segunda-feira, 31 de julho de 2023

Bocage: Li as catorze regras aos penachos . . . [soneto]

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Por ocasião de um soneto composto pelo mesmo [padre Joaquim Franco de Araújo Freire Barbosa, vigário da igreja de Almoster]

Li as catorze regras aos penachos,
e trova, que as orelhas nos magoa;
Viva a maruja frase  Estou na proa... 
Modelo singular de termos baixos!

A lembrança dos bois, burros, e machos
É lembrança feliz, é coisa boa!
Pois o palheiro, que sem peso voa!...
Isso dá jus à cilha e berbicachos:

O lugar onde a mão findou seis linhas
Podia muito bem ficar em branco,
Sem fazer falta às pobres das vizinhas:

O quinto indigno verso é quase manco;
A idéia tem mais sal que três marinhas;
E a córnea conclusão laureia o Franco!

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Bocage — Sonetos Completos, Primeira Edição, Primeira Impressão, 1989, Editora Núcleo, São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; ao ir para Lisboa (1783), depois de ter se alistado na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, as quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

domingo, 30 de julho de 2023

Zalina Rolim: Tanto se alarga e toma corpo e avulta . . . [soneto]


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Tanto se alarga e toma corpo e avulta
No seio meu esta afeição, que embora
Lute e me esforce já ninguém ignora
E eu já não posso mais trazê-la oculta;

Canta em meus olhos, meu sorriso enflora;
Oráculo ideal que olha e consulta
Minha alma — dia a dia, e alegre exulta
Se ele sorri-se ou chora se ele chora.

Por este afeto a minha vida inteira;
Nele acendeu-se a minha luz primeira,
Nele o meu céu, meus íntimos altares!

Ria-se embora o mundo impiedoso:
Pelos fulgores do terreno gozo
Eu não daria um só dos seus olhares...

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Zalina Rolim — Arruda Dantas [biografia e poemas], Apresentação [Prefácio], Organização de dados biográficos e Posfácio “Post Scriptum” de Arruda Dantas, 1983, Editora Pannartz, São Paulo — SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque, Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai, então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João Kopke [educador e escritor, 1852 1926]; no mais, todo seu aprendizado cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista, foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo, anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (1893), Livro das Crianças (poesias, 1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 Vila Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira, 26 Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro de 2023].

sábado, 29 de julho de 2023

Arthur Rimbaud: Uma temporada no inferno

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

     Antes, se lembro bem, minha vida era um festim em que se abriam todos os corações, todos os vinhos corriam.
     Uma noite, fiz a Beleza sentar no meu colo. E achei amarga. Injuriei.
     Me preveni contra a justiça.
     Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue a vocês!
     Consegui fazer desaparecer no meu espírito toda a esperança humana. Para extirpar qualquer alegria dava o salto mudo do animal feroz.
     Chamei o pelotão para, morrendo, morder a coronha dos fuzis. Chamei os torturadores para me afogarem com areia, sangue. A desgraça foi meu Deus. Me estendi na lama. Fui me secar no ar do crime. Preguei peças à loucura.
     E a primavera me trouxe o riso horrível do idiota.
     Ora, ultimamente, chegando ao ponto de soltar o último basta!, pensei em buscar a chave do antigo festim, que talvez me devolvesse o apetite dele.
     A caridade é a chave. Inspiração que prova que eu estava sonhando!
     “Continuarás hiena, etc...” repete o demônio que me orna de amáveis flores de ópio. “A morte virá com todos os teus desejos, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais.”
     Ah! pequei demais: Mas, caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! e esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno.

