____________________
[prosa-poema]
Quando ela se morreu, os seus olhos
continuaram a mirar-me; não tive coragem de cerrá-los, como se faz com os olhos
de todos os mortos. Os meus olhos, no entanto, não os deixavam sós: miravam-nos
também, com a mesma fixidez.
Eu via, de quando em quando, um cisne poisar
na luz metálica dos olhos dela; era a sua alma que descia do céu, saudosa do
ninho onde vivera durante quinze primaveras.
Quando o cisne baixava do alto, um frêmito
rápido percorria todo o corpo da formosa morta; o seu rosto sorria, num
relâmpago fugace, num fogo-fátuo que era cristalino; o seu peito arfava,
alevantando os seios púberes, castos como dois lírios que fossem rosas; e as
suas espáduas ebúrneas, por onde nunca haviam passado outros beijos que não
fossem os raios do sol, quando ela se banhava no rio hialino, — estremeciam
dolentemente.
O cisne, que era a sua alma, adejou para o
céu, e nunca mais voltou até ao ninho onde vivera durante quinze primaveras;
mas os olhos dela continuaram a mirar-me eternamente, porque eu não tive
coragem de cerrá-los, como se faz com os olhos de todos os mortos.
(© Domínio público)
____________________
Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e
Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo
— SP; Alphonsus de Guimaraens (1870 — 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa
Guimarães, mineiro de Ouro Preto, formou-se pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco [atual Direito USP São Paulo], foi juiz, promotor de justiça,
poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo,
Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; suas obras: Setenário das
Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale
(1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos
Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.







