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sábado, 18 de abril de 2026

Alphonsus de Guimaraens: Ismália [prosa-poema]

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[prosa-poema]

          Quando ela se morreu, os seus olhos continuaram a mirar-me; não tive coragem de cerrá-los, como se faz com os olhos de todos os mortos. Os meus olhos, no entanto, não os deixavam sós: miravam-nos também, com a mesma fixidez.
          Eu via, de quando em quando, um cisne poisar na luz metálica dos olhos dela; era a sua alma que descia do céu, saudosa do ninho onde vivera durante quinze primaveras.
          Quando o cisne baixava do alto, um frêmito rápido percorria todo o corpo da formosa morta; o seu rosto sorria, num relâmpago fugace, num fogo-fátuo que era cristalino; o seu peito arfava, alevantando os seios púberes, castos como dois lírios que fossem rosas; e as suas espáduas ebúrneas, por onde nunca haviam passado outros beijos que não fossem os raios do sol, quando ela se banhava no rio hialino, estremeciam dolentemente.
          O cisne, que era a sua alma, adejou para o céu, e nunca mais voltou até ao ninho onde vivera durante quinze primaveras; mas os olhos dela continuaram a mirar-me eternamente, porque eu não tive coragem de cerrá-los, como se faz com os olhos de todos os mortos.

(© Domínio público)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Alphonsus de Guimaraens (1870 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, formou-se pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco [atual Direito USP São Paulo], foi juiz, promotor de justiça, poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; suas obras: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.

domingo, 29 de março de 2026

Rubens Rodrigues Torres Filho: Pétalas

 
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Por entre as pétalas de isto, um supremo alguém, que qualquer dia nos diria, elaboradamente em pranto, seu nítido lampejo, tartarugas afogadas, e nisto me oriento, breves acúmulos de faltas, falsas fogueiras espontâneas, giz, cal e jazer inane entrelaçado em lianas funerárias e mundanas, como manda o figurado dos sentidos que eram cinco antes de se multiplicarem pela falta de sentido que era múltipla e sorria por entre os dedos do acaso e os dados que os deduziam, números inumeráveis, sonoras plantas e plenas de vegetal intensidade, graves lirismos registram seu ocо ocular, cavado por cavernas de sentido que por recato encaravam segredos escancarados ou secretas obviedades em mansas concavidades onde espertos se aninhavam, pseudoanimais semióticos que em cisma sinalizavam.

(Novolume: 5 Livros de Poesia, Poemas Novos,
Inéditos, Avulsos e Traduções. São Paulo,
Iluminuras, 1997 © Célia Cavalheiro.)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigu­es Torres Filho (1942 2023), paulista de Botucatu, formou-se em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, foi poeta, filósofo, professor e tradutor; participou da criação da revista Almanaque: Cadernos de Literatura e Ensaio; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Figura (1987), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu os volumes Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

sábado, 17 de maio de 2025

Rubens Rodrigues Torres Filho: Uma prosa é uma prosa é uma

 
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          Lavro a data. 16 de setembro. 1978. Sábado. Sem outro sinal de pontuação para saber que o tempo passou e está passado como que por mim. O interesse de colocar esses pontos, pingos, o interesse de deixar registro rodrigues o de estar aqui simplesmente e voltando pelo mesmo caminho a escrita inventa a escritura e nos pousa nas linhas que vão seguindo a pista para dentro de fora para denso de dentro para fera. O que então. Talvez o sempre, nem sempre e nós: anoto aqui e nada nos preocupa sem termos jeito de escapar ou encapar o acaso emaranhado. Se digo mais, não digo nada, pois basta não saber e entender, ler e deixar valer como isto, que não nos abandona sempre, apenas quando. Meu coração é o caminho que ele mesmo abotoou olhando em frente, em torno, feito um celeste girassol e à noite giralua. Após os pingos nos iis, a possibilidade de se aprender o rumo pelo qual após o resto e isto unilateralmente, como sempre. Vale por um pouco pouso para irmos e a vontade (essa!) não quer o que sabe. Caminhar atônitos pela temporada que dura e durar pelo ágil e o aprendido num átimo. Foi (terá sido) por uma necessidade ou outra que os giratórios ondularam sem mesmo o que foi mesmo e tudo se deixa disparar. Este é o fim. E o começo com isso?

(Novolume: 5 Livros de Poesia, Poemas Novos,
Inéditos, Avulsos e Traduções. São Paulo,
Iluminuras, 1997 © Célia Cavalheiro.)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigu­es Torres Filho (1942 2023), paulista de Botucatu, formou-se em Filosofia pela FFLCH Universidade de São Paulo, foi poeta, filósofo, professor e tradutor; participou da criação da revista Almanaque: Cadernos de Literatura e Ensaio; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Figura (1987), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), Novalis, etc., além de ter exercido outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Ana Cristina Cesar: Arpejos

 
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1.
Acordei com coceira no hímem. No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.

2.
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra o beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do susto. Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da noite. Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir sua boca de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos beijamos de acordo, dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.

