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sábado, 11 de junho de 2016

Nestor Vítor: Os Versos

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Versos... são candelabros que se tocam
Tirando estrelas do cristal ferido...
Óleo de que perfumes se deslocam...         .
Estranhos, num vapor vago e fluido...
        
Bergantins marchetados de ouro e prata
A balouçar num mar sonoro e ardente,
Que todo em nenúfares se desata
E em ilhas verdes, infinitamente...

Versos ... largas cadeias de diamante,
Lançadas de um extremo a outro da Terra,
Para pô-la risonha e soluçante,
Áureas grilhetas de amorosa guerra...

Flores do Desespero, doloridas,
Lírios feitos de sangue, transmudados,
Sob o ardor das insônias homicidas
Qual um punch a luz verde germinados...

Versos! que alma sonora e tumultuosa
 Céu em que os astros chocam-se cantando 
Que alma grande, alma nobre, alma ansiosa
Não vos anda risonha procurando.

Dos Eleitos vós sois os mensageiros!
Canta, por eles, florescente rima,
Por eles mergulhais, filtros traiçoeiros,
As almas numa embriaguez opima.

Adernando-vos leves e graciosos
É que o Poeta arrebata e nos transporta
Para aqueles países fabulosos
Do Sonho, abrindo ao Infinito a porta.

Não pode alguém se libertar dos laços
Sob os quais o tenhais escravizado
Enquanto lhe ritmar, sonora, os passos
A grilheta de um verso terso e ousado.

Ah! toda esta ânsia que nos arde ao seio,
Todo este fogo que nos queima a boca,
Se revela das formas neste anseio,
Nesta sofreguidão absurda e louca.

Porém, se nós pudéssemos apenas
Abrir os olhos, dominar o Mundo,
E em atitudes nobres e serenas
Mostrar-lhe todo o nosso estranho fundo...

Se em palavras se dissesse tudo,
Num ardor, num cantar vivo e direto,
Fora melhor que se ficasse mudo:
Era mais simples e era mais completo...

Transfigurações  1902

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Roteiro da Poesia Brasileira Simbolismo, Seleção e Prefácio de Lauro Junkes, 2006, Global Editora e Distribuidora, São Paulo SP; Nestor Vítor dos Santos (1868 1932), paranaense de Paranaguá, poeta, contista, ensaísta, crítico literário, conferencista e tradutor, foi um dos partícipes da escola literária simbolista, e, tendo sido amigo do poeta Cruz e Sousa e estudioso de sua obra, publicou um exaustivo estudo sobre o poeta negro e também suas Obras Completas; como crítico literário e ensaísta, colaborou com os periódicos O País, Correio Paulistano, O Globo e com a revista Os Anais; escreveu e publicou Signos (contos, 1897), Cruz e Sousa (1899), Amigos (1900), A Hora (1901), Transfigurações (poesias, 1902), Paris — impressões de um brasileiro (1911), A Terra do Futuro — impressões do Paraná (1913), O Elogio da Criança (1915), Três Romancistas do Norte (1915), Farias Brito (1917), A Crítica de Ontem (1919), Folhas que ficam (1920), O Elogio do Amigo (1921), Cartas à Gente Nova (1924), Parasita (novela, 1928), e outros títulos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Nestor Vítor: Morte Póstuma

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Et vraiment quand la mort viendra
 que reste-t-il?
P. Verlaine

Desses nós vemos: lá se vão na vida,
Olhos vagos, sonâmbulos, calados;
O passo é a inconstância repetida,
E os sons que têm são como que emprestados.

Dia de luz.  Respiração contida
Para encontrá-los despreocupados,
Aí vem a morte, estúpida e bandida,
Rangendo em seco os dentes descarnados.

Mas embalde ela chega, embalde os chama:
Ali não acha nem de longe aqueles
Grandes assombros que aonde vai derrama!

E abre espantada os cavos olhos tortos:
Vê que se eles têm os olhos vítreos, que eles...
Eles já estão há muito tempo mortos!

(Transfigurações — 1902)

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Nestor Vítor — prosa e poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 74, Organização, Apresentação e Notas de Tasso da Silveira, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1963, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Nestor Vítor dos Santos (1868  1932), paranaense de Paranaguá, poeta, contista, ensaísta, crítico literário, conferencista e tradutor, foi um dos partícipes da escola literária simbolista, e, tendo sido amigo do poeta Cruz e Sousa e estudioso de sua obra, publicou um exaustivo estudo sobre o poeta negro e também suas Obras Completas; como crítico literário e ensaísta, colaborou com os periódicos O País, Correio Paulistano, O Globo e com a revista Os Anais; escreveu e publicou Signos (contos, 1897), Cruz e Sousa (1899), Amigos (1900), A Hora (1901), Transfigurações (poesias, 1902), Paris impressões de um brasileiro (1911), A Terra do Futuro  impressões do Paraná (1913), O Elogio da Criança (1915), Três Romancistas do Norte (1915), Farias Brito (1917), A Crítica de Ontem (1919), Folhas que ficam (1920), O Elogio do Amigo (1921), Cartas à Gente Nova (1924), Parasita (novela, 1928), e outros títulos.

Nestor Vítor: O Poeta Negro

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                    Cruz e Sousa, negro sem mescla, foi uma cerebração de primitivo genial, foi como que a revivescência de um núbio contemporâneo de Davi ou ao menos de Salomão, senão já educado à luz franca dos princípios mazdianos, mas que houvesse renascido no Ocidente e se desenvolvesse num meio cuja civilização é toda de empréstimo, já capaz de inspirar grandes requintes a um artista, porém no fundo ainda por modo muito falseado e ingênuo.
                    A visão de Cruz e Sousa, no que ele oferece de mais característico, é sem medida, sem precisão, chega a ser muitas vezes desconforme,  é oriental,  entretanto que a língua por ele para si criada dentro do idioma português é dúctil, é musical como até então não fora, é colorida, e,  o que mais admira,  é matizada, é nuançada como ainda se não manifestara. Não há nisso, porém, contradição, porque ela assim é principalmente no que afeta os cinco sentidos. Cruz e Sousa revela-se, como artista, sobretudo um sensual, na acepção lata da palavra, o que é tão lógico tratando-se de uma natureza de primitivo, ainda mais se africano.

(A Crítica de Ontem)

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Nestor Vítor — prosa e poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 74, Organização, Apresentação e Notas de Tasso da Silveira, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1963, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Nestor Vítor dos Santos (1868 1932), paranaense de Paranaguá, poeta, contista, ensaísta, crítico literário, conferencista e tradutor, foi um dos partícipes da escola literária simbolista, e, tendo sido amigo do poeta Cruz e Sousa e estudioso de sua obra, publicou um exaustivo estudo sobre o poeta negro e também suas Obras Completas; como crítico literário e ensaísta, colaborou com os periódicos O País, Correio Paulistano, O Globo e com a revista Os Anais; escreveu e publicou Signos (contos, 1897), Cruz e Sousa (1899), Amigos (1900), A Hora (1901), Transfigurações (poesias, 1902), Paris — impressões de um brasileiro (1911), A Terra do Futuro — impressões do Paraná (1913), O Elogio da Criança (1915), Três Romancistas do Norte (1915), Farias Brito (1917), A Crítica de Ontem (1919), Folhas que ficam (1920), O Elogio do Amigo (1921), Cartas à Gente Nova (1924), Parasita (novela, 1928), e outros títulos.