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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Cassiano Machado Tavares Bastos: Sombras da lua

 
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Há no mar incógnitas paisagens,
Sombras formando um bronzeado trono,
Montanhas plúmbeas, pálidas ramagens
Que eu cuido contemplar num negro sono...

Não sei o que haverá nessas paragens
Que nos meus versos diluídos canto,
Não sei que entranhas, lânguidas imagens
Podem viver nesse estrelado manto!

Ah! por que foi satélite da Terra
A Lua, esse Astro incompreensível, místico,
E vemos nós as sombras que ela encerra?...

Certo no trono que estas sombras fazem,
Jaz o perfil do meu Sonhar artístico,
E as minhas Ilusões desfeitas jovem!...

(Ermida, pág. 17, 1900, Tipografia do
Instituto Profissional, Rio de Janeiro.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Cassiano Machado Tavares Bastos (1885 1973), nascido em Santa Maria Madalena RJ, ou C. Tavares Bastos, fez seus primeiros estudos em colégio particular no Rio de Janeiro, aos 11 anos matriculou-se no Internato do Ginásio Nacional (atual Colégio  Pedro II), depois transferiu-se para o Externato do mesmo instituto, cursou a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelou-se em Ciências e Letras, foi funcionário público, poeta do Simbolismo e tradutor; iniciando sua carreira como auxiliar de escrita da Estrada de Ferro Central do Brasil, exerceu inúmeras funções no alto escalão do serviço público e na área diplomática, aposentou-se em 1941 e passou a dedicar-se exclusivamente às letras; colaborou no semanário Rua do Ouvidor, na Folha do Dia (redigia a coluna “Crônica Semanal”, sob o pseudônimo “Cornely”), na revista Rosa Cruz e na revista Sousa Cruz, estas últimas de inspiração simbolista; traduziu Victor Hugo, Baudelaire e Dante; escreveu e publicou Ermida (poesia, versos dos 15 aos 17 anos, 1900), Versões Poéticas Brasileiras de Victor Hugo (1952), Dante e Outros Poetas Italianos na Interpretação Brasileira (1953), Baudelaire no Idioma Vernáculo (1963), Trovas do Crepúsculo (poesias, 1965), além de ter produzido vários livros na área de Estatística; Cassiano Machado foi participante ativo no movimento simbolista ao lado dos amigos e companheiros literários Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Carlos D. Fernandes, Castro Meneses e outros; seu estudo “Como surgiram os Místicos da Rosa Cruz (O Simbolismo no Brasil A Influência de Saturnino de Meireles Os discípulos de Cruz e Sousa Vicissitudes de uma Revista de Arte)”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de março de 1937, é de importância fundamental para a história do simbolismo brasileiro, na sua segunda fase, no relato de Andrade Muricy, organizador da obra Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, volumes I e II.

domingo, 22 de junho de 2025

Giosuè Carducci: Sol e amor

 
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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Leves e alvas à plaga ocidental,
As nuvens vão: seja por onde for,
Sorri o céu, como o humano labor
Saúda o sol, benigno, triunfal.

Em mil flechas desponta a catedral
E santos de ouro e rosado fulgor,
Radia então a hosana e há o rumor
Dos falcões, este alívolo coral.

Assim, depois que Amor riso de calma
Nuvens rasgou que me agravaram tanto,
Pode exsurgir à luz do sol minha alma.

E lhe sorri multiplicado o santo
Ideal da existência: é uma harmonia
O pensamento: e o sentimento é um canto.

(Rimas Novas)

Giosuè Carducci

XXI.
Sole e Amore

Lievi e bianche a la plaga occidentale
Van le nubi: a le vie ride e su ’l fòro
Umido il cielo, ed a l’uman lavoro
Saluta il sol, benigno, trionfale.

Leva in roseo fulgor la cattedrale
Le mille guglie bianche e i santi d’oro,
Osannando irraggiata: intorno, il coro
Bruno de’ falchi agita i gridi e l’ale.

Tal, poi ch’amor co ’l dolce riso via
Rase le nubi che gravârmi tanto,
Si rileva nel sol l’anima mia,

E molteplice a lei sorride il santo
Ideal de la vita: è un’armonia
Ogni pensiero, ed ogni senso un canto.

[14-15 dicembre 1872]

(Rime nuove — Libro secondo, 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Ça Ira (1883), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Giosuè Carducci: Pranto antigo

 
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[traduzido por C. Tavares Bastos]

A árvore à qual erguias
A pequenina mão
Verde romeira tão
Bela e de rubra flor.

No horto silencioso
Ei-la que reverdece,
Pois Junho a refloresce
De luz e de calor.

Tu, flor de minha planta
Árida, emurchecida,
Tu, desta inútil vida
Extrema, única flor,

Jazes na terra fria,
Jazes na terra negra,
Nem mais o sol te alegra
Nem te desperta amor.

