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Numa ilha fértil, solitária no
meio de um grande mar, vivia uma família ociosa, bem nutrida e agasalhada, que
se dizia dona e senhora de toda a ilha, proprietária das terras, casas,
choupanas, arados, gado, tudo.
Para manter essa família na mandriice e na
fartura, esfalfavam-se, desde manhã até a noite, meia dúzia de trabalhadores
ossudos, sujos, tostados do sol, mal alimentados e mal abrigados, eles, suas
mulheres e seus filhos. Só eles conheciam o seu trabalho, sabiam as épocas das
semeaduras, os modos de cultivar as terras, o manejo do arado e de todos os
instrumentos de trabalho e eram eles que entre si combinavam e distribuíam as
tarefas, ajuntando-se nas mais rudes, dividindo-se nas mais leves e curtas.
Quanto aos filhos do
patrão, em vez de ajudar, como faziam os filhos e as mulheres dos
trabalhadores, vinham estorvar e inquietar as pessoas e estragar as
sementeiras. E o proprietário, então? Esse não fazia mais que vigiar os
serviços, de mãos atrás das costas, dizendo de vez em quando, todo ancho e
satisfeito:
— Ah! Se não fosse eu, como haviam
vocês de viver?
E os pobres homens, muito humildes,
respondiam, descobrindo-se:
— É verdade, é verdade: se não fosse
o patrão que nos dá trabalho e nos sustenta, que havia de ser de nós?
Ora, um belo dia — belo no começo,
feio depois —, o proprietário foi com a família toda dar um grande passeio pelo
mar, na sua linda e veloz chalupa. E tendo-se afastado muito da costa,
sobreveio um grande temporal, que afundou a embarcação e afogou todos os que
nela iam. Dias depois, os trabalhadores horrorizados encontraram na praia os
cadáveres dos patrões, vomitados pelos vagalhões furiosos.
A princípio ficaram cheios de aflição
e parecia-lhes que estavam ao desamparo. Mas os trabalhos não pararam.
Acostumados a combinar e a distribuir entre si as tarefas, ajuntando-se nas
mais rudes, dividindo-se nas mais breves e fáceis, os trabalhadores da ilha
começaram a lavrar, a semear e a colher, a fiar e a tecer o linho e a lã, a
criar o gado, a manejar o arado, a foice e o tear — e a terra continuou a
produzir, os rebanhos a crescer e a multiplicar-se, o sol a brilhar sobre as
searas.
Os trabalhadores não tardaram a
reparar que tudo se fazia melhor do que antes, que já não tinham quem os
estorvasse e vigiasse, que comiam melhor, andavam mais agasalhados e tinham
melhor habitação e que podiam produzir mais e melhor. E por isso, no dia em que
fez um ano que a tempestade os livrara dos patrões, quando palestravam sobre o
caso e suas consequências, o mais velho disse tudo em poucas palavras:
— Que grandes cavalgaduras que nós
éramos!
Assim dirão os teus iguais, quando se
tiverem livrado dos amos, que, longe de serem úteis ou precisos, têm interesses
contrários aos teus e aos dos teus irmãos de trabalho.
Os amos querem pagar de salário o
menos possível, para ganhar o mais possível; e vós precisais de vos deixar
roubar cada vez menos nos frutos de vosso trabalho — e isso só o conseguis associados,
pois reparados, desunidos, nada podeis.
Os amos têm interesse em haver muitos
trabalhadores desunidos e muitos desocupados, para que as soldadas sejam
pequenas; e vós precisais de trabalhar todos, e de estar unidos, para não haver
quem tenha de aceitar uma côdea por qualquer escasso serviço que apareça.
Os amos, para vender caro e com
lucro, precisam de refrear a produção das coisas, de reter, enceleirar,
açambarcar os produtos, e até de os
deixar apodrecer; e vós quereis satisfazer as vossas necessidades. Assim é que
há tantas terras incultas, tantas máquinas inativas, tantos materiais
desempregados, quando há tanta gente a sustentar, a vestir e a abrigar e tantos
braços desocupados ou mal ocupados.
Vós fareis como os trabalhadores da
ilha; mas não podeis, como eles, contar com uma tempestade providencial. A
tempestade libertadora tereis de a preparar e fazer vós mesmos.
Tu e os teus iguais tendes de vos
associar desde já, ainda que não seja senão para resistir à constante ganância
dos amos, para estudar e defender os vossos interesses, para conhecer bem o
vosso trabalho e as vossas necessidades, assim como o melhor modo de arranjar e
combinar o primeiro e de satisfazer as segundas.
E assim, quando tiverdes a força e as
capacidades necessárias, com a ajuda indispensável dos vossos irmãos das
cidades, passareis a viver sem amos nem mandriões, e a arranjar tudo por vossas
mãos e vossa conta.
A Plebe (SP) (nova fase), ano III,
nº. 86, (13 abr.1935).

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Contos Anarquistas (diversos
autores), Organização, Introdução e Notas de Antonio Arnoni Prado e Francisco
Foot Hardman, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Neno Vasco
(1878 — 1920) ou Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos,
português de Penafiel, distrito do Porto, formado pela Faculdade de Direito do
Liceu, foi advogado, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo e militante
anarco-sindicalista; colaborou com o jornal lisboeta O Mundo, a revista A
Sementeira, também portuguesa, A Voz do Trabalhador, em São Paulo, tendo sido
fundador dos jornais Amigo do Povo, A Terra Livre, e lançado a revista Aurora,
periódicos de ideário anarquista; Neno Vasco viveu parte de sua vida e militância no
Brasil; bibliografia: A Academia de Coimbra ao Povo Português (1901), Pecado de
Simonia (peça teatral, 1907), Anedota em 1 acto (peça teatral, 1911), Geórgias:
ao trabalhador rural (1913), Da Porta da Europa — factos e idéias: a
questão religiosa, a questão política, a questão econômica
1911 — 1912 (1913), A Concepção Anarquista do Sindicalismo (1920),
Greve de inquilinos (farsa teatral em 1 acto, 1923); como tradutor, verteu para
a língua portuguesa Élizée Reclus — Evolução, Revolução e Ideal
Anarquista (1904) e o hino A Internacional (1909).