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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Alexandre O'Neill: Amigo

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Mal nos conhecemos
inauguramos a palavra “amigo”!

“Amigo” é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
“amigo” é o contrário de inimigo!

“Amigo” é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

“Amigo” é a solidão derrotada!

“Amigo” é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
“amigo” vai ser, é já uma grande festa!

(No Reino da Dinamarca — 1958)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Paulo Leminski: [meus amigos]

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meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança calor

meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão


[Não fosse isso e era menos/ Não fosse tanto e era quase, 1980,
Melhores poemas de Paulo Leminski (sel. Fred Góes e
Álvaro Marins), 6ª ed., São Paulo: Global, 2002, p.67.]
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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Paulo Leminski Filho (1944 1989), paranaense de Curitiba, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico e letrista; como seminarista da Ordem dos Beneditinos, no Mosteiro de São Bento em São Paulo, iniciou seus estudos de latim e grego; como judoca faixa-preta, estudou o idioma japonês e tomou contato com a cultura e a poesia do Oriente; participante do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, conheceu o poeta Haroldo de Campos, de quem se tornou amigo e parceiro em várias obras; cursou Direito e desistiu, cursou Letras e desistiu várias vezes; foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares, professor de judô, atuou em publicidade; após estréia com seus textos, na revista Invenção, do poeta Décio Pignatari, colaborou em outros periódicos e revistas de vanguarda; teve textos musicados e fez parcerias com Caetano Veloso e outros músicos, compositores e letristas; traduziu obras de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, Yukio Mishima, conhecedor que era dos idiomas inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol; suas obras: Matsuo Bashô (ensaio biográfico, 1983), Caprichos e Relaxos (poesia, 1983), Cruz e Sousa (ensaio biográfico, 1983), Descartes com lentes (conto, 1983), Jesus a.C. (ensaio biográfico, 1983), Agora é que são elas (romance, 1984), Anseios crípticos (1986), Leon Trotski: a paixão segundo a revolução (ensaio biográfico, 1986), Distraídos venceremos (poesias, 1987), Guerra dentro da gente (1988), Catatau (prosa poética experimental, 1989), 40 Clics (poesia, com fotografias de Jack Pires, 1990), La vie en close (poesia, 1991), Uma carta uma brasa através: cartas a Régis Bonvincino — 1976 a 1981 (1992), Metamorfoses: uma viagem pelo imaginário grego (1994), Winterverno (1994), O ex-estranho (1996) e outros; recebeu premiações por sua obra.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

joão cabral de melo neto: o ovo de galinha

 
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I
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.

[Serial, 1961 (Terceira feira), In: Poesia completa
e prosa (org. Antonio Carlos Secchin), 2ª ed.,
Rio de Janeiro: Nova Aquilar, p.178-9.]

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, fez seus estudos no Colégio Ponte d’Uchoa, dos Irmãos Maristas, ali concluiu o secundário, mudou-se para o Rio de Janeiro, concursou-se pelo Itamaraty, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, sendo considerado um dos maiores autores da poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941), Juan Miró (1952); Da função moderna da poesia (1957), ...; por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior, entre os quais o Prêmio Camões (1990), concedido pelo governo português a autores de língua portuguesa; foi eleito membro da ABL Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Alexandre O'Neill: Breve

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Bom, diz ele,
Dia!, diz ela.

Vamos?, diz ele,
Não!, diz ela.

Que há?, diz ele,
Nada!, diz ela.

Então, diz ele,
Adeus!, diz ela.

(A saca de orelhas —  1979)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Sophia de Mello Breyner Andresen: Dia de hoje & Coral

 
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Dia de hoje

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
florindo nas ondas, cantando nas florestas,
no teu ar brilham transparentes festas
e o fantasma das maravilhas raras
visita, uma por uma, as tuas horas
em que há por vezes súbitas demoras
plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
bailando na doçura
e na amargura
de serem perfeitas e de serem breves.

