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domingo, 3 de dezembro de 2017

Castro Alves: O navio negreiro — Tragédia no mar

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I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 
Brinca o luar  dourada borboleta 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta. 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
 Constelações do líquido tesouro... 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?... 

'Stamos em pleno mar. . .Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas... 

Donde vem?... Onde vai?... Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste Saara os corcéis o pó levantam, 
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest'hora 
Sentir deste painel a majestade!... 
Embaixo  o mar... em cima  o firmamento... 
E no mar e no céu  a imensidade! 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 

Esperai! Esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia... 
Orquestra  é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 

Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar  doudo cometa! 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano, 
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas...

II 
Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar?...
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
Às vagas que deixa após. 

Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor.
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente
 Terra de amor e traição 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos do Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 

O Inglês  marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir... 
O Francês  predestinado  
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir...

Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga iônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu... 
... Nautas de todas as plagas! 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu... 

III 
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais, inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador.
Mas que vejo eu ali... Que quadro de amarguras! 
É canto funeral!... Que tétricas figuras!... 
Que cena infame e vil!... Meu Deus! meu Deus! Que horror! 

IV 
Era um sonho dantesco... o tombadilho 
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar do açoite... 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras, moças... mas nuas, espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais... 
Se o velho arqueja... se no chão resvala, 
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia, 
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espiraisI
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
E ri-se Satanás!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?... Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa musa, 
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz. 
Onde voa em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão... 
Homens simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão... 

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo, com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços,
N'alma  lágrimas e fel. 
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite do pranto 
Têm que dar para Ismael!...

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram  crianças lindas, 
Viveram  moças gentis... 
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus... 
... Adeus! ó choça do monte!...
... Adeus! palmeiras da fonte!... 
... Adeus! amores... adeus!...

Depois o areal extenso... 
Depois o oceano de pó...
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer...

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra... morrer...
Prende-os a mesma corrente 
 Férrea, lúgubre serpente  
Nas roscas da escravidão. 
E assim roubados à morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoite... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!... 

VI 
E existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto...

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra, 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu, que da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu na vaga, 
Como um íris no pélago profundo!...
... Mas é infâmia demais... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares! 

[S. Paulo, 18 de abril de 1868]

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Navios negreiros — Heinrich Heine e Castro Alves, Organização e Tradução de Priscila Figueiredo, Cotradução de Luiz Repa e Ilustrações de Maurício Negro, 2008, Comboio de Corda, São Paulo — SP; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas FlutuantesOs Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Além de O Navio Negreiroora postado, sito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

Heinrich Heine: O navio negreiro

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[traduzido por Priscila Figueiredo e Luiz Repa]

