sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Wisława Szymborska: A cebola

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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Outra coisa é a cebola.
Ela não tem interioridade.
É ela mesma, a cebola,
é cúmulo da cebolidade.
Cebolácea por fora,
cebolesca até o centro,
poderia sem temor
se olhar por dentro.

Em nós exílio e selvageria,
de pele mail e mal revestidos,
um inferno interno,
uma anatomia delirante,
já na cebola cebola.
não intestinos retorcidos.
Ela muitas vezes nua,
até o fundo e assim por diante.

Um ser coeso a cebola,
criação bem sucedida,
quando uma camada se descarta,
a menor na maior está contida.
e na seguinte a sucessiva,
ou seja, a terceira e a quarta.
Uma fuga centrípeta.
Um eco em coro se desenrola.

É isso a cebola:
do mundo o ventre mais belo.
Para glória própria de auréolas
se enrola como novelo.
Em nós  gordura, nervos, veias,
mucos e secreção.
E a nós é negada
a idiotice da perfeição.

(Um grande número — 1976)

Wislawa Szymborska

Cebula

Co innego cebula.
Ona nie ma wnętrzności.
Jest sobą na wskroś cebula
do stopnia cebuliczności.
Cebulasta na zewnątrz,
cebulowa do rdzenia,
mogłaby wejrzeć w siebie
cebula bez przerażenia.

W nas obczyzna i dzikość
ledwie skórą przykryta,
inferno w nas interny,
anatomia gwałtowna,
a w cebuli cebula,
nie pokrętne jelita.
Ona wielekroć naga,
do głębi itympodobna.

Byt niesprzeczny cebula,
udany cebula twór.
W jednej po prostu druga,
w większej mniejsza zawarta,
a w następnej kolejna,
czyli trzecia i czwarta.
Dośrodkowa fuga.
Echo złożone w chór.

Cebula, to ja rozumiem:
najnadobniejszy brzuch świata.
Sam się aureolami
na własną chwałę oplata.
W nas tłuszcze, nerwy, żyły,
śluzy i sekretności.
I jest nam odmówiony
idiotyzm doskonałości.

(Wielka liczba 1976)
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Wislawa Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é datado de 28.02.1942; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: em Cracóvia, trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Vasko Popa: Peregrinações

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Caminho
O cajado paterno nas mãos
O coração incendiado no cajado

Meus pés escrevem letras
Que o caminho sagrado me desenha

Escrevo-as na areia com o cajado
Antes de adormecer
Em cada albergue

Para que não se apaguem da lembrança

Estou longe ainda
De decifrá-las
Até agora parecem constelação lupina

Terei com que preencher a noite
Caso volte são e salvo para casa

(A Terra Ereta  1972)

Vasko Popa

ХОДОЧАШЋА

Ходам са очевим штапом у руци
Са упаљеним срцем на штапу

Стопала ми сричу слова
Која ми свети пут исписује

Цртам их штапом по песку
Пред спавање
На сваком коначишту

Да ми се из сећања не избришу

Далеко сам још од тога
Да их одгонетнем
За сада ми на вучје сазвежђе личе

Имаћу чиме да испуним ноћи
Ако се жив и здрав кући вратим

(Из збирке Успавана земља, [Uspravna Zemlja, 1972])
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Vasko Popa: Osso a Osso, Tradução, Organização e Notas de Aleksandar Jovanović [+ 2 poemas com traduções de Nelson Ascher e Haroldo de Campos], Imprólogo de Octavio Paz, Texto da contra-capa, por Haroldo de Campos, 1989, Editora Perspectiva — Coleção Signos, São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca ([збирке Кора], Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta ([Усправна земља], Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Peire Cardenal: Estribote

 
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[traduzido por Augusto de Campos}

