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domingo, 28 de junho de 2020

Mallarmé: Sonho antigo

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Ei-la no atrium, a loura Lycóris
Sob onda de perfumes docemente inclinada.
Como um choupo amarelo ao rocio se expande,
Seus cabelos no seio chovem, longos e floridos.

Nos caniços, tu viste, sob um rio azulado,
À tarde, insinuar-se a fronte da pálida Febe?
 Ela dorme em seu banho e o colo de alabastro,
Como a lua, prateia-lhe um jorro caído do céu.

Seu dedo que sob a água serena desfolhava uma rosa
Tal uma odorante oferece um cálice verde:
Desce, Ó Hebe morena! verte, com a rósea mão
O vinho que faz arder um coração, a todo coração aberto.

Ei-la no atrium, a loura Lycóris
Sob onda de perfumes docemente inclinada:
Como teu arco de prata, Diana nas selvas lançada,
Sob seus amantes eleitos o belo corpo repousa.

Stéphane Mallarmé

Rève Antique

Elle est dans l'atrium la blonde Lycoris
Sous un flot parfumé mollement renversée.
Comme un saule jauni s'épand sous la rosée,
Ses cheveux sur son sein pleuvent longs et fleuris.

Dans les roseaux, vis-tu, sur un fleuve bleuâtre,
Le soir, glisser le front de la pâle Phoebé?
 Elle dort dans son bain et sa gorge d'albâtre,
Comme la lune, argente un flot du ciel tombé.

Son doigt qui sur l'eau calme effeuillait une rose
Comme une urne odorante offre un calice vert:
Descends, ô brune Hébé! verse de ta main rose
Ce vin qui fait qu'un coeur brûle, à tout coeur ouvert.

Elle est dans l'atrium la blonde Lycoris
Sous un flot parfumé mollement renversée:
Comme ton arc d'argent, Diane aux forêts lancée,
Se détend son beau corps sous ses amants choisis.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, 2007, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Mallarmé: Vitoriosamente eludido o suicídio belo . . . [soneto]

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Vitoriosamente eludido o suicídio belo
Tição de glória, sangue em espuma, ouro, tormenta!
Ó riso se além uma púrpura prepara-se
A erigir real só o meu túmulo ausente.

Quê! de todo este brilho nem mesmo um farrapo
Demora-se, é meia-noite, à sombra que nos festeja
Exceto que um tesouro com presunção de cabeça
Verte sua acariciada indolência sem tocha.

A tua sim para sempre o deleite! a tua
Sim única que do céu desmaiado retenha
Um pouco de infantil triunfo ao nimbar-te a cabeça

Com luz quando sobre as almofadas a pousas
Como um casco guerreiro de imperatriz infanta
Do qual para te figurar cairiam rosas.

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Stéphane Mallarmé

Victorieusement fui le suicide beau
Tison de gloire, sang par écume, or, tempête!
Ô rire si là-bas une pourpre s'apprête
À ne tendre royal que mon absent tombeau.

Quoi! de tout cet éclat pas même le lambeau
S'attarde, il est minuit, à l'ombre qui nous fête
Excepté qu'un trésor présomptueux de tête
Verse son caressé nonchaloir sans flambeau,

La tienne si toujours le délice! la tienne
Oui seule qui du ciel évanoui retienne
Un peu de puéril triomphe en t'en coiffant

Avec clarté quand sur les coussins tu la poses
Comme un casque guerrier d'impératrice enfant
Dont pour te figurer il tomberait des roses.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, 2007, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sábado, 21 de março de 2020

Mallarmé: Meus velhos livros fechados no nome de Pafos . . . [soneto]

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Meus velhos livros fechados no nome de Pafos
Diverte-me eleger com o gênio somente
Uma ruína, por mil espumas bendita
Sob o jacinto, ao longe, de seus dias triunfais.

Corra o frio com seus silêncios de foice,
Não vou ulular ali alguma vazia nênia
Se esta branquíssima luta à flor do solo nega
A todo lugar a honra da paisagem falsa.

Minha fome que nenhum fruto aqui sacia
Encontra em sua douta falta um sabor igual:
Que um esplenda de carne humano e perfumando!

O pé nalguma serpe em que nosso amor se atiça
Peço mais tempo ainda talvez perdidamente
Na outra, no seio calcinado de uma amiga amazona.

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Stéphane Mallarmé

Mes bouquins refermés sur le nom de Paphos,
Il m’amuse d’élire avec le seul génie
Une ruine, par mille écumes bénie
Sous l’hyacinthe, au loin, de ses jours triomphaux.

Coure le froid avec ses silences de faux,
Je n’y hululerai pas de vide nénie
Si ce très blanc ébat au ras du sol dénie
À tout site l’honneur du paysage faux.

Ma faim qui d’aucuns fruits ici ne se régale
Trouve en leur docte manque une saveur égale:
Qu’un éclate de chair humain et parfumant!

