quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Baudelaire: A Alma do Vinho

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custou, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retirar a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa a manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

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Baudelaire

L'âme du vin

Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
"Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant les manches,
Tu me glorifieras et tu seras content:

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!"

Les fleurs du Mal  1857
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Algumas Flores de Flores do Mal — Charles Baudelaire, Seleção dos Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Cruz e Sousa: Claro e Escuro

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DENTRO os cristais dos tempos fulgurantes,
músicas, pompas, fartos esplendores,
luzes, radiando em prismas multicores,
jarras formosas, lustres coruscantes,

púrpuras ricas, galas flamejantes,
cintilações e cânticos e flores;
promiscuamente férvidos odores,
mórbidos, quentes, finos, penetrantes.

por entre o incenso, em límpida cascata,
dos siderais turíbulos de prata,
das sedas raras das mulheres nobres;

clara explosão fantástica de aurora,
deslumbramentos, nos altares! 
— Fora,
uma falange intérmina de pobres.

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Cruz e Sousa, Obra Completa  Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade Muricy, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro  RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Trilussa: A minha estrada

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[traduzido por Paulo Duarte]

A estrada é longa, mas está por pouco.
Sei bem para onde vou, não tenho pressa.
O coração tranqüilo e na cabeça,
a paz de um sábio que se finge louco.
Si acaso um pensamento mau desfila,
com um bom trago, peço ajuda ao vinho,
a cantar, sigo após o meu caminho,
o Destino levando na mochila...

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Trilussa

La Strada mia

La strada è lunga, ma er deppiù l’ho fatto:
so dov’arrivo e nun me pijo pena.
Ciò er core in pace e l'anima serena
der savio che s'ammaschera da matto.
Se me frulla un pensiero che me scoccia
me fermo a beve e chiedo ajuto ar vino:
poi me la canto e seguito er cammino
cor destino in saccoccia.

Libro Muto — 1934
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Versos de Trilussa — Tradução de Paulo Duarte, 1973, Marcus Pereira Publicidade, São Paulo — SP; Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871 1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), nascido em Roma Itália, foi poeta dialetal de sátiras político-sociais, fabulista, escritor e jornalista; escreveu em dialeto romanesco e publicou seus primeiros versos aos dezesseis anos, quando iniciou sua colaboração nos jornais Rugantino e, depois, no Don Chisciotte; sua bibliografia: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); I Sonetti (A. Mondadori, Milano, 1922); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori Tip. Operaia Romana, Roma, 1945) e muitos outros títulos.

domingo, 27 de novembro de 2016

Arthur Rimbaud: Minha Boêmia

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[traduzido por Ivo Barroso]

(Fantasia)

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
 Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
 Os meus astros nos céus rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti tal vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção.

Onde, rimando em meio à imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!

Rimbaud

Ma Bohème
(Fantaisie)

Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot aussi devenait idéal;
J'allais sous le ciel, Muse! et j'étais ton féal;
Oh! là là! que d'amours splendides j'ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
— Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-urse.
— Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!

Poésies — 1871
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Poesia Completa – Arthur Rimbaud, Edição Bilíngüe Comemorativa do sesquicentenário, Tradução, Prefácio, Organização e Comentários de Ivo Barroso, 1995, 3ª edição definitiva, Topbooks Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville — França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém, escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, Allen Ginsberg, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, William Burroughs etc.

sábado, 26 de novembro de 2016

Paul Verlaine: Colóquio Sentimental

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

No velho parque frio e abandonado,
duas sombras passaram, há bocado.

De olhos já mortos e lábio caído,
o que dizem mal chega a ser ouvido.

No velho parque frio e abandonado,
dois espectros evocam o passado.

 Recordas-te do nosso enlevo, outrora?
— Para que queres que me lembre agora?

— Ainda, se ouves meu nome, o coração
te bate? Ainda me vês em sonho? 
— Não.

— Ai, indizíveis dias tão felizes
em que unimos as bocas! 
— Assim dizes...

— Como era azul o céu e grande o sonho!
— Foi-se o sonho, vencido, em céu tristonho.

Tais iam eles entre aveias bravas
e só a noite ouviu suas palavras.

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Colloque sentimental

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux formes ont tout à l’heure passé.

Leurs yeux sont morts et leurs lèvres sont molles,
Et l’on entend à peine leurs paroles.

