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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cruz e Sousa: O padre

 
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A João Lopes

Um padre escravocrata!... Horror!

          Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...
          Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o  Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.
          Um escravocrata de... batina e breviário... horror!
          Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo...
          Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência.
          Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.
          Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio  Hodie mihi cras tibi.
          Um padre que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.
          Ela há de fazer-se malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia, mais do que os esforços físicos o fio condutor da restauração política de um país!...
          O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disse-o um moço de alevantado talento, Artur Rocha.
          Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.
          Mas com a palavra educada, vibrante essa palavra que fulmina profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin.
          Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo — depois do sol.
          A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.
          Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.
          Um riso aberto, franco, eloquentemente sinistro.
          O riso das trevas, na noite do calvário.
          O riso de um inferno... dantesco.
          Ouves, padre?...
          Compreendes, sacerdote?...
          Entendes, apóstolo?...
          Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz, o filho de Maria?...
          O filho de Maria, sabes?!...
          Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino...
          Lembras-te?!...
          Era tão triste aquilo...
          Não era padre, ó padre?!...
          Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica frenética, os mesmos arrancos informes de um escravo?...
          Não compreendes se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o remorso, o aguilhão da tua consciência, se abrirão nuns gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?...
          Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...
          Pois tu, nunca choraste?!...
          Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História?
          Nunca?!...
          Sim, tu estás comigo, padre!...
          Estás!...
          És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N. S. da Conceição.
          Eu sei disso!...
          Olha, quando morreres se é que morres, irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas:
           Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...
          Requiescat in pace!...
          Que bonito será, não!...
          E depois o céu!
          Sim, porque tu irás para o céu!
          Não crês no céu, padre?
          Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio...
          Tu és bom...
          Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!...
          Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...
          Mas, escuta, vem cá:
          Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul.
          O Azul!...
          Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...
          Pois façamos uma cousa:
          Eu escrevo um livro de versos que intitularei:

O abutre de batina

puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta, tipo elzevir, papel melado e ofereço-to, dou-to.
          Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...
          Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.
          Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer.
          Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a ideia que se avigora.
          Talvez digas, mastigando o teu latim:  Primo vivere deinde philosophari.
          Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol...
          Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...
          Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas.
          Pode ser...
          Há cegos de nascença que veem... pelos olhos da alma.
          E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma...
          Compreendes?...
          Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.
          Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...
          Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco.
          Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro de Edgar Poe.
          É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz...
          Sejam-te as virtudes teologais, padre, a liberdade, a igualdade e a fraternidade maravilhosa trilogia do amor.
          Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias artérias da verdadeira Filosofia Universal.

[texto publicado em Tropos e Fantasias — 1885]

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Henrique de Resende: Senzala

 
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A Mario de Andrade

Senzala da fazenda dos meus avós...
Vão-se desmoronando pouco a pouco
as tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares.

Mas ainda és, no teu desmoronamento,
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós.

Senzala da fazenda...
As tuas ruínas ainda estão impregnadas do sangue machucado
dos negros que gemeram nos teus troncos,
sob o chicote ameaçador dos homens brancos feitores da fazenda.

Mas tudo isso há de desaparecer um dia.

As tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares,
ruínas ainda impregnadas do sangue e do suor dos escravos
lembram os gemidos que se perderam pelos teus cubículos de tabique;
e as lágrimas que rolaram pelo teu chão de terra socada;
e o relho de três tranças dos algozes feitores da fazenda;
e os gritos lancinantes que vararam o horror das tuas trevas;
e a mancha apagada que ficou na braúna dos teus troncos.

Mas bendito seja Deus! as tuas ruínas desaparecerão um dia
na bruma longínqua da história dos tempos.

E então se apagará também, esse dia, na minha memória
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós...

(Revista Verde, ano.1, nº 4, p. 20, dezembro de 1927.)
(Poemas Cronológicos — 1928)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

domingo, 26 de outubro de 2025

James Weldon Johnson: Mãe Preta

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Ó enluarada cabeça envolta em alegre turbante,
Ó manso semblante escuro, ó tôsca, mas afetuosa mão,
E cujos filhos são hoje os senhores da terra!
Foi o teu regaço que agasalhou, também, estas crianças,
Os teus olhos que se seguiram durante toda a sua infência
E era no teu peito que, outrora, elas sugavam a sua robustez.

