quinta-feira, 29 de junho de 2017

Augusto dos Anjos: O morcego

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Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. 
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: 
na bruta ardência orgânica da sede, 
morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
e olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
a tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
imperceptivelmente em nosso quarto!

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Livro dos Poemas — uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884  1914), paraibano de Sapé, antiga Cruz do Espírito Santo, formado em Direito pela Faculdade de Recife, foi professor e poeta, tendo publicado em vida sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Rubens Rodrigues Torres Filho: mas o cisco

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Corre o risco de escrever.
O risco da escrita corre
pela página deserta
se meu coração disserta
sobre o susto de viver.

Mas o cisco de entrever
colhe o disco da pupila
nos sulcos do acontecido
no giro do acontecer.

A trama  o texto  tecido
na ponta dos atros dedos
ao fio dos medos ingratos
corre os riscos correlatos:
ir & voltar. Ler. Reler.

O vôo circunflexo — 1981

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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Hermes Fontes: Pavão

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Ave-orgulho, ave-pompa, ave que abre e desata,
na opulência de tons, a plumagem-palheta,
palheta de Rembrant, detalhadora e exata
em cores branca, azul, verde, áurea, roxa ou preta.

E ostenta, além da cor, o esmalte, que arrebata
como o alado painel de qualquer borboleta
que, na sua expansão alígera e insensata,
mil sensações visuais nos realize ou prometa.

A cauda, policroma e farta, um leque imita,
semicírculo irial que ao arco-íris esgota
toda a coloração efêmera e infinita...

Entanto ave oca de alma, horror de quem a escuta! 
Voando  o pavão não vale uma simples gaivota...
Cantando  oh! antes fosse a mudez absoluta!...

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Livros dos Poemas uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre RS; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), nascido em Buquim SE, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, poeta e jornalista, foi um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), Lâmpada Velada (1922) entre outros.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sosígenes Costa: Os Pássaros de Bronze

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Bronze no ocaso e vinhos no horizonte.
E o mar de bronze e sobre o bronze os vinhos.
No rei das aves o poder do arconte
E o sangue azul nos rubros passarinhos.

No meu telhado eu vejo em vossa fronte,
meu cardeal, o rubro entre os arminhos.
Pintou Bronzino esses três reis da fonte:
bronze nas asas, no diadema os vinhos.

O bronze imperial lá está na ponte.
E o bronze voa e esses três reis sozinhos.
Bronzes ao longe e outros no mar defronte.

E o bronze abrasa os pássaros marinhos.
E os reis do ocaso, as aves de Belmonte,
cantando ostentam seus brasões e arminhos.

1959

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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa  José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 10 de junho de 2017

Maurício Alvim: josé

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Escuta, menino.
É preciso que segures o formão na inclinação exata
para que da madeira extraias a obra
A tua vontade,

Não violes as veias.

Não me olhe com incredulidade
Aprende o ofício.

Pra que sonhos maiores?
A marcenaria é em si o sonho da criação.
Construa mesas
          Não te interesses por quem nelas ceia.

Camas
          Sem te incomodar pelos ais de amor que lá purgarão
                    ou pelos que nelas deitarão o sono profundo.

                               Cedros, carvalhos, ciprestes e pinheiros
                               Amieiros, plátanos, choupos, alforraveiras e maquis.
                               Cada uma guarda uma alma
                                                     não as desfigures.
                                          Serão descansos de teus braços
                                                      e suportes dos suplícios.

Multiplica portas, janelas, bancos
Não te metas com pães
e peixes.

Escolhe amigos que não te sigam,
mas amparem.
Deixa Roma na sua paz.

A ânsia de cura cega teus olhos
A mim mesmo não manterás vivo.
Seduzido pela estrada.

Dê-me teu abraço.

Não te importem histórias de espíritos santos
ou quaisquer outras
           É o trabalho que conta
E filho é aquele a quem ensinamos o próprio ofício.
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Testamentos, canto às putas e outras coisas escritas poesias, sem data, etc. editora, São Paulo SP; Maurício Alvim, nascido em 1958, paulista e paulistano, formado em História na PUC Pontifícia Universidade Católica de São Paulo SP, bancário, militante sindical e poeta, escreveu Testamentos, canto às putas e outras coisas escritas.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Machado de Assis: A uma senhora que me pediu versos *

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Pensa em ti mesma, acharás
        Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
        Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
        Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
        Melancolia.

Uma só das horas tuas
        Valem um mês 
Das almas já ressequidas.

        Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
        Para outras vidas. **

Ocidentais — 1880

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Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Soneto de metros desiguais: os versos ímpares têm 7 sílabas, os pares, 4;
** Outras vidas... capazes de apreciá-los, e não para mim ou os tristes como eu.
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Machado de Assis — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 82, Seleção, Apresentação e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sosígenes Costa: É uma Glória da China a Porcelana

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O azul celeste dessa paz da China
cintila no esplendor da porcelana.
Nem rosa, nem lilás e nem bonina
a formosura dessa luz empana.

Também na laca e em seda, soberana,
como o dragão no jade, a paz domina.
Dispensa o bronze e a pedra a paz da China
porque prefere o céu da porcelana.

E a paz do céu no templo de cipreste,
quando da laca passa à porcelana,
do próprio azul da glória se reveste.

Sândalo e mirra para a glória humana.
Torre de laca para a paz celeste.
Longevidade para a porcelana.

(1959)

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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 4 de junho de 2017

Sosígenes Costa: São João

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Só come gafanhoto e sozinho na mata,
sem olhar a mulher, sem cortar o cabelo,
de mel silvestre à cata. Algo tem de garoto,
vestido só nos rins de couro de camelo.

O corvo traz-lhe pão. Quer mel e gafanhoto.
Peludo, a barba grande, o olhar é o setestrelo.
Amedronta os leões. Profeta no seu zelo
clama contra a mulher de Herodes, o maroto.

Dizem que Salomé tentou no amor prendê-lo.
A filha da serpente! Ele é decerto Elias.
A mulher é devassa e o marido é maroto.

Dá prova de excelente e santo e heróico e douto
esse que desprezando Herodes e Herodias
se veste de camelo e come gafanhoto.

(1928)

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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.