(Dia do Mar — 1947)

— o —

Coral

Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha

(Coral — 1950)

Sophia de Mello Breyner Andresen
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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Sofia de Mello Breyner Andresen (1919 2004), ou Sophia de Mello Breyner Andresen, portuguesa do Porto, iniciou seus estudos no Colégio Sagrado Coração de Jesus, estudou [de 1936 a 1939] Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, curso inconcluso, foi poetisa, contista, ensaísta, tradutora, militante antisalazarista e deputada socialista constituinte; colaborou na revista Cadernos de Poesia e relacionou-se com autores influentes e renomados, Ruy Cinatti e Jorge de Sena entre os quais; suas obras: em poesia: Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral (1950), No tempo dividido (1954), Mar novo (1958), Cecília Meirelles (ensaio, 1958), Cristo cigano (1961), Livro sexto (1962), Geografia (1967), Antologia (1968), Grades (1970), Dual (1972), O nome das coisas (1977), Navegações (1983), Signo (poemas, 1994), Primeiro livro de poesia (infanto-juvenil, 1999) ..., em prosa: Contos exemplares (1962), A fada Oriana (infantil, 1958), O Cavaleiro da Dinamarca (infantil, 1964), O rapaz de bronze (infantil, 1966), Histórias da terra e do mar (contos, 1984), Não chores, minha querida (teatro, 1993) ... e outros títulos em verso e prosa e para teatro; traduziu Shakespeare, Dante, Leif Kristianson e verteu para o francês, em Quatre Poètes Portugais (1970), poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa; obras da poetisa receberam traduções e edições alemãs, inglesas e italianas; premiações: Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores (pelo Livro Sexto, 1964), Grande Prêmio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (1992), Prêmio Petrarca Associação de Editores Italianos (1995), Prêmio da Fundação Luís Miguel Nava (1998), Prêmio Camões (primeira mulher portuguesa a recebê-lo, 1999) ...; a poetisa Sofia de Mello Breyner Andresen, após o 25 de abril de 1974, que deu fim ao regime ditatorial salazarista, foi eleita deputada constituinte pelo Partido Socialista.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Antonio Cicero: O país das maravilhas

 
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Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

(A cidade e os livros, Rio de Janeiro:
[Editora] Record, 2002, pág. 13.)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Antonio Cicero Correia Lima (1945 2024), carioca, fez seus estudos secundários em Washington, D.C, iniciou seu curso de filosofia no Rio de Janeiro (PUC e UFRJ), vindo a conclui-lo na Inglaterra (Universidade de Londres), depois fez pós-graduação pela Georgetown University, nos EUA, onde estudou Grego e Latim, foi compositor, poeta, crítico literário, filósofo, escritor e professor universitário; suas obras: O Mundo desde o Fim (ensaio filosófico, 1995), Guardar (poemas, 1996), A cidade e os livros (poemas, 2002), Finalidades sem fim (ensaio filosófico, 2005), Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo, 2010), Porventura (poemas, 2012), Poesia e Filosofia (ensaio filosófico, 2012), entre outros títulos, além de participações em coletâneas e em parceria de diversas obras reflexões filosóficas, poéticas e artísticas; lecionou Filosofia e Lógica em universidades do Rio de Janeiro, fez parcerias musicais com Waly Salomão, João Bosco, Adriana Calcanhoto, Lulu Santos e Marina Lima [sua irmã, e cantora], foi colunista da Folha de São Paulo; em 2017 tornou-se membro eleito da ABL Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 27; em outubro de 2024, o poeta, filósofo e escritor Antonio Cicero escreveu, em carta de despedida a seus amigos, que tinha sido diagnosticado com o mal de Alzheimer e que se encontrava na Suiça, optara pela morte assistida [eutanásia] e ali o procedimento de suicídio assistido é legalizado; sua morte foi anunciada em 23 de outubro.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

José Paulo Paes: A um recém-nascido

 
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Que bichinho é este
tão tenro
tão frágil
que mal agüenta o peso
do seu próprio nome?

É o filho do homem.

Que bichinho é este
expulso de um mar
tranqüilo, todo seu
que veio ter à praia
do que der e vier?

É o filho da mulher.

Que bichinho é este
de boca tão pequena
que num instante passa
do sorriso ao bocejo
e dele ao berro enorme?

