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terça-feira, 18 de novembro de 2025

Emílio Moura: Formas que em vão persigo: se é que alguma . . . [soneto]

 
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Formas que em vão persigo: se é que alguma
coisa ainda sois, mostrai-a ao pensamento.
Quando mais me procuro, mais me invento,
perco-me todo, esfaço-me na bruma.

Nem um raio de luz neste momento.
Que aconteceu, que a sombra se avoluma?
Porque tudo se perde como a espuma?
Porque a vida se esvai como um lamento?

Formas que em vão procuro: ardo em meu sonho,
quero fixar-vos. Luto. Que medonho
pânico em tudo! Que clamor profundo

sobe da treva! Que estertor imenso!
Por que tudo agoniza quando penso?
A solidão sem fim de antes do mundo!

(O Instante e o Eterno — 1953)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editou A Revista, primeiro órgão literário modernista mineiro; suas obras: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros; Emílio Moura também exerceu as funções de Secretário do Tribunal de Contas e Diretor da Imprensa Oficial, ambos em Belo Horizonte MG.

domingo, 1 de setembro de 2024

Emilio Moura: Serenidade no bairro pobre

 
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A tarde é ruído nas avenidas,
a tarde é calma nos arrabaldes.

No céu de bronze as aves pairam.
Depois, rápidas, num risco reto, elas descem como aeroplanos de brinquedo,
equilibram-se trêmulas, trêmulas,
e de novo pairam no céu de bronze.

Infinita, a cidade vive...

Há luzes florindo, correndo nas ruas,
há luzes paradas.

A noite é calma nos arrabaldes...

O silêncio sobe da terra magoada,
o silêncio desce do céu luminoso,
tão luminoso e tão alto que ninguém pensa nele...

Pelos jardins de trepadeiras muito calmas,
de eras e rosas,
uma inútil melancolia
planta um refúgio desconsolado.

Infinita, vaga serenidade...

[1]925

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 2,
Ano 1 — Outubro de 1927, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; suas obras: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sábado, 16 de março de 2019

Emílio Moura: O que dói em tudo isso não é tanto . . . [soneto]

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O que dói em tudo isso não é tanto
a rosa não ser rosa, e a estrela, estrela;
não é que haja no riso algo de pranto,
e amar a vida à força de perdê-la.

Amor  engano de um que se procura,
no que, ávido e cego, já criara.
Nem é isso o que dói. Força tão pura,
amor se inventa, inventa, e já não pára.

Não pára. Inventa e, múltiplo, se inventa,
tanto o amado se mira e se imagina
no que é ledo inventar que se acalenta.

O que dói é a certeza de que tudo
mais se banha em beleza, se termina,
e, ao ter algo a dizer-nos, fica mudo.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Emílio Moura: Inscrito em uma parede

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Por que foi que deixaram,
        ah, coração duro,
que esta estrada acabasse
        num muro?

Por que ninguém, ninguém,
        aqui se ergueu,
        ah, coração duro,
quando o que fui morreu?

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Emílio Moura: Poema

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De repente volta
o que nem sei se foi
sonhado ou vivido.
Que apelo me chega
desta voz que emerge
de tão fundas águas?
Alguém esquecido
no fundo dos tempos?
Meu anjo vencido?
Meu duplo secreto?
Que apelo indizível
me chama, me grita
que esqueça, que durma,
ou me divida em tantos
que nenhum seja eu?

Nem eu, nem ninguém.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Emílio Moura: Mundo morto

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Resto de tarde já de si vazia, 
viva sombra da noite antecipada.
A chama esvai-se, apaga-se o teu dia
que, pesadas as coisas, não foi nada.

Pensar em tudo: no horizonte mudo,
no visto, no sonhado, no vivido,
e sentir, como um bêbado, que tudo
surge sem forma: nada tem sentido.

Coisas idas, presentes e futuras,
tudo se tece de uma vaga bruma,
um compor de mil formas tão obscuras

que não se sabe quando nasce o dia
e, quando nasce, ninguém vê nenhuma
luz. Ó dia cansado de ser dia!

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

domingo, 18 de novembro de 2018

Emílio Moura: O morto-vivo

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Esquivo encontro de rua,
risco no ar, clarão, relâmpago.
Que é do morto que jazia
sob o musgo, sob a pedra,
sob milênios erguidos
com febre, torpor e lágrima?
Que é do morto que morria
a cada visão distante,
a cada novo crepúsculo?
Não houve morte. Não há.
Há febre, torpor e lágrima;
há o dia fixo, o degredo,
o signo que não se entende,
o sol, o pântano mudo,
a rosa cortada no ar.
Há a vida secreta, hermética,
o olhar que se abre  é de vidro,
a flor que brilha  é de pobre
matéria plástica; há a aurora
que se acalenta  é reflexo
de esquiva luz, já se foi.

