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[traduzido por Regina
Przybycien e Gabriel Borowski]
Outra coisa é a cebola.
Ela não tem interioridade.
É ela mesma, a cebola,
é cúmulo da cebolidade.
Cebolácea por fora,
cebolesca até o centro,
poderia sem temor
se olhar por dentro.
Em nós exílio e selvageria,
de pele mail e mal revestidos,
um inferno interno,
uma anatomia delirante,
já na cebola — cebola.
não intestinos retorcidos.
Ela muitas vezes nua,
até o fundo e assim por
diante.
Um ser coeso a cebola,
criação bem sucedida,
quando uma camada se descarta,
a menor na maior está contida.
e na seguinte a sucessiva,
ou seja, a terceira e a
quarta.
Uma fuga centrípeta.
Um eco em coro se desenrola.
É isso a cebola:
do mundo o ventre mais belo.
Para glória própria de
auréolas
se enrola como novelo.
Em nós — gordura, nervos,
veias,
mucos e secreção.
E a nós é negada
a idiotice da perfeição.
(Um grande número — 1976)
Cebula
Co innego cebula.
Ona nie ma wnętrzności.
Jest sobą na wskroś cebula
do stopnia cebuliczności.
Cebulasta na zewnątrz,
cebulowa do rdzenia,
mogłaby wejrzeć w siebie
cebula bez przerażenia.
W nas obczyzna i dzikość
ledwie skórą przykryta,
inferno w nas interny,
anatomia gwałtowna,
a w cebuli cebula,
nie pokrętne jelita.
Ona wielekroć naga,
do głębi itympodobna.
Byt niesprzeczny cebula,
udany cebula twór.
W jednej po prostu druga,
w większej mniejsza zawarta,
a w następnej kolejna,
czyli trzecia i czwarta.
Dośrodkowa fuga.
Echo złożone w chór.
Cebula, to ja rozumiem:
najnadobniejszy brzuch świata.
Sam się aureolami
na własną chwałę oplata.
W nas – tłuszcze, nerwy, żyły,
śluzy i sekretności.
I jest nam odmówiony
idiotyzm doskonałości.
(Wielka liczba — 1976)
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Wislawa Szymborska [para o meu
coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e
Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São
Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska
(1923 — 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń,
com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina
e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território
nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora;
de sua biografia, consta que Topielec. Poemat epiczny w II pieśniach, seu poema mais antigo, é
datado de 28.02.1942; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: em Cracóvia,
trabalhou como editora assistente na revista quinzenal Świetlica
Krakowska, criou suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês)
e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra,
também em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou
do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade
Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou,
colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por
emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Dlatego żyjemy (Por isso vivemos, 1952), Pytania
zadawane sobie (Pergunta que me faço, 1954), Wolanie do Yeti (Chamando
pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki
wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek
(Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas
para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009),
Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo
a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Literário
da Cidade de Cracóvia (Nagrodę Literacką Miasta Krakowa — 1954, pelas obras Dlatego żyjemy e Pytania zadawane sobie), Prêmio Goethe (1991),
Prêmio Nobel de Literatura (1996), Prêmio Niki de Literatura (2006), ...