É o filho da fome.

Que bichinho é este
que por milagre cessa
o choro assim que pode
mamar uma teta
túrgida, madura?

É o filho da fartura.

Que bichinho é este
cujos pés, na pressa
de seguir caminho
não param de agitar-se
sequer por um segundo?

É o filho do mundo.

Que bichinho é este
que estende os braços curtos
como se tivesse
já ao alcance da mão
algum dos sonhos seus?

É um filho de Deus.

(Prosas Seguidas de Odes Mínimas — 1992)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 — 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido devido a convivência com seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; suas obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos, ingleses ..., tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

domingo, 19 de janeiro de 2025

Fiama Hasse Pais Brandão: Da repartição das coisas & Os povos antigos traziam nas carroças . . .

 
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Da repartição das coisas

A criança levanta o olhar
e diz-me: “Avó, o teu jardim.”
como se eu possuísse
alguma coisa, algum ser,
uns nomes botânicos,
uma forma matizada
de muitos verdes.

[As Fábulas — 2002]

o

Os povos antigos traziam nas carroças . . .

Os povos antigos traziam nas carroças
os nomes e os objetos; colhiam nas árvores
nomes e alguns frutos, e dos mares
e das montanhas arrastavam
múltiplos nomes do ar e dos ares;
magnânimos, trocavam ou vendiam objetos,
porém davam as palavras.

[Cenas Vivas — 2000]

Fiama Hasse Pais Brandão
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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalhou como bibliotecária-arquivista do Centro de Estudos Linguísticos daquela instituição, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; tornou-se conhecida e reconhecida no ambiente das letras através da revista/movimento Poesia 61, com a publicação de Morfismos; em 1964, deu início às atividades no teatro e na dramaturgia, através de estágio no Teatro Experimental do Porto; colaborou nas revistas literárias Seara Nova, Cadernos do Meio-Dia, Brotéria, Vértice, Plano, Colóquio-Letras, Hífen, Relâmpago e A Phaia; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), O Aquário (narrativa, 1959), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), O Testamento (teatro, 1962), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), (Este) rosto (1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; premiações: Prêmio Revelação de Teatro (1961, pela peça Os Chapéus de Chuva), Prêmio Adolfo Casais Monteiro (1957, por Em cada pedra um vôo imóvel, obra de estréia), Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1996) e Prêmio Literário do P.E.N. Clube Português (2001, por Cenas Vivas).

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Paulo Leminski: Quando eu tiver setenta anos

 
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quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.

(Caprichos e relaxos — 1ª ed., 1983; 3ª ed,
São Paulo: [editora] Brasiliense, 1985, p. 35.)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Paulo Leminski Filho (1944 1989), paranaense de Curitiba, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico e letrista; como seminarista da Ordem dos Beneditinos, no Mosteiro de São Bento em São Paulo, iniciou seus estudos de latim e grego; como judoca faixa-preta, estudou o idioma japonês e tomou contato com a cultura e a poesia do Oriente; participante do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, conheceu o poeta Haroldo de Campos, de quem se tornou amigo e parceiro em várias obras; cursou Direito e desistiu, cursou Letras e desistiu várias vezes; foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares, professor de judô, atuou em publicidade; após estréia com seus textos, na revista Invenção, do poeta Décio Pignatari, colaborou em outros periódicos e revistas de vanguarda; teve textos musicados e fez parcerias com Caetano Veloso e outros músicos, compositores e letristas; traduziu obras de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, Yukio Mishima, conhecedor que era dos idiomas inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol; suas obras: Matsuo Bashô (ensaio biográfico, 1983), Caprichos e Relaxos (poesia, 1983), Cruz e Sousa (ensaio biográfico, 1983), Descartes com lentes (conto, 1983), Jesus a.C. (ensaio biográfico, 1983), Agora é que são elas (romance, 1984), Anseios crípticos (1986), Leon Trotski: a paixão segundo a revolução (ensaio biográfico, 1986), Distraídos venceremos (poesias, 1987), Guerra dentro da gente (1988), Catatau (prosa poética experimental, 1989), 40 Clics (poesia, com fotografias de Jack Pires, 1990), La vie en close (poesia, 1991), Uma carta uma brasa através: cartas a Régis Bonvincino — 1976 a 1981 (1992), Metamorfoses: uma viagem pelo imaginário grego (1994), Winterverno (1994), O ex-estranho (1996) e outros; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Antonio Cicero: Prova