I
O sobrecarga1 Heer van Koek
Faz contas em sua cabina;
Calcula o montante da carga,
Seus gastos, o lucro e a propina.
          “A borracha agrada, e a pimenta 
          Quantas sacas de especiaria!
          Tenho ouro em pó, tenho marfim,
          Mas nada iguala a negraria!
Seiscentos negros consegui 
Por uma nica  em Senegal.
À carne rija, aos tendões tesos
Não há ferro que seja igual.
          Ofereci em troca aguardente,
          Miçangas, estanho e tecido.
          Consigo quase mil por cento
          Se só metade houver morrido.
Se trezentos negros chegarem
Ao cais do Rio de Janeiro,
Pagam cem ducados por peça
Na casa Gonzales Perreiro2.”
          Então Van Koek voltou a si,
          Interrompendo a reflexão,
          Assim que entrou Van der Smissem,
          O médico-cirurgião.
O corpo esquálido e mortiço,
Verrugas roxas no focinho 
“Então, doutor”, bradou Van Koek,
“Como estão meus caros negrinhos?”
          Agradecendo-lhe o interesse,
          Disse o doutor: “A mortandade,
          É bom que saibas, nesta noite
          Subiu bem mais do que a metade.
Em média vão por dia dois,
Hoje, porém, morreram sete,
São três mulheres, quatro homens.
Já pus a perda no livrete3.
          Fiz a inspeção dos corpos todos:
          Não é difícil algum vadio
          Bancar o morto, só c’o fito
          De ser lançado do navio.
Tirei as correntes dos cadáveres
E, como de hábito procedo,
Descarreguei os corpos no mar
Pela manhã, inda bem cedo.
          Furaram rápido as águas
          Os tubarões, de tipos vários,
          Estimam muito a carne negra;
          São eles os meus pensionários4.
Uma vez distante a costa,
Os bichos vêm em nosso rasto;
Aventam5 logo o odor dos corpos
Com ânsia pelo repasto.
          É tão burlesca toda a cena
          De como trincham até os ossos!
          A perna é dum, doutro a cabeça;
          Os mais engolem os destroços.
Depois de tudo devorar,
Caracoleiam junto à galé;
E satisfeitos me contemplam,
Gratos pelo grosso filé.”
          Mas, suspirando, interrompeu
          Van Koek: “E como reduzir
          O mal? De que maneira posso
          Sua progressão impedir?”
Então o doutor replicou:
“Por próprio erro morrem os pretos
Pois empestaram o porão
Com bafos podres, muito infetos.
          Há mortos por melancolia
          Porque se enfadam fortemente.
          Um pouco de ar, música e dança
          E a enfermidade ninguém sente.”
Bradou Van Koek: “Bom conselho!
O meu caríssimo doutor
É sábio assim como Aristóteles,
Do rei Alexandre o professor.
          O diretor da sociedade
          De abate e venda de suínos
          Possui mesmo muito espírito
          Mas nem metade de teu tino.
Música! Toquem para os negros!
Que dancem todos no convés.
Mas o chicote vai curar
Quem não mover as mãos e os pés.”
          II
          Do pavilhão do céu espiam,
          Cintilando, grandes e vivas,
          As estrelas todas, nostálgicas,
          Tal como o olhar de belas divas.
De longe contemplam o mar,
Que, em toda a extensão revestido
De fosforescência purpúrea,
Emite lúbricos bramidos.
          Nenhuma vela adeja, e a nave
          Parece sem mastro, terrestre;
          Mas brilham luzes no convés,
          No qual a música é o mestre.
Um marujo arranha a rabeca,
O cuca6 percute o tambor,
O timoneiro toca a flauta
E sopra a trombeta o doutor.
          Cem negros, homens e mulheres,
          Giram, e pulam, e dão berros
          Como dementes; compassadas
          Tilintam cadeias de ferro.
Convulsam de fúria e prazer,
E algumas belas raparigas
Enlaçam com ânsia os parceiros
Enquanto soam as cantigas.
          O beleguim7, o maître des plaisirs
          Instiga com sua chibata
          Os indolentes dançarinos
          A logo entrar na zaragata8­­.
Titeutuntá e taratatá!
O som atrai das profundezas
Os grandes monstros do oceano
Que ali dormiam na torpeza.
          Com sono ainda vêm chegando
          Os tubarões, em mais de cento;
          Para a nau esbugalham os olhos,
          Boquiabertos com o portento.
Mas não é hora de comerem
E então bocejam pela espera;
Assim o fazendo escancaram
A goela  e os dentes de serra.
          Titeutuntá e taratatá 
          E, como a dança não tem cabo,
          Os tubarões de raiva mordem
          Eles mesmo o próprio rabo.
Pois que talvez não amem a música,
Como tantos de seu jaez.
“Despreze aquele que de música
Não gosta!”, disse o bardo inglês.
          Taratatá e titeutuntá 
          A dança segue noite afora.
          Perto do mastro o sobrecarga,
          Juntando as mãos em prece, implora:
“Em nome de Cristo, poupai,
Senhor, os negros pecadores!
Zangaram-vos, mas bem sabeis
Que são, qual bois, inferiores.
          Poupai suas vidas, por Cristo,
          Que por nós todos padeceu!
          Pois, se não restarem trezentos,
          O meu negócio se perdeu.”

