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terça-feira, 6 de junho de 2023

Zalina Rolim: Venha do céu o melindroso Anjinho . . . [soneto]


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Venha do céu o melindroso Anjinho
Maravilha de graça e de inocência
De nosso lar a flor e da existência
O rescendente laço de carinho.

Venha do céu na doce refulgência
De um sorriso de Deus ao nosso ninho…
Criatura gentil, meigo entezinho,
Do eterno Bem a misteriosa essência.

Venha… e com ele o resplendor da graça
Que avezinha ideal passa e perpassa
E acende em nosso olhar doce lampejo…

Venha… e com ele a vaga de ternura
Que o coração dos pais funde e mistura
Na deliciosa música do beijo.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Martins Fontes: Brasileira

 
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Vem-me de ti, nas aragens,
A rescendência febril
Que há nos pomares selvagens,
À beira-mar, no Brasil!

Tua carne capitosa
Tem, na rijeza vivaz,
O aroma da manga-rosa,
A doçura do ananás!

O cheiro dos teus cabelos
Faz-me sorrir e sofrer...
Que eu por ti sinto desvelos
Que me acanho de dizer:

Invejas do teu vestido,
Do vento e da luz do sol...
Ciúme do teu marido,
Do linho do teu lençol!

Que doce, que bom seria
Incomparável prazer,
Amar-te adorar-te um dia,
Beijar-te, e depois morrer...

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Maria Martins Fontes (1884 1937), paulista de Santos, estudou e doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; ainda estudante no Rio, colaborou com os jornais Gazeta de Notícias e O País e com as revistas Careta e Kosmos; escreveu para os jornais A Gazeta e Diário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Afonso Schmidt: Anhangabaú


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Nos piques, vagando à toa,
É raro quem não pressinta
Uma toada indistinta
Que, sob as pedras, ressoa.

Conta moedas, tilinta,
Como refrão de uma loa,
A fonte exilada e boa,
Há muitos anos extinta.

Sua alma que ali revoa,
De céus e de ares faminta,
Repete a cada pessoa

Uma novela sucinta:
Noturnos, capas, garoa,
Mil oitocentos e trinta...

[Mocidade — 1921]

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

domingo, 7 de maio de 2023

Amadeu Amaral: Meus filhos


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Ave canora, lépida Maria;
Ziza, serena flor do meu rosal;
Yola, ânfora de graça e de alegria;
Dedéu, meu bom rapaz, doce e leal;

Por vós descubro em mim nova poesia,
Um senso religioso, amplo e jovial;
E, árvore, canto em vós, ó romaria,
Que outra não vejo pelo mundo igual.

Algo, certo, deveis-me, como devo,
Como deveis a vossa Mãe robusta;
Mas eu vos devo maior soma. Olhai:

Vós influis-me um precioso enlevo,
E o bem de achar a sorte sempre justa,
E o suave orgulho de ser vosso pai.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

sábado, 29 de abril de 2023

Martins Fontes: Paulista eu sou há quatrocentos anos!

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Paulista eu sou há quatrocentos anos:
Imortal, indomável, infinita,
Dos mortos de que venho, ressuscita
A alma dos Bandeirantes sobre-humanos.

Tenho o orgulho dos nossos altiplanos.
Tenho a paixão da gleba circunscrita.
Quero morrer, ouvindo a voz bendita
Dos pausados cantares paulistanos.

De minha terra, para minha terra,
Tenho vivido. Meu amor encerra
A adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela, sonho num perpetuo enlevo.
E, incapaz de servi-la quanto devo,
Quero ao menos amá-la quanto posso.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Maria Martins Fontes (1884 1937), paulista de Santos, estudou e doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; ainda estudante no Rio, colaborou com os jornais Gazeta de NotíciasO País e com as revistas Careta e Kosmos; escreveu para os jornais A Gazeta e Diário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

sábado, 8 de abril de 2023

Ricardo Gonçalves: Uma vela que passa

 
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Longe, um barco de pesca à viração desfralda
A vela, e singra ao sol que rompe a escassa bruma,
Rumo desses ilhéus que o marouço engrinalda
Com seus flocos de espuma...

Foge... graciosamente enfunada, palpita
No horizonte lilás, como um pássaro exul...
Depois se afasta e é uma asa branca na infinita
Curva do mar azul...

Primeiro amor! Sonho formoso de criança,
Cheio de luz, cheio de unção, cheio de graça!
És tu, na curva azul de um mar todo bonança,
Uma vela que passa...