Farei um estribote com mestria e arte,
Palavras novas em louvor da divindade,
Pois creio em Deus, feito homem e gerado
Em vigem santa para sermos resgatados;
No pai, no filho e na santa trindade,
A saber, três pessoas em uma unidade,
E que o arco do céu foi por ele quebrado
Para lançar no inferno o anjo revoltado;
E acredito que São João o teve entre seus braços
E o levou para o rio, onde foi batizado,
E que o reconheceu pelo sinal gravado
No ventre de sua santa mãe, antes do parto;
Creio em Roma e São Pedro, por Deus designado
Juiz de penitência, senso e insanidade.
Mas não creio nos frades, reis da falsidade,
Ávidos por dinheiro, avaros de bondade,
Belos por fora, estufados de pecado,
Que aos outros interdizem os seus próprios atos.
Em lugar de matinas, agora são versados
Em dormir com putanas, até que o sol vai alto,
E só cantam baladas e salmos transviados:
Antes, é ver no céu Caifás e Pilatos.
Outrora os sacerdotes viviam encerrados
E adoravam a Deus diante dos santos adros;
Hoje vão à cidade e viram potentados.
Se tendes uma amante ou sóis homem casado,
Façam de cobertor; sem serdes consultado,
Sobre a vossa mulher, cujo sexo é selado
Com as bolas redondas que lhes pendem do cajado;
Cartas lacradas e buracos bem tapados,
Eis de onde saem os herejes e os malvados,
Que juram e renegam e jogam com três dados;
Assim os monges negros fazem a caridade.
Meu estribote finda, todo compassado,
Segundo a boa arte e as leis da divindade,
Se eu falei mal, que seja perdoado,
Só desejo é que Deus seja mais bem amado
E, pelo amor de Deus, esfolados os frades.


Estribot

Un estribot farai que er mot maistratz,
De motz novels e d'art e de divinitatz,
Qu'ieu ai en Dieu crezensa, que fon de maire natz,
D'une santa pieusela, per que’I mons es salvatz;
Et es paire e filhs e santa trinitatz,
Et es en tres personas et una unitatz;
E cre que’l cels e’l tros ne fos per et traucatz,
E’n trabuquei los angels, can los trobet dampnatz;
E crey que Sans Joans lo tenc entre sos bratz
E’l bateget en l’aigua et flum, can fo propchatz;
E conosco be la senha abanchas que fos natz,
El ventre de sa maire que’s vols al destre latz;
E cre Rom' e Sant Peire, a cuy fon comandatz
Jutge de penedensa, de sen e de foldatz.
Mas so non crezon clerge, que fan las falcetatz,
Que son larc d'aver penre et escas de bontatz,
E son bel per la cara et ore de peccatz,
E devedon als autres d’aco que fan lurs atz.
Et en loc de matinas an us ordes trobatz
Que jazon ab putanas tro’l solelhs es levatz;
Enans canton baladas e prozels trasgitatz,
Abans conquerran Dieu Cayfas o Pilatz.
Monge solon estar dins los mostiers serratz,
On adzoravon Dieu denan las magestatz;
Era son en las vilas, on an lurs poestatz.
Si avetz bela femna o es homs molheratz,
El seran cobertor, sieus peza o sieus platz;
E cant el son dessus e’l con son sagelatz
Ab las bolas redondas que pendon ais matratz,
Can Ias letras son clauzas e lo traucx es serratz,
D'aqui eyson li’ retge e li essabatatz,
Que juron e renegon e jogon a tres datz;
Aiso fan monge negre en loc de caritaz.
Mon estribot fenis, que es tot compassatz,
C’ai trag de gramatica e de divinitatz,
E si mal o ai dig, que’n sia perdonatz,
Que yeu o dic per Dieu, qu'en sia pus amatz,
E per ma! estribatz clérigos.
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Peire Cardenal (c. 1216 1271, datas aproximadas), trovador satírico, nascido na comuna Le Puy-en-Velay, departamento de Haute-Loire, região francesa de Auvergne-Rhône-Alpes, tido como um dos últimos trovadores provençais, “deu ao gênero uma nova dimensão de protesto social. Cardenal protesta contra os ricos, contra o clero e contra as mulheres, com uma energia e uma perícia dificilmente igualáveis na poesia ocitânica”; de seus traços biográficos, consta ter sido educado como cônego, educação voltada à poesia lírica vernácula e que, em prol da “vaidade humana”, abandonou seu ofício na igreja; acerca de sua obra, tem-se que restaram, e chegaram até nós, “96 peças suas, um número raramente igualado por outros poetas da época”.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Benjamin Péret: Não durmo