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Heinrich Heine

Das Sklavenschiff

I
Der Superkargo Mynheer van Koek
Sitzt rechnend in seiner Kajüte;
Er kalkuliert der Ladung Betrag
Und die probabeln Profite.
          “Der Gummi ist gut, der Pfeffer ist gut,
          Dreihundert Säcke und Fässer;
          Ich habe Goldstaub und Elfenbein 
          Die schwarze Ware ist besser.
Sechshundert Neger tauschte ich ein
Spottwohlfeil am Senegalflusse.
Das Fleisch ist hart, die Sehnen sind stramm,
Wie Eisen vom besten Gusse.
          Ich hab zum Tausche Branntewein,
          Glasperlen und Stahlzeug gegeben;
          Gewinne daran achthundert Prozent,
          Bleibt mir die Hälfte am Leben.
Bleiben mir Neger dreihundert nur
Im Hafen von Rio-Janeiro,
Zahlt dort mir hundert Dukaten per Stück
Das Haus Gonzales Perreiro.”
          Da plötzlich wird Mynheer van Koek
          Aus seinen Gedanken gerissen;
          Der Schiffschirurgius tritt herein,
          Der Doktor van der Smissen.
Das ist eine klapperdürre Figur,
Die Nase voll roter Warzen 
“Nun, Wasserfeldscherer”, ruft van Koek,
“Wie geht's meinen lieben Schwarzen?”
          Der Doktor dankt der Nachfrage und spricht:
          “Ich bin zu melden gekommen,
          Daß heute nacht die Sterblichkeit
          Bedeutend zugenommen.
Im Durchschnitt starben täglich zwei,
Doch heute starben sieben,
Vier Männer, drei Frauen 
 Ich hab den Verlust
Sogleich in die Kladde geschrieben.
          Ich inspizierte die Leichen genau;
          Denn diese Schelme stellen
          Sich manchmal tot, damit man sie
          Hinabwirft in die Wellen.
Ich nahm den Toten die Eisen ab;
Und wie ich gewöhnlich tue,
Ich ließ die Leichen werfen ins Meer
Des Morgens in der Fruhe.
          Es schossen alsbald hervor aus der Flut
          Haifische, ganze Heere,
          Sie lieben so sehr das Negerfleisch;
          Das sind meine Pensionäre.
Sie folgten unseres Schiffes Spur,
Seit wir verlassen die Küste;
Die Bestien wittern den Leichengeruch
Mit schnupperndem Fraßgelüste.
          Es ist possierlich anzusehn,
          Wie sie nach den Toten schnappen!
          Die faßt den Kopf, die faßt das Bein,
          Die andern schlucken die Lappen.
Ist alles verschlungen, dann tummeln sie sich
Vergnügt um des Schiffes Planken
Und glotzen mich an, als wollten sie
Sich für das Frühstück bedanken.”
          Doch seufzend fällt ihm in die Red'
          Van Koek: “Wie kann ich lindern 
          Das Übel? wie kann ich die Progression 
          Der Sterblichkeit verhindern?
Der Doktor erwidert: “Durch eigne Schuld
Sind viele Schwarze gestorben;
Ihr schlechter Odem hat die Luft
Im Schiffsraum so sehr verdorben.
          Auch starben viele durch Melancholie,
          Dieweil sie sich tödlich langweilen;
          Durch etwas Luft, Musik und Tanz
          Läßt sich die Krankheit heilen.”
Da ruft van Koek: “Ein guter Rat!
Mein teurer Wasserfeldscherer
Ist klug wie Aristoteles,
Des Alexanders Lehrer.
          Der Präsident der Sozietät
          Der Tulpenveredlung im Delfte
          Ist sehr gescheit, doch hat er nicht
          Von Eurem Verstande die Hälfte.
Musik! Musik! Die Schwarzen soll'n
Hier auf dem Verdecke tanzen.
Und wer sich beim Hopsen nicht amüsiert,
Den soll die Peitsche kuranzen.”
          II
          Hoch aus dem blauen Himmelszelt
          Viel tausend Sterne schauen,
          Sehnsüchtig glänzend, groß und klug,
          Wie Augen von schönen Frauen.
Sie blicken hinunter in das Meer,
Das weithin überzogen
Mit phosphorstrahlendem Purpurduft;
Wollüstig girren die Wogen.
          Kein Segel flattert am Sklavenschiff,
          Es liegt wie abgetakelt;
          Doch schimmern Laternen auf dem Verdeck,
          Wo Tanzmusik spektakelt.
Die Fiedel streicht der Steuermann,
Der Koch, der spielt die Flöte,
Ein Schiffsjung' schlägt die Trommel dazu,
Der Doktor bläst die Trompete.
          Wohl hundert Neger, Männer und Fraun,
          Sie jauchzen und hopsen und kreisen
          Wie toll herum; bei jedem Sprung
          Taktmäßig klirren die Eisen.
Sie stampfen den Boden mit tobender Lust,
Und manche schwarze Schöne
Umschlinge wollüstig den nackten Genoß 

