sexta-feira, 31 de maio de 2019

Leila Míccolis: Pena de morte

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Eram bastante bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio,
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois veio o amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro —  RJ; Leila Míccolis, nascida em 1947, fluminense de Maricá, formada em advocacia pela antiga Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ), mestrado e doutorado em Ciência da Literatura (Teoria Literária) também pela UFRJ, é poetisa, ensaísta, romancista, contista, roteirista de cinema e televisão, dramaturga, editora e professora; estreou na poesia com Gaveta da Solidão (1965) e fez parte da geração de poetas da década de 1970, conhecida como ‘Poesia Marginal’ e ‘Geração Mimeógrafo’, no Rio de Janeiro, em São Paulo e algumas outras capitais; escreveu roteiros para a televisão, tendo sido co-autora de telenovelas; possui 30 livros editados (poesia e prosa), com obras publicadas em países como França, México, Colômbia, Estados Unidos e Portugal.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Olegário Mariano: Deslumbramento

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É amor? Não sei. Esta intranquilidade,
Este gozo na dor, esta alegria
Triste que vem de manso e que me invade
A alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;

Este cansaço extremo, esta saudade
De uma coisa que falta à vida... O dia
Sem sol, as noites ermas, a ansiedade
Que exalta e a solidão que anestesia,

É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,
De as penas esconder do humano açoite,
De transformar as pedras do caminho

Em carícias sutis para colhê-las
E andar como um sonâmbulo, na noite,
Escancarando os olhos às estrelas...

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889  1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Careta e Para Todos  com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como ‘o poeta das cigarras’ por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945), Mundo Encantado (1955), e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho (‘Cai, cai balão’, ’Tutu-marambá’ e outros); também fez parceria musical com diversos outros autores.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Baudelaire: As jóias

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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

A mais cara está nua e, para o meu amor,
O seu corpo a florir só de jóias faísca.
E em sua ostentação, revela o ar vencedor
Que num dia feliz tem a escrava mourisca.

Quando atira na dança o ruído zombador,
Este mundo a irradiar de pedras e metais,
Põe-me num frenesi e adoro até o furor
O que une a luz ao som mas em partes iguais.

Ela está recostada e deixando-se amar,
Do alto do seu divã, ela sorri sem medo,
Ao meu amor profundo e doce como o mar
Que procura alcançá-la assim como um rochedo.

O olhar fixado em mim, como um tigre domado,
Exercita flexões de sombras e nevroses,
E o seu candor unido ao ar mais debochado,
Só vai fatalizar suas metamorfoses;

Sua coxa e seus rins, seu braço e sua perna,
Óleo lustroso e cisne a ondular sua linha,
Passam por meu olhar de luz aguda e terna;
Ventre e seios do amor, cachos de minha vinha,

Avançam mais sutis do que os Anjos do mal,
Perturbando o repouso em que pus a minha alma,
Como para abalar, da rocha de cristal,
Em que ela está sentada solitária e calma.

Acredito que ali novo desenho alia
De Antíope os quadris a um busto imberbe e hético *,
De tal modo realça em seu porte a bacia,
E sobre a sua tez é tão nobre o cosmético **!

E tendo finalmente a lâmpada morrido,
E como a alcova só do fogão se ilumina,
Cada vez que ele solta em flamante gemido,
Umedece de sangue esta pele ambarina!


Les Bijoux

La très chère était nue, et, connaissant mon coeur,
Elle n'avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air vainqueur
Qu'ont dans leurs jours heureux les esclaves des Mores.

Quand il jette en dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j'aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.

Elle était donc couchée et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d'aise
À mon amour profond et doux comme la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.

Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D'un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neuf à ses métamorphoses;

Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,
Polis comme de l'huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et ses seins, ces grappes de ma vigne,

S'avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler le repos où mon âme était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s'était assise.

