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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Volker Braun: As Ostras


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

para Alain Lance

Raramente eu vivo de fato, há horas
Na minha cozinha quebras as ostras
Importadas (com um papelório) e, com
A mão doendo no avental de plástico,

Cantas. E os Lobo[s], não pensam em nada
Esses daí, só em se entupir, e, como tudo
O que fazem, fartamente. Ainda são gente.
E eu, com muito limão entorpeço os

Bichinhos nus primeiro e o céu da boca
E engulo sem graça, enquanto às dúzias
Sorves com nojo e luxúria as pequenas
Bucetas do mar. Pronto, eu digo, a

Vida entre ânsia e repulsa,
Deixa descer pela língua, né.

Volker Braun

Die Austern

für Alain Lance

Ich lebe nicht oft wirklich, du seit Stunden
In meiner Küche brichst die eingereisten
(Mit viel Papieren) Austern auf, und mit
Schmerzender Hand in dem Plasteschurz

Singst du. Und die Wolfs, an nichts mehr
Denken die da als ans Fressen, was sie
Wie alles, gründlich tun. Das sind noch Menschen.
Und ich, mit viel Zitrone, betäube

Die nackten Tierchen erst und meinen Gaumen
Und schlucke mutlos, während du zwei Dutzend
Schlürfst mit Wollust und Ekel, diese kleinen
Fotzen der See. So, sage ich nun, das

Leben zwischen Gier und Abscheu
Zergehen lassen auf der Zunge, ja.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, após conclusão do 2º grau, foi operário, maquinista e tipógrafo trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção , estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokationen für mich (Provocações para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Vorläufiges (Provisório, poemas, 1966), Wir und nicht sie (Nós e não eles, poemas, 1970), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poemas, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977), Der große Frieden (teatro, 1979), Die Übergangsgesellschaft (teatro, 1982), Langsamer knirschender Morgen (Lenta manhã rangente, poemas, 1987), Verheerende Folgen mangelnden Anscheins innerbetrieblicher Demokratic (ensaios, 1988), Bodenloser Satz (prosa, 1990), Böhmen am Meer (teatro, 1992), Iphigenie im Freiheit (teatro, 1992) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Volker Braun: O sábio no lado oriental

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Desertos os sapatos na ribalta à frente.
Nathan, a faca do sultão na garganta,
segue tremendo. Não sei de mais fábula alguma.
Para ti pode ser o melhor o teu mundo
Erras como eu, e erram o Leste e Oeste
(Um cheiro de fumaça. A lâmina se enterra)
Por uma razão, por apenas esta razão:
Porque cada um só acha direito o seu
E não olha à direita ou à esquerda, pra viver direito.
Destruir o outro pelo medo!
Que se te opõe, e a destruição
Te edifica inabalável, MORTE AOS TRAIDORES.
(O salão está claro e desgastado
Cadeiras de quiosque, derrubados os bustos
Do ditador. Frio, sorrindo cínico, mostra-se
O patriarca à direita no beco.)
A vera visão de mundo se perdeu.
Eu disse zelar? Cada qual conforme
Seu amor, mais rápido alto longe. Mas o zelo
sobre a tua terra o céu de todos turva.
Tua faca, mano, é minha própria ferramenta
E o que chega maldoso carrega a minha careta.
O mundo é uma aldeia, a estrumeira geral.
Química e Ideologia. (O patriarca
Enfia uma árvore de natal no arame farpado
Não faz mal, a Humanidade será queimada. As aves
Caçam loucas em rasantes pelo teatro.)
Sempre unilateral avança o progresso.
Cada qual desarme o seu lado.
Nathan, sangrando, acha, tem sua deixa.

