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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]
para Alain Lance
Raramente eu vivo de fato, há horas
Na minha cozinha quebras as ostras
Importadas (com um papelório) e, com
A mão doendo no avental de plástico,
Cantas. E os Lobo[s], não pensam em nada
Esses daí, só em se entupir, e, como tudo
O que fazem, fartamente. Ainda são gente.
E eu, com muito limão entorpeço os
Bichinhos nus primeiro e o céu da boca
E engulo sem graça, enquanto às dúzias
Sorves com nojo e luxúria as pequenas
Bucetas do mar. Pronto, eu digo, a
Vida entre ânsia e repulsa,
Deixa descer pela língua, né.
Die Austern
für Alain Lance
Ich lebe nicht oft wirklich, du seit Stunden
In meiner Küche brichst die eingereisten
(Mit viel Papieren) Austern auf, und mit
Schmerzender Hand in dem Plasteschurz
Singst du. Und die Wolfs, an nichts mehr
Denken die da als ans Fressen, was sie
Wie alles, gründlich tun. Das sind noch Menschen.
Und ich, mit viel Zitrone, betäube
Die nackten Tierchen erst und meinen Gaumen
Und schlucke mutlos, während du zwei Dutzend
Schlürfst mit Wollust und Ekel, diese kleinen
Fotzen der See. So, sage ich nun, das
Leben zwischen Gier und Abscheu
Zergehen lassen auf der Zunge, ja.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães,
Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução
de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte
— MG; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, após conclusão do 2º
grau, foi operário, maquinista e tipógrafo — trabalhou em gráfica, fábrica de gás,
construção —, estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo
e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante
todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor,
perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu
distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como
dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde,
outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokationen für mich (Provocações
para mim, coletânea de poemas 1959—1964, 1965), Vorläufiges (Provisório,
poemas, 1966), Wir und nicht sie (Nós e não eles, poemas, 1970), Die Kipper (peça
teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada
de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poemas, 1974),
Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975),
Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977), Der große Frieden (teatro,
1979), Die Übergangsgesellschaft (teatro, 1982), Langsamer knirschender Morgen (Lenta manhã rangente, poemas, 1987),
Verheerende Folgen mangelnden Anscheins innerbetrieblicher Demokratic (ensaios,
1988), Bodenloser Satz (prosa, 1990), Böhmen am Meer (teatro, 1992), Iphigenie
im Freiheit (teatro, 1992) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início
a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da
Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller
(1992) etc.