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[traduzido por Paulo César de
Souza]
Máximas
e Flechas
1. “A ociosidade é a mãe de
toda psicologia.”* Como? A psicologia seria — um vício?
7. Como? O ser humano é apenas
um equívoco de Deus? Ou Deus apenas um equívoco do ser humano? —
18. Quem sabe pôr sua vontade
nas coisas lhes põe ao menos um sentido: isto
é, acredita que nelas já se encontra uma vontade (princípio da “fé”).
21. Colocar-se apenas em
situações em que não se pode ter virtudes aparentes, em que, como o funâmbulo
sobre uma corda, ou se cai ou se fica em pé — ou se escapa...
29. “Quanto tinha de remorder
a consciência antigamente! Que bons dentes tinha!** — E hoje? O que lhe falta?”
— Pergunta de um dentista.
34. On ne peut penser et écrire qu’assis [Não se
pode pensar e escrever senão sentado] (G. Flaubert). —
Com isso te pego, niilista! A vida sedentária*** é justamente
o pecado contra
o santo espírito. Apenas os pensamentos andados
têm
valor.
44. A fórmula de minha
felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta...
Sprüche
und Pfeile
1 Müßiggang ist aller
Psychologie Anfang. Wie? Wäre Psychologie — ein
Laster?
7 Wie? ist der Mensch nur ein
Fehlgriff Gottes? Oder Gott nur ein Fehlgriff des Menschen? —
18 Wer seinen Willen nicht in
die Dinge zu legen weiß, der legt wenigstens einen Sinn noch hinein: das heißt, er glaubt, daß ein
Wille bereits darin sei (Prinzip des »Glaubens«).
21 Sich in lauter Lagen
begeben, wo man keine Scheintugenden haben darf, wo man vielmehr, wie der
Seiltänzer auf seinem Seile, entweder stürzt oder steht — oder davon kommt...
29 »Wie viel hatte ehemals das
Gewissen zu beißen! welche guten Zähne hatte es! — Und
heute? woran fehlt es?« — Frage eines
Zahnarztes.
34 On ne peut penser et écrire qu'assis (G. Flaubert).
— Damit habe ich dich, Nihilist! Das
Sitzfleisch ist gerade die Sünde wider den heiligen Geist. Nur die ergangenen Gedanken
haben Wert.
44 Formel meines Glücks: ein
Ja, ein Nein, eine gerade Linie, ein Ziel...
Notas do tradutor Paulo César
de Souza:
* “A ociosidade é a mãe de
toda psicologia”: a tradução literal seria “o começo de toda psicologia”, pois
a frase é uma paródia do provérbio que diz: “Müßiggang ist aller Last Anfang. “A ociosidade é o
começo de todos os vícios”.
** A palavra para “remorso”, em
alemão, é Gewissenshiß, literalmente
“mordida de consciência” — morsus conscientae, em latim. Ver Genealogia da moral, II, 15, sobre Spinoza
e o morsus conscientae.
*** “A vida sedentária”: Das Sitzfleisch, no original.
Nas versões consultadas: “A carne sentada”, “A pachorra”, La carne del trasero, Lo star seduti, Rester assis, The sedentary life, Assiduity, Sitting still, cf. Ecce homo, II, 1,
e nota correspondente. A frase do romancista Gustave Flaubert (1821-60) foi
relatada por Guy de Maupassant no prefácio às cartas de Flaubert a George Sand
(Paris, 1884, vol. III, volume encontrado entre os livros de Nietzsche quando
este morreu).
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Crepúsculo dos ídolos, ou Como
se filosofa com o martelo — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de
Paulo César de Souza, 2006, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900), nascido em
Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo,
crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de
Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia
Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento
da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der
Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a
1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David
Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano,
um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte
originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer
como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth
(1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über
die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft,
1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach
Zarathustra, 1883 — 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do
Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica
(Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar
com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos
(1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce
Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros
títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo
afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.