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Mendes Gonçalves (1893 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido à bala no braço; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; o poeta e anarquista também assinou seus textos com os pseudônimos D. Ricardito e Bruno de Cadiz; deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

terça-feira, 14 de março de 2023

Oswald de Andrade: A transação & Relicário


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A transação

O fazendeiro criara filhos
Escravos escravas
Nos terreiros de pitangas e jabuticabas
Mas um dia trocou
O ouro da carne preta e musculosa
As gabirobas e os coqueiros
Os monjolos e os bois
Por terras imaginárias
Onde nasceria a lavoura verde do café

— o —

Relicário

No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Oswald de Sousa Andrade (1890 1954), paulista e paulistano, bacharel em Humanidades e em Direito, foi jornalista, redator, poeta, dramaturgo, escritor, crítico teatral, e um dos expoentes do Modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922 levada a efeito no Teatro Municipal de São Paulo; iniciou-se no jornalismo como redator e crítico teatral do Diário Popular, fez parte do grupo da revista Klaxon (1922 a 1923) e da Revista de Antropofagia (1928 a 1929); colaborou e publicou seus textos em diversos periódicos de sua época: revista A Cigarra, A Vida Moderna, Jornal do Comércio, O Jornal, A Gazeta, Correio Paulistano, Revista do Brasil, Diário de São Paulo, Correio da Manhã, entre outros, e fundou a revista O Pirralho, e, depois, Papel e Tinta, Terra Roxa, juntamente com outros modernistas; percurso literário: revista O Pirralho (humor em português macarrônico, 1912 1917), A recusa (teatro, 1913), Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur Âme (com Guilherme de Almeida, 1916), A trilogia do Exílio: I — Os Condenados, II — A estrela de absinto, III — A escada vermelha (romances, de 1922 1934), Memórias sentimentais de João Miramar (romance, 1924), Pau-Brasil (poesia, 1925), Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), Serafim Ponte Grande (romance, 1933), O homem e o cavalo (teatro, 1934), O rei da vela (teatro, 1937), Marco Zero: I — A revolução melancólica, II — Chão (romances, ambos em 1943), Cântico dos Cânticos para flauta e violão (1945), O escaravelho de ouro (1946), além de manifestos e conferências, e outros textos em verso e prosa e para teatro; de família abastada, Oswald viveu entre o Brasil e a Europa, onde transitou por diversos países.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Martins Fontes: Sully et Nadège


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As tantas da madrugada,
Lá pelo Saco do Alferes,
Numa grossa patuscada,
Com amigos e mulheres,

Lembrou-se a Lili Maluca
De irmos todos tomar vinho,
A uma famosa baiúca
Chamada  “A Parra do Minho.”

Fomos. Entramos. E um rolo
Se forma. Barulhos. Gritos.
E nós metidos no bolo,
Entre facadas e apitos.

Eis que, em meio à barafunda,
Ouço, conforme a etiqueta,
Naquela biboca imunda,
Dizer um preto a uma preta:

 “Perdoe, minha Senhora,
Tê-la trazido a este frege...”
 “Sully, vamo-nos embora.”
 “Às ordens, minha Nadège.”

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Maria Martins Fontes (1884 1937), paulista de Santos, estudou e doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; ainda estudante no Rio, colaborou com os jornais Gazeta de NotíciasO País e com as revistas Careta e Kosmos; escreveu para os jornais A Gazeta e Diário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Ricardo Gonçalves: A casa onde mora aquela . . . [soneto]

 
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[Aquarela]

A casa onde mora aquela
Menina cor de açucena
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.

Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela.

Pintar a casa, a colina...
Mas, sobretudo a menina,
O ar descuidado e feliz,

Dando relevo à pintura
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Mendes Gonçalves (1893 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido à bala no braço; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; o poeta e anarquista também assinou seus textos com os pseudônimos D. Ricardito e Bruno de Cadiz; deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Oswald de Andrade: Negro fugido & Azorrague e Senhor feudal


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Negro fugido

O Jerônimo estava numa outra fazenda
Socando pilão na cozinha
Entraram
Grudaram nele
O pilão tombou
Ele tropeçou
E caiu
Montaram nele.

— o —

Azorrague

Chega! Perdoa!
Amarrados na escada
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura.