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[traduzido por Sérgio Lima e Pierre Clemens]

Diga-me reflexo de cobalto
por que o bando de corvos que te rodeia
como o carvão abraça o fogo que o fez engolindo
    pimentas
que sempre depositaram avos vermelhos sobre teus lábios de São
    Jorge
que vai até Pigalle
balançando-se na rede da praça
como uma bala num peito de culhões que tanto se assemelha a um giroscópio
que parece Plutão raptando Proserpina no seu
    lenço
que desaparece no horizonte como as duas ilhas anglo-normandas dos
    teus olhos
perto da Mancha do teu nariz
que é um raio de luar no porão que eu
assalto
esperando aí achar uma boca-de-leão em forma de sim que não terá buracos de poltrona de dentista
que estará sem rede para capturar os peixes pescados com cabeças
    de mosquito
sem mosquitos adormecidos como um despertador num recanto de um
    bosque
sem despertador roendo os esqueletos dos meus antepassados e dos
    seus
como uma cabeça de alho na maionese
que tem realmente
nesta noite
por pouco que de pétalas de amêndoas amargas seja
    regada
nos ares de vinho novo
um pouco ácido
um pouco doce
ácido e doce
como um novo vulcão
cuja lava reproduziria indefinidamente teu rosto

Benjamin Péret

Je ne dors pas

Dis-moi reflet de cobalt
pourquoi le vol de corbeaux qui t’entoure
comme le charbon étreint le feu qui l’a fait en avalant des
    piments
qui ont toujours déposé des œufs rouges sur tes lèvres de Saint-
    Georges
qui va jusqu’à Pigalle
se balance dans le hamac de la place
s’inscrit comme une balle dans une poitrine à couilles qui ressemble tellement à un gyroscope
qu’on dirait Pluton enlevant Proserpine dans son
    mouchoir
qui disparaît à l’horizon comme les deux îles anglo-normandes de tes
    yeux
près de la Manche de ton nez
qui est un rayon de lune dans la cave que je cambriole
espérant y trouver une gueule-de-loup en forme de oui qui n’aura pas d’ornières à fauteuil de dentiste
qui sera sans filet pour capturer les pêches à tête de
    moustique
sans moustiques endormis comme une minuterie au coin d’un
    bois
sans minuterie rongeant les squelettes de mes aïeux et des
    siens
comme une tête d’ail dans la mayonnaise
qui a vraiment
ce soir
pour peu qu’on l’arrose de pétales d’amandes
    amères
un grand air de vin nouveau
un peu acide
un peu doux
acide et doux
comme un volcan nouveau
dont la lave reproduirait indéfiniment ton visage.
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Amor sublime — Poesias [bilíngue] e Ensaio: Benjamin Péret, Organização e Apresentação de Jean Puyade, Pequeno texto “à guisa de Introdução”, por André Breton [nota transcrita de Anthologie de l’humour noir], + texto “O terceiro encontro”, por Guy Prévant, Tradução de Sérgio Lima e Pierre Clemens, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Victor Maurice Paul Benjamin Péret (1899 1959), francês de Rezé, uma criança resistente à forte sujeição escolar, entre 1912 e 1913 frequentou a Arts et métiers (École Livet), teve ‘breve passagem por uma escola de desenho industrial” e, sem demonstrar interesse nos estudos, abandonou-os, foi importante poeta do movimento surrealista francês e militante trotskista; entre 1914 e 1918, alistou-se, foi designado para atuar na guerra e, num deslocamento do seu regimento, em uma estação entre dois trens encontrou em um banco “um exemplar abandonado da revista Sic contendo poemas de Apollinaire”, permaneceu na guerra até o fim e filiou-se ao Movimento Dada; desde então passou a tomar contato e participar do convívio dos dadaístas e, logo após, dos surrealistas; de sua biografia, consta que em novembro de 1918 teve publicado seu primeiro poema, Crépuscule, em La Tramontane — revue de l’Association des Jeunes; foi em 1924 que Péret, “ao lado de seus companheiros franceses”, fundou o Movimento Surrealista; entre 1924 e 1929, colaborou no Petit Parisien, foi coeditor da revista La Révolution surréaliste; Benjamin Péret, casado com a cantora lírica Elsie Houston, brasileira, residiu no Rio de Janeiro em duas ocasiões: entre 1929 1931 e 1955 1956, aqui, atuando ao lado dos artistas plásticos e militantes trotskistas Mario Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo, foi um dos cofundadores da Liga Comunista (Oposição de Esquerda), de orientação trotskista; em sua primeira estada no Brasil, o poeta foi preso “acusado de ser um agente comunista” e deportado para a França; Perét participou na primeira guerra e na guerra civil espanhola; com a França ocupada pelos nazistas, na segunda guerra, o poeta viveu no México entre 1942 e 1947; suas obras: publicou cerca de 20 livros, entre os quais Le Passager du transatlantique (1921), 152 Proverbes mis au goût du jour (com Paul Éluard, 1925), Le Grand Jeu (1928), Ne visitez pas l’exposition coloniale (1931), De derrière les fagots (1934), Je sublime (16 poemas, 1936), Je ne mange pas de ce pain-là (1936), Dernier malheur dernière chance (1945), Un point c’est tout (11 poemas, 1946), Les syndicats contre la révolution (1952), Le Livre de Chilam Balam de Chumayel (1955), Anthologie de l’amour sublime (1956) ...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Fernando Assis Pacheco: Monólogo e Explicação