Arthur Rimbaud

Une saison en enfer

     Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s’ouvraient tous les cœurs, où tous les vins coulaient.
     Un soir, j’ai assis la Beauté sur mes genoux.  Et je l’ai trouvée amère.  Et je l’ai injuriée.
     Je me suis armé contre la justice.
     Je me suis enfui. Ô sorcières, ô misère, ô haine, c’est à vous que mon trésor a été confié!
     Je parvins à faire s’évanour dans mon esprit toute l’espérance humaine. Sur toute joie pour l’étrangler j’ai fait le bond sourd de la bête féroce.
     J’ai appelé les bourreaux pour, en périssant, mordre la crosse de leurs fusils. J’ai appelé les fléux, pour m’étouffer avec le sable, avec le sang. Le malheur a été mon dieu. Je me suis allongé dans la boue. Je me suis séché à l’air du crime. Et j’ai joué de bons tours à la folie.
     Et le printemps m’a apporté l’affreux rire de l’idiot.
     Or, tout dernièrement, m’étant trouvé sur le point de faire le dernier couac! j’ai songé à rechercher la clef du festin ancien, où je reprendrais peut-être appétit.
     La charité est cette clef.  Cette inspiration prouve que j’ai rêvé!
     «Tu resteras hyène, etc.», se récrie le démon qui me couronna de si aimables pavots. «Gagne la mort avec tous tes appétits, et ton égoïsme et tous les péchés capitaux.»
     Ah! j’en ai trop pris:  Mais, cher Satan, je vous en conjure, une prunelle moins irritée! et en attendant les quelques petites lâchetés en retard, vous qui aimez dans l’écrivain l’absence des facultés descriptives ou instructives, je vous détache des quelques hideux feuillets de mon carnet de damné.
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Uma temporada no inferno — Arthur Rimbaud, edição bilíngue, Tradução de Paulo Hecker Filho, 2006, reimpressão 2015, Série L&PM Pocket Plus nº 35, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Friedrich Nietzsche: 1. “A ociosidade é a mãe de toda psicologia.”* Como? A psicologia seria — um vício? & outros aforismos


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[traduzido por Paulo César de Souza]

Máximas e Flechas

     1. “A ociosidade é a mãe de toda psicologia.”* Como? A psicologia seria um vício?
     7. Como? O ser humano é apenas um equívoco de Deus? Ou Deus apenas um equívoco do ser humano?
     18. Quem sabe pôr sua vontade nas coisas lhes põe ao menos um sentido: isto é, acredita que nelas já se encontra uma vontade (princípio da “fé”).
     21. Colocar-se apenas em situações em que não se pode ter virtudes aparentes, em que, como o funâmbulo sobre uma corda, ou se cai ou se fica em pé ou se escapa...
     29. “Quanto tinha de remorder a consciência antigamente! Que bons dentes tinha!** E hoje? O que lhe falta?” Pergunta de um dentista.
     34. On ne peut penser et écrire qu’assis [Não se pode pensar e escrever senão sentado] (G. Flaubert). Com isso te pego, niilista! A vida sedentária*** é justamente o pecado contra o santo espírito. Apenas os pensamentos andados têm valor.
     44. A fórmula de minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta...

Friedrich Nietzsche

Sprüche und Pfeile

     1 Müßiggang ist aller Psychologie Anfang. Wie? Wäre Psychologie ein Laster?
     7 Wie? ist der Mensch nur ein Fehlgriff Gottes? Oder Gott nur ein Fehlgriff des Menschen?
     18 Wer seinen Willen nicht in die Dinge zu legen weiß, der legt wenigstens einen Sinn noch hinein: das heißt, er glaubt, daß ein Wille bereits darin sei (Prinzip des »Glaubens«).
     21 Sich in lauter Lagen begeben, wo man keine Scheintugenden haben darf, wo man vielmehr, wie der Seiltänzer auf seinem Seile, entweder stürzt oder steht oder davon kommt...
     29 »Wie viel hatte ehemals das Gewissen zu beißen! welche guten Zähne hatte es! Und heute? woran fehlt es?« Frage eines Zahnarztes.
     34 On ne peut penser et écrire qu'assis (G. Flaubert). Damit habe ich dich, Nihilist! Das Sitzfleisch ist gerade die Sünde wider den heiligen Geist. Nur die ergangenen Gedanken haben Wert.
     44 Formel meines Glücks: ein Ja, ein Nein, eine gerade Linie, ein Ziel...

Notas do tradutor Paulo César de Souza:
* “A ociosidade é a mãe de toda psicologia”: a tradução literal seria “o começo de toda psicologia”, pois a frase é uma paródia do provérbio que diz: “Müßiggang ist aller Last Anfang. “A ociosidade é o começo de todos os vícios”.
** A palavra para “remorso”, em alemão, é Gewissenshiß, literalmente “mordida de consciência” — morsus conscientae, em latim. Ver Genealogia da moral, II, 15, sobre Spinoza e o morsus conscientae.
*** “A vida sedentária”: Das Sitzfleisch, no original. Nas versões consultadas: “A carne sentada”, “A pachorra”, La carne del trasero, Lo star seduti, Rester assis, The sedentary life, Assiduity, Sitting still, cf. Ecce homo, II, 1, e nota correspondente. A frase do romancista Gustave Flaubert (1821-60) foi relatada por Guy de Maupassant no prefácio às cartas de Flaubert a George Sand (Paris, 1884, vol. III, volume encontrado entre os livros de Nietzsche quando este morreu).
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Crepúsculo dos ídolos, ou Como se filosofa com o martelo — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 2006, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