(Rimas Novas — [1887])

Giosuè Carducci

Pianto antico

L'albero a cui tendevi
la pargoletta mano,
il verde melograno
da' bei vermigli fior,

nel muto orto solingo
rinverdì tutto or ora
e giugno lo ristora
di luce e di calor.

Tu fior della mia pianta
percossa e inaridita,
tu dell'inutil vita
estremo unico fior,

sei ne la terra fredda,
sei ne la terra negra;
né il sol più ti rallegra
né ti risveglia amor.

(Rime nuove — 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Giosuè Carducci: Panteísmo

 
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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Eu não o disse nem a vós, estrelas
Que velais, nem a vós, onividente
Sol! O seu nome, flor das coisas belas,
No meu tácito peito ecoou somente.

Mas uma das estrelas à outra conta
O meu segredo, ó noite, à sombra tua,
Ao que sorri o sol quando tramonta
Nos seus colóquios com a branca lua!

No outeiro umbroso, na planície quieta,
Sussurra-o cada arbusto a cada flor:
Cantam, no voo, as aves: “Triste poeta,
Os doces sonhos revelou-te Amor”.

Jamais o disse e, em alta consonância,
A terra, o céu, o amado nome chama:
E das acácias à sutil fragrância
Murmura-me o Grão Todo: “Ela, ela te ama!” *

(Rimas Novas)

Giosuè Carducci

XLVII.
Panteismo

Io non lo dissi a voi, vigili stelle,
A te no ’l dissi, onniveggente sol:
Il nome suo, fior de le cose belle,
Nel mio tacito petto echeggiò sol.

Pur l’una de le stelle a l’altra conta
Il mio secreto ne la notte bruna,
E ne sorride il sol, quando tramonta,
Ne’ suoi colloqui con la bianca luna.

Su i colli ombrosi e ne la piaggia lieta
Ogni arbusto ne parla ad ogni fior:
Cantan gli augelli a vol Fósco poeta,
Ti apprese al fine i dolci sogni amor.

Io mai no ’l dissi: e con divin fragore
La terra e il ciel l’amato nome chiama,
E tra gli effluvi de le acacie in fiore
Mi mormora il gran tutto Ella, ella t’ama.

15 giugno 1872.

(Rime Nuove, Libro terzo — 1887)

* Nota de tradutor Jamil Almansur Haddad: C. Tavares Bastos vê reminiscências de “Panteísmo” em “Ouvir estrelas”, de Olavo Bilac. Recorda todavia as pesquisas de Alberto Faria [1869 ― 1925] (Aérides) filiando o poema do italiano ao tema genérico da natureza denunciante, antiquíssimo, e cujos numerosos avatares (na literatura brasileira inclusive) Faria estuda pormenorizadamente.
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Cassiano Machado Tavares Bastos: Do "Meu poema"

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XVI

Nas grotas sepulcrais do teu Verso Maldito
A existência de uma Ânsia Intangível revela
O Tédio que te prostra o coração aflito
Com a frieza glacial de uma profunda cela!

O Ódio nervosamente o teu Verbo constela
De blasfêmias cruéis como um Satã proscrito,
E do Invisível Céu que sobre ele se estrela
Corre de boca em boca o misterioso mito...

O arcanjo da Saudade abre as asas piedosas
Sobre fulgurações da solitária Prece
Que ergues transfigurado às Esferas Saudosas...

Depois... (Esquece o fim deste terrível drama,
As tristezas... o luto... a dor, esquece, esquece...)
Noite. Não, vês o Luar? É o Sonho que te chama!...

([revista] Rosa Cruz, ano I, junho de 1901, nº 1, pág. 24.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Cassiano Machado Tavares Bastos (1885 1973), nascido em Santa Maria Madalena RJ, ou C. Tavares Bastos, fez seus primeiros estudos em colégio particular no Rio de Janeiro, aos 11 anos matriculou-se no Internato do Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II), depois transferiu-se para o Externato do mesmo instituto, cursou a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelou-se em Ciências e Letras, foi funcionário público e poeta do Simbolismo; iniciando sua carreira como auxiliar de escrita da Estrada de Ferro Central do Brasil, exerceu inúmeras funções no alto escalão do serviço público e na área diplomática, aposentou-se em 1941 e passou a dedicar-se exclusivamente às letras; colaborou no semanário Rua do Ouvidor, na Folha do Dia (redigia a coluna “Crônica Semanal”, sob o pseudônimo “Cornely”), na revista Rosa Cruz e na revista Sousa Cruz, estas últimas de inspiração simbolista; traduziu Victor Hugo, Baudelaire e Dante; escreveu e publicou Ermida (poesia, versos dos 15 aos 17 anos, 1900), Versões Poéticas Brasileiras de Victor Hugo (1952), Dante e Outros Poetas Italianos na Interpretação Brasileira (1953), Baudelaire no Idioma Vernáculo (1963), Trovas do Crepúsculo (poesias, 1965), além de ter produzido vários livros na área de Estatística; Cassiano Machado foi participante ativo no movimento simbolista ao lado dos amigos e companheiros literários Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Carlos D. Fernandes, Castro Meneses e outros; seu estudo “Como surgiram os Místicos da Rosa Cruz (O Simbolismo no Brasil A Influência de Saturnino de Meireles Os discípulos de Cruz e Sousa Vicissitudes de uma Revista de Arte)”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de março de 1937, é de importância fundamental para a história do simbolismo brasileiro, na sua segunda fase, no relato de Andrade Muricy, organizador deste Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro...