Com que força, com que ímpeto,
o morto-vivo caminha!

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

domingo, 16 de setembro de 2018

Emílio Moura: Soneto a Carlos Drummond de Andrade

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A hora madura envolve-te e palpita
nela o que ora te oferta, ora recusa:
posse do que és, na solidão recôndita,
graça de amar, ressurreição dos mitos.

Claros enigmas riscam céus distantes.
Falam-te as coisas pela voz que é o próprio
sentimento do mundo e pela meiga
sombra gentil que ressuscita a infância.

Ouço-te andar nas lajes desta rua,
que nem sei se é de Minas ou de alguma
pátria remota que ao teu canto se abre.

E amo-te a voz multiplicada em ecos:
verbo dócil à força íntima e pura
que à máquina do mundo se incorpora.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Emílio Moura: Presença

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Esqueço a tarde que desce
com sua túnica fria,
sua úmida presença
de musgo, silêncio, pedra.
E este impreciso desenho
que de súbito se apaga
na areia, no ar, no vácuo?
Bem sei que já foi caminho,
luz esplêndida. Apagou-se.
Esqueço a pálpebra lenta
que cai trêmula e se fecha,
memória de ontem e nunca,
sobre o que vive de mim.

Por que me sinto assim leve
de corpo e de alma? Este frêmito,
este albor, este sentido
de aurora, orvalho e de cântico,
de onde é que vem? De que fonte
ignota ou próxima? E pura!
Que ar de nuvem, que áureo signo
Conduz meu úmido passo?

Nada sei. Nada de nada.
Apenas sei que a meu lado
súbita sombra, de leve,
me acompanha. De que fúlgida
aurora chega? De que alva
esteira de luz se forma,
tão luz que transcende a outra
que foi a luz de meu dia?
Nada sei. Nada de nada.
Só sei que em mim nada pesa
(já tanto pesava!) a tarde
com sua túnica fria,
sua úmida presença
de musgo, silêncio, pedra.

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sábado, 7 de julho de 2018

Emílio Moura: Simples canção

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Que ficou de tudo
o que foi vivido,
ou apenas tecido,
tão canhestramente,
com fios de vento,
em margens de nada?
Que ficou de cada
caminho perdido
no tempo? De cada
frustra tentativa,
ou salto no escuro?
Que ficou de puro
segredo esquecido
nem se sabe onde?
Que ficou de tudo?
Essa fracionada
imagem sem nexo
do espelho partido?

Esse tudo-nada
que, em transe, ainda fala
à vida acabada
quer ressuscitá-la?
Ou a voz que corta
de súbito, os ares,
repete  é tão eco!
outra voz já morta?
Que buscam os dedos
tateando no muro?
A flor, numa fresta?
A fresta  uma porta?
Que caminho resta,
além desse muro?
Que azul, que impossível
amanhecer no escuro?

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de MinasEstado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Emílio Moura: A hora cinzenta

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Diga-me: É preciso
deixar que a lembrança
da primeira estrela,
da primeira e única
aurora se esfume?
Que os olhos, atentos,
se abram, solitários,
mas lúcidos, para
tantos desafios?
Responder ao grito
que sobe do escuro,
socorrer o próximo,
pensar mil feridos,
perdoar, amar,
mesmo malamado,
mesmo desamado,
traído, odiado,
contra tudo  amar,
amar contra todos?
Ou é hora apenas
de ódio e revolta,
ou frio desânimo,
enquanto o que resta
(ah, resta tão pouco!)
deixa que uma bomba
resolva o que nunca
se resolveria?

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Poesias de Emílio Moura — Introdução e Seleção de Fábio Lucas, Coleção Toda Poesia 9, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACE-UFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Emílio Moura: Cantiga de solitário

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Os que deixei no caminho,
sôbolos rios que vão...
onde é que estão?
Onde é que estão
Os que deixei no caminho?

 Todos, todos já dormindo
sôbolos rios que vão
à escuridão.

Os que deixei no caminho
se detiveram tão cedo
que me deixaram sozinho.

Os que deixei no caminho
sôbolos rios que vão...
onde é que estão?

Se havia sol no caminho,
que pensamento os deteve,
que fel, que sombra, que espinho?

Os que deixei no caminho
dormindo estão
sôbolos rios que vão.

(Itinerário Poético  poemas reunidos, 2002)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902  1971), mineiro de Dores do Indaiá, foi jornalista, professor universitário, escritor e poeta; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; sua bibliografia: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro, por seu Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.