genésio dos santos: o perseguidor de sonhos


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juntava os cacos que foi pela vida
mercadejava sonhos todo dia
não se exauria em criar acordes
num instrumento que trazia à pele

tinha um desejo quase obsessivo
queria a flauta que o encantava
num dia quase transportou-se à lua
e noutro quase mergulhou no abismo

manter-se íntegro até o fim dos dias
era um propósito que o atormentava
partiu em busca do colo da mãe
sentiu vontade de comer lasanha

tascou-lhe um beijo e um abraço forte
e num rompante quis voltar ao útero
notou no entanto já haver crescido
e além de tudo parte fenecia

razão não pode ser só castradora
poesia não há que ser só devaneio...
ao perceber que se despedaçava
colou os cacos e se fez inteiro

(poesia criada em 22.12.2021
e dada por concluída em 27.07.2023)

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu: de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Charles Baudelaire: O vinho dos trapeiros

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[traduzido por José Saramago]

Muitas vezes, à luz vermelha de um candeeiro
Cuja chama o vento sacode e cujo vidro atormenta,
No coração de um velho subúrbio, labirinto lodoso.
Onde a humanidade se agita em fermentos tempestuosos,

Vê-se um trapeiro que vem, meneando a cabeça,
Tropeçando, e esbarrando nas paredes como um poeta,
E, sem dar atenção aos espiões, seus súbditos,
Expande todo o coração em gloriosos projectos.

Presta juramentos, dita leis sublimes,
Derruba os maus, ergue de novo as vítimas,
E sob o firmamento como um dossel suspenso
Enebria-se dos esplendores da sua própria virtude.

Sim, estes seres fatigados de desgostos domésticos,
Moídos do trabalho e atormentados pela idade,
Extenuados e vergados sob um monte de restos,
Vomitados confusos do enorme Paris,

Regressam, perfumados de um odor de tonéis,
Seguidos de companheiros, encanecidos nas batalhas,
Cujos bigodes pendem como os velhos estandartes.
As bandeiras, as flores e os arcos triunfais

Erguem-se diante deles, solene magia!
E na estrondosa e luminosa orgia
Dos clarins, do sol, dos gritos e do tambor,
Trazem a glória ao povo ébrio de amor!

Assim através da Humanidade frívola
O vinho rola ouro, deslumbrante Páctolo;
Com a garganta do homem canta as suas proezas
E reina por seus dons como os verdadeiros reis.

Para afogar o rancor e embalar a indolência
De todos esses velhos malditos que morrem em silêncio,
Deus, tocado de remorsos, fizera o sono;
O Homem juntou-lhe o Vinho, filho sagrado do Sol.

Charles Baudelaire

Le vin des chiffoniers

Souvent, à la clarté rouge d'un réverbère
Dont le vent bat la flamme et tourmente le verre,
Au coeur d'un vieux faubourg, labyrinthe fangeux
Où l'humanité grouille en ferments orageux,

On voit un chiffonnier qui vient, hochant la tête
Butant, et se cognant aux murs comme un poète,
Et sans prendre souci des mouchards, ses sujets,
Épanche tout son coeur en glorieux projets.

Il prête des serments, dicte des lois sublimes,
Terrasse les méchants, relève les victimes,
Et sous le firmament comme un dais suspendu
S'enivre des splendeurs de sa propre vertu.

Oui, ces gens harcelés de chagrins de ménage,
Moulus par le travail et tourmentés par l'âge,
Éreintés et pliant sous un tas de débris,
Vomissement confus de l'énorme Paris,

Reviennent, parfumés d'une odeur de futailles,
Suivis de compagnons, blanchis dans les batailles
Dont la moustache pend comme les vieux drapeaux.
Les bannières, les fleurs et les arcs triomphaux

Se dressent devant eux, solennelle magie!
Et dans l'étourdissante et lumineuse orgie
Des clairons, du soleil, des cris et du tambour,
Ils apportent la gloire au peuple ivre d'amour!

