 e transpôs o anonimato em 1914 quando a revista Poetry: A Magazine of Verse publicou vários de seus textos; obras: Chicago Poems (1916), Cornhuskers (poesias, 1918), Smoke and Steel (poesias, 1920), Slabs of the Sunburnt West (poesia, 1922), Selected Poems (1926), Good Morning, America (1928); The People, Yes (poesia, 1936), Abraham Lincoln: The War Years (biografia, vários volumes, 1939) Complete Poems (1950) e outros títulos; Sandburg recebeu três Prêmios Pulitzer, dois de Poesia (1919, por Cornhukers, e 1951, por Complete Poems) e outro de História (1940, pelos quatro volumes de Abraham Lincoln: The War Years); o poeta apoiou o Movimento dos Direitos Civis [Civil Rights Movement] e foi o primeiro homem branco a ser homenageado pela National Association for the Advancement of Colored People NAACP.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Lirio de Rezende: Organização & Trabalhador que labutas

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Organização

Os governos se organizam
Empregando a tirania
Para esmagar as idéias
Que prosperam dia a dia!

Façamos também o mesmo
Em pujantes alcatéias;
Esmagada a tirania
Vencerão nossas idéias!

(Voz Cosmopolita, 1/4/1922, p.2.)

Trabalhador que labutas

Trabalhador que labutas
Escravizado ao poder,
Tu plantas as boas frutas
Que os outros sabem comer

(Voz Cosmopolita, 18.12.1923, p.2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de "pedreiros da anarquia", “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto “O gênero na composição poética anarquista” nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição ...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro"; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos LiberdadeVoz CosmopolitaA Razão, todos do Rio de Janeiro, entre outros...).

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Bertolt Brecht: Contra a sedução

 
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[traduzido por André Vallias]

Não se deixem seduzir!
A ressurreição não há.
Sintam, a noite sopra aí:
E a manhã não vai voltar.

Não se deixem engambelar!
Esta vida é muito pouca.
É melhor cair de boca
Para não se arrepender
No momento de morrer!

Não se deixem consolar!
Vocês não têm muito tempo!
Deixem os salvos lá no templo
A mofar! A vida é grande:
Não tem nada semelhante.

Não se deixem seduzir
Ao trabalho e à servidão!
Por que o medo? Vocês vão
Se extinguir com a bicharada
E depois não vem mais nada.

[1918]

Bertolt Brecht

Gegen Verführung

Lasst Euch nicht verführen!
Es gibt keine Wiederkehr.
Ihr könnt schon Nachtwind spüren:
Es kommt kein Morgen mehr.

Lasst Euch nicht betrügen!
Das Leben wenig ist.
Schlürft es in schnellen Zügen!
Es wird Euch nicht genügen,
Wenn Ihr es lassen müsst!

Lasst Euch nicht vertrösten!
Ihr habt nicht zu viel Zeit!
Lasst Moder den Erlösten!
Das Leben ist am größten:
Es steht nicht mehr bereit.

Lasst Euch nicht verführen
Zu Fron und Ausgezehr!
Was kann Euch Angst noch rühren?
Ihr sterbt mit allen Tieren
und es kommt nichts nachher.

[1918]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, Editora Perspectiva, 1ª edição, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Countee Cullen: Incidente

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Um dia, quando eu perambulava pelas ruas da velha Baltimore,
O coração aos pulos, a cabeça transtornada de alegria,
Deparou-se-me um baltimoriano
A olhar insistentemente para mim.

Ora, eu tinha oito anos e era muita franzino,
Nosso tamanho, sem tirar nem pôr, era o mesmo;
E vai então e sorri, mas ele estendeu um palmo de língua
E xingou:  Negro!

De maio até dezembro
Vi a Baltimore inteira,
Mas de tudo que por lá aconteceu comigo
Essa é a única lembrança que conservo.

Countee Cullen

Incident

Once riding in old Baltimore,
       Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
       Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
       And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
       His tongue and called me, "Nigger."

I saw the whole of Baltimore
       From May until December:
Of all the things that happened there
       That's all that I remember.
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Poemas Famosos da Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Countee Cullen (1903 1946), nascido Countee LeRoy Porter, estadunidense de Louisville [ ? ], Kentucky, viveu desde seus nove anos no Harlem, Nova York, estudou na DeWitt Clinton High Scholl, Bronx, NY, na New York University e na Harward University, foi escritor, poeta, dramaturgo e professor; pertenceu à nova geração de escritores afro-americanos e participou do movimento Harlem Renaissance; colaborou como editor assistente na revista Opportunity, agraciado com uma bolsa Guggenheim pode estudar na França e viveu por um período viajando entre aquele país e os Estados Unidos, foi professor de inglês, francês e redação criativa na Frederick Douglass Junior High School, em Nova York; obras: Color (poesias, 1925), Copper Sun (poesias, 1927), The Ballad of the Brown Girl (poesias, 1928), The Black Christ and Other Poems (1929), One Way to Heaven (romance comédia social, 1932), The Medea and Some Poems (tradução de Medeia, de Eurípedes, e alguns poemas, 1935), The Lost Zoo (poesias literatura juvenil, 1940), My Lives nad How I Lost Them (autobiografia do seu gato, 1942), St. Louis Woman (drama, 1946) e outros textos.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Konstantinos Kaváfis: Quando despontem

