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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Anne Sexton: Uma Festa para o meu Útero

 
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[traduzido por Bruna Beber]

Cada uma em mim é pássaro.
Então bato todas as minhas asas.
Queriam arrancar você de mim
mas não o farão.
Disseram que estava oco até não poder mais.
mas não está.
Disseram que estava à beira da morte
mas estavam equivocados.
Você canta feito uma colegial.
Você não está dilacerado.

Caro peso,
para celebrar a mulher que sou
e a alma da mulher que sou
e o protagonista disso tudo e sua alegria
eu canto para você. Me atrevo a viver.
Olá, fantasma. Olá, birita.
Segura, protege. Protege o que contém.
Olá, solo de todos os campos.
Bem-vindas, raízes.

Toda célula tem vida.
Tenho o bastante para satisfazer uma nação.
Basta que os povos tenham esses bens.
Qualquier pessoa, qualquer Estado diria:
“O bom é que esse ano voltaremos a plantar
e a antever a colheita.
Previmos a praga e ela foi exterminada”.
Muitas mulheres cantam juntas neste momento:
uma está numa fábrica de sapatos xingando a máquina,
uma está no antiquário tomando conta de uma foca,
uma está entediada ao volante de seu Ford,
uma está cobrando o pedágio,
uma está amarrando um bezerro no Arizona,
uma está enganchada num violoncelo na Rússia,
uma está mudando as panelas de lugar no Egito,
uma está pintando o quarto com a cor da lua,
uma está morrendo e relembra um café da manhã,
uma está se alongando num tapete na Tailândia,
uma está limpando a bunda do filho,
uma está olhando pela janela de um trem
no meio do Wyoming, e uma está
num lugar qualquer, e outras por toda parte
parecem estar cantando, embora algumas não
consigam cantar uma só nota.

Caro peso,
para festejar a mulher que sou
deixe-me carregar um lenço de três metros,
deixe-me batucar para as moças de dezenove anos,
deixe-me carregar tigelas para a oferenda
(se é este meu papel).
Deixe-me estudar o tecido cardiovascular,
deixe-me analisar a distância angular dos meteoros,
deixe-me chupar os caules das flores
(se este é meu papel).
Deixe-me virar certas figuras tribais
(se é este meu papel).
Para tanto o corpo precisa
que me deixa cantar
ó jantar,
o beijo,
o apropriado
sim.

(Poemas de Amor — 1969)

Anne Sexton

In Celebration of My Uterus

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

(Love Poems — 1969)
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Anne Sexton: Compaixão — edição bilíngue, Seleção e Apresentação de Linda Gray Sexton, Texto-orelhas do livro de Adelaide Ivánova, Tradução de Bruna Beber [poemas] e Laura Torres [Apresentação], 2023, Relicário Edições, Belo Horizonte — MG; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 — 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.

sábado, 5 de setembro de 2026

Anne Sexton: A Morte de Sylvia

 
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[traduzido por Bruna Beber]

Ah, Sylvia, Sylvia,
cascalhos e colheres no caixão,

dois filhos, dois meteoros
perambulando na sala de recreação.

abocanhando o lençol,
a viga do teto, a prece muda.

(Sylvia, Sylvia,
onde você estava
depois que me escreveu
do Devonshire
falando de plantar batatas
e criar abelhas?)

o que esperava,
assim que se deitou?

Ladra! —
como foi que rastejou,

rastejou sozinha
para a morte há tanto desejada e minha,

a morte que combináramos superada,
carregada em nossos peitos magros,

aquela de que tanto falávamos sempre
que entornávamos três dry martinis em Boston,

a morte que expunha analistas e recuperações,
a morte que debatíamos feito noivas cúmplices,

a morte que tanto brindamos
os motivos e depois o ato silencioso?

(Em Boston,
quem agoniza
anda de táxi,
é, morte de novo,
aquela volta pra casa
com o nosso rapaz.)

Ah, Sylvia, me lembro do baterista sonolento
martelando nossa cabeça com papo furado,

do quanto desejávamos recebê-lo
qual sádico ou bicha de Nova York,

para fazer a parte dele,
uma urgência, uma janela na parede ou um berço,
 
e desde então ele ainda espera
sob nosso coração, nosso armário da cozinha,

e agora entendo que lá o mantivemos
ano após ano, suicidas pretéritas

e com a notícia da sua morte,
provo o gosto terrível disso, parece sal.