 
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Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papeis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

(Catalabanza, Quilolo e Volta — 1976)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (1937 1995), português coimbrão, formado e licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor, jornalista, crítico literário e tradutor; no cumprimento do serviço militar iniciado em 1961, logo seguiu para Angola, à época colônia portuguesa, e ali exerceu funções como expedicionário, “experiência que viria a marcar sua obra, sobretudo a poética”; na juventude foi ator do TEUC Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e do CILAC Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, e redator da revista Vértice; sempre atuou no jornalismo, única profissão exercida: foi repórter no Diário de Lisboa, na República, no Jornal das Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo e no Se7e, neste também foi diretor-adjunto; ainda trabalhou como redator e chefe de redação n’O Jornal, para o qual escreveu críticas literárias durante dez anos, e colaborou na RTP — Rádio e Televisão de Portugal; suas obras: Cuidar dos Vivos (1963), Câu Kiên: um resumo (1972), Viagens na minha guerra (1972), Memórias do Contencioso (1976), Catalabanza, Quilolo e Volta (‘republicação de Câu Kiên’ [com outro nome], 1976), Siquer este refúgio (1976), Memórias do Contencioso e Outros Poemas (1981), A Musa Irregular (antologia poética,1991), todos de poesia, Walt (romance-novela, 1978), Paixões e Trabalhos de Benito Prada (romance, 1993) e outros títulos, incluso alguns póstumos; traduziu para o português obras de Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Ievgueni Ievtuchenko; o poeta, no dia 30 de novembro de 1995, ‘amante de livros e da vida, morreu [subitamente, de ataque cardíaco] aos 58 anos, à porta da “Livraria Buchholz [Lisboa]”, com um saco de livros na mão, acabados de comprar.’.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Sophia de Mello Breyner Andresen: Dia de hoje & Coral

 
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Dia de hoje

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
florindo nas ondas, cantando nas florestas,
no teu ar brilham transparentes festas
e o fantasma das maravilhas raras
visita, uma por uma, as tuas horas
em que há por vezes súbitas demoras
plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
bailando na doçura
e na amargura
de serem perfeitas e de serem breves.

(Dia do Mar — 1947)

— o —

Coral

Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha

(Coral — 1950)