Le pied sur quelque guivre où notre amour tisonne,
Je pense plus longtemps peut-être éperdument
À l’autre, au sein brûlé d’une antique amazone.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, 2007, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Mallarmé: Puras unhas no alto dedicando seus ônix, . . . [soneto]

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[traduzido por Augusto de Campos]

Puras unhas no alto dedicando seus ônix,
A Angústia, sol nadir, sustém, lampadifária,
Tais sonhos vesperais queimados pela Fênix
Que não recolhe, ao fim de ânfora funerária

Sobre as aras, no salão vazio: nenhum ptyx,
Falido bibelô de inanição sonora
(Que o Mestre foi haurir outros prantos no Styx
Com esse único ser de que o Nada se honora.)

Mas junto à gelosia, ao norte vaga, um ouro
Agoniza talvez segundo o adorno, faísca
De licornes, coices de fogo ante o tesouro,

Ela defunta nua num espelho embora,
Que no olvido cabal do retângulo fixa
De outras cintilações o séptuor sem demora.*

Stéphane Mallarmé
Mallarmé

Ses purs ongles... [Sonnet en yx]

Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx,
L’Angoisse ce minuit, soutient, lampadophore,
Maint rêve vespéral brûlé par le Phénix
Que ne recueille pas de cinéraire amphore

Sur les crédences, au salon vide: nul ptyx,
Aboli bibelot d’inanité sonore,
(Car le Maître est allé puiser des pleurs au Styx
Avec ce seul objet dont le Néant s’honore.)

Mais proche la croisée au nord vacante, un or
Agonise selon peut-être le décor
Des licornes ruant du feu contre une nixe,

Elle, défunte nue en le miroir, encor
Que, dans l’oubli fermé par le cadre, se fixe
De scintillations sitôt le septuor.

* Trad. de Augusto de Campos, em Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Mallarmé, São Paulo, Perspectiva, 1980, p. 65.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, 2007, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Mallarmé: As Flores

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Das avalanches de ouro do velho azul, no dia
Primeiro e da neve sempiterna dos astros
Separaste outrora os grandes cálices para
A terra ainda jovem e virgem dos desastres,

O ruivo gladíolo, com os cisnes de colo fino,
E o divino loureiro das almas exiladas,
Rubro como o puro artelho do serafim
Que o pudor de auroras esmagadas enrubesce,

O jacinto, o mirto de adorável brilho
E, semelhante à carne da mulher, a rosa
Cruel, Herodíade em flor do jardim claro,
Que um sangue indomável e radiante asperge!

E fizeste a brancura soluçante dos lírios
Que girando nos mares de suspiros que ela aflora
Pelo incenso azul de horizontes descorados
Sonhadoramente sobe à luz que plange!

Hosana nos cistros e nos incensórios,
Nossa senhora, hosana do jardim de nossos limbos!
E que termine o eco pelas celestes tardes,
Êxtase dos olhares, cintilação dos nimbos!

Ó Mãe, que criaste em teu seio justo e forte
Cálices ondulando o futuro frasco,
Grandes flores com a balsâmica Morte
Para o poeta lasso que a vida estiola.

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Mallarmé

Les Fleurs

Des avalanches d’or du vieil azur, au jour
Premier et de la neige éternelle des astres
Jadis tu détachas les grands calices pour
La terre jeune encore et vierge de désastres,

Le glaïeul fauve, avec les cygnes au col fin,
Et ce divin laurier des âmes exilées
Vermeil comme le pur orteil du séraphin
Que rougi la pudeur des aurores foulées,

L’hyacinthe, le myrte à l’adorable éclair
Et, pareille à la chair de la femme, la rose
Cruelle, Hérodiade en fleur du jardin clair,
Celle qu’un sang farouche et radieux arrose!

Et tu fis la blancheur sanglotante des lys
Qui roulant sur des mers de soupirs qu’elle effleure
A travers l’encens bleu des horizons pâlis
Monte rêveusement vers la lune qui pleure!

Hosannah sur le cistre et dans les encensoirs,
Notre Dame, hosannah du jardin de nos limbes!
Et finisse l’écho par les célestes soirs,
Extase des regards, scintillement des nimbes!

Ô Mère qui créas en ton sein juste et fort,
Calices balançant la future fiole,
De grandes fleurs avec la balsamique Mort
Pour le poète las que la vie étiole.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, 2007, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Mallarmé: O túmulo de Edgar Poe

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Como em Si mesmo enfim a eternidade o muda,
O Poeta suscita com um gládio nu
Seu tempo assombrado por não ter entendido
Que a morte triunfava nessa voz estranha!

Eles, tal vil tremor de hidra ouvindo outrora o anjo
Dar um sentido mais puro às palavras da tribo
Proclamaram muito alto o sortilégio bebido
Na onda sem honra de alguma negra mistura.