(E eu,
eu também.
E agora, Sylvia,
você de novo
a morte de novo,
aquela volta pra casa
com o nosso rapaz.)

Só tenho uma coisa a dizer
com os braços abertos, mas petrificada,

sua morte é o que mais, além
de uma velha conhecida,

uma toupeira que caiu
de um de seus poemas?

(Ah, amiga,
enquanto a lua não vimga,
e o rei está morto,
e a rainha está perplexa
a bebum aqui tem que cantar!)

Ah, mãezinha,
canta também!
Ah, duquesa zombeteira!
Ah, meu loirão!

(Viver ou Morrer — 1966)

Anne Sexton

Sylvia’s Death

O Sylvia, Sylvia,
with a dead box of stones and spoons,

with two children, two meteors
wandering loose in the tiny playroom,

with your mouth into the sheet,
into the roof beam, into the dumb prayer,

(Sylvia, Sylvia,
where did you go
after you wrote me
from Devonshire
about raising potatoes
and keeping bees?)

what did you stand by,
just how did you lie down into?

Thief —
how did you crawl into,

crawl down alone
into the death I wanted so badly and for so long,

the death we said we both outgrew,
the one we wore on our skinny breasts,

the one we talked of so often each time
we downed three extra dry martinis in Boston,

the death that talked of analysts and cures,
the death that talked like brides with plots,

the death we drank to,
the motives and the quiet deed?

(In Boston
the dying
ride in cabs,
yes death again,
that ride home
with our boy.)

O Sylvia, I remember the sleepy drummer
who beat on our eyes with an old story,

how we wanted to let him come
like a sadist or a New York fairy

to do his job,
a necessity, a window in a wall or a crib,

and since that time he waited
under our heart, our cupboard,

and I see now that we store him up
year after year, old suicides

and I know at the news of your death,
a terrible taste for it, like salt,

(And me,
me too.
And now, Sylvia,
you again
with death again,
that ride home
with our boy.)

And I say only
with my arms stretched out into that stone place,

what is your death
but an old belonging,

a mole that fell out
of one of your poems?

(O friend,
while the moon’s bad,
and the king’s gone,
and the queen’s at her wit’s end
the bar fly ought to sing!)

O tiny mother,
you too!
O funny duchess!
O blonde thing!

[February 17, 1963]

(Live or Die — 1966)
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Anne Sexton: Compaixão — edição bilíngue, Seleção e Apresentação de Linda Gray Sexton, Texto-orelhas do livro de Adelaide Ivánova, Tradução de Bruna Beber [poemas] e Laura Torres [Apresentação], 2023, Relicário Edições, Belo Horizonte — MG; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 — 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Anne Sexton: Fulanas

 
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[traduzido por Bruna Beber]

Caí no mundo, bruxa hedionda,
apavorando a escuridão; à noite, audaz;
devaneando males, fazia minha ronda
sobrevoando casinhas, lampiões a gás:
solitária, doze dedos, doidivanas.
Mulher assim não é mulher demais.
Já fui essas fulanas.

Fiz casa nas grutas cálidas das matas,
lotei de frigideiras, esculturas, prateleiras,
armarinhos, sedas, coisas boas e gratas;
servi jantares para elfos e varejeiras:
choramingona, acolhia ratazanas.
Mulher assim é rejeitada,
já fui essas fulanas.

Carroceiro, já montei na tua carroça
E, braço de fora, acenei para cavernas,
atenta à rota luminosa e derradeira, palhoça
pro teu fogo que ainda me morde as pernas
e tuas rodas arando minhas membranas.
Mulher assim a morte não governa.
Já fui essas fulanas.

(Alta Parcial do Manicômio — 1960)

Anne Sexton

Her Kind

I have gone out, a possessed witch,
haunting the black air, braver at night;
dreaming evil, I have done my hitch
over the plain houses, light by light:
lonely thing, twelve-fingered, out of mind.
A women like that is not a woman, quite.
I have been her kind.