3.
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário. Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha própria imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela signos de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. Saio depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia os tendões duros. Os navios me iluminam. Pedalo de maneira insensata.

(Poética, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP,
© Flavio Lenz Cesar.), [Cenas de abril — 1979]

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na Faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Fernando Paixão: Três cabeças

 
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Uma cobra de três cabeças
com qual delas vai comer
o sapo gordo e distraído
na tarde de domingo?

A cabeça esquerda está mais perto.
É ela que vi dar o bote acredito.
Que nada! É com a direita
diz meu vizinho com voz de pato.

Veja. Três cabeças se mexendo
para atacar o bofe do sapo…
A do meio vai conseguir
Alguém aposta e grita.

Mas olha lá rápido!
O sapo está saltando Vupt!
Fugiu e deixou a pergunta no ar.

E a cobra? Chora arrependida.
Três cabeças que não se entendem
passam fome de tanto pensar.

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Varal de Poesia — Fernando Paixão, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes e Mário Quintana, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; Fernando Augusto Magalhães Paixão, nascido em 1955, português da aldeia de Beselga Penedono, mudou-se para São Paulo SP em 1961, formado em jornalismo pela USP, com mestrado pela Unicamp, Campinas SP (Estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro) e doutorado pela PUCSP (tese sobre o gênero do poema em prosa), é editor, professor e poeta; obras: Rosa dos Tempos (1980), O Que É Poesia? — coleção Primeiros Passos (1982), Fogo dos Rios (1989), 25 Azulejos (1994), Poesia a Gente Inventa (literatura infantil, 1996), Poeira (2001) e outros; professor de literatura pelo IEB-USP-SP, colabora com jornais e revistas na área de literatura e temas afins; foi professor visitante pela Universidade de Berkeley e Universidade da Califórnia em Los Angeles UCLA, ambas nos Estados Unidos, e na Universidade Nova de Lisboa, Portugal; por mais de 30 anos Fernando Paixão atuou profissionalmente na área editorial; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Fernando Paixão: Macacalho

 
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Tinha no campo um espantalho
Que há muito tempo achava chato
Ficar sempre parado
Plantado no meio do mato.

O macaco por sua vez
Corria sem nunca parar.
Subia e descia qualquer lugar
Com a mesma rapidez.
Mas na verdade chato também era
Ficar correndo a vida inteira.

Já cansado de tanto esforço
O macaco topou no buraco de um poço.
Ficou ali embatucado
Bem pertinho do espantalho.
Melhor coisa não podia acontecer
Para eles poderem se conhecer.

Minha vida não tem alegria
Reclamou triste o espantalho.
Vejo a mesma coisa todo o dia
Fico logo aporrinhado.
Para mim é diferente disse o outro.
Canso de pular de galho em galho.

Cada um com suas novidades
Eles muito conversaram.
Em pouco tempo ganharam amizade
Até que um dia se tocaram.
Deram um abraço tão bom e apertado
Que ambos se sentiram transformados.
Desse abraço surgiu macacalho
Mistura de macaco e espantalho.
Parava quando queria
Se quisesse também corria.
E como ficaram contentes.
Abraçados: eram diferentes.

Um bicho novo assim surgia
De dois amigos que se uniam.
Pois na floresta da amizade
O que vale é a imaginação.
Aqui os bichos se misturam à vontade:
Girafante, macacoruja, bufaleão.

E por que não um espantilo
Meio espantalho meio crocodilo?

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Varal de Poesia — Fernando Paixão, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes e Mário Quintana, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; Fernando Augusto Magalhães Paixão, nascido em 1955, português da aldeia de Beselga  Penedono, mudou-se para São Paulo  SP em 1961, formado em jornalismo pela USP, com mestrado pela Unicamp, Campinas  SP (Estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro) e doutorado pela PUCSP (tese sobre o gênero do poema em prosa), é editor, professor e poeta; obras: Rosa dos Tempos (1980), O Que É Poesia? — coleção Primeiros Passos (1982), Fogo dos Rios (1989), 25 Azulejos (1994), Poesia a Gente Inventa (literatura infantil, 1996), Poeira (2001) e outros; professor de literatura pelo IEB-USP-SP, colabora com jornais e revistas na área de literatura e temas afins; foi professor visitante pela Universidade de Berkeley e Universidade da Califórnia em Los Angeles UCLA, ambas nos Estados Unidos, e na Universidade Nova de Lisboa, Portugal; por mais de 30 anos Fernando Paixão atuou profissionalmente na área editorial; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Fernando Paixão: A menina e as asas

 
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Marcolina sabia muitas histórias.
Aquelas que mamãe contava
outras que lera nos livros
também as de sua imaginação.

Mas agora torce o nariz
quando percebe a repetição:
o cavalo de asas, o  peixinho de asas,
o burro de quatro asas
e até as asas de um herói grego
derretendo no calor do sol.