sábado, 23 de dezembro de 2023

Cassiano Machado Tavares Bastos: Elevação


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Envolve-toi bien lain de ces mesmes morbidez,
Va te purifier dans l’air supérieur”.
CH. BAUDELAIRE.

Para os azuis sidérios, poeta, eleva
O teu eterno cíato de prata,
Onde o absinto que te queima e mata
Faz com que vejas o luar na treva!

E que o teu verso aureolado deva
Subir à luz que nele se retrata,
Vai, nas Esferas teu amor dilata,
Tu’alma lá pelas Alturas neva!...

Nos puros longes eterais penetra
Altivamente, e sem temor soletra
O alfabeto estelar desse outro mundo...

Que te não percas nesse abismo enorme,
Mas entre os anjos e as estrelas dorme,
Dorme sonhando num sonhar profundo!...

(Ermida, pág. 31.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Cassiano Machado Tavares Bastos (1885 1973), nascido em Santa Maria Madalena RJ, ou C. Tavares Bastos, fez seus primeiros estudos em colégio particular no Rio de Janeiro, aos 11 anos matriculou-se no Internato do Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II), depois transferiu-se para o Externato do mesmo instituto, cursou a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelou-se em Ciências e Letras, foi funcionário público e poeta do Simbolismo; iniciando sua carreira como auxiliar de escrita da Estrada de Ferro Central do Brasil, exerceu inúmeras funções no alto escalão do serviço público e na área diplomática, aposentou-se em 1941 e passou a dedicar-se exclusivamente às letras; colaborou no semanário Rua do Ouvidor, na Folha do Dia (redigia a coluna “Crônica Semanal”, sob o pseudônimo “Cornely”), na revista Rosa Cruz e na revista Sousa Cruz, estas últimas de inspiração simbolista; traduziu Victor Hugo, Baudelaire e Dante; escreveu e publicou Ermida (poesia, versos dos 15 aos 17 anos, 1900), Versões Poéticas Brasileiras de Victor Hugo (1952), Dante e Outros Poetas Italianos na Interpretação Brasileira (1953), Baudelaire no Idioma Vernáculo (1963), Trovas do Crepúsculo (poesias, 1965), além de ter produzido vários livros na área de Estatística; Cassiano Machado foi participante ativo no movimento simbolista ao lado dos amigos e companheiros literários Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Carlos D. Fernandes, Castro Meneses e outros; seu estudo “Como surgiram os Místicos da Rosa Cruz (O Simbolismo no Brasil A Influência de Saturnino de Meireles Os discípulos de Cruz e Sousa Vicissitudes de uma Revista de Arte)”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de março de 1937, é de importância fundamental para a história do simbolismo brasileiro, na sua segunda fase, no relato de Andrade Muricy, organizador deste Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro...

domingo, 10 de dezembro de 2023

Cassiano Machado Tavares Bastos: Alívio


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Haja na estrada, esparsos, brancos lírios
Quando passar a santa dos meus Sonhos,
E se desfaçam meus cruéis martírios
Em pensamentos límpidos, risonhos!

Assim também, os funerários círios
Dos meus nevoentos Ideais tristonhos
Apaguem-se, ao passar, entre delírios,
A régia Eleita sacra dos meus Sonhos!

Quero que ela ande em maciez d’arminhos,
Quase voando como os passarinhos,
Sob o das rimas fúlgido estelário...

É para isso que, carpindo, escrevo.
A minha grande Dor pondo em relevo
No meu funéreo e negro Lacrimário!...