Sophia de Mello Breyner Andresen
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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Sofia de Mello Breyner Andresen (1919 2004), ou Sophia de Mello Breyner Andresen, portuguesa do Porto, iniciou seus estudos no Colégio Sagrado Coração de Jesus, estudou [de 1936 a 1939] Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, curso inconcluso, foi poetisa, contista, ensaísta, tradutora, militante antisalazarista e deputada socialista constituinte; colaborou na revista Cadernos de Poesia e relacionou-se com autores influentes e renomados, Ruy Cinatti e Jorge de Sena entre os quais; suas obras: em poesia: Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral (1950), No tempo dividido (1954), Mar novo (1958), Cecília Meirelles (ensaio, 1958), Cristo cigano (1961), Livro sexto (1962), Geografia (1967), Antologia (1968), Grades (1970), Dual (1972), O nome das coisas (1977), Navegações (1983), Signo (poemas, 1994), Primeiro livro de poesia (infanto-juvenil, 1999) ..., em prosa: Contos exemplares (1962), A fada Oriana (infantil, 1958), O Cavaleiro da Dinamarca (infantil, 1964), O rapaz de bronze (infantil, 1966), Histórias da terra e do mar (contos, 1984), Não chores, minha querida (teatro, 1993) ... e outros títulos em verso e prosa e para teatro; traduziu Shakespeare, Dante, Leif Kristianson e verteu para o francês, em Quatre Poètes Portugais (1970), poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa; obras da poetisa receberam traduções e edições alemãs, inglesas e italianas; premiações: Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores (pelo Livro Sexto, 1964), Grande Prêmio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (1992), Prêmio Petrarca Associação de Editores Italianos (1995), Prêmio da Fundação Luís Miguel Nava (1998), Prêmio Camões (primeira mulher portuguesa a recebê-lo, 1999) ...; a poetisa Sofia de Mello Breyner Andresen, após o 25 de abril de 1974, que deu fim ao regime ditatorial salazarista, foi eleita deputada constituinte pelo Partido Socialista.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Lou Salomé: Hino à Vida [para coro misto e orquestra] *

 
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[traduzido por Luzilá Gonçalves Ferreira]

Claro, como se ama um amigo
Eu te amo, vida enigmática
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento.

Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio dum amigo.

Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-se
De sondar mais longe teu mistério.

Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar,
Pois bem, restam-te teus tormentos.

Lou Salomé

Lebensgebet

Gewiß, so liebt ein Freund den Freund,
Wie ich Dich liebe, Rätselleben 
Ob ich in Dir gejauchzt, geweint,
Ob Du mir Glück, ob Schmerz gegeben.

Ich liebe Dich samt Deinem Harme;
Und wenn Du mich vernichten mußt,
Entreiße ich mich Deinem Arme
Wie Freund sich reißt von Freundesbrust.

Mit ganzer Kraft umfaß ich Dich!
Laß Deine Flammen mich entzünden,
Laß noch in Glut des Kampfes mich
Dein Rätsel tiefer nur ergründen.

Jahrtausende zu sein! zu denken!
Schließ mich in beide Arme ein:
Hast Du kein Glück mehr mir zu schenken 
Wohlan  noch hast Du Deine Pein.

