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Vou escrever um artigo
perfeitamente pessoal; e é preciso. Sou candidato à Academia de Letras, na vaga
do Senhor Paulo Barreto. Não há nada mais justo e justificável. Além de
produções avulsas em jornais e revistas, sou autor de cinco volumes, muito bem
recebidos pelos maiores homens de inteligência de meu país. Nunca lhes
solicitei semelhantes favores; nunca mendiguei elogios. Portanto, creio que a
minha candidatura é perfeitamente legítima, não tem nada de indecente. Mas... chegam
certos sujeitos absolutamente desleais, que não confiam nos seus próprios
méritos, que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem uma
subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas.
Que eles sejam candidatos, é muito
justo; mas que procurem desmerecer os seus concorrentes, é coisa contra a qual
eu protesto.
Se não disponho do Correio da Manhã
ou do O Jornal, para me estamparem o nome e o retrato, sou alguma coisa nas
letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem, é uma injustiça
contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance.
Eu sou escritor e, seja grande ou
pequeno, tenho direito a pleitear as recompensas que o Brasil dá aos que se
distinguem na sua literatura.
Apesar de não ser menino, não estou
disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias de
jornais.
Eu não temo abaixo-assinados em
matéria de letras.

* Nota da edição: Título original. In: Careta,
Rio de Janeiro, 13/8/1921. O artigo integra Marginália. Cf. BARRETO, Lima, op. cit., vol. XII, pp. 44. Pela terceira vez, Lima Barreto
candidatava-se à Academia Brasileira de Letras, Na primeira, em 1917, a
inscrição não foi considerada; na segunda, na vaga aberta pela morte de Emílio
de Meneses, obtém dois votos no primeiro e segundo escrutínios e apenas um — o de
João Ribeiro, provavelmente — nos terceiro e quarto, sendo posteriormente eleito
Humberto de Campos; e, em 1919, apresenta-se em agosto e no mês seguinte retira
a candidatura.
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Lima Barreto: Um Longo Sonho do
Futuro — Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas, Nota
Editorial de Bernardo de Mendonça, Série Revisões, 1993, Graphia
Editorial, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto
(1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e,
depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não
chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e
jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta dentre
eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série
de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como
literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a
revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em
livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida
e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos
Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

