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Não há
dúvida alguma que o futebol é uma instituição benemérita cujo rol de serviço ao
país vem sendo imenso e parece não querer ter fim.
Com a
citação deles podíamos encher colunas e colunas desta revista, se tanto
quiséssemos e para isso nos sobrasse paciência.
Não é
preciso. É bastante elucidativa a enumeração de alguns principais. Um deles, se
não o primordial, é ter trazido, para notoriedade das páginas jornalísticas e
das festanças e rega-bofes1 dos Césares2 destas bandas,
nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem
ele, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse.
Um outro
é ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força
muscular nas pernas e nos pés, tais como: o de caixeiro de bancos, o de
empregado em lojas comerciais e em escritórios, o de funcionário público, o de
estudante e o de profissional do “desvio”, realizassem as suas respectivas
profissões com perfeição e segurança de quem dispõe de poderosos “extensores”3,
“pediosos”4, “perônios”5, “tíbias”6 etc. etc.
Não falemos
da gesticulação e falatório dos “torcedores” e “torcedoras”, nem dos soberbos
rolos que coroam partidas magistrais.
Além daqueles
ótimos serviços, que citamos, prestados, pelo futebol, à Pátria e à mocidade
brasileira de mais de quarenta anos, falemos de um terceiro mais geral de que
todos nós brasileiros lhe somos devedores: ele tem conseguido, graças a apostas
belicosas7 e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre
vários bairros da cidade, mas também o dissídio8 entre as divisões
políticas do Brasil. Haja vista o que se tem passado entre São Paulo e Rio de
Janeiro e vice-versa, por causa do jogo de pontapés9 na bola.
O futebol
é eminentemente um fator de dissensão10. Agora mesmo, ele acaba de
dar provas disso com a organização das turmas de jogadores que vão à Argentina
atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu
primeiro suelto11 de 17 de
setembro, aludiu ao caso. Ei-lo:
0 Sacro
Colégio do Futebol
reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires,
campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro — homens de cor,
enfim.
A Igreja
fazia, fez ou faz uma indagação semelhante que tinha o nome, se a minha
ignorância não me trai, de processo de puritate
sanguinis12. Isto, porém, ela fazia para os candidatos a seu
sacerdócio — coisa extraordinariamente diversa de um simples habilidoso que
sabe, com mestria e brutalidade, servir-se dos pés, como normalmente os homens
fazem com as mãos, para jogar bolas de cá para lá, da esquerda para adiante, de
trás para frente e vice-versa. O sacerdote é o intermediário entre Deus e os
homens; um futebolesco, o que é? Não sei.
O conchavo13
não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor
presidente da República. Sua Excelência, que está habituada a resolver questões
mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem
comparecer às recepções de palácios; as regras de precedência, que convém sejam
observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em
solucionar a grave questão. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e
comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora,
acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco
humano. É verdade, aduziu14 ainda, que os estrangeiros possuem os
retratos dos nossos senadores, dos nossos deputados, dos nossos lentes e
estudantes, dos nossos acadêmicos etc. etc., mas são fatos domésticos com os
quais nata têm a ver os estranhos; porém, fez Sua Excelência com ênfase, numa
representação nacional, não é decente que tal gente figure. É verdade que o
Senado, a Câmara são, mas... não vem ao caso.
Concordaram
todos aqueles esforçados cavalheiros que trabalham “pedestremente”15
pela prosperidade intelectual e pela grandeza material do Brasil; e, como
complemento da medida, decidiram nomear uma comissão de antropólogos para
examinar os “Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários da Pátria”,
ao certame de junta-pés, na República Argentina. Sabemos que de tal comissão
fazem parte as grandes inteligências arianas16 e ilustres
desconhecidos: Senhores Anastácio, Zebedeu Palhano e Juliano Qualquer, doutos
todos em várias coisas e também deputados federais.
A providência,
conquanto perspicazmente eugênica17 e científica, traz no seu bojo
ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil;
deve naturalmente causar desgosto, mágoa e revolta; mas — o que se há de fazer?
O papel do futebol, repito, é causar dissensões no seio da nossa vida nacional.
É a sua alta função social.
O que me
admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que
são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não
tragam também a tisna18, o estigma de origem, pois uma grande parte deles
é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que
tivesse tão malsinada19 origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de
satisfação.
Não foi à
toa que Vespasiano disse a seu filho Tito que o dinheiro não tem cheiro. Havia um
remédio para resolver esse congesto20 estado de coisas: o governo
retirava do doutor Belisário Pena as verbas com que ele socorre as pobres
populações rurais, flageladas por avarias endêmicas21 que as dizimam
ou as degradam; e punha-as à disposição do futebol.
Dava-se o
seguinte: o futebol ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se
compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação
da malária, da opilação22 e outras moléstias de nomes complicados
que não sei pronunciar e muito menos escrever.
O governo,
procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Lógico é querer conservar essa
gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica23, para
depois humilhá-la, como agora, em honra do futebol regenerador da raça
brasileira, a começar pelos pés. “Ab Jove principium...”24
Os maiores
déspotas e os mais cruéis selvagens martirizam, torturam as suas vítimas; mas
as matam afinal. Matem logo os de cor; e viva o futebol, que tem dado tantos
homens eminentes ao Brasil! Viva!
P.S. — A nossa
vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores: todos nós, para
eles, somos macaquitos. A fim de que tal não continue seria hábil arrendar, por
qualquer preço, alguns ingleses que nos representassem nos encontros
internacionais de futebol.
Há toda a
conveniência em experimentar. Dessa maneira, sim, deixávamos todos de ser macaquitos, aos olhos dos
estranhos.
[revista]
Careta, 01/10/1921
Notas da
edição:
1. Rega-bofes:
festas com farturas de comidas e bebidas
2.
Césares: governantes
3.
Extensores: músculos que estiram um membro
4. Pediosos:
músculos do pé
5.
Perônios: ossos da perna que ficam ao lado da tíbia, hoje conhecidos como
fíbulas
6. Tíbias:
ossos longos da perna
7.
Belicosas: dispostas para a guerra
8.
Dissídio: conflito de interesses ou opiniões, divergência
9. Jogo
de pontapés: futebol
10. Dissensão:
desentendimento
11. Suelto (esp.): pequeno artigo
em que se apresenta o ponto de vista do jornal sobre o assunto de menor
importância
12. Puritate sanguinis: pureza de
sangue
13.
Conchavo: acordo secreto
14:
Aduziu: expôs
15.
Pedestremente: modestamente
16.
Arianas: relativas ao arianismo, teoria popularizada pelo nazismo que afirma a
superioridade dos homens brancos e, entre estes, do antigo povo ariano (que se
estabeleceram no Industão e iniciaram a civilização indo-europeia)
17.
Eugênica: atenta ao melhoramento genético da espécie humana
18.
Tisna: mancha
19.
Malsinada: infeliz
20.
Congesto: congestionado, circulação impedida pelo acúmulo de coisas
21.
Endêmicas: doenças que se alastram num povo ou numa região
22. Opilação:
denominação dada, no Brasil, à ancilostomíase
23.
Botica: farmácia
24. Ab Jove principium (lat.);
desde o início
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Lima
Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas, Glossário 'Elenco de nomes, títulos e lugares' e Edição sob os cuidados de
Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e
Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto
militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª
edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto
(1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou
na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi
contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e
revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente
para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição
do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos,
chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro
do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de
Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que
sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919),
Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea
de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação
póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos
satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como
assinaturas de suas crônicas nos periódicos — jornais e revistas — nos quais
foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente,
Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.






