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quinta-feira, 30 de maio de 2024

Lima Barreto: Bendito futebol


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          Não há dúvida alguma que o futebol é uma instituição benemérita cujo rol de serviço ao país vem sendo imenso e parece não querer ter fim.
          Com a citação deles podíamos encher colunas e colunas desta revista, se tanto quiséssemos e para isso nos sobrasse paciência.
          Não é preciso. É bastante elucidativa a enumeração de alguns principais. Um deles, se não o primordial, é ter trazido, para notoriedade das páginas jornalísticas e das festanças e rega-bofes1 dos Césares2 destas bandas, nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem ele, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse.
          Um outro é ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força muscular nas pernas e nos pés, tais como: o de caixeiro de bancos, o de empregado em lojas comerciais e em escritórios, o de funcionário público, o de estudante e o de profissional do “desvio”, realizassem as suas respectivas profissões com perfeição e segurança de quem dispõe de poderosos “extensores”3, “pediosos”4, “perônios”5, “tíbias”6 etc. etc.
          Não falemos da gesticulação e falatório dos “torcedores” e “torcedoras”, nem dos soberbos rolos que coroam partidas magistrais.
          Além daqueles ótimos serviços, que citamos, prestados, pelo futebol, à Pátria e à mocidade brasileira de mais de quarenta anos, falemos de um terceiro mais geral de que todos nós brasileiros lhe somos devedores: ele tem conseguido, graças a apostas belicosas7 e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre vários bairros da cidade, mas também o dissídio8 entre as divisões políticas do Brasil. Haja vista o que se tem passado entre São Paulo e Rio de Janeiro e vice-versa, por causa do jogo de pontapés9 na bola.
          O futebol é eminentemente um fator de dissensão10. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização das turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu primeiro suelto11 de 17 de setembro, aludiu ao caso. Ei-lo:
          0 Sacro Colégio do Futebol reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro homens de cor, enfim.
          A Igreja fazia, fez ou faz uma indagação semelhante que tinha o nome, se a minha ignorância não me trai, de processo de puritate sanguinis12. Isto, porém, ela fazia para os candidatos a seu sacerdócio coisa extraordinariamente diversa de um simples habilidoso que sabe, com mestria e brutalidade, servir-se dos pés, como normalmente os homens fazem com as mãos, para jogar bolas de cá para lá, da esquerda para adiante, de trás para frente e vice-versa. O sacerdote é o intermediário entre Deus e os homens; um futebolesco, o que é? Não sei.
          O conchavo13 não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República. Sua Excelência, que está habituada a resolver questões mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem comparecer às recepções de palácios; as regras de precedência, que convém sejam observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em solucionar a grave questão. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano. É verdade, aduziu14 ainda, que os estrangeiros possuem os retratos dos nossos senadores, dos nossos deputados, dos nossos lentes e estudantes, dos nossos acadêmicos etc. etc., mas são fatos domésticos com os quais nata têm a ver os estranhos; porém, fez Sua Excelência com ênfase, numa representação nacional, não é decente que tal gente figure. É verdade que o Senado, a Câmara são, mas... não vem ao caso.
          Concordaram todos aqueles esforçados cavalheiros que trabalham “pedestremente”15 pela prosperidade intelectual e pela grandeza material do Brasil; e, como complemento da medida, decidiram nomear uma comissão de antropólogos para examinar os “Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários da Pátria”, ao certame de junta-pés, na República Argentina. Sabemos que de tal comissão fazem parte as grandes inteligências arianas16 e ilustres desconhecidos: Senhores Anastácio, Zebedeu Palhano e Juliano Qualquer, doutos todos em várias coisas e também deputados federais.
          A providência, conquanto perspicazmente eugênica17 e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil; deve naturalmente causar desgosto, mágoa e revolta; mas o que se há de fazer? O papel do futebol, repito, é causar dissensões no seio da nossa vida nacional. É a sua alta função social.
          O que me admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna18, o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que tivesse tão malsinada19 origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de satisfação.
          Não foi à toa que Vespasiano disse a seu filho Tito que o dinheiro não tem cheiro. Havia um remédio para resolver esse congesto20 estado de coisas: o governo retirava do doutor Belisário Pena as verbas com que ele socorre as pobres populações rurais, flageladas por avarias endêmicas21 que as dizimam ou as degradam; e punha-as à disposição do futebol.
          Dava-se o seguinte: o futebol ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação da malária, da opilação22 e outras moléstias de nomes complicados que não sei pronunciar e muito menos escrever.
          O governo, procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Lógico é querer conservar essa gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica23, para depois humilhá-la, como agora, em honra do futebol regenerador da raça brasileira, a começar pelos pés. “Ab Jove principium...”24
            Os maiores déspotas e os mais cruéis selvagens martirizam, torturam as suas vítimas; mas as matam afinal. Matem logo os de cor; e viva o futebol, que tem dado tantos homens eminentes ao Brasil! Viva!

