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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Francisco Inácio Peixoto: Exercício erótico & Noturno

 
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Exercício erótico

Triângulo isósceles que se inscrevesse no ventre
coxim de pelos ruivos
ou negros ou fulvos
ora seda desfiada ora cerda ou lã
ou espessa crina crespa em campo escuro
que ansiosa mão afaga procurando
a oculta amêndoa
 vértice de dura bissetriz que irá feri-la
dividindo em dois o deleitável monte.

Noturno

Nada vem da rua,
só a névoa da lua
frouxa luz de acetileno
(seu único recato).
Dormes
e o sono deixa em mármore
o corpo nu.
Dormes.
No púbis
agora quieta
tarântula

(Erótica, poemas, com desenhos
de Aldary Toledo — 1981)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias de Portugal e da Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Francisco Inácio Peixoto: Ciúme

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Um inglês cor de ocre
De olhos cor de bílis
De calças tipo esporte
Na hora em que avistamos
O Rio de Janeiro
Arregalou muito os olhos
Parou bestificado
Tirou uma bolsa preta
Uma codaque autográfica
E codacou com ela
Pra desculpar a sua admiração
A baía da Guanabara todinha
Sem faltar nem o Pão de Açúcar.

Eu sabia que quando ele voltasse pra Inglaterra
Havia de mostrar pros ingleses amigos dele
THE MOST BEAUTIFUL BAY IN THE WORLD...
Mas eu não queria isso não
E se eu fosse mais forte
Metia era o braço nele
E azulava com a codaque
PRO FUNDO DO MAR!

(Meia-Pataca — 1928)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias de Portugal e da Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Hans Staden

 
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Nem nunca Hans Staden
Entenderei a sua maldade!
A sua alma era boa
Os seus olhos bem limpos,
Nem nunca Hans Staden
Acreditarei que você pudesse
Fazer o que fez!...
Eu sei que outros fizeram a mesma coisa também
Mas você devia ter se resignado...

Você viu eu juro que viu! com que alegria
As indiazinhas inocentes
De dentes tão brancos
De seios de bronze
De encantos tão frágeis
Olhavam alegres
Pro seu corpo azulado
De veias azuis...
E você não se resignou
Nem soube se calar
Se deixando ficar
Por amor dessas virgens tão lindas
Não tirando tão pura alegria
Dessas virgens de encantos tão frágeis...

É bem verdade Hans
Que você era de terras estranhas
E jamais poderia compreender certas coisas
Mas não posso
Nem nunca entenderei a sua maldade!

(Meia-Pataca, poemas, 1928)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

terça-feira, 3 de junho de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Último exercício ou poema de amor

 
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Vou me lembrar:
Nair de coxas de seda
Odete de quem entrevi um dia
a negra belbutina
a sábia Zulmira e Celmira Gláucia Carmem
a loura Abigail que era AEbigueial mas não concedia
Maria
para todos Mariinha
Olinda Guiomar
a devassa Conceição
Alcina e também Marília Filhinha...
Tantas assim?
Nem tanto nem tanto...
Havia ainda Leonora
que eu chamava Lenora
extinta como a outra como as outras.
Todas se sumiram
todas se fundiram
Numa só.

O nome?
Este, não digo

(Erótica, poemas, com desenhos
de Aldary Toledo, 1981)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador também responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

terça-feira, 27 de maio de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Bapo

