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sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Bocage: O ledo passarinho, que gorjeia, . . . [soneto]

 
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O ledo passarinho, que gorjeia,
de alma exprimindo a cândida ternura,
o rio transparente, que murmura,
e por entre pedrinhas serpenteia:

o Sol, que o céu diáfano passeia,
a Lua, que lhe deve a formosura,
o sorriso da aurora alegre, e pura,
a rosa, que entre os zéfiros ondeia:

a serena, amorosa primavera,
o doce autor das glórias que consigo,
a deusa das paixões e de Citera:

quanto digo, meu bem, quanto não digo,
tudo em tua presença degenera,
nada se pode comparar contigo.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), português de Setúbal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; seguiu para Lisboa em 1783, se alistou na marinha de guerra, frequentou a Academia Real dos Guarda-Marinhas, passou a participar da vida boêmia da cidade, em 1786 partiu para Goa, colônia portuguesa na Índia, depois seguiu para Damão, outra colônia naquele país, desertou, daí foi para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal em 1790; Bocage escrevia desde a mais tenra idade, ao publicar sua primeira obra, Rimas, em 1791, foi convidado a fazer parte da Academia de Belas Artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, cidade onde nasceu; em 1794, “devido ao seu espírito independente, sarcástico e indisciplinado, inquieto e atraído pela vida boêmia’, foi expulso da Nova Arcádia; em 1797, acusado de heresia, de levar vida devassa e disseminar “ideias contra a ordem social”, o poeta foi encarcerado, passando por diversas prisões, hospícios e conventos; enquanto esteve recolhido no Hospício das Necessidades, por força de sentença prisional, Bocage se dedicou aos estudos, foi redator e traduziu várias obras, entre as quais as Metamorfoses, do poeta romano Ovídio; após sua libertação no último dia de 1798, publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos publicados: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina (1791), ...

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Bocage: Já Bocage não sou!... À cova escura . . . [soneto]

 
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Já Bocage não sou!... À cova escura
meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
leve me torne sempre a terra dura:

Conheço agora já quão vã figura
em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento
se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
brade em alto pregão, à mocidade,
que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
manchei... Ó, se me creste, gente ímpia,
rasga meus versos, crê na eternidade!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), português de Setúbal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; seguiu para Lisboa em 1783, se alistou na marinha de guerra, frequentou a Academia Real dos Guarda-Marinhas, passou a participar da vida boêmia da cidade, em 1786 partiu para Goa, colônia portuguesa na Índia, depois seguiu para Damão, outra colônia naquele país, desertou, daí foi para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal em 1790; Bocage escrevia desde a mais tenra idade, ao publicar sua primeira obra, Rimas, em 1791, foi convidado a fazer parte da Academia de Belas Artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, cidade onde nasceu; em 1794, “devido ao seu espírito independente, sarcástico e indisciplinado, inquieto e atraído pela vida boêmia’, foi expulso da Nova Arcádia; em 1797, acusado de heresia, de levar vida devassa e disseminar “ideias contra a ordem social”, o poeta foi encarcerado, passando por diversas prisões, hospícios e conventos; enquanto esteve recolhido no Hospício das Necessidades, por força de sentença prisional, Bocage se dedicou aos estudos, foi redator e traduziu várias obras, entre as quais as Metamorfoses, do poeta romano Ovídio; após sua libertação no último dia de 1798, publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos publicados: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina (1791), ...

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Bocage: Chorosos versos meus desentoados, . . .[soneto]

Era Clássica Soares Amora A Presença Literatura Portuguesa
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Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da desventura,
Pela baça tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mundo esquecimento e sepultura:
Se os ditosos  vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, ó versos, cobardia,
Da sátira mordaz o furor louco,
De maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...