Volker Braun

Der weise Mann im Osten

Vorn an der Rampe liegen wüst die Schuhe.
Nathan, des Sultans Messer an der Kehle
Fährt zitternd fort. Ich weiss kein Märchen mehr.
Dir mag die beste gelten deine Welt
Du irrst wie ich, und Ost und Westen irren
(Ein Rauchgeruch. Die Klinge gräbt sich ein)
Aus einen Grund, aus nur dem einem Grund:
Weil jeder nur die seine glaubt im Recht
Und sicht nicht rechts und links, im Recht zu leben.
Das Andere zerstören in der Angst!
Daß es dich widerlegt, und die Zerstörung
Erbaut dich felsenfest, TOD DEN VERRÄTERN.
(Der Salon ist hell und ramponiert
Biergartenstühle, umgestürtztdie Büste
Des Diktators. Kalt grinsend zeigt
Der Patriarch sich rechts in der Gasse.)
Die whare Weltanschaaung ging veloren.
Sagte ich eifern? Jeder seiner Liebe
Nach, höher schneller weiter. Aber der Eifer
Auf deiner Erde trübt den Himmel aller.
Dein Messer, Bruder, ist mein eignes Werkzeug
Und der dort grinsend naht, trägt meine Fresse.
Die Welt ist ein Dorf, der allgemeine Danghaufen.
Chemie und Ideologie. (Der Patriarch
Steckt einen Christbaum in den Stacheldraht
Tut nichts, die Menschheit wird verbrannt. Die Vogel
Jagen irr im Tiefflug durch das Schauhaus.)
Einseitig immer bricht der Fortschritt auf.
Es rüste jeder seine Seite ab.
Nathan, blutend, meint, er hat sein Stichwort.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, após conclusão do 2º grau, foi operário, maquinista e tipógrafo trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção , estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokationen für mich (Provocações para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Vorläufiges (Provisório, poemas, 1966), Wir und nicht sie (Nós e não eles, poemas, 1970), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poemas, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977), Der große Frieden (teatro, 1979), Die Übergangsgesellschaft (teatro, 1982), Langsamer knirschender Morgen (Lenta manhã rangente, poemas, 1987), Verheerende Folgen mangelnden Anscheins innerbetrieblicher Demokratic (ensaios, 1988), Bodenloser Satz (prosa, 1990), Böhmen am Meer (teatro, 1992), Iphigenie im Freiheit (teatro, 1992) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Volker Braun: Perguntas de um operário durante a revolução


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Tantos relatórios
Tão poucas perguntas.
Os jornais anunciam que estamos no poder.
Quantos de nós
Só porque nunca mandaram em nada
Continuam mantendo a boca escondida
Como se fosse genitália?
As rádios transmitem nossos rumos ao mundo.
Como, com as máquinas em andamento, nos resta
Uma escolha entre duas alavancas?
Nas praças, nossos nomes em postes.
Está cada um a postos
As novas resoluções
A outorgar? Alguns resolvem apenas
Ir às fábricas. Nos tronos está
Nossa gente: vocês nos perguntam
O suficiente? Por que
Não falamos sempre?

Volker Braun

Fragen eines Arbeiters während der Revolution

So viele Berichte.
So wenig Fragen.
Die Zeitungen melden unsere Macht.
Wie viele von uns
Nur weil sie nichts zu melden hatten
Halten noch immer den Mund versteckt
Wie ein Schamteil?
Die Sender funken der Welt unsern Kurs.
Wie, an den laufenden Maschinen, bleibt
Uns eine Wahl zwischen zwei Hebeln?
Auf den Plätzen stehn unsere Namen.
Steht jeder auf dem Platz
Die neuen Beschlüsse
Zu verfügen? Manche verfügen sich nur
In die Fabriken. Auf den Thronen sitzen
Unsre Leute: Fragt ihr uns
Oft genug? Warum
Reden wir nicht immer?
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção, estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokation für mich (Provocação para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poema, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Volker Braun: A propriedade

 
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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Aqui ainda estou: meu país se vai ao ocidente.
GUERRA ÀS CHOUPANAS, PAZ AOS PALÁCIOS.
Eu mesmo lhe dei o pontapé contundente.
Ele se joga fora e seus parcos gracejos.
Ao inverno segue-se o verão dos desejos.
E eu posso ir plantar bananeira.
E todo meu texto se torna asneira.
Aquilo que nunca possuí me arrancam sem piedade.
Daquilo que nunca vivi sentirei sempre saudade.
A esperança estava no caminho, feito uma armadilha.
Minha propriedade, agora faz parte de vossa partilha.
Quando de novo direi meu para dizer compartilha.

Volker Braun

Das Eigentum

Da bin ich noch: mein Land geht in den Westen.
KRIEG DEN HÜTTEN FRIEDE DEN PALÄSTEN.
Ich selber habe ihm den Tritt versetzt.
Es wirft sich weg und seine magre Zierde.
Dem Winter folgt der Sommer der Begierde.
Und ich kann bleiben wo der Pfeffer wächst.
Und unverständlich wird mein ganzer Text
Was ich niemals besaß wird mir entrissen.
Was ich nicht lebte, werd ich ewig missen.
Die Hoffnung lag im Weg wie eine Falle.
Mein Eigentum, jetzt habt ihrs auf der Kralle.
Wann sag ich wieder mein und meine alle.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção, estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokation für mich (Provocação para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poema, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.