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domingo, 20 de abril de 2025

Nietzsche: Canção de um pastor de cabras teocritano

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[traduzido por Waltensir Dutra]

Estendido aqui, entranhas em fogo,
Os insetos não me deixam em paz.
E lá longe música, luzes!
Ouço que dançam...

Ela prometeu-me vir
Em segredo, para ser minha.
Aqui estou, deitado como um cão,
Sem ver sombra dela.

Ela prometeu-me sobre a cruz.
Como pôde assim mentir?
Ou será ela como uma cabra,
Com quem qualquer um pode tentar?

De onde vem seu vestido de seda?
Ah, meu orgulhoso salvador,
Muitos bodes foram abençoados
Com o teu favor.

Envenena-me a alma esperar
Amando em vão.
Assim cresci na noite abafada
O doloroso cogumelo da dor.

O amor me alimenta, querida,
Como os sete pecados.
Não tenho vontade de comer:
Adeus, cebolas!

A lua afundou-se no mar,
As estrelas, num céu cansado,
Contemplam a cinzenta aurora.
Eu gostaria de estar morto.

Nietzsche

Lied eines theokritischen Ziegenhirten

Da lieg ich, krank im Gedärm,
Mich fressen die Wanzen.
Und drüben noch Licht und Lärm!
Ich hör’s, sie tanzen...

Sie wollte um diese Stund’
Zu mir sich schleichen:
Ich warte wie ein Hund
Es kommt kein Zeichen!

Das Kreuz, als sie’s versprach?
Wie konnte sie lügen?
Oder läuft sie Jedem nach,
Wie meine Ziegen?

Woher ihr seidner Rock?
Ah, meine Stolze?
Es wohnt noch mancher Bock
An diesem Holze?

Wie kraus und giftig macht
Verliebtes Warten!
So wächst bei schwüler Nacht
Giftpilz im Garten.

Die Liebe zehrt an mir
Gleich sieben Übeln,
Nichts mag ich essen schier.
Lebt wohl, ihr Zwiebeln!
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Lou: Minha irmã, minha esposa — Uma biografia de Lou Andreas-Salomé, por H. F. Peters, Prefácio de Anaïs Nin e Tradução de Waltensir Dutra, 1986, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro — RJ; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Rainer Maria Rilke: Arranca-me os olhos, . . .

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[traduzido por Waltensir Dutra]

Arranca-me os olhos, e ainda te poderei ver.
Arranca-me os tímpanos, e ainda te poderei ouvir.
Sem pés, ainda poderei caminhar para ti.
Sem língua, poderei invocar-te a qualquer hora.
Arranca-me os braços, poderei abraçar-te
e agarrar-te com o coração, como se a mão fosse.
Pára meu coração e meu cérebro baterá com a mesma fidelidade.
E se meu cérebro incendiares,
então em meu sangue te carregarei.

O Livro das Horas — 1905

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Rainer Maria Rilke

sch mir die Augen aus: ich kann dich sehn,
wirf mir die Ohren zu: ich kann dich hören,
und ohne Füße kann ich zu dir gehn,
und ohne Mund noch kann ich dich beschwören.
Brich mir die Arme ab, ich fasse dich
mit meinem Herzen wie mit einer Hand,
halt mir das Herz zu, und mein Hirn wird schlagen,
und wirfst du in mein Hirn den Brand,
so werd ich dich auf meinem Blute tragen.

Stundenbuch — 1905
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Lou: Minha irmã, minha esposa — Uma biografia de Lou Andreas-Salomé, por H. F. Peters, Prefácio de Anaïs Nin e Tradução de Waltensir Dutra, 1986, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro — RJ; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Lou Andreas-Salomé: Volga

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[traduzido por Waltensir Dutra]

Embora longe de ti, vejo-te ainda.
Embora longe de ti, és minha para sempre.
És o presente que não se apagará.
És a minha paisagem e abriga meu coração.
Se eu nunca tivesse repousado às tuas margens,
Ainda assim conheceria tua amplidão,
E cada vaga, e cada sonho
Me levaria à tua imensa solidão.

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Lou Salomé

Wolga

Bist Du auch fern: ich schaue Dich doch an,
Bist Du auch fern: mir bleibst Du doch gegeben
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst Du um mein Leben.
Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüßt ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Einsamkeiten.
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Lou: Minha irmã, minha esposa  Uma biografia de Lou Andreas-Salomé, por H. F. Peters, Prefácio de Anaïs Nin e Tradução de Waltensir Dutra, 1986, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro —  RJ; Lou Andreas-Salomé (1861 1937) ou Louise von Salomé, russa de São Petesburgo, foi filósofa, ensaísta, poeta, romancista e psicanalista; viveu na Alemanha e conviveu intelectualmente com Nietzsche, Paul Rée, René (Rainer) Maria Rilke, Freud e outros pensadores de sua época; na Rússia Imperial, estudara teologia, filosofia, religiões mundiais e literatura francesa e alemã com o pregador (pastor) holandês Hendrik Gillot; já morando na Alemanha, para onde viajara com a mãe, adquiriu educação universitária em Zurique, estudou lógica, história das religiões, metafísica e confirmou sua vocação literária, retomando seus poemas escritos anteriormente e publicando-os em revistas de literatura ligadas a diversos círculos universitários; bibliografia: Im Kampf um Gott (Uma luta por Deus, 1885), Henrik Ibsens Frauen-gestalten (Personagens femininas de Ibsen, 1892), Friedrich Nietzsche in seinen Werken (Friedrich Nietzsche em sua obra, 1894), Ruth (1895), Aus fremder Seele (De uma alma perturbada, 1896), Fenitschka. Eine Ausschweifung (Fenitschka. A debochada, 1898), Menschenkinder (Filhos dos homens, 1899), Im Zwischenland (Na zona do crepúsculo, 1902),  Die Erotik (Erotismo, 1910), Das Haus (A casa, 1919), Main Dank an Freud (Minha gratidão a Freud, 1931), Lebensrückvlick (póstumo, Memórias, organizado por Ernst Pfeiffer, 1951), e outros títulos; Lou Salomé, uma mulher com idéias avançadas para o seu tempo, conviveu em círculos intelectuais de absoluta predominância masculina sem ser submissa a estes; sua obra Im Kampf um Gott foi publicada com o pseudônimo de Henri Lou.