P.S. A nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores: todos nós, para eles, somos macaquitos. A fim de que tal não continue seria hábil arrendar, por qualquer preço, alguns ingleses que nos representassem nos encontros internacionais de futebol.
          Há toda a conveniência em experimentar. Dessa maneira, sim, deixávamos todos de ser macaquitos, aos olhos dos estranhos.

[revista] Careta, 01/10/1921


Notas da edição:
1. Rega-bofes: festas com farturas de comidas e bebidas
2. Césares: governantes
3. Extensores: músculos que estiram um membro
4. Pediosos: músculos do pé
5. Perônios: ossos da perna que ficam ao lado da tíbia, hoje conhecidos como fíbulas
6. Tíbias: ossos longos da perna
7. Belicosas: dispostas para a guerra
8. Dissídio: conflito de interesses ou opiniões, divergência
9. Jogo de pontapés: futebol
10. Dissensão: desentendimento
11. Suelto (esp.): pequeno artigo em que se apresenta o ponto de vista do jornal sobre o assunto de menor importância
12. Puritate sanguinis: pureza de sangue
13. Conchavo: acordo secreto
14: Aduziu: expôs
15. Pedestremente: modestamente
16. Arianas: relativas ao arianismo, teoria popularizada pelo nazismo que afirma a superioridade dos homens brancos e, entre estes, do antigo povo ariano (que se estabeleceram no Industão e iniciaram a civilização indo-europeia)
17. Eugênica: atenta ao melhoramento genético da espécie humana
18. Tisna: mancha
19. Malsinada: infeliz
20. Congesto: congestionado, circulação impedida pelo acúmulo de coisas
21. Endêmicas: doenças que se alastram num povo ou numa região
22. Opilação: denominação dada, no Brasil, à ancilostomíase
23. Botica: farmácia
24. Ab Jove principium (lat.); desde o início
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas, Glossário 'Elenco de nomes, títulos e lugares' e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Lima Barreto: Macaquitos

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          Um jornal ou semanário de Buenos Aires, quando uma équipe brasileira de football, de volta do Chile e, onde fora disputar um campeonato internacional por lá passou, pintou-a como macacos.
          A cousa passou desapercebida, devido ao atordoamento das festas do Rei Alberto; mas, se assim não fosse, estou certo de que haveria irritação em todos os ânimos.
          Precisamos nos convencer de que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplares da série animal; e há mesmo competências que o fazem, senão pai, pelo menos primo do homem. Tão digno “totem” não nos pode causar vergonha.
          A França, isto é, os franceses são tratados de galos e eles não se zangam com isto; ao contrário: o galo gaulês, o chantecler, é motivo de orgulho para eles.
          Entretanto, quão longe está o galo, na escala zoológica, do macaco! Nem mamífero é!
          Quase todas as nações, segundo lendas e tradições, têm parentesco ou se emblemam com animais. Os russos nunca se zangaram por chamá-los de ursos brancos; e o urso não é um animal tão inteligente e ladino como o macaco.
          Vários países, como a Prússia e a Áustria, põem nas suas bandeiras águias; entretanto, a águia, desprezando a acepção pejorativa que tomou entre nós, não é lá animal muito simpático.
          A Inglaterra tem como insígnias animais o leopardo e o unicórnio. Digam-me agora os senhores: o leopardo é um animal muito digno?
          A Bélgica tem leões ou leão nas suas armas; entretanto, o leão é um animal sem préstimo e carniceiro. O macaco verdade não tem préstimo; mas é frugívoro, inteligente e parente próximo do homem.
          Não vejo motivos para zanga, nessa história dos argentinos chamar-nos de macacos, tanto mais que, nas nossas histórias populares, nós demonstramos muita simpatia por esse endiabrado animal.