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux spectres ont évoqué le passé.

 Te souvient-il de notre extase ancienne?
 Pourquoi voulez-vous donc qu’il m’en souvienne?

 Ton coeur bat-il toujours à mon seul nom?
Toujours vois-tu mon âme en rêve? 
 Non.

— Ah! les beaux jours de bonheur indicible
Où nous joignions nos bouches! 
— C’est possible.

— Qu’il était bleu, le ciel, et grand, l’espoir!
— L’espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir.

Tels ils marchaient dans les avoines folles,
Et la nuit seule entendit leurs paroles.

Fêtes Galantes — 1869
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Festas Galantes  Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Rubens Rodrigues Filho: redondilha

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Deflorei a margarida
tão pura do meu jardim.
Ela agora, sem recalques,
é rosa de mil encantos.
Eu sou morcego, sou negro
profeta da perdição.
Ela dança com as folhas
auri-verdes do perdão.
Eu, seu amante e carrasco,
sou alvo de duro asco,
cavalo preto, de casco
cor da lua candidata
ingrata da oposição.
Margarida cor de rosa,
mas com outra transparência,
orvalho sem virulência
caindo em tua pestana,
permita que eu desvende
sem ser indiscreto, creia,
tuas outras qualidades
que o mundo esquece ou cerceia:
a curva de tua anca,
o aparato de teu seio,
a avenida de teu corpo
que dá mão para o infinito,
as outras tantas marias
provindas da mesma concha
despetalada ao luar.
Vou dizer, deus me castigue,
as horas claras que tive
e você teve, admita,
em nossa chã companhia.
Como rimos e pudera,
num espaço tão restrito.
Como nosso canto era
refratário a todo ritmo,
menos ao nosso, ao interno,
que se fizera perito
em persistir sem remédio.
Sim, fomos, se isso te agrada,
amigos mais que perfeitos,
como a água o é da sede.
Hoje ainda peço trégua
e me espanto de obtê-la
para falar de teu zelo,
de tua tranqüila jaça,
de teu riso. De teu gelo.
E hoje sem que se aprove
nem se renegue tal feito,
só sobra, mal naufragado,
este atônito relevo
de medos, fios e penugens
que se dissipam bem cedo.
E se conto tais estórias
não é por falta de sono
nem para alimentar o metro
desta falsa redondilha.
Mas para que o povo saiba
e no porvir não omita
com quanta insônia e vertigem
se faz um pouco de música
para povoar seu ouvido.


[O voo circunflexo  1981]

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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Da Costa e Silva: A Cantiga

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Movendo ao rude engenho a roda grande,
Cantam na lida os homens da lavoura,
Aos crebros sons da moenda rugidora,
Enquanto a vida à luz do sol se expande.

A mole férrea, sem que o peso abrande,
Gira veloz, como se próprio fora
O humano afã da força propulsora,
Que faz com que ela, assim, ande e desande...

Cantam os homens, no auge da labuta,
E a roda, sem parar, gira e mastiga
As raízes que apura à força bruta...

Cantai, homens de Deus! que essa cantiga
Vos dá novos alentos para a luta
E quem luta a cantar não tem fadiga!

Zodíaco  1917

DA COSTA E SILVA
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Poesias Completas  Da Costa e Silva, 2ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1976, Livraria Editora Cátedra e MEC, Rio de Janeiro RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885  1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários  o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Martins Fontes: Primavera

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Moças do coração de minha Terra,
Se a dizer vossos nomes não me atrevo,
Por vós, sabeis, minha saudade encerra
O mais contínuo e fascinante enlevo.

Qualquer de vós, seja onde for, não erra
Se se vir retratada no que escrevo,
Porque a poesia é um véu que se descerra,
Para a imagem mostrar-vos em relevo.

Em meus versos se espelha o vosso rosto:
Dá-se convosco exatamente o oposto
Do Soneto lindíssimo de Arvers.

Lendo-me, pensareis:  Sou eu! Pressinto,
Há muito, o seu amor! Sei, por instinto,
Que é impossível ser outra esta mulher!

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O Soneto de Arvers — Mello Nóbrega — 1957, 2ª edição, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; José Martins Fontes (1884  1937), paulista de Santos, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; escreveu para os jornais A GazetaDiário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; algumas de suas obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos (1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931) e tantos outros títulos.