Je croyais voir unis par un nouveau dessin
Les hanches de l'Antiope au buste d'un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun, le fard était superbe!

Et la lampe s'étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre
Chaque fois qu'il poussait un flamboyant soupir,
Il inondait de sang cette peau couleur d'ambre!


Notas da edição:
* Antíope: figura mitológica, filha do deus Asopos e dotada de beleza extraordinária. Cf. o conto de Gastão Cruls, Antiope o Sátiro (Ao embalo da rede, Livraria Castelo, Rio, 1923, pág. 103), Baudelaire cita os quadros de Ingres, Júpiter e Antíope e Vênus e Antíope. (Obra citada, págs. 692 e 692.);
** Baudelaire teorizou em torno do valor estético do artificial: “... Maspara limitarmo-nos ao que em nosso tempo chamamos de ‘maquilagem’, que não é mais que o pó-de-arroz... que tem como resultado fazer desaparecer do rosto todas as mancgas que a natureza ultrajantemente ali semeoiu e criar uma unidade abstrata... na cor da pele... que imediatamente aproxima o ser humano da estátua, isto é, de um ser divino e superior... Quando ao negro artificial que circunda o olho ao vermelho que marca a parte superior da face... representam a vida, uma vida sobrenatural e excessiva”. (Obra citada, pág. 905.)
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As Flores do Mal — Baudelaire, Tradução e Posfácio de Jamil Almansur Haddad, sem data, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Pedro Kilkerry: O muro

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Movendo os pés dourados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente
Abrindo á tarde as órbitas musgosas
Vazias? Menos do que misteriosas
Pestaneja, estremece... O muro sente!

E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa...
Pois o ramo em que o vento á dor lhe impele
É onde a volúpia está de urna asa e outra asa...

PEDRO KILKERRY
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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo — SP; Pedro  Militão Kilkerry (1885  1917), baiano de Santo Antonio de Jesus,  formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, foi advogado, jornalista e poeta simbolista; fez parte do grupo literário baiano 'Nova Cruzada', vindo a publicar seus poemas em revista homônima e também em Os Anais, colaborando ainda com poemas e artigos em outros periódicos da capital baiana; não publicou nenhum livro em vida; sua obra  poemas e outros manuscritos, inclusive os mantidos oralmente por amigos e familiares , foi recuperada, recolhida e publicada pelo poeta Augusto de Campos, no volume ReVisão de Kilkerry (1970), que o considera um dos precursores do modernismo no Brasil; graças a este trabalho de garimpagem poética de Campos, a poesia de Kilkerry vem sendo percebida como uma das grandes forças do simbolismo brasileiro; antes, em 1921, seus poemas haviam sido reunidos por Jackson de Figueiredo, em "Humilhados e Ofendidos", estudo que lhe dedicara.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Albert Ehrenstein: Esperança

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Não tenho poder
De dar olhos a pedras cegas.
Fácil, porém, a uma pobre
Desprezada, velha poltrona,
A quem falta um pé,
Dou alegria,
Sentando-me nela suavemente.

Sejam doces, ó Fortes!
E, reunindo poder à coragem,
Logo, quais santas, as pessoas serão
Desextasiadas de pobreza podre
E na sua existência
Os deuses morreram,
Encontram o céu.

(ca. 1916)

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Albert Ehrenstein

Hoffnung

Nicht habe ich Gewalt,
Augen zu geben blinden Steinen.
Leicht aber einem verachteten,
Armen, alten Sessel,
Dem ein Fuß fehlt,
Bringe ich Freude,
Mich zart auf ihn setzend.

Seid sanft, o ihr Starken!
Und, Macht versammelnd im Mut,
Bald werden, Seligen gleich, die Menschen
Entrauscht sein fahlkranker Armut
Und in ihrem Dasein,
Die Götter starben,
Finden den Himmel.

