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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Lima Barreto: A minha candidatura *

lima barreto, um longo sonho do futuro
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                    Vou escrever um artigo perfeitamente pessoal; e é preciso. Sou candidato à Academia de Letras, na vaga do Senhor Paulo Barreto. Não há nada mais justo e justificável. Além de produções avulsas em jornais e revistas, sou autor de cinco volumes, muito bem recebidos pelos maiores homens de inteligência de meu país. Nunca lhes solicitei semelhantes favores; nunca mendiguei elogios. Portanto, creio que a minha candidatura é perfeitamente legítima, não tem nada de indecente. Mas... chegam certos sujeitos absolutamente desleais, que não confiam nos seus próprios méritos, que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem uma subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas.
                    Que eles sejam candidatos, é muito justo; mas que procurem desmerecer os seus concorrentes, é coisa contra a qual eu protesto.
                    Se não disponho do Correio da Manhã ou do O Jornal, para me estamparem o nome e o retrato, sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem, é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance.
                    Eu sou escritor e, seja grande ou pequeno, tenho direito a pleitear as recompensas que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura.
                    Apesar de não ser menino, não estou disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias de jornais.
                    Eu não temo abaixo-assinados em matéria de letras.

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Nota da edição: Título original. In: Careta, Rio de Janeiro, 13/8/1921. O artigo integra Marginália. Cf. BARRETO, Lima, op. cit., vol. XII, pp. 44. Pela terceira vez, Lima Barreto candidatava-se à Academia Brasileira de Letras, Na primeira, em 1917, a inscrição não foi considerada; na segunda, na vaga aberta pela morte de Emílio de Meneses, obtém dois votos no primeiro e segundo escrutínios e apenas um — o de João Ribeiro, provavelmente — nos terceiro e quarto, sendo posteriormente eleito Humberto de Campos; e, em 1919, apresenta-se em agosto e no mês seguinte retira a candidatura.
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Lima Barreto: Um Longo Sonho do Futuro — Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas, Nota Editorial de Bernardo de Mendonça, Série Revisões, 1993, Graphia Editorial, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C.Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos  (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos  (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Lima Barreto: Homem ou boi de canga? *

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                    Em 1893, quando se dava na baía da nossa cidade a revolta Saldanha-Custódio, meu pai exercia um pequeno emprego de almoxarife das Colônias de Alienados, na ilha do Governador. Um belo dia, os revoltosos, capitaneados por um oficial de Marinha, de cuja patente no tempo não me lembro, o Senhor Eliézer Tavares, que morreu almirante, tendo por segundo um cirurgião-dentista, o Senhor Nogueira da Gama, lá desembarcaram, mataram bois, carregaram gêneros, medicamentos e roupas e se foram em paz. Assisti tudo.
                    Na manhã seguinte, de falua, com alguns móveis e outros pertences domésticos, transportávamos nós, isto é, a minha gente, para a ponta do Caju, tomando caminho pelos canais pouco profundos que ficam entre os mangues e praias de Inhaúma e as ilhas do Fundão (aí o canal é fundo), Caqueirada, Bom Jesus e outras, cujos nomes me escapam. Emigrávamos.
                    Ficou estabelecido, entre as altas autoridades, que meu pai ficasse no Engenho da Pedra, litoral da Penha, com o depósito de gêneros necessários ao alimento de duzentos doentes que estavam na ilha, e ali fosse morar, para guardá-los e enviá-los em rações diárias para os dementados em abandono.
                    Assim fez ele.
                    Todas as manhãs, eu e meu pai saíamos, ele, a fim de providenciar para o envio diário de gêneros, e eu, menino de doze anos, para acompanhá-lo até onde Deus fosse servido mandar-nos.
                    Embarcávamos os gêneros no lugar denominado Engenho da Pedra, fronteiro a uma das colônias, Conde de Mesquita, tendo de permeio, no canal, a ilha do Fundão, coberta de grandes e frondosas árvores. Aquelas manhãs primaveris eram lindas e plácidas. Tudo muito azul; as árvores muito verdes e roçagantes; as águas do mar, espessas de azul-da-prússia; os longes dos Órgãos solenes, soberbos e altos; tristonho, o ilhéu do Cambambe, com as ruínas de um sobrado que parecia ter sido incendiado, à vista dos vestígios de fumaça nas paredes, nuas e eretas; risonha, a ilha do Raimundo, com o seu bananal verde-claro a mirar as águas mansas do mar pela manhã; e a de Saravatá, lá longe, com o seu paiol abandonado  todo este quadro imarcescível me ficou gravado na memória até hoje, indelevelmente, como se fosse impresso à máquina.
                    Nós morávamos numa casinha de telha-vã, muito poeticamente situada à meia encosta de uma colina, cavalgando a estrada que levava ao porto de embarque. Na frente, a vista era curta, pois do outro lado da via pública, no alto de um monte que se erguia rapidamente, havia ruínas de uma capela, barrando, morrote e ruínas, o horizonte fronteiro da nossa casinha.
                    Aos lados, porém, a vista era vadia e larga, apesar de, à esquerda, existir construções meio acabadas de uma fábrica de vidros que não chegou a funcionar.
                    Todas as manhãs íamos, eu e meu pai, até o “porto”, ver o embarque de gêneros para a ilha.
                    Havia aí um destacamento de polícia, comandado por um alferes ou tenente. Lembro-me ainda de alguns fatos que lá assisti.
                    Uma manhã, quando estávamos à beira da praia, conversando meu pai com o comandante do destacamento, apareceu entre as Frecheiras, ilha do Governador e a ilha de Saravatá, uma lancha revoltosa. Logo se viu que ela disparava o seu canhão-revólver contra nós. Abrigamo-nos; os soldados apanharam as carabinas e entrincheiraram-se no casebre que lhes servia de quartel.
                    Fosse porque fosse, após dois ou três disparos, a pequena embarcação armada voltou para donde viera, e o sossego tornou de novo ao local em que estávamos.
                    No eirado, assim que o perigo cessou, o comandante disse para o meu pai:
                     Olha, Barreto: se “eles” desembarcassem, eu fazia assim...
                    E mostrou como viraria a blusa pelo avesso.
                    Esse caso, porém, não é o que nos interessa agora. É outro. Uma dessas manhãs, antes ou depois do aparecimento da lancha na ilha de Saravatá  não me lembro bem  um soldado ou cabo chamou meu pai de parte e pôs-se a conversar com ele.
                    Fiquei afastado, olhando o mar encrespado pelo terral, as gaivotas e as belas mangueiras do Galeão, lá no outro lado, que tinham visto Dom João VI e recebido, por várias vezes, a sagrada visita do raio, na sua secular existência.
                    Acabada a conversa, veio meu pai para mim. Nada me disse logo; mais tarde, porém, confidenciou-me:
                     Você sabe o que aquele soldado queria?
                     Não, papai.
                     Queria que eu lhe dissesse por que esses dois homens estão brigando.
                    Esses dois homens eram Floriano e Custódio.
                    Esse pequeno fato, que podia passar completamente despercebido, feriu-me imensamente naquela fraca idade que eu tinha então. Nunca podia imaginar que um homem arriscasse sua vida sem saber por quê, nem para quê. Pareceu-me isto estúpido e indigno mesmo da condição de homem. Um ato desses, de jogar a própria existência, devia ser perfeitamente refletido e consciente. Ficou-me o fato; e, anos depois, muitos anos mesmo, quando fui ler o formidável Guerra e Paz, de Tolstói, encontrei uma cena, não idêntica, mas do mesmo fundo. Não me recordo bem como é; mas dela se depreende que o soldado nada sabe dos motivos por que combate.
                    E assim é feita a guerra.
                    As massas de combatentes, homens simples e sem luzes, em geral, não sabem nitidamente porque dão tiros uns contra os outros.
                    Às vezes, os seus chefes e diretores conseguem instilar no espírito deles vagos motivos patrióticos; mas, na última guerra, tal coisa não pode ser concebida como movendo árabes, gurcos, senegaleses, curdos etc., a se matarem e a matar.
                    Esta última guerra foi uma mistificação de parte a parte. Vimos, agora, depois que veio à tona o “negócio dos navios”, como e por que nós entramos na guerra; como estávamos ameaçados de morrer aos milhares no norte da França, unicamente para que alguns especuladores ganhassem, em suma, um, dois ou mais milheiros de contos. Eis aí a guerra, na sua essência.
                    O que, porém, faz ressaltar, de um modo cortante, o feitio de inconsciência com que a massa dos combatentes é levada para os campos de batalha, é este trecho das burocráticas memórias do teimoso Ludendorff, que o Correio da Manhã publicou, em 18 do corrente.
                    Ei-lo:

