segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

P. da Silva: A mão que balança o balanço

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(Indagações em cima de um balanço ou especulações em torno de uma palavra)

De quem é a mão

que balança o balanço?
É de algum gerente
escolhido a dedo

ou de um contador
que, tão gabaritado,
é cheio de diplomas.
Não serão mais mãos?

O que é um balanço
e quando ele se faz?
De seis em seis meses?
De ano em ano

ou de quatro em quatro?
Quem lança os dados
que saem no balanço
não comete erros?

A junção das contas
de todas as áreas
resultam em balanço
ou não resultam nada?

Como se mede um balanço?
Pelo patrimônio?
Por depósitos a vista?
Depósitos a prazo?

Pelo realizável
ou pelo irrealizado?
Pelas exigíveis
ou nada se exige?

O balanço mente?
Escancaradamente
ou furtivamente?
Quem mente com ele?

Quem balança o balanço
não balança nunca?
E, se balança, cai?
Será que cai logo?

Cai no mês que vem
ou daqui a dez anos?
Quem audita o balanço
encontra divergências?

E, se encontra, audita?
Ou, se faz-de-conta,
quem audita o auditor?
O balanço tem base?

Tem sombra? Tem rímel,
lábios de batom?
Ele tem maquiagem?
Quem maquia o balanço?

E a oposição
faz o seu balanço?
Boca-no-trombone
ou boca-de-siri?

Balanço tem cor?
Se tem, é azul?
É verde-e-amarelo
ou tá no vermelho?

Se tá no vermelho,
quem balança?
Balança o caixa
que autentica menos

ou quem autentica mais
e adoece por LER?
E quem faz horas extras
faz seu mea-culpa?

Quem trabalha de graça
vê que não adianta:
balança o bancário 
com o desemprego,

a corda arrebenta
do lado mais fraco.
E o lado mais forte
não balança nunca?

Balançam estatais...
e as privadas? Balançam?
Fica como está
ou vai ter CPI?

O balanço é político
ou é econômico?
É questão nacional
ou cala-te-boca?

E no Banco Central,
ninguém balança?
Tudo como dantes
no quartel de Abrantes.

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Este texto-poema, de P. da Silva, foi publicado originalmente no jornaleco Na Moita (abril/1996), um devezenquandário que circulava nas seções da ex-Agência Centro do BB em São Paulo e agências adjacentes, cujos editores interinhos eram Genésio dos Santos e Jorge Nagao, ativistas da palavra; o mesmo poema (sem as estrofes 5, 6, 7, 14, 15 e 16) compôs a pág.22 da Revista if - Informação Financeira (n° 5, abril e maio de 1996, Editora IeA Ltda.) que teve como diretor responsável o economista Carlos Augusto Vidotto; na conjuntura da época, governo FHC, assistiu-se a quebra do Banco Econômico, de matriz baiana, da família Calmon de Sá, e também do Banco Nacional, de matriz mineira, da família Magalhães Pinto; na mesma época também nasceram o Proer e o Proes, dois programas do governo federal: um, o Proer, que incentivava fusões bancárias, socorrendo instituições financeiras privadas em apuros, e, outro, o Proes, que destinava recursos às estatais financeiras estaduais, com o objetivo de reduzi-las, extinguindo-as ou privatizando-as, quiçá saneando-as; ainda, na mesma conjuntura, veio à luz o que ficou conhecido como o "Dossiê da Pasta Rosa": conforme o que foi amplamente divulgado na mídia, tratava-se de um calhamaço, acondicionado numa pasta cor de rosa, que chegou às mãos do então interventor do Banco Central no Banco Econômico, Flávio Barbosa, e onde continha indícios e indicações de que a instituição financeira de matriz baiana, em 1990, patrocinara campanhas de vinte e cinco políticos, particularmente do Nordeste (à época era proibido pessoas jurídicas financiarem campanhas eleitorais); P. da Silva e Genésio dos Santos são um só poeta, um só cronista e uma só pessoa.