(ca. 1916)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo  SP; Albert Ehrenstein (1886  1950), austríaco de Viena, estudou história e filologia, doutorando-se em 1910, foi poeta, escritor e crítico literário; teve seus primeiros versos publicados na revista Die Fackel (O Facho), durante a Primeira Guerra trabalhou em editoras, em 1917 exilou-se na Suiça e, após o conflito, mudou-se para Viena e, depois, Berlim; desde então, empreendeu viagens pela Europa, África e Extremo Oriente; a partir daí, com a ascensão nazista, passou a viver na Suiça e, após, Nova Iorque, para onde se transferiu durante a Segunda Guerra e onde veio a falecer; bibliografia: Tubutsch (prosa, 1911), Der Selbstmord eins Katers (prosa, 1912), Der Mensch Schreit (poesia, 1916), Die rote Zeit (poesia, 1917), Briefe an Gott (poesia, 1922), Ritter des Todes (prosa, 1926), Das gelbe Lied (poesia, 1933) e outros; Albert Ehrenstein, juntamente com muitos outros autores, esteve na lista negra do nazismo e suas obras foram queimadas nas piras acesas em praças de Berlim; de sua biografia, consta que o poeta foi um dos mais radicais representantes de Viena no expressionismo em língua alemã, tendo sido sempre um inconformista.

domingo, 26 de maio de 2019

Lili Leitão: Prova dos nove

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Meus amores, primeiro, foram sete,
Sete criaturas divinais, bonitas,
Cada qual mais risonha e mais coquette1:
Três Dulces, uma Isaura e três Anitas.

Mas, depois, Deus mais duas me remete,
Igualmente formosas e catitas2.
Dois peixõezinhos3  Margarida e Odete 
Para um total de nove senhoritas.

Hoje, tudo acabado, é finda a festa:
Perdi de leão do amor o privilégio,
Pois, dessas nove já nem uma resta.

Fiquei só, recordando-me a tabuada,
Como um simples aluno de colégio;
“sete e dois, nove; noves fora, nada”.

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Notas de Luiz Antonio Barros:
Coquette: palavra francesa que se refere à pessoa, especialmente do sexo feminino, que procura despertar admiração, geralmente apenas pelo prazer de seduzir; diz-se também de pessoa leviana, inconstante; coquete. (Lili Leitão)
Catita: bonita, atraente, bem-vestida. (idem)
Peixãozinho: diminutivo de peixão: mulher bonita e de corpo exuberante. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sábado, 25 de maio de 2019

Carlos Drummond de Andrade: Som

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Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalgas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
como se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição.

Discurso de primavera  1977

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo  (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

sexta-feira, 24 de maio de 2019

François Villon: Balada de Margot, a Encorpada *

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Se eu amo a bela e a sirvo do maior bom grado,
     Deveis tomar-me por pateta ou por vilão?
     Tem ela bens, em si, do mais perfeito agrado.
     Por seu amor, daga e broquel medo me dão;
     Quando vem gente, corro e a um pote levo a mão,
     Eu fujo para o vinho sem fazer rumor 1;
     Queijo, água, pão e vinho ponho ao seu dispor.
     “Ótimo!” eu digo-lhes se acaso pagam bem;
     “Voltai aqui, ao vos tomar do cio o ardor,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.”

Revelo-me, contudo, em grande desagrado
     Quando Margot se vem deitar sem um tostão;
     De morte a odeio, não a posso ver ao lado.
     Tomo-lhe a roupa, o cinto e a sobreveste, então,
     E juro que isso valerá o meu quinhão.
     Segura os lados. “É o Anticristo! 2”  ergue o clamor;
     Jura pela paixão de nosso Salvador
     Que não há de deixar. Eu pego um pau, porém,
     E embaixo do nariz lhe escrevo, com rancor,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.

