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quarta-feira, 9 de março de 2022

Fontoura Xavier: Massas de bronze

 
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A Luís Delfino

Não foram dois heróis mas foram dois chacais!
Fizeram-se no tempo em que uma tirania
Co’a descarnada mão da morta monarquia
Esbofeteava a Lei nos fojos imperiais!

Eram dignos um d’outro os míseros rivais:
Enquanto um, menos nobre, à infâmia se vendia
O outro, Judas vil, as suas leis traía
Roubando uma coroa à fronte de seus pais!...

Hoje, feitos de bronze e erguidos pelas praças
Para glória dos reis e insulto às populaças,
Um  cospe desdenhoso escárnios à Nação;

Enquanto, sobre o pó do fúnebre banquete,
Outro  tenta apagar co’a pata do ginete
A luz da liberdade e a sombra d’um Catão!

Rio de Janeiro

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; obras: O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª edição em 1884 e edição definitiva em 1905); Fontoura Xavier serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suíça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Fontoura Xavier: Estudo anatômico

 
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Entrei no anfiteatro da ciência,
conduzido por mera fantasia,
e aprouve-me estudar anatomia,
por dar um novo pasto à inteligência.

Discorria com toda a sapiência
um lente, numa mesa em que jazia
uma imóvel matéria muda e fria,
a que outrora animara humana essência.

Fora uma meretriz. Seu rosto belo
pude, tímido, olhá-lo com respeito,
por entre negras ondas de cabelo...

A um gesto do lente, contrafeito,
rasguei-a com a ponta do escalpelo
e não vi o coração dentro do peito!...

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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª. Edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

sábado, 2 de julho de 2016

Fontoura Xavier: Nevrose *

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Nessa tristeza mórbida, secreta,
Que te afugenta as sombras do repouso,
Eu vejo a hipocondria, a febre infecta
Florescências do pântano do gozo.

Por uma noite de luar repleta,
Eu, contudo, quisera, fervoroso,
Sentir pulsar esta paixão discreta
No bronze do teu seio tormentosol

Depois... morrer! beijando como o pária
Na liça da peleja sanguinária
A mortalha de lodo em que se cose!

És o perfume negro, a flor do pasmo,
Que no silêncio morno do marasmo
Faz-me sonhar os estos da nevrose!...



* Nota do Organizador: Data de 1876 e reflete atmosfera decadente. Nevroses seria o título do futuro livro do baudelariano Rollinat.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª. edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Fontoura Xavier: Carvalho Júnior

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Um instante, coveiro! o morto é meu amigo,
E como vês cheguei para dizer-lhe adeus;
Depois podes levá-lo, a Satanás, contigo,
Que sei que não pretende a salvação de Deus.

Eu descuidei-me, sim; nós dávamo-nos muito!
Há meses abracei-o e nunca mais o vi...
Alguém, quem quer que seja! aproveitou o intuito,
Matou-o em minha ausência e trouxe-o para aqui.

Vim despedir-me dele... (Escuta-me, primeiro.
Tu deves conhecer os mortos que aqui somes;
Muitas vezes Hamleto a dúvida, coveiro,
Visita este lugar interrogando nomes.

Estuda esta cabeça, o príncipe há de vê-la;
Repara bem, é loura, esplendida, à Van-Dick!
Pois bem, gasta a mortalha, então roída a tela,
Não tomes Baudelaire por um jogral Yorick !).

Vim despedir-me, pois! A morte já começa
A martelar caixões na porta dos ateus!...
Sentido, batalhões! caiu uma cabeça...
Que importa uma vitória às legiões de Deus?...


Nota do Organizador:
A última estrofe, que figura na edição definitiva, 1905, não vem reproduzida na 4ª. Edição de Opalas, e a poesia inteira não consta da ed. Príncipe. Os versos são decadentes com seu satanismo e também com seu intuito escandalizador de profanar. Se foram recitados à beira-túmulo de Carvalho Júnior, devem datar de 1879. Os títulos também variam: na ed. definitiva, é o que se lê acima; na 4ª., “Nos Funerais de um Poeta”.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856  1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) Opalas (poesias, 1ª. edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).