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Estende o manto, estende, ó Noite escura
enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem co'o pesar dum desgraçado,
a quem nem feições lembram da Ventura.
Nubla as estrelas, Céu; que esta amargura,
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha Desventura.
Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão em ocos rochedos,
solte-se o Céu em grossas lanças de água:
consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto,
de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho,
1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Manuel do Nascimento (1734 — 1819), português
e lisboeta, conhecido literariamente pelos pseudônimos Filinto Elísio ou Niceno, foi sacerdote,
poeta do Arcadismo, prosador e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve
que fugir para Paris — França e ali viveu até sua morte; durante o exílio,
Filinto Elísio ocupou-se como tradutor, para sobreviver, pois todos seus bens
haviam sido sequestrados; escreveu e publicou: Obras Completas (11 tomos, 1817 —
1819), Vida e Feitos de D. Manuel; traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand
(‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) ... e verteu para o francês, Mariana Alcoforado
(‘Lettres Portugaises’).