I have found the warm caves in the woods,
filled them with skillets, carvings, shelves,
closets, silks, innumerable goods;
fixed the suppers for the worms and the elves:
whining, rearranging the disaligned.
A woman like that is misunderstood.
I have been her kind.

I have ridden in your cart, driver,
waved my nude arms at villages going by,
learning the last bright routes, survivor
where your flames still bite my thigh
and my ribs crack where your wheels wind.
A woman like that is not ashamed to die.
I have been her kind.

(To Bedlam and Part Way Back — 1960)
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Anne Sexton: Compaixão — edição bilíngue, Seleção e Apresentação de Linda Gray Sexton, Texto-orelhas do livro de Adelaide Ivánova, Tradução de Bruna Beber [poemas] e Laura Torres [Apresentação], 2023, Relicário Edições, Belo Horizonte — MG; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 — 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Anne Sexton: Mãe e Filha

 
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[traduzido por Bruna Beber]

Linda, agora você deixa
seu corpo antigo para trás.
Ele espichou, borboleta antiga,
todo braços, pernas, asas,
folgado como vestido velho.
Estendo a mão para tocá-lo mas
meus dedos viram chagas
e sou colo de mãe e estou acabada,
assim como sua infância está acabada.
Faço perguntas sobre isso
e você mostra pérolas.
Faço perguntas sobre isso
e você ignora exércitos.
Faço perguntas sobre isso —
e seu relógio se avoluma, a toda,
ponteiros maiores que jogo de varetas —
e você vai costurar um continente.

Agora que tem dezoito anos
dou-lhe meu butim, meus restos,
minha Mãe & Co. e minhas doenças.
Faço perguntas sobre isso
e você não saberá a resposta —
a mordaça na boca,
a esperança da bomba de oxigênio,
os tubos, os caminhos,
a guerra e o vômito da guerra.
Prossiga, prossiga, prossiga,
levando lembrancinhas pros garotos,
levando maquiagem pros garotos,
levando, minha Linda, sangue
para a sangria.

Linda, agora você deixa
seu corpo antigo para trás.
Você esvaziou meu bolso
e já empilhou todas as minhas
fichas de pôquer e me deixou
sem nada, e o rio entre nós
se estreita e você faz ginástica,
semáforo com pernas de mulher.
Faço perguntas sobre isso
e você vai coser minha mortalha
e manter o frango às segundas-feiras
e tirar as tripas dele com o dedo.
Faço perguntas sobre isso
e você verá minha morte
babando em lábios cinzentos
enquanto você, minha ladra, come
frutas e aproveita o dia.

(O Livro da Besteira — 1973)

Anne Sexton

Mother and Daughter

Linda, you are leaving
your old body now.
It lies flat, an old butterfly,
all arm, all leg, all wing,
loose as an old dress.
I reach out toward it but
my fingers turn to cankers
and I am motherwarm and used,
just as your childhood is used.
Question you about this
and you hold up pearls.
Question you about this
and you pass by armies.
Question you about this —
you with your big clock going,
its hands wider than jackstraws —
and you’ll sew up a continent.

Now that you are eighteen
I give you my booty, my spoils,
my Mother & Co. and my ailments.
Question you about this
and you’ll not know the answer —
the muzzle at the mouth,
the hopeful tento f oxygen,
the tubes, the pathways,
the war and the war’s vomit.
Keep on, keep on, keep on,
carrying keepsakes to the boys,
carrying powders to the boys,
carrying, my Linda, blood to
the bloodletter.

Linda, you are leaving
your old body now.
You’ve picked my pocket clean
and you’ve racked up all my
poker chips and left me empty
and, as the river between us
narrows, you do calisthenics,
that womanly leggy semaphore.
Question you about this
and you will sew me a shroud
and hold up Monday’s broiler
and thumb out the chicken gut.
Question you about this
and you will see my death
drooling at these gray lips
while you, my burglar, will eat
fruit and pass the time of day.

(The Book of Folly — 1973)
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Anne Sexton: Compaixão — edição bilíngue, Seleção e Apresentação de Linda Gray Sexton, Texto-orelhas do livro de Adelaide Ivánova, Tradução de Bruna Beber [poemas] e Laura Torres [Apresentação], 2023, Relicário Edições, Belo Horizonte — MG; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 — 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.