Mostrando postagens com marcador Luis Fernando Veríssimo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luis Fernando Veríssimo. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de maio de 2016

Luis Fernando Veríssimo: Livre

____________________
                    Decidi renunciar à civilização e seus descontentamentos. Deixo minhas posses para a financeira, minha conta bancária para o imposto de renda, meu seguro de vida e meu exemplo para a família e minhas dívidas para a posteridade. Rasgarei, em ato público, minha carteira de identidade, minha carteira profissional, meu passaporte, meu atestado de vacinação, licença de motorista, meu título de eleitor, meu certificado de reservista e meu cartão do Touring. Peço que minha carteira do INPS e meu cartão do CIC sejam queimados e as cinzas espalhadas ao vento. Que meu nome seja sumariamente riscado de todos os cadastros. Depois de dois milhões de anos, volto para o jângal, de onde nunca devia ter saído.
                    Empenhe-se meu relógio e leiloe-se minha coleção da “Playboy”. Há um resto de Ballantine na  cozinha, que deve ser dividido entre os amigos depois que eu me for. Meus vinhos para o povo. Do guarda-roupa levo apenas o suficiente para chegar, com um mínimo de recato, até Manaus. Depois a nudez e a selva. Queimem-se minhas três gravatas.
                    Meus livros? Queimem-se todos. Não. Vou precisar de alguma coisa para ler no avião. Deixa um policial qualquer, não quero nem saber o título. Não, esse não. Levo todos os meus livros, isso. Vou desaprender a ler assim que me instalar na minha clareira na Amazônia. Começarei com a “Crítica da Razão Pura” * e irei desaprendendo, desaprendendo até a cartilha. Só serei livre quando Eva, a uva e vovó não significarem nada além de riscos pretos numa página branca, e aí queimarei a página. Com quê? É bom levar fósforos, não sei se vou conseguir fazer fogo por fricção. Aliás, tem um livro aí que ensina a sobreviver na selva. Esse é melhor guardar.
                    Vão pedir meus documentos para embarcar no avião. E se eu dissesse, simplesmente,  "sou um ser humano, sem nome e sem número, meu único documento é esta cara honesta?". Me prendiam, claro. Levo a carteira de identidade. A última concessão. Depois, a liberdade.
                    Já sei!  Vou de carro. Sem parar. Desbravarei matas e pradarias com o meu temível Passat. O meu adeus à engenharia alemã. Irei largando peças e acessórios pelo caminho. Me despindo, simbolicamente, de camadas de civilização. Chegarei à selva montado num esqueleto de máquina, que enferrujará lentamente na umidade, enquanto eu reaprendo a andar sobre os dois pés nus. O homem, que sobreviveu ao dinossauro, certamente sobreviverá ao Wolkswagen.
                    Agora me dei conta que vai ter espinhos no chão e coisa pior. Melhor levar um estoque de sandálias para os primeiros anos. E quem sabe um bom impermeável. Outra coisa, vou precisar de dinheiro para comida, gasolina e pneus no caminho. E minha licença de motorista. E, por via das dúvidas, carteira do Touring.
                    Então, vamos ver: Livros, fósforos. licença, Touring, sandálias, dinheiro...e só. Nada mais. Queime-se o resto. Vivi milhares de anos sem máquinas e roupas feitas, posso fazer o mesmo outra vez. Me bastam os dentes, o dedão opositor e a imaginação. Vou precisar de relógio, claro. E de uma bússola para me orientar na selva até aprender a ler a direção nas estrelas e cheirar o vento. Depois, de cultura só me bastará o olfato.
                    Uma machadinha, um facão, uma lanterna e um estoque de pilhas até que eu aprenda a enxergar no escuro. Pregos e martelos pra construir um abrigo. Um canivete suíço. E nada mais. Livre. Só comerei o que caçar e pescar com as próprias mãos. Beberei a água pura das vertentes. Cozinharei a carne e o peixe em espetos de pau-brasil. Vou precisar de sal. Umas latinhas de ervilha, um patezinho, e, muito importante: um abridor de latas. Puxa, e cerveja. E nada mais.
                    Um homem sozinho com sua fibra e seu poder criador. Só voltarei à civilização se precisar ir ao dentista. Outra coisa: rede de mosquito. E band-aid. Contarei os dias pela passagem do Sol e os meses pelas fases da Lua. Aparelho de barbear, lâminas, loção. Me banharei na chuva. Sabonete, tesourinha para unhas. Aspirina. E pomada contra assadura.
                    Meu Deus, será que tem muita cobra?
                    Livre. Com uma televisãozinha portátil para não perder o futebol.