 
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          Bapo era a água, o rio, a chuva, o fiozinho cristalino que fluía no tanque do fundo da chácara, quase um pequeno lago de margens recobertas de musgo. Se, de manhã cedo, passeando no jardim, via o orvalho brilhando nos tinhorões, largava a mão da empregada, corria para eles, desajeitado, os braços tentando o equilíbrio dos passos inseguros. Possivelmente, idealizava coisas durante o percurso, porque ia de testa enrugada, compenetrado, martelando monossílabos incompreensíveis. Puxava as folhas carnudas, sacudia-as violentamente e as gotas lhe borrifavam o rosto, entrecortando-lhe em arrepios a respiração, já de si ofegante do esforço e da alegria da descoberta sempre renovada. Um repelão mais forte largava-lhe nos dedos inábeis pedaços de folhas. Esmagava-as, meticuloso. Examinava-as, atento, procurando as gotas irisadas que haviam fugido. Então, num sorriso meio de desdém, meio de desaponto, indagava da criada:
           Bapo?
           É água, sim, mas larga isso aí. Você está se molhando todo.
          Não percebia a censura inútil. Olhava outra vez para os tinhorões, olhava para a ama e confirmava, gravemente:
           Bapo!
          Era como se dissesse: “Está vendo como eu já conheço as coisas?”
          Um dia, ganhou um peixinho de cauda com véu ondulante. Jogaram-no no tanque. E Bapo ficou sendo também aquele pequeno e vivo ludião vermelho.
          Era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de sua bola de cristal. Esta, agora vazia e empeirada, estava num canto da sala, pois tiveram medo de que algum gesto estouvado das crianças a derrubasse, molhando tudo, estragando os móveis e os tapetes. Só isso preocupava. Não pensavam que Bapo também poderia morrer. Passando-o, assim, para o tanque, acabaram-se para ele as coisas coloridas e familiares que via através da lente deformadora de seu aquário. Acabou-se a areia fina e clara do fundo, onde se deitava, morta e decorativa, uma minúscula estrela-do-mar. Que mundo escuro e feio, aquele onde o atiraram! Esbarrava nas paredes de lodo e, deste, partículas em suspensão entravam-lhe na boca, que as expelia em seu constante movimento de fole. O menino ria:
           Papá?
           Bapo está com fome, sim. Joga um pedacinho de pão para ele.
          As migalhas caíam em chuva na superfície da água e Bapo, assustado, escondia-se sob as folhas das ninfeias, enquanto um cardume de barrigudinhos vorazes disputavam os fragmentos de pão que flutuavam um momento e logo desciam, levíssimos, pontilhando de branco o fundo do lago.
          De tarde, vinha não se sabe donde, aparecia, encarapitada numa pedra da margem, uma sapa gorda com um sapinho colado às costas. Não fosse o latejar constante do papo, que gargarejava de tempo em tempo um soído rouquenho, e a gente diria que eram bichos de louça. O sapo velho rondava, escondido nas folhagens e, às vezes, como que desatado por uma mola, caía, de um pulo, na água e, em pernadas de nadador, atravessava para o outro lado do tanque. Bapo, medroso, se esgueirava para o emaranhado de hastes e raízes.
          Passava dias sumido. Ninguém mais se lembrava de vê-lo ou de jogar-lhe comida. Só o menino insistia no seu amor pelo peixinho e ousava avançar mais perto da água para descobri-lo. A empregada repreendia-o e afastava-o para longe. Ele teimava:
           Bapo!
           Bapo foi-se embora. Não chega lá, não. Você está ficando muito levado!
          E o menino repetia, fazendo com as mãozinhas um gesto desolado:
           Foi bó!
          Arisco, mal sentia um vento mais leve encrespando o lago, Bapo refugiava-se. E só a cauda, seda esgarçada, permanecia de fora, debaixo de alguma folha.
          Um dia, numa manhã de julho, sentiu que não podia locomover-se. Era como se a água houvesse virado um bloco de gelo, prendendo-o. Tudo tão frio, tão escuro! Mais escuro pela cerração que cobria a superfície do tanque. O corpo perdera a flexibilidade e só a custo se contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se em “s”, sinuoso e hirto.
          Certa tarde quanto tempo depois? , deram com ele engastalhado no talo de uma ninfeia, como uma flor vermelha. As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca. De vez em quando, buscava libertar-se em contrações bruscas e inúteis.
          Desvencilharam-no com um pedaço de pau e puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os reflexos dourados e esfiapavam, formando manchas maceradas. Talvez o tivesse bicado algum bicho ou, então, se houvesse ferido nas bordas ásperas de cimento. Talvez também que, indefeso e doente, o houvessem beliscado outros peixes.
          Quando o agarraram, ainda tentou fugir às mãos, que o seguravam e que, rápidas, o tiraram fora d’água, ligando-o entre duas talas de madeira. Bapo chiava convulsamente:
           Fiu! Fiu! Fiu!
          O menino, aflito, apontava para o pobre corpo ferido e aleijado:
           Dodói! Dodói!
          Soltaram-no de novo. E Bapo foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no lodo a pequenina cabeça vermelha.
          Quando o tiraram dali, estava morto.