Da terra e da nuvem adversos, ó agravo!
Se nossa idéia com não esculpe em baixo-relevo
De que se orne deslumbrante a tumba de Poe,

Como bloco caído aqui de um desastre obscuro
Que este granito ao menos mostre sempre seu marco
Aos negros vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.

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Mallarmé

Le tombeau d'Edgar Poe

Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change,
Le Poète suscite avec un glaive nu
Son siècle épouvanté de n’avoir pas connu
Que la mort triomphait dans cette voix étrange!

Eux, comme un vil sursaut d’hydre oyant jadis l’ange
Donner un sens plus pur aux mots de la tribu
Proclamèrent très haut le sortilège bu
Dans le flot sans honneur de quelque noir mélange.

Du sol et de la nue hostiles, ô grief!
Si notre idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s’orne,

Calme bloc ici-bas chu d’un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux noirs vols du Blasphème épars dans le futur.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, 2007, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Safo: Ode a Afrodite

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Aphrodite em trono de cores e brilhos,
imortal filho de Zeus, urdidora de tramas!
eu te imploro: a dores e mágoas não dobres,
Soberana, meu coração;

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mas vem até mim, se jamais no passado,
ouviste ao longe meu grito, e atendeste,
e o palácio do pai abandonado,
áureo, tu vieste,

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no carro atrelado: conduziam-te, rápidos,
lindos pardais sobre a terra sombria,
lado a lado num bater de asas, do céu,
através dos ares,

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e pronto chegaram; e tu, Bem aventurada,
com um sorriso no teu rosto imortal,
perguntaste por que de novo eu sofria,
e por que de novo eu suplicava;

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e o que para mim eu mais quero,
no coração delirante. Quem de novo, a Persuasiva
deve convencer para o teu amor? Quem,
ó Psappha, te contraria?

______

Pois, ela, que foge, em breve te seguirá;
ela que os recusa, presentes vai fazer;
ela que não te ama, vai te amar em breve,
embora não querendo.

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vem, outra vez  agora! Livra-me
desta angústia e alcança para mim,
tu mesma, o que o coração mais deseja:
sê meu Ajudante-em-Combates!

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Ποικιλόθρον᾽ ὰθάνατ᾽ ᾽Αφροδιτα,
παῖ Δίοσ, δολόπλοκε, λίσσομαί σε
μή μ᾽ ἄσαισι μήτ᾽ ὀνίαισι δάμνα,
πότνια, θῦμον.

ἀλλά τυίδ᾽ ἔλθ᾽, αἴποτα κἀτέρωτα
τᾶσ ἔμασ αύδωσ αἴοισα πήλγι
ἔκλυεσ πάτροσ δὲ δόμον λίποισα
χρύσιον ἦλθεσ

ἄρμ᾽ ὐποζεύξαια, κάλοι δέ σ᾽ ἆγον
ὤκεεσ στροῦθοι περὶ γᾶσ μελαίνασ
πύκνα δινεῦντεσ πτέῤ ἀπ᾽ ὠράνω
αἴθεροσ διὰ μέσσω.

αῖψα δ᾽ ἐχίκοντο, σὺ δ᾽, ὦ μάσαιρα
μειδιάσαισ᾽ ἀθάνατῳ προσώπῳ,
ἤρἐ ὄττι δηὖτε πέπονθα κὤττι
δἦγτε κάλημι

κὤττι μοι μάλιστα θέλω γένεσθαι
μαινόλᾳ θύμῳ, τίνα δηὖτε πείθω
μαῖσ ἄγην ἐσ σὰν φιλότατα τίσ τ, ὦ
Πσάπφ᾽, ἀδίκηει;

καὶ γάρ αἰ φεύγει, ταχέωσ διώξει,
αἰ δὲ δῶρα μὴ δέκετ ἀλλά δώσει,
αἰ δὲ μὴ φίλει ταχέωσ φιλήσει,
κωὐκ ἐθέλοισα.

ἔλθε μοι καὶ νῦν, χαλεπᾶν δὲ λῦσον
ἐκ μερίμναν ὄσσα δέ μοι τέλεσσαι
θῦμοσ ἰμμέρρει τέλεσον, σὐ δ᾽ αὔτα
σύμμαχοσ ἔσσο.

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Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos  Joaquim Brasil Fontes (poema e fragmentos em edição bilíngue), Apresentação-estudo de Benedito Nunes, 2ª edição revista e corrigida, 2003, Editora Iluminuras, São Paulo —  SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. —  com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; foi poetisa, além de tecelã e sacerdotisa; de sua poesia, chegaram até nós apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a 'Ode a Afrodite', preservado em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); é considerada a primeira poetisa com registro na história do nosso mundo ocidental; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; além da poesia lírica, tais comentadores nos contam que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; consta ter criado uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, onde estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de a ‘décima musa’, por Platão (428/427 a.C.  348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C.  8 a.C.) e Catulo (87 a.C.?  57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778  1827) e Giacomo Leopardi (1798 — 1837); são vários os poetas que em suas criações se referem a Safo e sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.