Quantas vezes ao colo não estreitaste,
Quantas vezes não tiveste de encontro ao teu amplo e noturno seio
A áurea cabeça, a fronte e o rosto de neve,
Dele ressaindo como um camafeu tocado de vida!
Ó alma simples, enquanto essa criança acalentavas
Com teu doce canto, tão plangente e agoniado,
Jamais te acudiu à mente, como súbita punhalada,
Que um dia ela esmagaria o teu próprio filho negro?


The Black Mammy

O whitened head entwined in turban gay,
O kind black face, O crude, but tender hand,
O foster-mother in whose arms there lay
The race whose sons are masters of the land!
It was thine arms that sheltered in their fold,
It was thine eyes that followed through the length
Of infant days these sons. In times of old
It was thy breast that nourished them to strength.

So often hast thou to thy bosom pressed
The golden head, the face and brow of snow;
So often has it 'gainst thy broad, dark breast
Lain, set off like a quickened cameo.
Thou simple soul, as cuddling down that babe
With thy sweet croon, so plaintive and so wild,
Came ne'er the thought to thee, swift like a stab,
That it some day might crush thine own black child?
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversas autorias], edição bilíngue, Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, Coleção Antologia de Poetas Universais — volume 599, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; James Weldon Johnson (1871 1938), estadunidense de Jacksonville  Flórida, estudou “literatura inglesa e a tradição musical europeia” na Stanton School [primeira escola pública para crianças negras na Flórida e única escola secundária voltada aos negros no país], graduou-se e fez mestrado em Leis nas universidades de Atlanta e Columbia, exerceu as funções de cônsul estadunidense na Nicarágua e na Venezuela, foi poeta, romancista, compositor, antologista, professor, jornalista, advogado e líder militante pró direitos civis da população negra nos EUA; dirigiu a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP); em 1891 começou a lecionar na Geórgia; em 1895, fundou o Daily American, primeiro jornal diário direcionado aos negros nos Estados Unidos; foi pioneiro nos estudos da cultura negra (poesia, música e teatro), os quais, na década de [19]20, eram apresentados a muitos brancos americanos, o “rico espírito criativo afro-americano”; em 1897, James W. Johnson foi o “primeiro advogado negro admitido na Ordem dos Advogados da Flórida desde a Reconstrução” e passou a exercer advocacia; em 1906, já empregado no corpo diplomático, teve poemas publicados no The Century Magazine e no The Independent; em Nova York, foi redator editorial do New York Age, “o jornal negro mais antigo”; suas obras: escreveu e editou The Autobiography of an Ex-Colored Man (romance publicado anonimamente, Sherman, French & Company, 1912) Fifty Years and Other Poems (1918), The Book of American Negro Poetry (Harcourt, Brace and Company, 1922), The Book of American Negro Spirituals (Viking Press, 1925), The Second Book of American Negro Spirituals (Viking Press, 1926), God’s Trombones: Seven Negro Sermons in Verse (poemas, Viking Press, 1927), Saint Peter Relates an Incident of the Ressurrection Day (coletânea de poesias, sátiras, 1930), Along This Way: The Autobiography of James Weldon Johnson (autobiografia, 1933) e outros textos em prosa e verso; em 1900, o poeta e ativista negro também fora coautor da canção Lift Every Voice and Sing, popularizada como Hino Nacional Negro, elaborada em parceria de seu irmão e musicista John Rosamond Johnson [juntos, compuseram outras duas centenas de canções e operetas para a Broadway novaiorquina]; organizou paradas, marchas e protestos pró negros, denunciou violências e linchamentos contra afro-americanos, recebeu premiações.

domingo, 4 de maio de 2025

Cruz e Sousa: Dor negra

 
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E como os Areais eternos sentissem
fome e sentissem sede de flagelar,
devorando com as suas mil bocas
tórridas todas as rosas da Maldição e
do Esquecimento infinito, lembraram-se,
então, simbolicamente da África!

Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em vão milenariamente?!
          Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas, impassíveis, já sem dúvida que por milênios se sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais original, mais nova Dor.
          O que canta Réquiem eterno e soluça e ulula, grita e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana, acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferro em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo argiloso dos cemitérios do teu Sonho.
          Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas, cristalização d'esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo para sofrer sem piedade a agonia de uma Dor sobre-humana, tão venenosa e formidável, que só ela bastaria para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito galopam, galopam, colossais, colossais, colossais...

(edição póstuma, Evocações — 1898)

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

domingo, 23 de junho de 2024

Juvenal Galeno: O escravo suicida

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Liberdade!... Liberdade!...
Já diviso a tua luz!
Neste mundo de maldade
Vou deixar a minha cruz!
Vou ser livre! À luz d’aurora,
Da raça que me devora
Cativo já não serei!
E sim livre, e sim ditoso,
Da liberdade no gozo,
Noutro mundo, noutra grei!
Que só vive aqui o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vou ser livre... não é crime
Esta cadeira quebrar;
A quem da infância s’exime
Não pode Deus condenar!
E quando fosse um delito?...
Perdoaria ao aflito
O meu divino Jesus!
Pai do céu! Quanto eu sofria...
Não era Deus, não podia
Carregar tamanha cruz!
Não pude mais!... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Fugi dos brancos algozes,
Daquela taça de fel!
Além de açoites atrozes
A objeção mais cruel!
Oh, sim, meu Deus! Mais um dia
A sorte que me oprimia
Foi-me impossível sofrer!
Fome, sede, insultos, dores...
Do meu senhor os rigores...
Sem tréguas o padecer!
Perdoai-me, pois! Não vive
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Assim ao Deus de bondade
Direi gemendo a chorar,
Ele, a suma piedade,
O meu pranto há de enxugar;
Serei salvo... em santo abrigo,
Bem longe deste jazigo,
Que me causa tanto horror!
Feliz então, meu destino
Sem o chicote ferino
Com que me açoita o feitor!
Vivendo... pois vive o livre,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... salvo... perdoado...
Em breve, em breve serei!
E se fosse condenado
Nada eu perdia... bem sei!
Pois do inferno os tormentos
Não podem ser mais cruentos
Quais os que eu sofro aqui;
Mas o meu Deus é clemente...
Se me julga delinquente,
Sabe quanto eu padeci!
Serei salvo... vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... e salvo! Adeus, torturas
Que neste mundo provei
Adeus, cruéis amarguras,
Adeus, campos que eu lavrei...
Suando suor de sangue,
Açoitado, vil, exangue...
Chorando mudo e feroz!
Adeus, adeus, ó, parceiros,
Na desgraça companheiros...
Rogarei no Céu por vós...
Que não viveis... pois não vive,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, sol que me queimavas
No campo sem compaixão,
Que minhas chagas secavas
Do chicote e do grilhão;
E tu, lua traiçoeira,
Que a minha afeição primeira
Descobriste ao meu senhor...
Que escarneceu-se nefando,
Ao mesmo tempo açoitando,
A virgem do meu amor!
Adeus, adeus... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vento ingrato... tu que irado
Meus trapos vinha rasgar,
E depois quase gelado
Me fazias tiritar...
Adeus, pra sempre! E tu, noite,
Que me livraste ao açoite
Em teu véu de minha cor!
Adeus, humana fereza,
Adeus, mundo de torpeza,
Vergonha, prantos e dor!...
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, mundo! À luz do dia
Bem longe... longe estarei;
Aqui na mata sombria
Este corpo deixarei:
Neste galho pendurado
Ficará para legado
Do branco que me comprou!
Ferido, magro, mirrado...
Assim o deixo ao malvado,
Que sem pena o maltratou!
Que legue melhor o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É pobre, sim, o legado...
Magro corpo... quase nu!
Quem o tornou neste estado?
Foi tu, ó branco, foi tu!
Assim, pois, recebe-o agora
É teu... compraste-o... devora
Aquilo que te custou!
Devora... corvo funesto,
Devora... consome o resto,
Que o teu chicote deixou!
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É tempo... desponta a aurora...
Fiz o laço... pronto estou!
Em menos de um quarto d’hora,
Grande Deus, convosco, sou!
Mundo torpe... cativeiro...
Ímpio branco e carniceiro...
Vinde ouvir-me: maldição!
E tu, salve, ó liberdade!
Vou entrar na eternidade...
Santo Deus... Vosso perdão!
É tempo... só vive o livre,
O escravo não!
Eis me salvo deste inferno...
Já não sinto... a escravidão!