(Ermida, pág. 25.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Cassiano Machado Tavares Bastos (1885 1973), nascido em Santa Maria Madalena RJ, ou C. Tavares Bastos, fez seus primeiros estudos em colégio particular no Rio de Janeiro, aos 11 anos matriculou-se no Internato do Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II), depois transferiu-se para o Externato do mesmo instituto, cursou a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelou-se em Ciências e Letras, foi funcionário público e poeta do Simbolismo; iniciando sua carreira como auxiliar de escrita da Estrada de Ferro Central do Brasil, exerceu inúmeras funções no alto escalão do serviço público e na área diplomática, aposentou-se em 1941 e passou a dedicar-se exclusivamente às letras; colaborou no semanário Rua do Ouvidor, na Folha do Dia (redigia a coluna “Crônica Semanal”, sob o pseudônimo “Cornely”), na revista Rosa Cruz e na revista Sousa Cruz, estas últimas de inspiração simbolista; traduziu Victor Hugo, Baudelaire e Dante; escreveu e publicou Ermida (poesia, versos dos 15 aos 17 anos, 1900), Versões Poéticas Brasileiras de Victor Hugo (1952), Dante e Outros Poetas Italianos na Interpretação Brasileira (1953), Baudelaire no Idioma Vernáculo (1963), Trovas do Crepúsculo (poesias, 1965), além de ter produzido vários livros na área de Estatística; Cassiano Machado foi participante ativo no movimento simbolista ao lado dos amigos e companheiros literários Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Carlos D. Fernandes, Castro Meneses e outros; seu estudo “Como surgiram os Místicos da Rosa Cruz (O Simbolismo no Brasil A Influência de Saturnino de Meireles Os discípulos de Cruz e Sousa Vicissitudes de uma Revista de Arte)”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de março de 1937, é de importância fundamental para a história do simbolismo brasileiro, na sua segunda fase, no relato de Andrade Muricy, organizador deste Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro...

sábado, 24 de julho de 2021

Victor Hugo: O Semeador

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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Não tarda a noite sombria,
Corre a brisa vesperal...
Admiro este fim de dia
Cuja luz ainda alumia
Do trabalho a hora final.

É assim que, no vale umbroso,
Contemplo com emoção
Um pobre velho andrajoso
Que a mancheias, sem repouso,
Semeia o bendito grão...

Sua esquálida figura
Avulta ao longe, e é de ver
Como essa boa criatura,
Desde cedo à noite escura,
Sabe o tempo despender...

Num vaivém, colhe a semente,
Reabre a mão, a semear...
E, estranho a esse augusto ambiente,
Eu, como obscuro assistente,
Entro agora a meditar...

Eis que uma estrela aparece
(Ainda se ouve algum rumor...),
Mais outra... Outra mais... Parece
Que vai surgindo a áurea messe
Ao gesto do semeador...

Victor Hugo

Saison des semailles. Le soir

C’est le moment crépusculaire.
J’admire, assis sous un portail,
Ce reste de jour dont s’éclaire
La dernière heure du travail.

Dans les terres, de nuit baignées,
Je contemple, ému, les haillons
D’un vieillard qui jette à poignées
La moisson future aux sillons.

Sa haute silhouette noire
Domine les profonds labours.
On sent à quel point il doit croire
À la fuite utile des jours.

Il marche dans la plaine immense,
Va, vient, lance la graine au loin,
Rouvre sa main, et recommence,
Et je médite, obscur témoin,

Pendant que, déployant ses voiles,
L’ombre, où se mêle une rumeur,
Semble élargir jusqu’aux étoiles
Le geste auguste du semeur.
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Victor-Marie Hugo (1802 1885), francês de Besançon, fez seus primeiros estudos no Seminário de Los Nobles de Madri e no Liceu Luis le Grand de Paris, foi poeta, escritor e dramaturgo do Romantismo francês; compôs poemas desde muito jovem e aos quinze anos foi premiado em concurso de poesia da Academia Francesa; em 1822 integrou-se ao Romantismo e logo tornou-se porta voz deste movimento; em 1825, liderando um grupo de jovens escritores, criou o Cenáculo; o poeta lutou contra Napoleão III e, quando este se tornou imperador, recusou a anistia e foi para o exílio em Bruxelas, Guernsey e Jersey; obras: Bug Jargal (novela, 1820), Odes et Poésies Diverses (1822), Odes et Ballades (1826), Cromwell (drama, cujo prefácio foi considerado o Manifesto do Romantismo contra o Classicismo, 1826), Marion de Lorme (peça teatral censurada, 1829), Les Orientales (poesias, 1829), Hernani (peça teatral, representando o fim do Classicismo, 1830), Notre Dame de Paris (romance histórico, 1831), Lucrèce e Marie Tudor (dramas, 1833), Littérature et Philosophie Mêlées e a novela Claude Gueux (ambas em 1834), Chants du Crépuscule (1835), Les Voix Intérieures (poesias, 1837), Les Rayons et les Ombres (poesias, 1840), Les Burgraves (teatro, 1843), Les Misérables (1845-1861) Os Castigos (1853), As Contemplações (1856), O Homem que Ri (1869) e outros títulos; Victor Hugo também foi estadista, elegendo-se deputado da Assembléia Nacional e, depois, elegendo-se senador.