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Empenha-te, poeta, no resguardo,
mesmo que lacunar a sua captura:
os vislumbres do teu erotismo.
Insere-os, semivelados, em tua fraseologia.
Empenha-te, poeta, no resguardo,
quando despontem em teu cérebro,
em plena noite, no sol-a-pino.

[1916]

K. Kaváfis

ΟΤΑΝ ΔΙΕΓΕΊΡΟΝΤΑΙ

Προσπάθησε να τα φυλάξεις, ποιητή,
όσο κι αν είναι λίγα αυτά που σταματιούνται.
Του ερωτισμού σου τα οράματα.
Βαλ'τα, μισοκρυμένα, μες τες φράσεις σου.
Προσπάθησε να τα κρατήσεις, ποιητή,
όταν διεγείρονται μες το μυαλό σου,
την νύχτα ή μες την λάμψι του μεσημεριού.

[1916]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Bernardo Guimarães: Minha rede

 
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Canção

Minha rede preguiçosa
Amorosa,
Em teu seio me embalança;
Quero ler nos céus risonhos
Doces sonhos
De ventura e de esperança.

Neste lânguido deleixo
Correr deixo
Minha vida descuidosa,
Contemplando ali defronte
No horizonte
Uma nuvem cor-de-rosa.

Pelo vão dessa janela,
Pura e bela,
Eu a vejo deslizar;
Pelo campo etéreo voga
Qual piroga
Cortando o cerúleo mar.

Linda nuvem, quem me dera
Pela esfera
Em teus ombros ir boiando,
E pairando sobre os montes,
Horizontes
Infinitos devassando!

Veria da minha terra
A alta serra,
Que há tanto tempo deixei;
E veria na janela
A donzela
Por quem tanto suspirei.

E os lares de minha infância,
Em distância
Pelo menos eu veria,
E as campinas, os ribeiros,
E os coqueiros,
A cuja sombra dormia...

Veria coisa infindas,
E tão lindas,
Que eu nem posso descrever,
Ó nuvem, se em teu regaço
Pelo espaço
Eu pudesse espairecer.

Mas se tão puro recreio
Em teu seio
Não quer dar-me a sorte escassa,
Ao menos esvoaçando
Lá te mando
De meu charuto a fumaça.

Nela vai meu pensamento
Pachorrento
Pelo ar vogando a esmo;
Para mim isto é tão doce,
Qual se fosse
Para ti voando eu mesmo.

Entanto aquele corvo
Negro e torvo
Quanto invejo o feliz fado!
Sobre as nuvens me parece
Que adormece
Nas asas equilibrado.

E adejando em céu de anil,
Esse vil
Ri talvez de compaixão
De mim, pobre animalejo,
Que rastejo
Neste ingrato e duro chão.

Que me importa, se em descanso
Me embalanço
Cantando uma barcarola;
E agitando-me nos ares,
Dos pesares
Minha rede me consola.

Tudo prazeres exprime,
E sorri-me
Em puro céu de bonança,
Quando esta rede amorosa,
Preguiçosa,
Em seu seio me embalança.

Minha rede é meu tesouro,
Nuvem d’ouro
Que me embala pelo espaço;
Em seu lânguido vaivém
Eu também
Sobre os ares esvoaço.

Se penso nos meus amores,
Entre flores
Me sorri doce esperança:
E entre sonhos cor-de-rosa,
Amorosa,
Minha rede me embalança.

Os pesares, os queixumes,
Os ciúmes
Com horror dela se arredam;
Só prazeres sorridores,
Só amores
Em suas malhas se enredam.

Meus amigos, em mim crede:
Esta rede
Foi um presente divino;
Esta rede é encantada;
Uma fada
Me a deu em troco de um hino.

Minha rede sonolenta,
Vai mais lenta,
Vai-me agora embalançando;
Enquanto o suave sono
De teu dono
Sobre os olhos vem baixando.

Rio, abril de 1864
Poesias diversas — 1865

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Poesias Completas de Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica, Poética, Latim e Francês; obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Inspirações da tarde, Poesias diversas e Evocações (todos de 1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.