(Lendas e canções populares, 2ª ed., 1892)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, fez seus estudos primários numa escola de Pacatuba, cursou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872), Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Lima Barreto: Bendito futebol


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          Não há dúvida alguma que o futebol é uma instituição benemérita cujo rol de serviço ao país vem sendo imenso e parece não querer ter fim.
          Com a citação deles podíamos encher colunas e colunas desta revista, se tanto quiséssemos e para isso nos sobrasse paciência.
          Não é preciso. É bastante elucidativa a enumeração de alguns principais. Um deles, se não o primordial, é ter trazido, para notoriedade das páginas jornalísticas e das festanças e rega-bofes1 dos Césares2 destas bandas, nomes de obscuros cavalheiros, doutores ou não, sequiosos de glória, que, sem ele, não teriam um destaque qualquer, fosse de que natureza fosse.
          Um outro é ter permitido que os trabalhadores de ofícios em que se exige grande força muscular nas pernas e nos pés, tais como: o de caixeiro de bancos, o de empregado em lojas comerciais e em escritórios, o de funcionário público, o de estudante e o de profissional do “desvio”, realizassem as suas respectivas profissões com perfeição e segurança de quem dispõe de poderosos “extensores”3, “pediosos”4, “perônios”5, “tíbias”6 etc. etc.
          Não falemos da gesticulação e falatório dos “torcedores” e “torcedoras”, nem dos soberbos rolos que coroam partidas magistrais.
          Além daqueles ótimos serviços, que citamos, prestados, pelo futebol, à Pátria e à mocidade brasileira de mais de quarenta anos, falemos de um terceiro mais geral de que todos nós brasileiros lhe somos devedores: ele tem conseguido, graças a apostas belicosas7 e rancorosas, estabelecer não só a rivalidade entre vários bairros da cidade, mas também o dissídio8 entre as divisões políticas do Brasil. Haja vista o que se tem passado entre São Paulo e Rio de Janeiro e vice-versa, por causa do jogo de pontapés9 na bola.
          O futebol é eminentemente um fator de dissensão10. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização das turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu primeiro suelto11 de 17 de setembro, aludiu ao caso. Ei-lo:
          0 Sacro Colégio do Futebol reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro homens de cor, enfim.
          A Igreja fazia, fez ou faz uma indagação semelhante que tinha o nome, se a minha ignorância não me trai, de processo de puritate sanguinis12. Isto, porém, ela fazia para os candidatos a seu sacerdócio coisa extraordinariamente diversa de um simples habilidoso que sabe, com mestria e brutalidade, servir-se dos pés, como normalmente os homens fazem com as mãos, para jogar bolas de cá para lá, da esquerda para adiante, de trás para frente e vice-versa. O sacerdote é o intermediário entre Deus e os homens; um futebolesco, o que é? Não sei.
          O conchavo13 não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República. Sua Excelência, que está habituada a resolver questões mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem comparecer às recepções de palácios; as regras de precedência, que convém sejam observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em solucionar a grave questão. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano. É verdade, aduziu14 ainda, que os estrangeiros possuem os retratos dos nossos senadores, dos nossos deputados, dos nossos lentes e estudantes, dos nossos acadêmicos etc. etc., mas são fatos domésticos com os quais nata têm a ver os estranhos; porém, fez Sua Excelência com ênfase, numa representação nacional, não é decente que tal gente figure. É verdade que o Senado, a Câmara são, mas... não vem ao caso.
          Concordaram todos aqueles esforçados cavalheiros que trabalham “pedestremente”15 pela prosperidade intelectual e pela grandeza material do Brasil; e, como complemento da medida, decidiram nomear uma comissão de antropólogos para examinar os “Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários da Pátria”, ao certame de junta-pés, na República Argentina. Sabemos que de tal comissão fazem parte as grandes inteligências arianas16 e ilustres desconhecidos: Senhores Anastácio, Zebedeu Palhano e Juliano Qualquer, doutos todos em várias coisas e também deputados federais.
          A providência, conquanto perspicazmente eugênica17 e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil; deve naturalmente causar desgosto, mágoa e revolta; mas o que se há de fazer? O papel do futebol, repito, é causar dissensões no seio da nossa vida nacional. É a sua alta função social.
          O que me admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebolescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna18, o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro que tivesse tão malsinada19 origem. Aceitam-no, entretanto, cheios de satisfação.
          Não foi à toa que Vespasiano disse a seu filho Tito que o dinheiro não tem cheiro. Havia um remédio para resolver esse congesto20 estado de coisas: o governo retirava do doutor Belisário Pena as verbas com que ele socorre as pobres populações rurais, flageladas por avarias endêmicas21 que as dizimam ou as degradam; e punha-as à disposição do futebol.
          Dava-se o seguinte: o futebol ficava mais rico e mais branco; e a gente de cor, de que se compõe, em geral, os socorridos por aquele doutor, acabava desaparecendo pela ação da malária, da opilação22 e outras moléstias de nomes complicados que não sei pronunciar e muito menos escrever.
          O governo, procedendo assim, seria lógico consigo mesmo. Lógico é querer conservar essa gente tão indecente e vexatória, dando-lhes médico e botica23, para depois humilhá-la, como agora, em honra do futebol regenerador da raça brasileira, a começar pelos pés. “Ab Jove principium...”24
            Os maiores déspotas e os mais cruéis selvagens martirizam, torturam as suas vítimas; mas as matam afinal. Matem logo os de cor; e viva o futebol, que tem dado tantos homens eminentes ao Brasil! Viva!