[revista] Careta, Rio, 23-10-[19]20

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Adelaide Petters Lessa: Treinador

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Eu abomino o jogo desleal,
de pés sem a cabeça.

Profissionais de trancos e pisões,
propositais, maldosos.
Chuteiras atingindo os genitais do outro.
Rasteiras que estraçalham com joelhos.
Adversários retorcidos sobre a maca,
sujeitos ao derrame, ocaso e morte.
Rejeito o jogador fingido,
suas desculpas de má sorte.
O falso craque, descoberto o dopping.
O brutamontes, o comprado,
o covarde.

Prefiro o fair-play, cavalheiresco abraço
do jogador vencido ao vencedor.
A troca de camisas e bandeiras.
Todo o requinte e a graça soberana
de ginasta perfeito e bailarino.

Eu gosto é da refrega entre os atletas
de inteligência e destreza, criadoras,
da Folha seca, do Chapéu, do Gol Olímpico,
dos dribles sucessivos,
da Bicicleta sem visão da meta.

Mais belo ainda é o lance plug-and-play
que nasce do goleiro, sobrevoa
a meia-lua e chega ao peito e aos pés
de um atacante alerta.
A garra, intuição, certeza e fé
de uma vitória limpa.

Meninos, nosso esporte se enriqueça
de auto-controle. Dignidade.
A taça com a posse de si mesmo.

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Carlos Queiroz Telles: Mensagens ortopédicas

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Creque!

O joelho dobrou esquisito
A dor subiu pela espinha
O grito empacou na garganta.

Droga!

Socorro gente... me acudam!
Acho que quebrei a perna...
Quebrou... confirmam as caras
Debruçadas sobre mim.

E agora?

Pega com jeito... Cuidado que dói!
Vai devagar... Toca pra enfermaria.
Não aperta! Não cutuca! Ai!!!
Se não estava quebrado, agora quebrou.

Porcaria de time!

Maldito futebol! Raio de campeonato!
Droga de bola dividida! Desgraçado beque central!
Ai... lá vou eu para o hospital...
Ainda bem que a turma está firme ao meu lado.

Gente legal!

Puxa, repuxa, encaixa, acerta, emenda,
enfaixa, aperta, engessa... pronto!
Manquitola e conformado, o atleta glorioso
Volta ao campo de batalha.

Curiosidade geral.

Engraçadinhos a postos empunham suas canetas
e iniciam a ofensiva de recadinhos no gesso.
São grafites de pura inveja
e oportunistas juras de amor:

Te amo mesmo assim.
PERNETA!
Agora você não vai fugir de mim!
Manquinho!
Até que enfim vou ser titular.
Tomara que fique três meses na cerca!
Amoreco!
Conte sempre com o meu ombro amigo.
Deixa que eu chuto.
Perna de pau!

Engraçado este mundo!

Foi preciso uma fratura
pra descobrir como é bom
ter amigos e atenção.
E tem mais!
Minha perna, de repente,
serve até para colar:
entre um recado e outro
cabe bem uma equação!

Santa bola dividida!
Querido beque central!

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Sementes de sol — Carlos Queiroz Telles, Capa e Ilustrações de May Shuravel, 1996, 6ª edição, Editora Moderna — São Paulo — SP; José Carlos Botelho de Queiroz Telles (1936 1993), paulista e paulistano, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP  Largo São Francisco), foi dramaturgo, escritor e poeta; trabalhou em jornalismo e publicidade, tendo sido também professor universitário; teve participação ativa na fundação do Teatro Oficina, em cuja inauguração, 1958, estreou a peça A Ponte, de sua autoria; como dramaturgo, foi autor de obras para o teatro e televisão (novela e seriados), adaptou textos de Shakespeare, Camões e Calderón de La Barca; recebeu dois prêmios Moliére (1972 e 1976); além deste Sementes de sol (poesias), escreveu Sonhos, grilos e paixões (poesias), Tirando de letra, Asas brancasQuase Cachorro e Quase MeninoMulher Manual do ProprietárioHomem Manual da ProprietáriaO Pirilampo TelegrafistaOs Amantes da chuvaO Rock das Estrelas, e tantos outros títulos da literatura infanto-juvenil.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Adroaldo Jacques Eid: O chute do Saci *