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Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

domingo, 18 de maio de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Viagem


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Trenzinho de ferro
Não anda depressa!
Me mostra me mostra
Bem direitinho
Esta manhã vem gostosa
Que pula sapeca
Assanhada dengosa
Na frente em cima
De banda de lado
Dos caminhos compridos
Tão compridos tão largos
Que até dão preguiça
Da gente andar neles
Ao vê-los assim
Tão compridos tão largos
Vermelhos estendidos
Na terra suada...

Bota fogo maquinista
Pra chegar na caixa d’água!
Bota fogo maquinista
Pra chegar na caixa d’água!

E o trenzinho vai passando
Saltando bufando

Sem respeito e sem medo
De terríveis rochedos
Que se erguem medonhos
E acuados se escondem
Se empinando mais longe...

Bota fogo maquinista
Pra chegar na caixa d’água!
Bota fogo maquinista
Pra chegar na caixa d’água!

Que gosto se ver
Manhã tão bonita
O ventinho brincando
Com as sombras que caem
Das árvores molhadas
Nos rios temíveis...
E as matas que escondem
Mil bichos ferozes?
E as negras pançudas
Que no alto dos morros
Apanham café?

Trenzinho de ferro
Não anda depressa!
Que gosto se ver
Manhã tão bonita...

Bota fogo maquinista
Pra chegar na caixa d’água!
Bota fogo maquinista
Pra chegar na caixa d’água!
Bota fogo! Bota fogo!

(Meia-Pataca, poemas, 1928)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito — UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Carlos Drummond de Andrade: Um nome: O que diz *

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Francisco Inácio Peixoto?
Este nome acende em redor um clarão verde,
do tempo em que o verde não era cor política,
cheia de caras fechadas e interjeições iracundas.
Era só verde-alegria, verde-vinte anos,
verde-festa, verde-algazarra, verde-pau no lombo dos passadistas,
verde-charanga altissonante em devoção de Oswald
e Tarsila e Mário e Guilherme e Ronald e Manuel
nossos ídolos bem nossos!

Francisco Inácio Peixoto...
Nome que lembra índio, os novos audazes cataguás!
invadindo o sono de Meia-Pataca para a conquista de outra espécie
de poder: o poder estético.
Deram duro, brigaram com alta e bela ingenuidade.
Marcaram um minuto mineiro, tão descontraído, tão macunaíma,
que a gente não esquece mais o cauim dessa bebedeira.

Francisco, eu disse, Francisco Inácio Peixoto!
Agora o nome abre-se no vasto pátio de um colégio
por sua vez aberto ao vento do mundo, e no centro o painel sangrento
de Portinari grita liberdade aos quatro cantos da Terra.
Podem tirá-lo dali: que importa?
A chama continua, sob as cinzas,
no destino de chama.
E o nome expande-se em museu moderno de arte,
museu que poderia ter sido e que não foi.
Francisco Inácio, usina pessoal de sonhos que se tornam realidade
para voltar depois ao reino escuro de antes do sonho.
Ainda uma vez, que importa?
Na água-espelho dos setent’anos
a face límpida do criador vence as mesquinhas contingências do
tempo.


* Nota de Joaquim Branco, autor deste Passagem para a Modernidade...:
Por ocasião das comemorações do 70º aniversário de Francisco Inácio Peixoto [um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde de Cataguases e participante da modernista e cataguasense revista Verde, 19271929], organizamos, com a colaboração dos poetas Francisco Marcelo Cabral, P. J. Ribeiro, Aquiles Branco, Márcia Carrano, Ronaldo Werneck e Carlos Sérgio Bittencourt, um número especial no [suplemento] “Totem” [do jornal Cataguases] em sua homenagem. Um dos convidados para colaborar foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, que prontamente acedeu ao nosso convite, enviando o poema [Um nome: O que diz] ....
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto, Introdução e Notas de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...