Dazwischen ächzende Töne.
          Der Büttel ist Maître des plaisirs,
          Und hat mit Peitschenhieben
          Die lässigen Tänzer stimuliert,
          Zum Frohsinn angetrieben.
Und Dideldumdei und Schnedderedeng!
Der Lärm lockt aus den Tiefen
Die Ungetüme der Wasserwelt,
Die dort blödsinnig schliefen.
          Schlaftrunken kommen geschwommen heran
          Haifische, viele hundert;
          Sie glotzen nach dem Schiff hinauf,
          Sie sind verdutzt, verwundert.
Sie merken, daß die Frühstückstund'
Noch nicht gekommen, und gähnen,
Aufsperrend den Rachen; die Kiefer sind
Bepflanzt mit Sägezähnen.
          Und Dideldumdei und Schnedderedeng 
          Es nehmen kein Ende die Tänze. 
          Die Haifische beißen vor Ungeduld
          Sich selber in die Schwänze.
Ich glaube, sie lieben nicht die Musik,
Wie viele von ihrem Gelichter.
“Trau keiner Bestie, die nicht liebt
Musik!” sagt Albions großer Dichter.
          Und Schnedderedeng und Dideldumdei 
          Die Tänze nehmen kein Ende.
          Am Fockmast steht Mynheer van Koek
          Und faltet betend die Hände:
“Um Christi willen verschone, o Herr,
Das Leben der schwarzen Sünder!
Erzürnten sie dich, so weißt du ja,
Sie sind so dumm wie die Rinder.
          Verschone ihr Leben um Christi will'n,
          Der für uns alle gestorben!
          Denn bleiben mir nicht dreihundert Stück,
          So ist mein Geschäft verdorben.”

[1853]

Notas da Organizadora:
1 sobrecarga: quem dirige o comércio da carga em um navio merante; Heer van Koek possivelmente Heer van der Null, traficante de Roterdã, mencionado por Heine num de seus escritos;
2 casa Gonzales Perreiro: Heine refere-se provavelmente a Gonçalves Pereira, um negreiro;
3 livrete: pequeno livro, caderneta;
4 pensionário: pensionista, quem vive de pensão, à custa dos outros;
5 aventar: perceber, sentir pelo olfato;
6 cuca: cozinheiro;
7 beleguim: ajudante, “maître des plaisirs”, lema francês, literalmente, “mestre dos prazeres”, isto é, o animador da festa;
8 zaragata: algazarra, confusão.
____________________
Navios negreiros  Heinrich Heine e Castro Alves, Organização e Tradução de Priscila Figueiredo, Cotradução de Luiz Repa e Ilustrações de Maurício Negro, 2008, Comboio de Corda, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Schubert, Felix Mendelssohn, Brahms, Robert Schumann, Hugo WolfRichard Wagner), e, já no século XX, por  José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e  Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust Ein Tanzpoem (Doutor Fausto um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.