 
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para José Miguel Wisnik

Traçada em vermelho sangue, a nota, sob
o triângulo retângulo formado
por uma dobra ao canto superior
direito da folha de papel almaço
pautado que suportara aquela prova
final de matemática, reprovava-o.
Justa recompensa para quem em toda
aula refolhando-se em si mesmo, sáfaro,
ensimesmado e contudo alienado
de si, não reconhece jamais a imagem
pura que dele o duro espelho cifrado
da matemática, ao refletir, refrange.
Distrai-se a ouvir sirenes, risos de moças
lá longe, lotações, bondes, bicicletas
a fugir da escola rumo a nebulosas
destinações. Vê que esqueceu a caneta.
Acha um toco de lápis que com os dentes
e as unhas aponta e, surdo para leis
que alguém que não ele mesmo delibere
gênio, deus, demônio, anjo, monstro ou rei ,
debruça-se em seu caderno a rabiscar
quiçá uma gramática especulativa
ou uma característica universal
excogitada por via negativa
e abstrusa, e acintosamente descura
das matérias do curso e dos professores
e alunos que o cercam e jamais capturam.

A sineta toca. Pelos corredores
pensa no pai, na mãe, na avó, no vexame
e na decepção de todos. Seu fastio
é enorme: despreza a vida e a gravidade
com que a encaram. Pondera o suicídio
e se sente mais leve. Pode atirar-se
do terraço do prédio do consultório
do seu dentista, alto sobre a cidade.
Fora da escola toma um sorvete e um ônibus
até o ponto final, no centro. Caminha
até o edifício, pega o elevador
até o último andar, depois ainda
galga um lance de escadas e alcança ao pôr
do sol a cidade alâmbar a seus pés.
Decide escrever uma carta ou uma nota
no próprio papel da prova, mas cadê
o toco de lápis? Largara-o na escola.
Resolve deixar para alguma outra hora
o suicídio. Dobra o papel, desdobra,
dobra e o solta a dar voltas, revoltas, voltas
acima de todas as coisas, gaivota.

(Teresa: revista de literatura brasileira, nº 4/5,
São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e
Vernáculas, Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas. Universidade de
São Paulo; Ed. 34, 2003, p. 302-3.)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Antonio Cicero Correia Lima (1945 2024), carioca, fez seus estudos secundários em Washington, D.C, iniciou seu curso de filosofia no Rio de Janeiro (PUC e UFRJ), vindo a conclui-lo na Inglaterra (Universidade de Londres), depois fez pós-graduação pela Georgetown University, nos EUA, onde estudou Grego e Latim, foi compositor, poeta, crítico literário, filósofo, escritor e professor universitário; suas obras: O Mundo desde o Fim (ensaio filosófico, 1995), Guardar (poemas, 1996), A cidade e os livros (poemas, 2002), Finalidades sem fim (ensaio filosófico, 2005), Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo, 2010), Porventura (poemas, 2012), Poesia e Filosofia (ensaio filosófico, 2012), entre outros títulos, além de participações em coletâneas e em parceria de diversas obras reflexões filosóficas, poéticas e artísticas; lecionou Filosofia e Lógica em universidades do Rio de Janeiro, fez parcerias musicais com Waly Salomão, João Bosco, Adriana Calcanhoto, Lulu Santos e Marina Lima [sua irmã, e cantora], foi colunista da Folha de São Paulo; em 2017 tornou-se membro eleito da ABL Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 27; em outubro de 2024, o poeta, filósofo e escritor Antonio Cicero anunciou, em carta de despedida a seus amigos, que tinha sido diagnosticado com o mal de Alzheimer e que se encontrava na Suiça, optara pela morte assistida [eutanásia] e ali o procedimento de suicídio assistido é legalizado; sua morte foi anunciada em 23 de outubro.