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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Cuti: Ingrata performance


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nas brumas da fantasia
vejo como se move a subserviência
de quem se quer escravo:

procura fazer-se engraçado
enquanto cata migalhas

caminha meio de lado
como se fosse um siri
exibindo faceiro o caricato de si

não morde ou ferroa
se fome, implora
violência, perdoa

mudar em prata
pensa
suas algemas de ferro
para sonhar no futuro
algemas de ouro

no extremo, se preciso, não mata
suicida-se
pela promessa barata de uma outra vida
mesmo que seja
um “foda-se! te vira!”

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; suas obras: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia — Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Contos escolhidos (coletânea, 2016) Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Cuti: Revela-som


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o chicote sempre se pretendeu erudito
ordenou e ordena em idiomas vários
o seu “tenho dito!”

em seu tom
a vida míngua
via mar de mágoa
incha a nossa língua

produziu tantas marcas
em nossas minhas costas
externas e internas
que elas agora
mantêm de pé
o punho deste grito uníssono
e o verdadeiro desenho
do mapa do brasil.

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; suas obras: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia— Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Contos escolhidos (coletânea, 2016) Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Cuti: Em questão

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ancestral é mais que antepassado
na comunal cadeia que do entusiasmo nos fez da vida centelha

não desconhecido que se tornou mito
que nos põe aflitos
ante a história comum
desde antes, bem antes...
centro da áfrica
raiz que se exuma
somos um...
ou melhor, uma!

antepassado passou com nome feito nuvem
ancestral se foi voltou
para habitar corações e mentes
feito semente e lúmen

antepassados são muitos
dispersos na sombra
ancestrais alguns
imersos no sol de seus feitos
pelo exemplo eleitos
egunguns.

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; suas obras: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia— Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Contos escolhidos (coletânea, 2016) Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Esmeralda Ribeiro: Poesia de negro é...


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Poesia de negro é axé, é axé
A poesia negra vem com a força do quilombo
(Ponto de roda de poemas)

escrever é a linha invisível
que divide a loucura da sanidade
quando escrevo
minha ancestralidade
está presente
o processo de criação
é uma flor que vai desabrochando
criar é desafiar a lei
da gravidade espacial e territorial
a poesia negra é uma dama da noite
seu perfume africano e envolvente
atinge as zonas proibidas
do nosso íntimo
literatura afro é como uma música de rap
que dialoga com seus pares
com seus aliados
às vezes versa
às vezes conta uma prosa
às vezes salva os
manos quase perdidos na estrada

"Poesia de negro é axé, é axé
A poesia negra vem com a força do quilombo"

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Esmeralda Ribeiro, nascida em 1958, paulista e paulistana, é jornalista, escritora, poeta e pesquisadora da literatura afro-brasileira; atua no projeto Quilombhoje e na coordenação da série Cadernos negros; suas obras: Malungos e Milongas (contos, 1988), Orukomi — meu nome. Ilustrações de Edmilson Quirino dos Reis (Quilombhoje SP, 2007), além de ensaios e participações nos Cadernos Negros, em Pau de Sebo: antologia de poesia negra (1988), em Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995), em Ancestral House (1995), em Terra de palavras: contos (2004) etc; seus trabalhos estão publicados em 35 antologias no Brasil e no exterior; a poeta coidealizou, com Vera Lúcia Barbosa, o Sarau Afro Mix evento multimídia com minipalestra, roda de poesia e performance de dança e, com Márcio Barbosa, criou o Xirê de Palavras & Poesia Afro, com palestras sobre a literatura afro-brasileira e declamações de poemas destinadas a crianças e adolescentes de escolas públicas e particulares.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Cuti: Medotécnica


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a indiferença é o chicote
que muita gente usa
contra ameaças de beijo, abraço, toque

se chama também
quando a empáfia a conclama
desdém

coisa de quem ama
padrão, modelo, tipo
raça, gênero, grana, isso e aquilo

mas quando o verdadeiro amor vem a reboque pânico!
sabe: do mundo
completamente muda o enfoque.

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; suas obras: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia— Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Contos escolhidos (coletânea, 2016) Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

sábado, 16 de setembro de 2023

Débora Garcia: Trajetórias


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Quando nasci, um homem branco me segurou pelos pés
Bateu em minha bunda e disse:
— Vai, mulher negra, sofrer na vida!
Pela primeira vez, chorei sentida
Só assim ele se convenceu de que eu estava viva

Desde então, muitos foram os tapas
Das mãos que me apalparam
Dos olhos que me despiram
Das bocas que em mim cuspiram
Dos ferros que me alisaram

Tapas atrás de tapas
Diariamente sovada
Assim me fizeram carne barata
Assim me fizeram mulher calejada
Assim me fizeram dor!

A dor doía e, só, sofria
A dor doía e, só, sofria
A dor doía e, só, sofria
Só sofria...
...Só!

Os tapas não cessaram
As dores me acompanharam
Múltiplas formas de violência
Anularam minha negra essência

Estereotipada, me fizeram objeto
Retocado, clareado, purpurinado
Transmitido em resolução HD
Para que o mundo pudesse ver
Nas telas do grande irmão
A mulata exportação!

“...Na tela da TV, no meio desse povo
A gente vai morrendo aos poucos...”
E, aos poucos, essa dor invisibilizada
Fez do banzo minha morada.

— Deixa de ser vitimista!
Diziam-me sobre a dor incompreendida
— Seja forte!
Diziam-me aquelas que partilhavam a mesma ferida

Deixei de gritar
Para muitos, sucumbida
Mas sabiam meus algozes
Que, como Fênix, renasceria!

Conheci a literatura negra
E suas mulheres fortalezas
Sensíveis como o afago
Resistentes como aço

Narrativas de dor e afeto
Onde não mais éramos objetos
E, sim, sujeitos determinados

No seio da mãe preta me acalmei
No seio da mãe preta me fortaleci
No seio da mãe preta me refiz
Mulher preta e escrevi!

Empunhei minha caneta
Bebi, nestas fontes, águas
Compreendi que a minha história
Também deveria ser contada

Uma mão branca levanta-se violenta
Arrancou-me o papel e a caneta

Desde então muitos foram os tapas
Das mãos que rasuraram meus escritos
Dos olhos que censuraram minhas palavras
Dos círculos estritamente masculinos
De literatura branca, elitizada

Tapas atrás de tapas
Diariamente sovada
E os círculos egrégios dos escribas
Desqualificavam minha escrita
A dor doía...
Não mais só
Revidei!

Tomei o papel e a caneta
Escrevi e publiquei um livro
Oxalá, outros virão!
Escrevo e reescrevo diariamente
Em todas as páginas desse livro-vida:
Vai, mulher negra, ser feliz!

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera Zona Leste, formada assistente social pela UNESP — Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz, gestora cultural e palestrista; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicada Marginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina — a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora de poemas é seu primeiro livro publicado; a poetisa atua em saraus pela paulicéia e, em 2016, criou o Sarau das Pretas, um sarau cenopoético que conta com o protagonismo de cinco mulheres negras periféricas.