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Feroz é
um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê
de longe, teme-lhe os olhares,
E examina
a grossura da corrente
Férrea,
que o liga ao muro dos seus lares.
Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;Ninguém procura o seu olhar profundo;Do seu caminho fogem, de tal sorteQue ele se vê sozinho neste mundo.
O próprio dono evita-lhe os afagos,Olha-o receoso, e se aproxima a custo.Do velho cão nos grandes olhos vagos,Paira a tristeza de um castigo injusto.
Não compreende o terror por ele aceso;Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,Mais pavor nos corações excita.
E ele, sentindo assomos de revolta,Tenta quebrar os elos da cadeia...Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,E o louco instinto, devagar, sopeia.
Inclina o corpo e estende-se por terra,Preso ao terror, que a própria força inspira;E, silencioso, úmidos olhos cerra,Sem mais vislumbre de despeito ou ira.
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado
vento a derramar frescura.
Nova agonia o coração lhe aperta,Nostálgico, aspirando o fim de tudo...Nisto, um ligeiro frêmito o desperta,E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.
São passarinhos. Ei-los! Não têm medoVêm partilhar com ele o magro almoço.E, compassivo, espera imóvel, quedo,Que eles se vão, para roer um osso.
E o velho cão de pavoroso aspecto,Que nunca teve a graça de uns carinhos,Sentindo o peito a transbordar de afeto,Trêmulo escuta a voz dos passarinhos.
(Livro
das Crianças — 1897)
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Zalina Rolim: poetisa e educadora [biografia
e poesia] — Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, 2008, Editora Ottoni, Itu — SP; Maria
Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 — 1961), paulista de Botucatu, foi professora
alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para
crianças no país; passou parte de sua infância em Itapetininga, terra de seus
familiares, mas também morou em Itapeva [ex Faxina], Araraquara, São Roque,
Sorocaba e Itu, todas cidades do interior paulista, sempre acompanhando o pai,
então juiz de Direito e nomeado para estas localidades; em 1893, a educadora e
poeta mudou-se para a capital, São Paulo, quando o pai veio a assumir cargo no
Tribunal de Justiça estadual; Zalina Rolim só frequentou regularmente uma
escola em Itapeva, aos sete anos de idade e por um breve período, e ali também
aprendeu português, francês, italiano e inglês em aulas ministradas por João
Kopke [educador e escritor, 1852 — 1926]; no mais, todo seu aprendizado
cultural se deu em casa e sob a orientação direta do pai; na capital paulista,
foi pioneira na formação educacional do primeiro Jardim da Infância de São Paulo,
anexo à Escola Normal da Capital [depois, Escola Normal Caetano de Campos, hoje
Edifício Caetano de Campos, da Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da
República]; traduziu obras dos idiomas inglês e italiano, colaborou com a Revista
do Jardim da Infância, além de ter participado com adaptações e produções originais
de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897
— 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano, A Província de São
Paulo e A Cidade de Itu; suas obras: O Coração (poesias, 1893), Livro das Crianças
(1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou);
a poeta e educadora, mesmo sem formação acadêmica oficial, exerceu funções
pedagógicas como auxiliar de diretoria na criação deste primeiro Jardim de
Infância paulistano; hoje há na cidade de São Paulo duas instituições com seu
nome: Escola Estadual Dona Zalina Rolim [Rua Luís Carlos, 740 — Vila
Aricanduva] e... isto é, havia... pois em pesquisa googleana, o atrevidíssimo
aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa descobriu, através de página da
prefeitura de São Paulo, que o Espaço de Leitura Zalina Rolim [Rua Corredeira,
26 — Vila Mariana] encontra-se permanentemente desativado [notícia de fevereiro
de 2023].