Resultado de imagem para luis fernando veríssimo


* Nota da OrganizaçãoTratado filosófico do pensador alemão Emmanuel Kant (1724  1804).
____________________
Crônica Brasileira Contemporânea Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo SP; Luís Fernando Veríssimo, nascido em 1936, gaúcho de Porto Alegre, fez e faz-se como escritor, tradutor, jornalista, cronista, humorista, chargista e outros istas, além de saxofonista; fez parte de seus estudos nos Estados Unidos, onde morou em virtude de seu pai (o escritor Érico Veríssimo) para ali ter-se transferido por razões profissionais; trabalhou no Zero Hora, de Porto Alegre  RS, e na Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo); seus textos restaram e restam presentes em muitos periódicos da imprensa nacional: revistas Playboy, Cláudia, Domingo (Suplemento dominical do JB) Veja, e jornais Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo; sua obra reunida em livros: A Grande Mulher Nua (1975), Ed Mort e outras histórias (1979), Sexo na cabeça (1980), O Analista de Bagé (1981), A Mesa Voadora (1982), A Velhinha de Taubaté (1983), A Mulher do Silva (1984), A Mãe de Freud (1985), Comédias da Vida Privada (1985), Aquele estranho Dia que Nunca Chega (1999), As Cobras, romances: O Jardim do Diabo (1987), Guia O Clube dos Anjos (1998), Borges e os Orangotangos (2000), O Opositor (2004), poesia: Poesia numa hora dessas?! (2002), infanto-juvenis: O arteiro e o tempo (ilustrações de Glauco Rodrigues), O Santinho (ilustrações de Edgar Vasques e Glenda Rubenstein), Pof (ilustrações do autor) e tantos outros textos, publicações em antologias e republicações; é tido como um dos autores mais editados hoje; recebeu premiações (Juca Pato e Jabuti de Literatura).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Luis Fernando Veríssimo - O Lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

 Bom dia...
 Bom dia.

 A senhora é do 610.
 E o senhor do 612.

 É.
 Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...

 Pois é...
 Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...

 O meu quê?
 O seu lixo.

 Ah...
 Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...

 Na verdade sou só eu.
 Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.

 É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
 Entendo.

 A senhora também...
 Me chame de você.

 Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
 É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

 A senhora... Você não tem família?
 Tenho, mas não aqui.

 No Espírito Santo.
 Como é que você sabe?

 Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
 É. Mamãe escreve todas as semanas.

 Ela é professora?
 Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?

 Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
 O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

 Pois é...
 No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.

 É.
 Más notícias?

 Meu pai. Morreu.
 Sinto muito.

 Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
 Foi por isso que você recomeçou a fumar?

 Como é que você sabe?
 De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

 É verdade. Mas consegui parar outra vez.
 Eu, graças a Deus, nunca fumei.

 Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
 Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.

 Você brigou com o namorado, certo?
 Isso você também descobriu no lixo?

 Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
 É, chorei bastante, mas já passou.

 Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
 É que eu estou com um pouco de coriza.

 Ah.
 Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

 É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
 Namorada?

 Não.
 Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

-Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
 Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

 Você já está analisando o meu lixo!
 Não posso negar que o seu lixo me interessou.

 Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
 Não! Você viu meus poemas?

 Vi e gostei muito.
 Mas são muito ruins!

 Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
 Se eu soubesse que você ia ler...

 Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
 Acho que não. Lixo é domínio público.

 Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
 Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

 Ontem, no seu lixo...
 O quê?

 Me enganei, ou eram cascas de camarão?
 Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

 Eu adoro camarão.
 Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...

 Jantar juntos?
 É.

 Não quero dar trabalho.
 Trabalho nenhum.

 Vai sujar a sua cozinha?
 Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

 No seu lixo ou no meu?
____________________
Esta crônica-diálogo, um texto do livro "O analista de Bagé", de autoria de Luis Fernando Veríssimo, foi lida por Genésio dos Santos e Denise de Paula, em 17.10.2009, no 3° Sarau no Quintal realizado no Espaço-residência de Marcia Cherubin e Silvio, em Santo André - SP.