— o —

Senhor feudal

Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Oswald de Sousa Andrade (1890 1954), paulista e paulistano, bacharel em Humanidades e em Direito, foi jornalista, redator, poeta, dramaturgo, escritor, crítico teatral, e um dos expoentes do Modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922 levada a efeito no Teatro Municipal de São Paulo; iniciou-se no jornalismo como redator e crítico teatral do Diário Popular, fez parte do grupo da revista Klaxon (1922 a 1923) e da Revista de Antropofagia (1928 a 1929); colaborou e publicou seus textos em diversos periódicos de sua época: revista A Cigarra, A Vida Moderna, Jornal do Comércio, O Jornal, A Gazeta, Correio Paulistano, Revista do Brasil, Diário de São Paulo, Correio da Manhã, entre outros, e fundou a revista O Pirralho, e, depois, Papel e Tinta, Terra Roxa, juntamente com outros modernistas; percurso literário: revista O Pirralho (humor em português macarrônico, 1912 1917), A recusa (teatro, 1913), Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur Âme (com Guilherme de Almeida, 1916), A trilogia do Exílio: I — Os Condenados, II — A estrela de absinto, III — A escada vermelha (romances, de 1922 1934), Memórias sentimentais de João Miramar (romance, 1924), Pau-Brasil (poesia, 1925), Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), Serafim Ponte Grande (romance, 1933), O homem e o cavalo (teatro, 1934), O rei da vela (teatro, 1937), Marco Zero: I — A revolução melancólica, II — Chão (romances, ambos em 1943), Cântico dos Cânticos para flauta e violão (1945), O escaravelho de ouro (1946), além de manifestos e conferências, e outros textos em verso e prosa e para teatro; de família abastada, Oswald viveu entre o Brasil e a Europa, onde transitou por diversos países.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Ide Schloenbach Blumenschein: Aos meus amigos

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Não sei como expressar o sentimento
De gratidão imensa que me invade…
Parece até um dos sonhos que eu invento,
Essas provas de afeto e de amizade,

Que de Vocês recebo. É um monumento
A sua indiscutível lealdade:
Na jornada que há tanto tempo enfrento,
Não pode haver maior felicidade.

Que essa de ter amigos como os tenho,
E que, de conservar, tanto me empenho,
Feliz, agradecida, emocionada.

Não sei como dizer… Mas, essas provas
De bem-querer são esperanças novas,
Semeando roseirais em minha estrada.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa, por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em La menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Amadeu Amaral: Por esta melancólica descida, . . . [soneto]

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[Os meus camaradas]

Por esta melancólica descida,
Através de sarçais e de atoleiros
Que seria, dizei, da minha vida
Sem vós, ó meus amados companheiros?

Que seria desta alma, assim ferida,
Que seria dos sonhos derradeiros
Sem quem me ouvisse a voz, jamais ouvida,
Na surda multidão dos caminheiros?

Ah! como é bom sentir na treva incerta
A amiga voz que à nossa voz responde,
A doce mão que a nossa mão aperta!

Vamos... Rodeia-me sempre assim... Cuidado!
Quero, na escuridão que nos esconde,
Ouvir os vossos passos a meu lado.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Amadeu Amaral: A vida é uma caudal, em cujo fio . . . [soneto]

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[Sobre a eterna alternativa das saudades e das esperanças]

A vida é uma caudal, em cujo fio
Desliza a gente, mais do que navega.
Vamos olhando o céu claro ou sombrio,
Às margens a fugir, a onda que as rega.

Em mil aspectos a atenção se emprega.
Lá surge um verde bosque, um caule esguio.
Duplo abano de palmas se desprega
No azul dos ares e no azul do rio.

Vai passando... passou. Como, tristonho
Agora, o leque ao longe se balança!
O quadro visto já parece um sonho!

E é sempre, é sempre assim, em toda idade.
Surge em nosso caminho uma esperança?
Que linda! Olhai!... Passou. E' uma saudade.

[28 de Junho de 1921]

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

sábado, 29 de outubro de 2022

Ide Schloenbach Blumenschein: Brinde Inoportuno

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Tanto tempo guardei esta garrafa intata,
Contendo um vinho bom teu vinho predileto!
Para comemorar, ao teu lado, essa data
Que só a mim recorda o início de um afeto

Que tão pouco durou... Mas, não faz mal, sou grata
Pela tua presença aqui, sob meu teto...
Não importa sentir tua presença abstrata.
(Pois não eras assim, tão frio e circunspecto.)

O passado não volta, eu sei. É simplesmente
Por mera cortesia estares tu presente.
É vazio e glacial teu aperto de mão.

Brindemos, meu amigo, ao teu novo caminho,
Sorvendo calmamente a taça deste vinho
Que guardei tanto tempo, à toa, sem razão...

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Colombina, ou Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882 1963), paulista e paulistana, fez parte de seus estudos na Alemanha; cronista e poetisa, publicou seus primeiros poemas por volta de 1900, n’A Tribuna, de Santos SP; colaborou com revistas e jornais de sua época, como O Malho, Fon-Fon, Careta, Jornal das Moças, muitas vezes utilizando pseudônimos Colombina ou Paula Brasil; criou a Casa do Poeta Lampião de Gás e O Fanal, periódico da Casa, por ela editado e do qual foi diretora; escreveu e publicou Vislumbres (poesias, 1908), Versos em La menor (1930), Lampião de Gás (1937), Uma cigarra cantou para você (1946), Distância: poemas de amor e de renúncia (1948), Trovas (1955), Cantigas ao Luar (1960), Rapsódia Rubra: Poemas à Carne (1961) e outros títulos; a poetisa, poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano, além da língua pátria.