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[traduzido por Sérgio Lima e Pierre
Clemens]
Um pulo de pulga como um carrinho
de mão dançando nos joelhos das
pedras do calçamento
uma pulga que se derrete numa
escada onde eu viveria
contigo
e o sol igual a uma garrafa de
vinho tinto
se fez negro
negro escravo fustigado
Mas te amo como a concha ama a sua
areia
de onde alguém a desalojará quando
o sol tiver a forma de um
feijão
que começará a germinar como uma
pedra mostrando o coração sob a
chuvarada
ou de uma lata de sardinhas
entreaberta
ou de um barco a vela cuja
bujarrona está rasgada
Eu queria ser a projeção
pulverizada do sol no adereço de trepadeira
dos teus braços
aquele pequenino inseto que te fez
cócegas quando te
conheci
Não
este efêmero irisado de açúcar não
se parece comigo nem um pouco e
muito menos o visgo com o carvalho
que tem
apenas uma coroa de ramos veres onde se aloja um casal de
pintarroxos
Eu queria ser
pois sem ti sou apenas interstício
entre as pedras do calçamento das
próximas barricadas
Sinto tanto teus seios no meu peito
que aí se imprimem duas crateras
fumegantes como uma rena numa
caverna
para te receber como a armadura
recebe a mulher nua aguardada do fundo de sua ferrugem
liquefazendo-se como as vidraças de
uma casa em
chamas
como um castelo numa grande chaminé
igual a um navio derivante
sem âncora nem timão
tudo para uma ilha onde árvores
azuis fazem pensar em teu
umbigo
uma ilha onde eu queria dormir
contigo
On sonne
Un saut de puce comme une brouette dansant sur les genoux
des
pavês
une puce qui fond dans un escalier où je vivrais avec
toi
et le soleil pareil à une bouteille de vin rouge
s’est fait nègre
esclave nègre fustigé
Mais je t’aime comme le coquillage aime son sable
où quelqu’un le dénichera quand le soleil aura la forme
d’un
haricot
qui commencera à germer comme un caillou montrant son
cœur sous
l’averse
ou d’une boîte de sardines entr’ouverte
ou d’un bateau à voiles dont le foc est déchiré
Je voudrais être la projection pulvérisée du soleil sur
la parure de
lierre de tes bras
ce petit insecte qui t’a chatouillée quand je t’ai
connue
Non
cet éphémère de sucre irisé ne me ressemble pas plus que
le gui au
chêne
qui n’a plus qu’une couronne de branches vertes où loge
un couple de
rouges-gorges
Je voudrais être
car sans toi je suis à peine l’interstice entre les pavés
des prochaines
barricades
J’ai tellement tes seins dans ma poitrine
que deux cratères fumants s’y dessinent comme un renne
dans une
caverne
pour te recevoir comme l’armure reçoit la femme nue attendue
du fond de sa rouille
en se liquéfiant comme les vitres d’une maison qui
brûle
comme un château dans une grande cheminée
pareille à un navire en dérive
sans ancre ni gouvernail
vers une île plantée d’arbres bleus qui font songer à ton
nombril
une île où je voudrais dormir avec toi
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Amor sublime — Poesias [bilíngue] e Ensaio: Benjamin
Péret, Organização e Apresentação de Jean Puyade, Pequeno texto “à guisa de
Introdução”, por André Breton [nota transcrita de Anthologie de l’humour noir],
+ texto “O terceiro encontro”, por Guy Prévant, Tradução de Sérgio Lima e
Pierre Clemens, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Victor Maurice
Paul Benjamin Péret (1899 — 1959),
francês de Rezé, uma criança resistente à forte sujeição escolar, entre 1912 e 1913
frequentou a Arts et métiers (École Livet), teve ‘breve passagem por uma escola
de desenho industrial” e, sem demonstrar interesse nos estudos, abandonou-os,
foi importante poeta do movimento surrealista francês e militante trotskista; entre
1914 e 1918, alistou-se, foi designado para atuar na guerra e, num deslocamento
do seu regimento, em uma estação entre dois trens encontrou em um banco “um exemplar
abandonado da revista Sic contendo poemas de Apollinaire”, permaneceu na guerra
até o fim e filiou-se ao Movimento Dada; desde então passou a tomar contato e
participar do convívio dos dadaístas e, logo após, dos surrealistas; de sua biografia,
consta que em novembro de 1918 teve publicado seu primeiro poema, Crépuscule, em
La Tramontane — revue de l’Association des Jeunes; foi em 1924 que Péret, “ao
lado de seus companheiros franceses”, fundou o Movimento Surrealista; entre
1924 e 1929, colaborou no Petit Parisien, foi coeditor da revista La Révolution
surréaliste; Benjamin Péret, casado com a cantora lírica Elsie Houston,
brasileira, residiu no Rio de Janeiro em duas ocasiões: entre 1929 — 1931 e
1955 — 1956, aqui, atuando ao lado dos artistas plásticos e militantes
trotskistas Mario Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo, foi um dos
cofundadores da Liga Comunista (Oposição de Esquerda), de orientação
trotskista; em sua primeira estada no Brasil, o poeta foi preso “acusado de ser
um agente comunista” e deportado para a França; Perét participou na primeira
guerra e na guerra civil espanhola; com a França ocupada pelos nazistas, na
segunda guerra, o poeta viveu no México entre 1942 e 1947; suas obras: publicou
cerca de 20 livros, entre os quais Le Passager du transatlantique (1921), 152
Proverbes mis au goût du jour (com Paul Éluard, 1925), Le Grand Jeu (1928), Ne
visitez pas l’exposition coloniale (1931), De derrière les fagots (1934), Je
sublime (16 poemas, 1936), Je ne mange pas de ce pain-là (1936), Dernier
malheur dernière chance (1945), Un point c’est tout (11 poemas, 1946), Les
syndicats contre la révolution (1952), Le Livre de Chilam Balam de Chumayel
(1955), Anthologie de l’amour sublime (1956) ...