Mais do que venenoso escaravelho inflado,
     Depois que a paz é feita, ocorre-me um punzão.
     Ela ri e o cocuruto meu vejo esmurrado.
     Diz-me “Go, go”, na coxa dá-me um safanão.
     Ébrios os dois, dormimos com disposição,
     E ao despertar, se tem no ventre esto, calor,
     Monta em mim, para que não perca o seu favor.
     Sob ela gemo, tábua chata no vaivém.
     Ela destrói-me todo com o lascivo humor,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.

Vento, granizo, gelo, está cozido o pão.
     Segue-me a dissoluta, eu sendo garanhão.
     Quem vale mais? Um e outra têm afinação.
     Valem-se os dois: mau gato a rato mau convém.
     Sujeira vem atrás, se amamos sujidão;
     À honra fugimos, foge-nos a retidão 3,
     Neste bordel que em boa vida nos mantém.

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Ballade de la grosse Margot

Se j'ayme et sers la belle de bon hait.
     M'en devez vous tenir ne vil ne sot?
     Elle a en soy des biens a fin souhait.
     Pour son amour sains bouclier et passot;
     Quand viennent gens, je cours et happe un pot,
     Au vin m'en fuis, sans demener grand bruit;
     Je leur tens eaue, frommage, pain et fruit.
     S'ilz payent bien, je leur dis “Bene stat;
     Retournez cy, quand vous serez en ruit,
     En ce bordeau ou tenons notre estat!"

Mais adoncques il y a grand deshait
     Quand sans argent s'en vient couchier Margot;
     Veoir ne la puis, mon coeur a mort la hait.
     Sa robe prens, demi-ceint et surcot,
     Si luy jure qu'il tendra pour l’escot.
     Par les costés se prent “c’est Antecrist”
     Crie, et jure par la mort Jhesucrist
     Que non fera. Lors j’empongne un esclat;
     Dessus son nez luy en fais ung escript,
     En ce bordeau ou tenons notre estat.

Puis paix se fait et me fait ung gros pet
     Plus enflé qu'ung velimeux escharbot.
     Riant, m'assiet son poing sur mon sommet,
     Gogo me dit, et me fiert le jambot.
     Tous deux yvres, dormons comme ung sabot.
     Et, au resveil, quand le ventre luy bruit,
     Monte sur moy, que ne gaste son fruit.
     Soubz elle geins, plus qu'un aiz me fait plat;
     De paillarder tout elle me destruit,
     En ce bordeau ou tenons nostre estat.

Vente, gresle, gelle, j'ai mon pain cuit.
     Ie suis paillart, la paillarde me suit.
     Lequel vault mieulx? Chascun bien s'entresuit.
     L'ung vault l'autre; c'est a mau rat mau chat.
     Ordure aimons, ordure nous assuit;
     Nous deffuyons onneur, il nous deffuit,
     En ce bordeau ou tenons notre estat.

Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* “O Testamento”, v. 15911627. O título é de Marot. Quanto à “Grosse Margot” há os que a tomam como personagem real; outros, como o nome de uma hospedaria, à sombra de Notre-Dame; P. Champion vê a influência das “sottes ballades”, nas quais se narravam amores populares e ridículos com mulheres sujas, fétidas e corcundas, mas não julga que a balada de Villon seja mero exercício literário. Na primeira estrofe, “há um Villon que abre a porta, que segura a vela, que procura a comida e a bebida do cliente” (Favier);
1 Eu... rumor;] “É o que se diz do marido complacente que deixa o quarto à companheira, quer vá ou não buscar o vinho na adega enquanto a mulher lucra ou se diverte no leito conjugal” (Favier);
2 Anticristo] ou o poeta ou Margot, conforme o editor;
3 1116 ...] No orig. (versos 11 a 16) há um acróstico, “Villon”, que desta vez não pude manter.
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Villon — Balada dos Enforcados e Outros Poemas, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2008, Editora Hedra, São Paulo — SP; François Villon (1431 desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado o precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre Balada dos Enforcados; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Villon — Balada dos Enforcados...; sua bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).