Atravessando as montanhas, eu abordei uma sentinela. Respondeu-me, em não sei que língua estranha, umas coisas que não compreendi. Os oficiais austro-húngaros que me acompanhavam também não compreenderam.

                    É eloquente o patriotismo desse pobre-diabo de sentinela, que não compreende os seus oficiais e os seus oficiais não o compreendem! Perdido entre as montanhas, sofrendo frio e outras privações, com risco de morte, ele tudo isto sofre, a tudo se arrisca, certamente sem saber por quê, e nem ao menos entende a língua dos seus chefes!
                    É incrível!
                    As causas da luta lhe devem ser perfeitamente estranhas, pois nem no mínimo pode compreender as exortações dos interessados nelas; ele não tem nenhum interesse próximo ou remoto na contenda; mas ele vai morrer!...
                    É estranho, meu Deus! Não parece ser um homem; parece um boi de canga...



Nota da edição: Integra Bagatelas, não havendo indicação de ter sido publicado anteriormente em periódico. Cf. BARRETO, Lima, op. cit., vol. XII, pp. 272-275.
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Lima Barreto: Um Longo Sonho do Futuro — Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas, Nota Editorial de Bernardo de Mendonça, Série Revisões, 1993, Graphia Editorial, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C.Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos  (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos  (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Lima Barreto: Elogio da Morte *

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                    Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.
                    A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.
                    É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.
                    Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.
                    É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.
                    A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.
                    A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.
                    Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.
                    Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas  Civilisation des Arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar.
                    São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.
                    Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretarias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.
                    Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.
                    A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.
                    Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.
                    O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.
                    Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.
                    Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.
                    Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.
                    Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.
                    Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.
                    Ao vencedor, as batatas!

Lima_Barreto


* Nota da edição: Título original. In: A.B.C., Rio de Janeiro, 19/10/1918. O artigo integra Marginália. Cf. BARRETO, Lima, op. cit., vol. XII, pp. 42-43.
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Lima Barreto: Um Longo Sonho do Futuro  Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas, Nota Editorial de Bernardo de Mendonça, Série Revisões, 1993, Graphia Editorial, Rio de Janeiro  RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos  (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos  (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos  (publicação póstuma, 1948) e outros...