C'est ainsi qu'à travers l'Humanité frivole
Le vin roule de l'or, éblouissant Pactole;
Par le gosier de l'homme il chante ses exploits
Et règne par ses dons ainsi que les vrais rois.

Pour noyer la rancoeur et bercer l'indolence
De tous ces vieux maudits qui meurent en silence,
Dieu, touché de remords, avait fait le sommeil;
L'Homme ajouta le Vin, fils sacré du Soleil!

[Les Fleurs du mal — 1857]

* Nota do tradutor José Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais — Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Augusto dos Anjos: O Lupanar

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Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ariano Suassuna: Décimas ante um retrato de Camões


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Escritas por Ariano Suassuna em forma de Martelo agalopado1 e enviadas a Aloísio Magalhães2, em retribuição ao desenho que inspirou o poema

Se, na noite de chuva, a Tempestade
em solitários galhos açoitados,
revivesse os Navios naufragados3
e o travoso gemer da Soledade;
se, da grave assonância da Vontade
entrevesse se pudesse o sacrifício
nesse claro e cansado Frontispício
quem, mais do que teus Olhos4, cantaria
da vida o Caso cego e a galhardia,
a Luz flamante e o sacro Desperdício?

Teus olhos! Mas quem pode apaziguá-los?
Se, num, a Flecha agónica demora,
noutro há bruma, salgueiro e Harpa sonora,
entre os passos do Rei5 com seus vassalos.
O pó e o sangue, as patas dos Cavalos
repousam nesse Sulco fatigado.
E, se o bravo Queixume informulado
evoca os destroçados areais,
o ressonar dos Bosques provençais
doura na Morte a mágoa do Pecado.

Pensar que foste criança e que aspiraste
o cheiro da Madeira mal queimada;
que, ao perseguir, insone, a Madrugada,
a chama do Desterro desejaste.
O Sal marinho, as folhas que esmagaste,
e vida e nome, pássaro e Memória.
Pois, se Fortuna e treva derrisória
urdiram tua Sorte alada e escura,
foi que o porvir tecera, na Espessura,
da Cadência já morta o Canto e a glória.

Pureza e dolo. A Sombra se amontoa
destroço ressurreto e trespassado
na prisão6 a quem um tempo foste atado,
no Barco que te chama e te enevoa.
Debalde! A Fronte é cortadora Proa,
barba barroca é Quilha e madeirame.
E o Cedro, a Infanta7, a coifa de beirame8,
tudo isso e tudo mais que não se exprime
que não se diz e é o que talvez redime
o atravessar das águas e o Velame.

Assim, não mais o som desse Acalanto,
não mais o Apelo, só, do já passado:
que teu Anjo o receba, dissipado,
numa Páscoa de fogo e tenso Canto.
Pois se o Eco de sono e louro acanto
não te pôde levar o que pressente,
num sussurro fraterno e Sopro ardente
chegue a ti meu Duende extraviado
e o Sonho, anseio extinto e renovado,
que é Pena e mudez de meu presente.

[O Pasto incendiado — 1953.]


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Segundo Luís da Câmara Cascudo, o martelo de dez sílabas é “legítima obra-prima para o cantador nordestino”, e acrescenta “cantar martelo, improvisá-lo ou declamá-lo, respondendo ao adversário no embate do desafio, é o título mais ambicionado pelos cantadores”;
2. Programador visual contemporâneo, radicado no Rio de Janeiro, mas de origem pernambucana. Faleceu a 13 de junho de 1982;
3. Alusão poética ao célebre naufrágio em que Camões quase perde a vida e os originais de Os Lusíadas;
4. Camões, tendo optado pela carreira militar, foi fazer seu primeiro estágio na Costa da África. Um golpe inimigo ou um acidente (não se sabe ao certo) inutilizou-lhe um olho (cf. ainda segunda estrofe);
5. Possível alusão ao rei Dom Sebastião, a quem é dedicado Os Lusíadas. Devido às circunstâncias misteriosas da sua morte e à decadência político-econômica de Portugal a partir de 1580, criou-se nesse país um movimento político-sentimental que prega o culto a dom Sebastião e que leva o nome de “sebastianismo” (de enorme importância para o bom entendimento da ficção de Suassuna);
6. Logo depois do acidente de que foi vítima, Camões, segundo os biógrafos, levou vida boêmia e desregrada. Por isso, diversas vezes foi preso;
7. Alusão aos possíveis amores entre o poeta e a Infante Dona Maria, filha de Dom Manuel;
8. Referência ao poema de Camões em que a jovem amorosa se queixa de Joane por este se interessar mais pelo beirame (chita da índia) do que por ela.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 23 de julho de 2023

iessiênin: ótchar* [trecho]

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[traduzido por Augusto de Campos]

Nuvens como lagos,
Um ganso fulvo a lua.
Diante do nosso olhar
A Rússia dança em fúria.

