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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ingeborg Bachmann: Ao Sol

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

Mais belo que a notável lua e sua nobre luz
Mais belo que as estrelas, as insígnias célebres da noite,
Muito mais belo que a irrupção em chamas de um cometa
E eleito para algo mais belo que outro astro qualquer,
Pois minha e tua vida a ele estão ligadas dia a dia, é o sol.

Belo sol que, ao se erguer, não esqueceu suas tarefas
E as cumpre ainda com mais beleza no verão quando, na costa,
Um dia se evapora e, refletidas sem esforço, as velas passam
Pelo teu olho até que te fatigues e abrevies a derradeira.

Sem o sol mesmo a arte volta a pôr o véu,
Não me apareces mais e, vergastados pelas sombras,
Areia e mar abrigam-se sob minha pálpebra.

Bela luz que nos dá calor, nos guarda e propicia esse prodígio
Que é novamente ver e te rever.

Nada mais belo sob o sol do que estar sob o sol...

Nada mais belo do que ver a haste na água e, no alto, o pássaro
Ponderando seu vôo e, embaixo, os peixes em cardumes
de muitas cores, multiformes e trazidos num jato de luz ao mundo,
Ver a circunferência, o quadrilátero de um campo, ângulos mil do meu
país
E o vestido que vestes. Teu vestido azul em forma de campânula.

Tão belo azul no qual pavões, passeando, fazem reverências,
Azul dos longes, de regiões felizes que têm climas para meus
humores,
Azulíssimo acaso no horizonte. E, arrebatados, os meus olhos
dilatam-se outra vez e piscam e ardem doloridos.

Belo sol que merece a ilimitada admiração do próprio pó,
Por isto e não devido à lua ou às estrelas nem à noite
Que, procurando me fazer de tola, ostenta seus cometas,
Mas sim por tua causa e, em breve sem cessar, que em torno de mais
nada,
Lamentarei a perda inevitável dos meus olhos.

Ingeborg Bachmann

An die Sonne

Schöner als der beachtliche Mond und sein geadeltes Licht,
Schöner als die Sterne, die berühmten Orden der Nacht,
Viel schöner als der feurige Auftritt eines Kometen
Und zu weit Schönrem berufen als jedes andre Gestirn,
Weil dein und mein Leben jeden Tag an ihr hängt, ist die Sonne.

Schöne Sonne, die aufgeht, ihr Werk nicht vergessen hat
Und beendet, am schönsten im Sommer, wenn ein Tag
An den Küsten verdampft und ohne Kraft gespiegelt die Segel
Über dein Aug ziehn, bis du müde wirst und das letzte verkürzt.

Ohne die Sonne nimmt auch die Kunst wieder den Schleier,
Du erscheinst mir nicht mehr, und die See und der Sand,
Von Schatten gepeitscht, fliehen unter mein Lid.

Schönes Licht, das uns warm hält, bewahrt und wunderbar sorgt,
Daß ich wieder sehe und daß ich dich wiedersehet.

Nicht Schönres unter der Sonne als unter der Sonne zu sein…

Nicht Schönres als den Stab im Wasser zu sehn und den Vogeloben,
Der seinen Flug überlegt, und unten die Fische im Schwarm,

Gefärbt, geformt, in die Welt gekommen mit einer Sendung von Licht,
Und den Umkreis zu sehn, das Geviert eines Felds, das Tausendeck
meines Lands
Und das Kleid, das du angetan hast. Und dein Kleid, glockig und blau!

Schönes Blau, in dem die Pfauen spazieren und sich verneigen,
Blau der Fernen, der Zonen des Glücks mit den Wettern für mein
Gefühl,
Blauer Zufall am Horizont! Und meine begeisterten Augen
Weiten sich wieder und blinken und brennen sich wund.

Schöne Sonne, der vom Staub noch die größte Bewundrung gebührt,
Drum werde ich nicht wegen dem Mond und den Sternen und nicht,
Weil die Nacht mit Kometen prahlt und in mir einen Narren sucht,
Sondern deinetwegen und bald endlos und wie um nichts sonst
Klage führen über den unabwendbaren Verlust meiner Augen.