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página faz constar que neste Lou Salomé — Cinzas no jardim [págs. 54 e 55], a autora Luzilá Gonçalves Ferreira deixa registrado, acerca do poema, o que se segue:
     “[Em agosto de 1882] Ao deixar, em Tautenburgo, Nietzsche e Elizabeth brigados por sua causa, Lou entrega à Nietzsche a cópia de um poema que ela escrevera em Zurique, meses antes, após ter deixado sua Rússia natal. Este texto será musicado por Nietzsche e aparecerá em 1887, com o título de “Hino à Vida para coro misto e orquestra”. Na partitura ele não colocou o nome do autor das palavras, mas o pôs no Ecce Homo [1888], ao falar do nascimento de Zaratustra nestes termos: “O texto, faço questão de precisar, porque dá lugar, neste momento, a um mal-entendido, não é meu: devemo-lo à inspiração de uma jovem russa que foi outrora minha amiga, a senhorita Lou von Salomé. Aquele que é capaz de entender o sentido das últimas palavras do poema adivinhará por que eu o amei e admirei particularmente:
     tem grandeza. A dor não pode servir de argumento contra a vida. ‘Se não tens mais alegria a me ofertar, pois bem, restam-te teus tormentos ...'. Talvez minha música tenha grandeza neste trecho.
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Lou Andreas-Salomé — Cinzas no jardim: Luzilá Gonçalves Ferreira, Coleção Encanto Radical nº 13, 1982, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Lou Andreas-Salomé (1861 1937) ou Louise von Salomé, russa de São Petesburgo, foi filósofa, ensaísta, poeta, romancista e psicanalista; viveu na Alemanha e conviveu intelectualmente com Nietzsche, Paul Rée, René (Rainer) Maria Rilke, Freud e outros pensadores de sua época; na Rússia Imperial, estudara teologia, filosofia, religiões mundiais e literatura francesa e alemã com o pregador (pastor) holandês Hendrik Gillot; já morando na Alemanha, para onde viajara com a mãe, adquiriu educação universitária em Zurique, estudou lógica, história das religiões, metafísica e confirmou sua vocação literária, retomando seus poemas escritos anteriormente e publicando-os em revistas de literatura ligadas a diversos círculos universitários; suas obras: Im Kampf um Gott (Uma luta por Deus, 1885), Henrik Ibsens Frauen-gestalten (Personagens femininas de Ibsen, 1892), Friedrich Nietzsche in seinen Werken (Friedrich Nietzsche em sua obra, 1894), Ruth (1895), Aus fremder Seele (De uma alma perturbada, 1896), Fenitschka. Eine Ausschweifung (Fenitschka. A debochada, 1898), Menschenkinder (Filhos dos homens, 1899), Im Zwischenland (Na zona do crepúsculo, 1902), Die Erotik (Erotismo, 1910), Das Haus (A casa, 1919), Main Dank an Freud (Minha gratidão a Freud, 1931), Lebensrückvlick (póstumo, Memórias, organizado por Ernst Pfeiffer, 1951), e outros títulos; Lou Salomé, uma mulher com idéias avançadas para o seu tempo, conviveu em círculos intelectuais de absoluta predominância masculina sem se  submissa a estes; sua obra Im Kampf um Gott foi publicada com o pseudônimo de Henri Lou.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Lima Barreto: A Amazônia

 
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          Nessa nossa vida de expediente, vida que nós levamos desde a descoberta, os Estados do extremo Norte, Pará e Amazonas, contribuíram nos últimos decênios com a sua borracha.
          Já tive ocasião de notar que nunca a nossa vida econômica se baseou na exploração e trabalho de um produto indispensável à vida e que, procurados como país de especiarias, continuamos a ser país de especiarias.
          Numa malograda publicação semanal que fiz há dois ou três anos, explanei, de acordo com o gênero da publicação, essa simples observação e lhe dei o desenvolvimento compatível pela boca do doutor Bogoloff.
          José Veríssimo, com aquela honestidade intelectual que o caracteriza, com aquela penetração que põe nos seus julgamentos, vem mostrando, em uma série de artigos, no Jornal do Commercio, o erro em que sempre andaram os da Amazônia, procurando somente na seringa a riqueza e a fortuna.
          Eu não o posso seguir nos detalhes, mas louvo a sua orientação, garantida pela sua sagacidade e independência de espírito.
          Outro publicista que, desde muito, se vem batendo pelos interesses daquela curiosa região brasileira, é o capitão Félix Amélio, ou melhor, Félix Amélio, tout court.
          Félix tem o espírito da velha Escola Militar. É patriota, crê na pátria, crê no Brasil e se esforça para solver os seus problemas de modo que continuemos sempre unos e associados.
          O seu pensamento constante é evitar que se realize a profecia de Mitre, isto é, que nos separemos, que nos dividamos em pequenas pátrias, que ficarão mais fracas ainda que as próprias repúblicas espanholas.
          Tem posto, Félix, este pensamento em toda a sua atividade de jornalista; e aqui, no centro da república, procura encaminhar a opinião para os interesses da região em que nasceu.
          É justo que ele o faça com o seu ardor peculiar, pois obedece ao postulado da sua atividade mental: é preciso que o todo se interesse pelas partes, para que as partes não se separem do todo.
          A sua campanha contra a blague da valorização da borracha ficou famosa e agora acaba de firmar nos admiráveis artigos, no O País, mostrando as necessidades vitais da região do Pará ribeirinha ao Tapajós a Tapajônia.
          Félix é assim: estuda, pensa, escreve e revela ao Brasil, que ele quer sempre unido, as necessidades da região que conhece, para que o Brasil auxilie o que é e deve continuar a ser Brasil.

Correio da Noite, Rio [de Janeiro], 8-1-[19]15.

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...