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[traduzido
por Jamil Almansur Haddad]
A mais cara está nua e, para o meu amor,
O seu corpo a florir só de jóias faísca.
E em sua ostentação, revela o ar vencedor
Que num dia feliz tem a escrava mourisca.
Quando atira na dança o ruído zombador,
Este mundo a irradiar de pedras e metais,
Põe-me num frenesi e adoro até o furor
O que une a luz ao som mas em partes iguais.
Ela está recostada e deixando-se amar,
Do alto do seu divã, ela sorri sem medo,
Ao meu amor profundo e doce como o mar
Que procura alcançá-la assim como um rochedo.
O olhar fixado em mim, como um tigre domado,
Exercita flexões de sombras e nevroses,
E o seu candor unido ao ar mais debochado,
Só vai fatalizar suas metamorfoses;
Sua coxa e seus rins, seu braço e sua perna,
Óleo lustroso e cisne a ondular sua linha,
Passam por meu olhar de luz aguda e terna;
Ventre e seios do amor, cachos de minha vinha,
Avançam mais sutis do que os Anjos do mal,
Perturbando o repouso em que pus a minha alma,
Como para abalar, da rocha de cristal,
Em que ela está sentada solitária e calma.
Acredito que ali novo desenho alia
De Antíope os quadris a um busto imberbe e hético *,
De tal modo realça em seu porte a bacia,
E sobre a sua tez é tão nobre o cosmético **!
— E tendo finalmente a lâmpada morrido,
E como a alcova só do fogão se ilumina,
Cada vez que ele solta em flamante gemido,
Umedece de sangue esta pele ambarina!
Les Bijoux
La très chère était nue, et, connaissant mon coeur,
Elle n'avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air vainqueur
Qu'ont dans leurs jours heureux les esclaves des Mores.
Quand il jette en dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j'aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.
Elle était donc couchée et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d'aise
À mon amour profond et doux comme la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.
Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D'un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neuf à ses métamorphoses;
Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses
reins,
Polis comme de l'huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et ses seins, ces grappes de ma vigne,
S'avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler le repos où mon âme était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s'était assise.
Je croyais voir unis par un nouveau dessin
Les hanches de l'Antiope au buste d'un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun, le fard était superbe!
— Et la lampe s'étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre
Chaque fois qu'il poussait un flamboyant soupir,
Il inondait de sang cette peau couleur d'ambre!
Notas da edição:
* Antíope: figura mitológica, filha do deus Asopos e dotada de beleza
extraordinária. Cf. o conto de Gastão Cruls, Antiope o Sátiro (Ao embalo da rede,
Livraria Castelo, Rio, 1923, pág. 103), Baudelaire cita os quadros de Ingres,
Júpiter e Antíope e Vênus e Antíope. (Obra citada, págs. 692 e 692.);
** Baudelaire teorizou em torno do valor estético do artificial: “...
Maspara limitarmo-nos ao que em nosso tempo chamamos de ‘maquilagem’, que não é
mais que o pó-de-arroz... que tem como resultado fazer desaparecer do rosto
todas as mancgas que a natureza ultrajantemente ali semeoiu e criar uma unidade
abstrata... na cor da pele... que imediatamente aproxima o ser humano da
estátua, isto é, de um ser divino e superior... Quando ao negro artificial que
circunda o olho ao vermelho que marca a parte superior da face... representam a
vida, uma vida sobrenatural e excessiva”. (Obra citada, pág. 905.)
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As
Flores do Mal — Baudelaire, Tradução e Posfácio de Jamil Almansur Haddad, sem
data, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 — 1867), nascido em Paris — França, foi poeta, crítico de
arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do
Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente
como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica
também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.