
Anhangá passou por aqui,
Anhangá tudo levou:
Fim da raça,
Fim da paz,
Fim da roça.
Ficou nossa história,
Ficou o pajé, sonhando na oca
Com um dia melhor que hoje.
Ficou a força da nossa fé
Em Tupã, pai criador,
Mas um dia o verão vai nascer!
Um guerreiro Tamoio descerá do céu,
Num raio de sol,
Com a flecha da honra
E a lança da verdade.
Com o corpo pintado com urucum, em cores de guerra,
Ele vingará nossa dor:
A fome sem nome que abateu os curumins.
Curupira dançará ao seu lado.
Do espelho d’água, a Iara cantará sua triste canção.
Mil sacis romperão da mata,
Nos seus redemoinhos, derrubando os prédios
E os fios da eletricidade.
Desmoronarão as mentiras do homem branco
Marcharão, em praça pública, os Macuchis,
Os Guaianazes, os Tupis.
E todos os bichos sorrirão
O carnaval da mãe terra findará a solidão da lua
Que chora sozinha mil noites
Desde que Anhangá chegou, na primeira caravela.

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Ivan Neris: Horizonte Vertical —
poesia, Apresentação de Claudemir dos Santos, 1ª edição, 2019, Lavra Editora, São
Paulo — SP;
Ivan Neris, nascido em 1976, paulista e paulistano da ZL (Zona Leste), é multiartista
e poeta; produtor musical, compositor e letrista, ator e diretor teatral, Ivan é um dos administradores da Aldeia Satélite Espaço Cultural, no
bairro de São Miguel Paulista desta pauliceia esparramada, onde também se
apresenta e participa do Sarau Arte Canal; entre 1996 e 2001 foi um dos consolidadores
do grupo artístico musical AD Alucinógeno Dramático; tem poemas musicados; o
poeta vive e trabalha na ZL paulistana e se esparrama por outras regiões da
cidade; é bancário.