Minha foto
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Por entre os cipós e o rústico sapé,
Espaço primitivo e rude da Natureza,
Ostentando astúcia e destreza,
Nós te "caçamos", Saci Pererê.

Cachimbo na boca,
Soltando fumaça,
Barrete vermelho,
Apenas um joelho,
Assustando quem passa...

Então, transcendeste o âmbito fabuloso
E te converteste à humana realidade.
Por fim, desta próspera sociedade,
Tomaste o símbolo augusto e majestoso!

Baluarte de elevado idealismo,
Perseveraste nas adversidades,
Foste prudente nas amenidades
E não sucumbiste ao comodismo!

Empunhando o lume da esperança,
Não obstante, todo o sacrifício,
Puseste de pé o portentoso edifício,
Estandarte de altivez e pujança!

Sede de profícua convivência,
Acervo dos despojos das vitórias;
Cenário de labutas e muitas glórias,
Irmandade de reconhecida eminência.

Que dia ímpar e extraordinário!
Meio século de existência...
Por isso, devotamos nossas reverências
E te rogamos um feliz aniversário.

Saci Pererê,
De uma perna só,
Domina esta bola
E chuta sem dó!

Nem vexame, nem fracasso!
Tu não és um aleijão;
És, isto sim, um campeão,
Pois marcaste um golaço!

(07  12  2014)



* Clique no título lá em cima e acesse www.sacifutebol.blogspot.com.br
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Adroaldo Jacques Eid, iperoense, em Minhas Composições Biografia, descreve a si mesmo: “27 dezembro de 1946. Eis que, após nove meses de tranqüilidade no útero materno, a mão do Destino, atrevido e implacável, me botou pra fora! Mais um, na arena do mundo, para repartir com outros milhões as migalhas da sobrevivência humana... Após dezenove anos de vida bucólica, outra vez premido pela Sorte, fui jogado na cidade grande São Paulo onde, preocupado com a corda bamba do futuro, retomei os estudos; prestei vestibular e me formei professor de Português pela Universidade de São Paulo. (. . .) ... manifesto meus sentimentos e opiniões através da política partidária, crônicas e textos, em prosa e em versos, quase literários, os quais evidenciam meus dois lados: o campestre e o urbano.”; Adroaldo, além de ter lecionado, costuma participar de revistas e de concursos de arte; gravou, em parceria, algumas de suas composições, em produção independente.
(http://bloggermestrejacques.blogspot.com.br/2011/07/minhas-composicoes.html)

SACI  Sociedade Atlética Cidade de Iperó, é um clube de futebol. Foi fundado em 12 de outubro de 1965, por Amadeu Jacques Eid. O clube iperoense tem um estádio-sede, o Saci-Pererê.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vinicius de Moraes: O Anjo das Pernas Tortas


A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o coro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés 
 um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: 
 Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!
Para viver um grande amor (1964)
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Roteiro da Poesia Brasileira Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo SP; Vinicius de Moraes (1913 1980), além de poeta, foi crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu Negro, que se tornaria um filme premiado) e letrista concorrido da Música Popular Brasileira; obra poética: Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos poemas (1938), Poemas, sonetos e baladas (1946), Novos poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Jornal Idéias!: De Campeões e Perdedores

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(Idéias! — N° Zero — 2ª quinzena de dezembro/83 —  Órgão Informativo de Funcionários do Bamerindus/Diretoria Cassada)