P.S. A nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores: todos nós, para eles, somos macaquitos. A fim de que tal não continue seria hábil arrendar, por qualquer preço, alguns ingleses que nos representassem nos encontros internacionais de futebol.
          Há toda a conveniência em experimentar. Dessa maneira, sim, deixávamos todos de ser macaquitos, aos olhos dos estranhos.

[revista] Careta, 01/10/1921


Notas da edição:
1. Rega-bofes: festas com farturas de comidas e bebidas
2. Césares: governantes
3. Extensores: músculos que estiram um membro
4. Pediosos: músculos do pé
5. Perônios: ossos da perna que ficam ao lado da tíbia, hoje conhecidos como fíbulas
6. Tíbias: ossos longos da perna
7. Belicosas: dispostas para a guerra
8. Dissídio: conflito de interesses ou opiniões, divergência
9. Jogo de pontapés: futebol
10. Dissensão: desentendimento
11. Suelto (esp.): pequeno artigo em que se apresenta o ponto de vista do jornal sobre o assunto de menor importância
12. Puritate sanguinis: pureza de sangue
13. Conchavo: acordo secreto
14: Aduziu: expôs
15. Pedestremente: modestamente
16. Arianas: relativas ao arianismo, teoria popularizada pelo nazismo que afirma a superioridade dos homens brancos e, entre estes, do antigo povo ariano (que se estabeleceram no Industão e iniciaram a civilização indo-europeia)
17. Eugênica: atenta ao melhoramento genético da espécie humana
18. Tisna: mancha
19. Malsinada: infeliz
20. Congesto: congestionado, circulação impedida pelo acúmulo de coisas
21. Endêmicas: doenças que se alastram num povo ou numa região
22. Opilação: denominação dada, no Brasil, à ancilostomíase
23. Botica: farmácia
24. Ab Jove principium (lat.); desde o início
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Lima Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas, Glossário 'Elenco de nomes, títulos e lugares' e Edição sob os cuidados de Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.