"Por que tantas histórias iguais?"
quer saber Marcolina
imaginando a bicharada voar sem direção.
"Se todos tivessem asas, que seria do céu?"

“Em que pedaço de nuvem dormiria o elefante?
Será que o leão, parecido com anjo,
deixaria em paz o veado voador?”
Ia ser uma grande confusão.
E os passarinhos, coitados,
teriam que andar no chão.

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Varal de Poesia — Fernando Paixão, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes e Mário Quintana, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; Fernando Augusto Magalhães Paixão, nascido em 1955, português da aldeia de Beselga Penedono, mudou-se para São Paulo SP em 1961, formado em jornalismo pela USP, com mestrado pela Unicamp, Campinas SP (Estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro) e doutorado pela PUCSP (tese sobre o gênero do poema em prosa), é editor, professor e poeta; obras: Rosa dos Tempos (1980), O Que É Poesia? — coleção Primeiros Passos (1982), Fogo dos Rios (1989), 25 Azulejos (1994), Poesia a Gente Inventa (literatura infantil, 1996) e outros; professor de literatura pelo IEB-USP-SP, colabora com jornais e revistas na área de literatura e temas afins; foi professor visitante pela Universidade de Berkeley e Universidade da Califórnia em Los Angeles  UCLA, ambas nos Estados Unidos, e na Universidade Nova de Lisboa, Portugal; por mais de 30 anos Fernando Paixão atuou profissionalmente na área editorial; recebeu premiações por sua obra.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Rubens Rodrigues Torres Filho: mas o cisco

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Corre o risco de escrever.
O risco da escrita corre
pela página deserta
se meu coração disserta
sobre o susto de viver.

Mas o cisco de entrever
colhe o disco da pupila
nos sulcos do acontecido
no giro do acontecer.

A trama  o texto  tecido
na ponta dos atros dedos
ao fio dos medos ingratos
corre os riscos correlatos:
ir & voltar. Ler. Reler.

O vôo circunflexo — 1981

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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Rubens Rodrigues Torres Filho: soneto

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É de cantar que se desiste e nega
em algum canto  assim pequeno e único 
e defendido por paredes muros
de um coração maduro, duro e puro:
de um coração couraça do futuro,
negando espaço às margens do soluço
onde nem cabem essas amizades
nem haverá chorar por nenhum furo.
À força de recusa, sóbrio abuso
de todos os limites que se usam,
ninguém dará lugar à dor intrusa
que ficará doendo lá na rua

como algo que só dói, obsoleto,
por não caber nas formas de um...

A letra descalça — 1985

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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Rubens Rodrigues Torres Filho: quatro sonetos

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1. quinhentismo

De tanto haver mentido por amor,
de tanto haver amado, por mentir,
encerro minhas contas, dor por dor,
como quem fecha o livro do sentir.

Ah sentimento, filho de uma boa
mentira própria-alheia, reversível,
o tempo que gastei amando à toa
me separou do mundo do visível.

Agora a claridade fere o puro
olhar de minha dor c'o saldo frio
dessa doce viagem pelo escuro

e me custa aprender que é caro o juro
que tenho de pagar, dias a fio,
a caminhar no claro, no vazio.

2. seiscentismo

Atro clarão: na cara da pantera
minha simplicidade se abre em fera
e, pura boca, escancarando a espera
enxuga, enxuga a cântaros o rio.

Cantiga antiga, este soneto espera
ter fôlego, equilíbrio e desvario
para o que der e for, vier e frio,
para o que fio e flor, em que me afio.

Ai, antes e depois, por onde andamos
a onda é vaga e a vaga vagabunda.
Ao ouvido do tempo sussurramos

tais exigências, nos abandonamos
a tais velocidades que a profunda
superficialidade disto nos inunda.

3. oitocentismo

Onde pousou o olhar, sonho de um ninho,
o côncavo restou, exposto a assalto.
Se venta, ou há algum frio, esse escaninho
desenha a bico fino seu formato.

Dê-lhe almofadas, calce sua sede
dos mais macios e engenhosos calços.
Não sei se distraí-lo não agrava
o gume que ele tem e ainda o cava.

O tempo não o acalma, antes afia,
e nem dormindo cessa o seu trabalho.
Fosse ferida! que cicatrizasse

como uma boca que por fim se cala
e não esse prenúncio que se instala,
crucificado, entre o bálsamo e a faca.

4. existencialismo

No fim das contas, que me resta? O sono,
o despejar meus restos na privada,
o querer tudo, não poder mais nada,
não responderem mais se eu telefono.

Ir à cozinha, no meu abandono,
comer um pote dessa marmelada,
voltar ao quarto, pôr o meu quimono,
deitar na minha África sonhada.

Ler um pouco de Sartre, abrir a boca.
Riscar num bloco uma bacante feia.
Ligar o rádio: uma cantora rouca.

Sentir meus olhos grávidos de areia.
Sentir no fundo uma saudade (pouca).
Ir olhar que horas são. Duas e meia.

[O voo circunflexo — 1981]

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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.