[1956]
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ingeborg Bachmann (1926 1973), austríaca de Klagenfurt, estudou Filosofia e Direito nas universidades de Innsbruck, Graz e Viena, foi escritora, dramaturga, professora, tradutora e poeta; após se formar e doutorar-se trabalhou como roteirista e editora da rádio austríaca Rot-Weiss-Rot; a poeta lecionou nas universidades de Harvard (EUA) e Frankfurt (Alemanha); suas obras: Ein Geschaft mit Traumen (peça radiofônica, 1952), Die gestundete Zeit (coletânea de poesias, 1953), Die Zikaden (peça radiofônica, 1955), Todesarten/The Book of Franza & Requiem for Fanny Goldmann (romance inconcluso, 1955), Anrufung des großen bären (coletânea de poesias, 1956), Der güte Gott von Manhattan (peça radiofônica, 1959), Der Prinz von Homburg (libreto de ópera, 1960), Der junge Lord (libreto de ópera, 1965), Das dreißigste Jahr (contos, 1961), Malina (romance, 1971), Simultan/Three Paths to the Lake (contos, 1972), Ich weiß keine bessere Welt (poemas não publicados, 2000) ...; traduziu para o idioma alemão o escritor estadunidense Thomas Wolfe (A Mansão) e o poeta italiano Giuseppe Ungaretti (Poemas); recebeu premiações por suas obras em poesia e peças para rádio; teve poemas musicados; Ingeborg Bachmann, que também fez uso do pseudônimo Ruth Keller, veio a morrer após sofrer graves queimaduras por incêndio em seu apartamento em Roma Itália.

sábado, 15 de junho de 2024

Ingeborg Bachmann: Publicidade


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Mas, e para onde iremos
despreocupado fique despreocupado
quando anoitecer e quando esfriar
fique despreocupado
mas, e
com música
que deveremos fazer
animado e com música
e pensar
animado
diante de um fim
com música
e para onde levaremos
de preferência
as nossas dúvidas e o calafrio dos anos todos
para a lavanderia dos sonhos despreocupado fique despreocupado
mas, e o que acontecerá
de preferência
quando o silêncio mortal

irromper

Ingeborg Bachmann

Reklame

Wohin aber gehen wir
ohne sorge sei ohne sorge
wenn es dunkel und wenn es kalt wird
sei ohne sorge
aber
mit musik
was sollen wir tun
heiter und mit musik
und denken
heiter
angesichts eines Endes
mit musik
und wohin tragen wir
am besten
unsre Fragen und den Schauer aller Jahre
in die Traumwäscherei ohne sorge sei ohne sorge
was aber geschieht
am besten
wenn Totenstille

eintritt

1956
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ingeborg Bachmann (1926 1973), austríaca de Klagenfurt, estudou Filosofia e Direito nas universidades de Innsbruck, Graz e Viena, foi escritora, dramaturga e poeta; após se formar e doutorar-se trabalhou como roteirista e editora da rádio austríaca Rot-Weiss-Rot; a poeta lecionou nas universidades de Harvard (EUA) e Frankfurt (Alemanha); suas obras: Ein Geschaft mit Traumen (peça radiofônica, 1952), Die gestundete Zeit (coletânea de poesias, 1953), Die Zikaden (peça radiofônica, 1955), Todesarten/The Book of Franza & Requiem for Fanny Goldmann (romance inconcluso, 1955), Anrufung des großen bären (coletânea de poesias, 1956), Der güte Gott von Manhattan (peça radiofônica, 1959), Der Prinz von Homburg (libreto de ópera, 1960), Der junge Lord (libreto de ópera, 1965), Das dreißigste Jahr (contos, 1961), Malina (romance, 1971), Simultan/Three Paths to the Lake (contos, 1972), Ich weiß keine bessere Welt (poemas não publicados, 2000) ...; recebeu premiações por suas obras em poesia e peças para rádio; teve poemas musicados; Ingeborg Bachmann, que também fez uso do pseudônimo Ruth Keller, veio a morrer após sofrer graves queimaduras por incêndio em seu apartamento em Roma Itália.