          Tudo Ok! O Corinthians foi bi-campeão e o povão corinthiano se sentiu como se tivesse com as medalhas e as faixas em seu peito. Também me vi lá no Morumbi, recebendo das mãos do Marin do PDS a taça de um metro e meio de altura banhada de ouro e prata, coisa de fazer roncar o estômago de trabalhador bancário que é obrigado a engolir dois ou três salários mínimos por mês, sem chiar.
          E o juiz, então, que parecia que nunca ia apitar o final da partida? Para mim, o juiz queria se transformar em estrela da festa. Será que ele queria roubar do povão o direito de festejar mesmo que fosse num só dia do ano? Acho que sim. Eu entendo que juiz tem apenas que apitar, e pronto! Mas, pelo jeito, ele queria mais que isso...
          Desta feita, nem fui até a Avenida Paulista pra bebemorar o bi. A decisão foi no meio-de-semana e isso também impediu a participação e os festejos da massa. Dia de semana, todos sabem, nós trabalhadores, temos que dormir cedo e levantar quase de madrugada pra conquistar o pão nosso de todo dia. Mesmo assim, e apesar dos homens da Federação, o estádio lotou. Há muita gente que não acorda cedo. Há também aqueles que não dormem em dia de decisão. Bebemoram e vão direto pro batente. Com estas e outras, quero apenas deixar claro que me sinto campeão. Com taça e tudo o mais.
          E o perdedor? O derrotado, pra ser mais exato, foi Joilson de Jesus, que terminou sua carreira estirado no chão da cidade, com apenas quinze anos de idade. Uma criança ainda.
          Joilson de Jesus, vindo das equipes mirins, naquele dia disputava uma acirradíssima partida. No transcorrer do jogo, roubou a bola de um adversário. Dominando-a, driblou um, driblou dois e seguiu avante, decerto já comemorando a possibilidade de marcar um gol, um só golzinho que fosse. De repente, ele esbarrou num zagueirão do outro time que, metendo-lhe um soco no rosto e uma chave de braço, derrubou-o ao solo tomando-lhe a pelota. Parecendo ainda não estar satisfeito, e sob os olhares da torcida atônita e estarrecida, enfiou-lhe os dois pés no peito e no pescoço. Foi o fim da peleja: Jéferson Figueira, o beque violentíssimo, acabava de matar a jogada e o jogador num só lance. Simplesmente fantástico!
          Eu, torcedor ausente e indignado, que acompanhei o jogo somente pela imprensa, quero poder influir no resultado da partida. O que está esperando, senhor juiz? Cartão vermelho nele! Expulse-o dos gramados! Este beque matador não serve nem pra jogar peladas em campos esburacados, com inimigos que chutam da medalhinha pra cima, quanto mais pra disputar uma partida decisiva, contra crianças, no estádio dos calçadões do coração de São Paulo.
          Joilson de Jesus, você foi morto mas a partida continua a todo vapor! Eu ainda carrego comigo a esperança de virar este jogo, com festa, trabalho e pão. E então já não mais haverá lugar para matadores como o beque Jéferson Figueira, seu carrasco.
          Feliz Natal para todos os bancários, jogadores do dia a dia! Que no campeonato do ano que vem o resultado das partidas nos seja mais favorável.
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Fez-se esta crônica no calor de duas ocorrências havidas em dezembro de 1983 no chão desta paulicéia desvairada: uma, bastante trágica, se deu no dia 09 daquele mês no calçadão do Centro Velho de São Paulo Rua Senador Paulo Egydio, quando após uma trombada em transeunte, um menor de rua, Joilson de Jesus, foi espancado e morto pelo cidadão Jéferson Figueira. À época o caso teve grande  repercussão na mídia; já a outra ocorrência, muito festejada, foi no gramado do Morumbi na noite do dia 14, meio-de-semana quando o Corinthians se sagrou bi-campeão paulista ao empatar em 1 x 1 gol de Sócrates com o São Paulo; o  Corinthians já havia vencido o tricolor num primeiro jogo no fim-de-semana anterior pelo placar de 1 x 0. E com um gol de Sócrates, claro! Foi o último título da então tão falada Democracia Corinthiana;

Ah!!!, o Informativo Idéias!, jornal voltado para os funcionários do então Banco Bamerindus, hoje HSBC, foi uma das experiências de mídia sindical em um período no qual o Sindicato dos Bancários de São Paulo teve toda a sua diretoria cassada pela ditadura do Governo Figueiredo; P. da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, réus confessos, assumem a autoria deste texto.