O bosque treme o seu teto,
Fervilha a fonte.
Salve, Ótchkar, ressurreto!
Salve, mujique do horizonte!

As águas azuis
São tua paz e luz.
No mundo não resta
Liberdade funesta.

Canta, clama, conclama
Os mais remotos rastros.
O arco dos astros
Não tombará do céu em chama.

Não cairá do ocaso
A redoma roxa.
Teu ombro abraço
É recife-rocha.

19—20 junho 1917


Отчарь

Тучи как озера,
Месяц рыжий гусь.
Пляшет перед взором
Буйственная Русь.

Дрогнул лес зеленый,
Закипел родник.
Здравствуй, обновленный
Отчарь мой, мужик!

Голубые воды
Твой покой и свет,
Гибельной свободы
В этом мире нет.

Пой, зови и требуй
Скрытые брега;
Не сорвется с неба
Звездная дуга!

Не обронит вечер
Красного ведра;
Мо́гутные плечи
Что гранит-гора.

19—20 июня 1917

* Notas...:
do blogue Verso e Conversa: através de pesquisas googleanas, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que este poema Ótchar (Инония) é composto por 108 versos distribuídos em 25 estrofes e cinco seções.
de Augusto de Campos, Organizador e Tradutor deste Poesia da Recusa: Neologismo criado por Iessiênin, derivado de “Ótchen”, pai. Segundo Serena Vitale, “o mujique-gigante universal”, que cavalga a lua, na mitologia pessoal do poeta.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Introdução, Traços biográficos e Notas de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Sergei Alexandrovich Yesenin ou Sierguéi Iessiênin (1895 1925), russo de Konstantinovo, região de Ryazan Oblast, à época Império Russo, estudou em escola rural, frequentou seminário, e foi poeta; aos dezessete anos mudou-se para Moscou, de 1912 a 1915 estudou na Universidade do Povo da Cidade de Moscou em homenagem a A. L. Shanyavsky, trabalhou como tipógrafo e revisor; começou a escrever poemas, participou de grupos literários e publicou seu primeiro livro, Ritual para os Mortos (Radunitsa — Радуница, 1916); apoiou a Revolução de Outubro por acreditar que proporcionaria uma vida melhor ao campesinato, o que se refletiu em outro volume de poemas, Otherland; logo desiludiu-se e passou a criticar o governo bolchevique, o que reflete em seu poema O outubro vermelho me enganou; em 1922 casa-se pela terceira vez, agora com a dançarina Isadora Duncan e a acompanha em turnê pela Europa; alcoolista, bebendo frequentemente e com o comportamento mudado, recebe muita crítica negativa na imprensa internacional; em 1923 retorna para sua terra natal e publica Tavern Moscou, Confessions of a Hooligan, Deolate and Pale Moonlight e The Black Man; sua saúde mental entra em declínio, é hospitalizado e, após alta em 27 de dezembro de 1925, corta os pulsos, escreve um poema de despedida com o próprio sangue (До свиданья, друг мой, до свиданья Até logo, Até logo, Companheiro”) e depois comete suicídio por enforcamento; embora tenha sido um dos poetas mais populares da Rússia, teve grande parte de seus textos proibida durante o governo de Joseph Stálin; somente em 1966 foram republicadas na Rússia suas obras completas; nos meios literários, o poeta é considerado o maior expoente do chamado Imagismo Russo, viveu com a mesma geração a que também pertenceu Vladimir Maiakóvski, um seu grande admirador; o suicídio de Iessiênin causou grande impacto na opinião pública da época: Maiakóvski escreveu “A Sierguéi Iessiênin” (Сергей Есенин) um poema crítico em resposta ao suicídio e ao poema do suicida, escrito com sangue; suas obras: Radunitsa (1916); Livro Rural das Horas (1918), Inoniya (1918); Confessions of a Hooligan (1921); Pugachyov (1922).